segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Bairro leitor - Leitura de proximidade


Notas alinhavadas para a comunicação no Colóquio
"Leitura, Literacia e Cidadania: Práticas e desafios"
promovido no âmbito do projeto Bairro Leitor
11 de outubro 2017
 Antes de falar de algumas iniciativas de mediação leitora no projeto Bairro Leitor, gostaria de abordar um tema em que tenho pensado ultimamente: a deontologia e a sinceridade na mediação cultural, junto de comunidades em exclusão.

História de uma relação
 No dia em que Ele lhe disse, quero-te para ti, a relação mudou completamente. Ela pode medrar livremente, tornando-se ainda mais interessante do que já era. Cresceu, ganhou autonomia e personalidade. E Ele, cada vez mais apaixonado, conseguiu conservá-la sempre junto a si, não porque a prendesse ou manipulasse mas porque dela se aproximava subtilmente, sem intrusão, solidário a cada iniciativa, enfim com um profundo respeito e sem gota de paternalismo.
Aqui poderemos começar a brincar aos contextos das relações.
Ela, neste contexto, será sempre a comunidade/bairro e o papel atribuído a Ele poderá ser assumido por diferentes personagens, vejamos.
Primeiro. Ele é político e respeita a comunidade sem a querer manipular, apoia-a, e ela reage reconhecida. Ele não olha para ela como uma reserva de caça aos votos e resiste às diversas tentações dos políticos…
Segundo. Ele é uma IPSS, associação sociocultural (…)  Ela é fundamental para a sobrevivência da estrutura. Precisa daquela comunidade para continuar a pagar os salários aos seus funcionários com projectos e subsídios recebidos… Será que Ele quer que Ela melhore, evolua ou cresça muito?
Terceiro. Ele é uma associação local só crescerá se houver dinâmica, mudança visível nela. E se Ela não se quiser transformar? Se não tiver consciência da importância da mudança?
Quarto. Ela é comunidade/bairro e pretende ficar solteira, ponto. No entanto sabe que quer mudar e só precisa de Ajuda e apenas querendo que a oiçam, quando pensa em conjunto.
Quinto. Ele é mediador cultural (1), está encarregado de promover o livro, a leitura, as artes, as literacias de um modo geral. Vem animado de uma crença transformadora. Não tem ambições territoriais pois já está comprometido. A sua primeira tarefa é conhecê-la. Sim! A Ela, a comunidade! Estudar. Passear pelo bairro. Ver e ser visto. Interagir. Registar. Pensar. E começar a construir o Perfil Leitor (2) do bairro, o que implica ter uma ideia quase completa do nível de literacia da comunidade. Fica a saber onde pode ser útil. Ele sabe que os processos de transformação se conseguem pelo lado de dentro, recuperando a comunicação, o diálogo, reerguendo a Ágora de forma justa. Uma justiça de trato e na relação com os habitantes.

A mediação cultural

O trabalho desenvolvido numa comunidade, em torno das literacias e de diferentes leituras conduz a um maior entendimento do mundo e à autonomia operativa das populações. A existência de uma Biblioteca viva ou outro lugar de comunicação, contribui para a melhoria da qualidade de vida e permite retirar as pessoas do isolamento, nos bairros ou nas suas células familiares, num mundo que fez o seu retorno ao privado (3). O mediador sabe como é importante preservar os nichos culturais, a sua cultura idiossincrática, tradições, línguas, rotinas e eventos, em articulação saudável com o mundo contemporâneo. Um mundo em mutação rápida, líquido, que urge entender para dar segurança aos passos que damos (4).  
As pessoas não entendem logo os processos da mediação cultural. Estão habituadas ou a calar ou falar aos berros com as estruturas. O mediador é mesmo estranho: não é da Junta, não é da “Judite”(5) , nem de nenhuma seita invasiva e fala de leitura onde ninguém lê… De arte onde quase ninguém vai ao museu. Não trabalha pelo outro, não trabalha para o outro… trabalha com o outro, coopera (6).  A mediação cultural (neste projeto com as dimensões da arte e das literacias) promove a comunicação e o diálogo através dos livros, do conto, do movimento, do desenho, de dinâmicas variadas todas elas seguindo uma metodologia própria. Usa métodos colaborativos. Interage questionando, deixando que o outro construa a sua resposta pessoal. A mediação cultural é paciente e conhece o valor do tempo. Gesta lenta, persistente como uma combustão sem chama.
Imagem colhida durante a formação
"Ler, Escrever, Contar Histórias"
7 e 14 de outubro - Biblioteca do Bairro
 A mediação do livro e da leitura permite experimentar diferentes emoções, encantamentos e outras reações, promovendo o diálogo interior e exterior de quem participa nas sessões. Uma abordagem não formal na partilha do conhecimento, longe dos cânones, promovendo a qualidade do tempo na companhia do outro. Uma miríade de possibilidades!... O mais difícil é passar a umbreira da porta da biblioteca ou do outro.
Links (exemplos) para 3 situações citadas, realizadas durante esta fase do projeto Bairro Leitor (Bip/Zip):
Comunidade Cigana: Aqui
Comunidade de origem Cabo-verdiana: Aqui
Trabalho transformador na escola local: Aqui

Notas
(1) O mediador dedica-se a estabelecer pontes de passagem para o conhecimento, potenciando experiências culturais significativas capazes de operar transformações no indivíduo e no meio envolvente. Assenta na crença de que a fruição da produção cultural e dos seus meios de expressão permitem um entendimento mais claro do mundo que habitamos, tornando cada um de nós um cidadão mais capaz de agir sobre os destinos do planeta, das comunidades e da sua própria vida.
(2) Conceito Laredo desenvolvido ao longo do projeto “Leituras em Cadeia” (Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian)
(3) Citando Orlando Garcia
(4) Citando Zygmunt Bauman
(5) Polícia Judiciária

(6) Djunta Mon. Na língua cabo-verdiana para além da cooperação, traz consigo a ideia de construção física, por exemplo, uma casa

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