quarta-feira, 10 de outubro de 2012

À saída de Pinheiro da Cruz

Fica sempre uma sensação de um vaziu que ainda não aprendi a retratar. Terminam as sessões, vou-me embora, eles ficam lá dentro e volto para a minha vidinha culta, muito satisfeito porque cumpri o meu dever, carrinho estrada fora… Vou formoso mas não seguro. Há um silêncio devorador de palavras que aos poucos avança em mim como um virus. O pior é que nas horas mais próximas não vou conseguir expressá-lo a ninguém. Acabo de atravessar uma fronteira para um outro universo que me garantem que é livre – não tenho a certeza.
Vou dizendo para comigo enquanto o alcatrão da estrada é engolido pelas rodas: eu acredito nas palavras!Eu acredito nas palavras! Eu acredito nas palavras! Aos poucos acabo por me convencer…
Contarão de novo comigo para promover a leitura nas prisões...mas não seguro.
Aqui fica um poema do José Fanha que simboliza muito o meu trabalho ao longo deste ano nos estabelecimentos prisionais. Vou ler outra vez o ASAS aos meus presos… Escutem amigos:

"Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito:
nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas
como se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos,
leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair."

2 comentários:

  1. Fiquei embevecida e emocionada... Sem palavras. O poema "Asas" remata extraordinariamente bem a prosa sentida e poética precedente. Um abraço.

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    1. fantástico o José Fanha! Tenho usado muitos textos dele nestes contextos...Um abraço Manuela

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