quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Ao abrigo de Beja" (Leitura Furiosa)

Ilustração de Susa Monteiro
 
 
Ainda ontem soprava um noroeste duro que assobiava pelas frinchas do meu casebre. Hoje é este sol malino de Primavera, mais Verão do que outra coisa. O meu corpo já não aguenta estas mudanças…cá para mim, foi o Homem que mudou as estações do ano com as suas loucuras e máquinas. Estou febril, doí-me o corpo. Ontem à noite acordei alagado em suor com um pesadelo completamente doido. Mas juro que não bebi…acho que é do que sinto… uma virose, disse-me a doutora …
 Sonhei que me aproximava do meu barraco no meio de uma noite de ventania e ao escancarar a porta de casa, deparei-me com as ratazanas que por aqui andam habitualmente, numa festa. Tinham virado um caixote daqueles da fruta, armando casino, ali mesmo ao lado do lugar onde como; distribuíam cartas num animado jogo de sueca, e bêbadas baralhavam, partiam e davam entre grandes fumaçadas de charuto, discutindo impertinentes e guinchando agitadas. O pior de tudo é que tinham ido à minha garrafeira, por detrás dos tijolos, desluzindo tudo que lá havia para beber. Acordei no meio da noite. Só os grilos anunciando o Verão me devolveram a calma: Gri!Gri! Gri!Gri!
Às vezes acho que só os animais me entendem… O meu amigo JC brinca sempre comigo… Diz que eu sou amigo das osgas, dos cágados e lagostins do poço, que se escondem na lama quando o sol de Verão castiga Beja. Talvez seja assim…
No meio da solidão um animalzinho faz muita companhia… Basta lembrar-me do “macaco”… Não! Não era um saguim, mas sim um rafeirito nascido aqui no Alentejo, muito esperto que sabia lidar com as ovelhas como ninguém. Sobre estes bichitos, perguntem ao J M que sabe falar com propriedade. Ele tinha um canito, o “Benfica”, que conseguia encaminhar 1600 ovelhas pelos campos fora, claro está, com a ajuda dos assobios de pastor.
Ambos sabemos do cheiro dos pastos logo pela aurora, assim que o rouxinol se cala. A conversa das bestas e o badalar dos sons acompanhando pensamentos de que já não me lembro.
 
O J T, debaixo do seu chapéu, hoje está silencioso. Nem alma tem para tocar a gaita…deve ser da gripe. Mas este companheiro é cá dos meus, sabe o que são bichos, também conhece os animais. Mas o que ele não sabe, é que as ovelhas do meu rebanho respondiam ao meu chamado. E sempre com o meu “Benfica” ao lado: trabalhava, comia e dormia sempre junto de mim… valente animal. O cãozinho dava sempre sinal da malfadada zorra que pela calada se tentava aproximar dos borreguinhos. Também eu me lembro desses tempos de seara cheia e cultivo de algodão lá para os lados de S. Matias. E os moços pequenos de agora que acham que o algodão vem das ovelhas?…
E estamos para aqui  a falar das criaturas de Deus… A culpa é do homem que a doutora Teresa e a senhora da biblioteca trouxeram para aqui, hoje. Parece que é um escritor, que coleciona as histórias das pessoas. Mas até agora só tem feito perguntas sobre animais e a conversa vai seguindo, solta. Parece que vai escrever as nossas palavras… Não me importo, nesta casa sinto-me bem. Será que somos rezes tresmalhadas? Agora fala o JC, dá espeço ao meu silêncio.
 
Gosto de ouvir falar o homem que veio da Biblioteca. Faz perguntas e falo, falo como sempre me apetece, numa a correnteza de ribeira no inverno. Animal? Um Grand Anois pacífico, vistoso, bonito.
Lembro-me das viagens com o meu pai, transportando borregos pelo país fora no seu camião onde adormecia cansado das estradas. Uma vez, não sei onde, acordei com as vozes de mulheres cantando e espreitei sobre a janela. Talvez fosse na Idanha, não sei, mas ali estavam aquelas mulheres de negro a cantar às almas do purgatório no meio da estrada, talvez numa romaria… Depois voltei a adormecer na cabine com o meu sono de menino.
Já em casa o caso era outro…nem sempre dormia bem. As paredes exteriores da casa deixavam passar todos os ruídos dos vizinhos os sons do dia a dia numa intimidade devassada. O que mais me custava eram as discussões e o choro das crianças.
 M J pega na palavra e leva-nos pela sua ilha com os romeiros pelas estradas, próximo das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Oiço falar de vulcões que nunca vi e da distribuição do pão e da carne pelo Povo. A mulher dele não fala, apenas vai fazendo malha com os fios da escuta e o gato enroscado nos pés. M J vem acompanhado com um Huskie que trouxe do outro lado do atlântico, talvez de Boston: o animalzinho é manso e resistente ao frio.
 
Agora toca-me no braço e lê a minha tatuagem: “Mama mas não mordas”, lê em voz alta e fala de marcas, de selos e de memórias. O J M atalha logo, afirmando que o melhor lugar para guardar memórias é dentro da cabeça. Mas a vida tem momentos e quando marcamos o corpo é porque não queremos esquecer. Porque é que eu nunca perguntei ao Travessa quem é a Lena que está gravada na pele do seu braço, junto a um coração trespassado por uma espada? O escritor adivinha-me os pensamentos e interroga o Joaquim sobre Lena. Apenas ficamos a saber que era das Caldas da Rainha. Fugiu bem o J T!... Sobre Rosa, nem uma palavra, ela está tatuada pelo lado de dentro da pele…
 Gosto de conversas animadas, com picardia e acordadas. Agora é o J R que afirma que foi o único do pelotão da tropa que serviu que não se tatuou…Não teve necessidade de se marcar para se sentir pertencente a um grupo. Completa a ideia o senhor J M dizendo que se marca o gado da mesma espécie com o selo cravado na orelha…
 
Oiço o J C concluir: “Quando uma pessoa é marcada por dentro, não se vê. É preciso uma chave especial para revelar o segredo.” Este parceiro escolheu o furão como animal favorito: um bicho de personalidade assassina mas domesticável. Tão diferente do meu Leão pacífico e sereno no seu nobre papel de rei da selva. Logo se levantam vozes que não concordam comigo…mas o leão dá-me calma. Essa mesma calma e paciência que necessitei durante tanto tempo para aturar clientes difíceis lá no hipermercado. É com essa tranquilidade que vou conhecendo estes companheiros de destino. Gosto de escutar…
Agora entra a doutora  no final desta conversa, lembrando que amanhã temos excursão a Serpa.

Os escritores existem mesmo?
Então, amanhã vamos a Serpa visitar um livro.
 
Miguel Horta com: João Calça, Joaquim Moizão, Joaquim Travessa, Jorge Raminhos, Joaquim Cavaco, Hugo Silva, Francisca Arsénio e Mário Jorge.
Utentes do refeitório social da Cáritas Diocesana de Beja


Sem comentários:

Enviar um comentário