segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O filho do trolha

Ilustração: Miguel Horta 
(Direitos reservados)
Texto a pedido da minha amiga Paula Carvalho
sobre comportamentos de risco
a apresentar nas II Jornadas Templárias de Psiquiatria CHMT

-Ó senhora doutora, nem sei muito bem como lhe contar isto…
-Ahhh… Não é doutora.
-Como?
-Senhora enfermeira?
-Combinado.
- Entende-me na mesma…
- Pois bem… Eu já sou um Kota, como diz o meu neto. Fui avô muito cedo. Maluqueiras da minha juventude… Por isso, já tenho dois netos, lindos… São a luz dos meus olhos… sabe como é? Pois claro, fala com muita gente. Ou melhor – atende.
Como ia dizendo, eu nunca fui um santinho. Deixei de estudar muito cedo…
Logo depois da tropa desencaminhei-me. O trabalho era fácil, ganhávamos bem. Trabalhava nas obras. Vivendas! Aprendi o ofício muito cedo com o meu pai. Logo em pequeno comecei alinhar as botas sujas de cimento ao lado das botifarras do meu pai, à entrada de casa… e a minha Mãe aos berros a protestar contra a sujidade… A entender os desenhos dos arquitetos, era o maior! E depois, o fazer também era comigo… Tratava os tijolos e a argamassa por tu! Os sacanas dos vizinhos lá da Musgueira, chamavam o meu Pai de “trolha”. Não entendiam. Ele trabalhava como um galego. Aliás, vinha de famílias galegas. Era um bom homem. Bem melhor do que eu sou.
Desencaminhei-me. Pois foi…
Eram os tempos do Cavaco e fartou-se de entrar dinheiro neste “canteiro”. Era fácil ganhar graveto, ainda por cima, tinha uns “amigos da corda”, como dizia o meu Pai… (Que deus o tenha…que era galego). Chegava à sexta-feira e a malta tinha um molho de notas na mão – escudos, o dinheiro que havia dantes. Chamávamos ao nosso trio a “Chavalada Brava”… Eu, um moço chamado Toni e outro mais malino, o Chico. Comprámos um Wolksvagen a trielas, ficou em meu nome. Era o mais atinado, até tinha conta na Caixa... Depois, íamos à conquista do Cais do Sodré. Miúdas giras, uma ou outra cena de porrada (nada de grave…) muito whisky, absinto (era proibido, antes do 25 de Abril, mas dá cá uma pedrada que se fica a ver desenhos animados...) charros (era um campeão a enrolar…”Cónicas”! A malta adorava as minhas cónicas: umas perfeitas peças de artesanato fumegante….).
Uma noite, no Jamaica, conheci uma miúda fininha que engraçou comigo. Eu, um tosco dos bairros, ela uma janada de boas famílias das avenidas novas que cheirava a pele lavada e que me olhava com uns olhos redondos, gulosos. Embrulhei-me com ela e, em pouco tempo, já estava em festas na avenida de Roma, nuns apartamentos finos…dos pais, ausentes, claro… Um dia, numa dessas festas, a miúda chamou-me à parte e mostrou-me um pozinho branco em cima de um espelho. “Queres provar?” Foi nesse dia que aprendi a snifar. De snifadela em snifadela, com obras em todas as casas dos amigos dela – uma casa de banho ali, uma pintura de parede acolá. Uma vez gamei um vibrador de uma gaveta. Foi uma galhofa lá no café da Musgueira, com as miúdas todas a querer ver o que era, como funcionava… embora sabendo tudo, claro.
Numa noite de loucura lá no bairro, já com as narinas bem brancas, encontrámos um vizinho na tasca que se lamentava por lhe faltar ferro para acabar de construir o seu barraco, e “como é que iria ser com o Inverno à porta”…  Num gesto de cavalheirismo a “Chavalada Brava” decidiu resolver o assunto e fomos gamar ferro a um estaleiro de uma empresa famosa. Colocámos uma grelha em cima do “Carocha”  e lá fomos estrada fora, na bisga, em demanda das vigas de ferro. Havia um cão maldisposto no estaleiro da empresa… Nada que um bife de alcatra não resolvesse…. E depois, começámos a carregar a grelha do tejadilho com as vigas fininhas de ferro, acho que era viga de 8… ficaram a pender em redondo, muito bem presas à estrutura do carro. Quando achámos que tínhamos as suficientes, alegres ligámos o Wolksvagen. Nesse momento, com a vibração do motor e do movimento, o tejadilho abateu-se sobre nós encarcerando-nos no metal do carro, transformado em gaiola em forma de “V”. Foi uma vergonha ver chegar a polícia e depois os bombeiros (para nos desencarcerar). O pior foi a bófia encontrar o saquinho do pó para o fim de semana…. Até o juiz se riu de nós na audiência. O advogado, que era um estagiário, não nos ajudou. No nosso trio havia o Chico Cigano e isso foi o suficiente para nos olharem desconfiados…ainda por cima da Musgueira! Lembro-me de ter escutado a expressão: “coitados, são uns mitras…” Lá fui parar ao estabelecimento prisional de Lisboa. Perdi o rasto dos outros, e também, da fininha… mas os hábitos permaneceram, pois, lá dentro, não faltava quem me pusesse as narinas brancas e até de outras cores… Só que eu já estava farto daquela cena. Quando a educadora da prisão me perguntou se eu queria fazer o Ciclo lá dentro, aceitei. Até tive uma boa nota… Saí  da prisão com tanta raiva (ainda por cima o Chico disse ao Juiz que era tudo meu -o carro, o pó… - e o cobardolas do Toni calou-se), que decidi mudar de terra. Vim aqui para Tomar. Mas sabe, senhora enfermeira… Eu sou daninho. Sim. Constitui a minha família e tornei-me mestre-de-obras, até acabar por criar a minha pequena empresa. Só agora, em velho, me voltei a desviar. Como o gado : tresmalhado…
Por amor de Deus, a senhora enfermeira não diga nada ao meu filho, que deve estar lá fora a fumar cigarros uns atrás dos outros… pregos para o caixão dele…Já lhe disse.
O Toni, do nosso trio, deu comigo há dois anos. Veio numa excursão a Tomar, junto com uma data de zombies, velhadas da nossa idade, e choquei de frente com ele lá na Corredora. Eu sempre gostei dele, era o mais silencioso da Chavalada. Escutei com atenção a aventura da sua vida – safou-se, como eu. Embora tenha tido a tarefa de o levar em braços pelo centro de Tomar até à pensão onde ficou alojado com outros velhos como nós. Continuava a ser uma esponja. Mas ele é a única testemunha do que vivi – pode provar que tudo é verdade. Passei a ir ter com ele a Lisboa, para os bailes dos Alunos deApolo ou para as matinés da Ribeira. Ficava numa pensão jeitosa e pouco tempo depois ele começou a apresentar-me umas miúdas. Aquilo foi água no deserto para um camelo como eu. A minha mulher achava que ia à capital conversar com os fornecedores… Eu ia, era mesmo para a gandaia! Tinha dinheiro das minhas obras e senti-me rejuvenescer… Enfim… Já passou. Agora sinto-me mal, fraco… se calhar é gripe… Ando fraco…sabe? Quer ver, senhora enfermeira? Apareceram-me umas manchas no pescoço e também aqui no peito. Mas acho que tenho as vacinas todas em dia…

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