terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Crianças ciganas e química escolar

 
Sob o olhar atento de Sophia...
O primeiro contacto com o grupo poderá ser definidor de atitudes futuras - a responsabilidade é grande...
Fotografia  por cortesia de Judith Pereira
Convocado pela Conceição Rolo, a grande impulsionadora da A.L.E.M (Associação literatura literacia e mediação), participei no dia 11 de janeiro na Escola Básica Sophia de Mello Breyner na Outurela (Carnaxide) numa sessão convívio com pais e alunos de origem cigana.
 O grupo de mediadores da A.L.E.M. pediu o meu apoio para ajudar quebrar um ciclo de não comunicação desaustinada entre um pequeno grupo de alunos ciganos e a escola. Foram entrando desconfiados, a conta-gotas, na sala – primeiro os rapazes com o seu grande líder (em tamanho e quase a completar a idade em que deverá sair da escola), depois as raparigas (adolescentíssimas) num pequeno cardume ruidoso. Aliás, devo dizer sobre os pequenos líderes na escola, sexo masculino, que a abordagem ao seu comportamento deverá ser feita através da química: o grande líder é sempre o átomo de oxigénio insuflando energia a dois tontos hidrogénios que orbitam à sua volta. Resultado disto tudo, a molécula que dá sempre água em contexto de sala de aula. A conversa começou pelos sapatos, de vestuário entendem eles… Depois acabámos a conversar sobre a história do povo cigano, com eles a “tirarem-me as medidas”. Uma mãe cigana interveio, pegando pela palavra calon, esclarecendo o rapaz sobre aquilo que eu estava a falar. A partir desse momento pais e filhos começaram a comentar e fizeram a escuta necessária à narração oral. Lá contei a primeira história. Uma rapariga agitada propôs, interrompendo logo no início do conto, que se mudasse o nome da heroína da história para Orlanda. E Orlanda ficou... Depois mostrei o “Zoom” ao grande grupo – pais e filhos participaram alegremente na mediação do livro. Mais tarde, num pequeno grupo, comecei a contar uma história com o “Popville” na mão: “Era uma vez uma pequena aldeia chamada Outurela, que foi crescendo …” A história que tinha preparado para encerramento já não pode ser contada em condições – ostensivamente, o “átomo de oxigénio” quis mostrar o seu poder, boicotando o contador. Interrompi a narração e disse, olhando-o nos olhos: “Respeita-me!” Lá conseguiria terminar o conto, e avançar mais umas linhas na minha leitura de quem me escutava – crianças, jovens, mães e pais, ciganos, e professores não ciganos.
Parte do grupo que participou no encontro promovido pela ALEM na EB Sophia de Mello Breyner (Outurela)
Há escolas determinadas em mudar o rumo da educação...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Programa para Domingo 28 em Almada (Casa da Cerca)

No domingo dia 28 de janeiro às 17h, na Casa da Cerca (Almada velha), a propósito das obras expostas de Pamela Golden, vou propor um exercício simples de interpretação poética dos trabalhos da artista, recorrendo à metodologia da máquina da poesia. Um convite endereçado pelo amigo Mário Rainha Campos, do serviço educativo deste museu, uma iniciativa integrada no programa “Obra Aberta”. A intenção será acrescentar novas interpretações, desta vez, através de uma abordagem poética. Para a família toda; agora para escrever os poemas pequeninos, só se já tiverem 8 anos...

Lá vos espero na receção do Museu. 

domingo, 14 de janeiro de 2018

Spinner para começar a comunicar



Comprei um Spinner preto numa loja chinesa, próxima aqui de casa. Tenho usado este pequeno brinquedo, não para estar na moda, mas porque ele é um poderoso auxiliar nas estratégias de comunicação com crianças com "problemas" ou do campo do autismo. O meu spinner é luminoso e chispa com o seu LED, formando mandalas à medida que vai girando no escuro da sala. Completamente irresistível. É fascinante ter um objeto cinético que pouca coisa faz, para além de girar. Deixa bastante espaço para a interação, para a comunicação, tem muito espaço livre, poucas funções. Um território livre para ser explorado a dois. Bem sei, tem alguns truques que vou aprendendo com miúdos que têm canais Youtube e que fazem crítica de brinquedos atuais. (ia para publicar um vídeo que fiz, mas estes pré-adolescentes são muito melhores que eu…). Mas o bom deste objecto/brinquedo é que gera aproximações, um primeiro motivo de aproximação, se calhar sem palavras. Depois, alguns gestos, motricidade fina apurada e…toque de mãos. Ideal para o trabalho em tandem, para começo de estrada e outras invenções circulares. Experimentas tu, experimento eu, poisamos na mesa para escutar o ruído. Quando aparecerem mais do uma criança com oseu spiunner para conversar, aí teremos de inventar novos rumos para o jogo, outras interações. A propósito de jogos coletivos (tradicionais): Este verão vi umas miúdas a jogar ao prego na praia. Juntei-me a elas e, felizmente, não estranharam: lembrava-me de quase toda a sequência e das diferentes posições das mãos acompanhadas de movimentos específicos, gradualmente mais difíceis, à medida que se aproxima o final do jogo. Hei de me lembrar de usar este jogo, aproveitando para desenhar na areia molhada.
Não poderia terminar estas linhas sem referir o pai de todos estes brinquedos cinético e giratórios: O Senhor Pião, aqui num pequeno filme do interior do Brasil.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ler! Ler nas oficinas improváveis.

Lendo Álvaro de Magalhães em voz alta.
Com o início do ano, recomeçaram as Oficinas improváveis, mediando a leitura junto de alunos com necessidades educativas especiais, nas bibliotecas escolares de Torres Vedras. A equipa é composta por três mediadores: um cota (eu), mais a Ana Gonçalves e Vera Fortunato, técnicas da Biblioteca Municipal de Torres Vedras, responsável pela iniciativa. Estivemos na Biblioteca Escolar da escola sede do Agrupamento de Escolas Padre Vitor Melícias, muito bem recebidos pela professora Ilidia Janela, a anfitriã. O grupo que participou na sessão não era muito pesado. As maiores dificuldades destas crianças advêm da sua condição de exclusão cultural e social, sendo evidente a presença da etnia cigana que tentámos valorizar ao longo da sessão, pedindo para que acompanhassem dois poemas (meus) usando as palmas, à boa maneira cigana, marcando o ritmo/métrica de dois textos. Decidimos ler, com mais ou menos expressão, um conjunto de textos previamente escolhidos tendo em conta a composição do grupo. E lá pegámos em António Gedeão, António Torrado, José Fanha e Álvaro de Magalhães. A Ana leu muito bem o poema “animais de estimação”, um texto do “Brincador”, e eu e a Vera lemos, a par, o “Devagar e depressa” de António Torrado (“À esquina da rima, buzina”). Ler para o outro, tão simples.
Lendo ritmadamente António Gedeão

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

The story-telling painter

The story-telling painter. Miguel intertwines the imaginary as colour mixed brush strokes. Curses from Algarve, Creole tales and fishermen’s stories, all are found in his bag. He works as an educator for reading and book-learning along the neighbourhoods, penitentiaries, libraries, schools, streets and boats. Miguel Horta is a painter who writes and draws his books spurred by the blown Levant through the lagoon and on the hardened westmolded escarpments. Since childhood he found heart by the sea and in all her inspired liars on board. But more important than the fishes and the beasts below are all the people with their stories; and thus, he strove into the heartland to tell of other lives one hears in his illustrations and tales, shared both in Portuguese or Cape-Verdean Creole. Such concern with the other, bounded to the societal impact of story-telling, might have been what transformed him into an effective mediator for book-learning and reading, credited by those who harbour his educational workshops in libraries or work with him directly in interventions on situations of cultural or social exclusion. Further, Horta has shown an important work on oral narration and mediation for reading in students and communities with special educative needs. The high tides have left us with this story-teller mediator on the sands of our beach, as a castaway from the modern world.
He narrates in Portuguese and Cape-Verdean Creole.
Adapted from a text of José Barbieri (Memóriamedia)