terça-feira, 11 de setembro de 2012

Palavras Andarilhas: Há mulheres destinadas a acordar as palavras adormecidas nos corações dos homens

No caminho para Beja vou feliz, é um momento com que me identifico e me confiro no contacto com os outros, contadores e mediadores como eu. Vou leve apesar das dificuldades económicas que ensombram o encontro: Vou para a cidade dos contos! Já deixei de ser eu cada vez que chego às Portas de Mértola, sou mais vasto: sou Todos. É essa consciência da direção das ideias que me dá alento na viagem. Sinto que podemos fazer a diferença no Portugal triste que sobrevivemos, basta deixar o protagonismo, a festa dos egos, à entrada de um conto ou à porta da oficina que generosamente partilhamos com os nossos pares. Confesso que não vivo o ato de contar como um espetáculo para o aplauso, embora saiba bem o reconhecimento na magia do momento: sempre achei mais importante fazer “com” do que fazer “para”. O conto para mim tem essa função libertadora do apropriar-se da competência da palavra. Quem conta um conto decifra uma história escutada ou escrita; ao escutar descodifica a estrutura narrativa, conferindo-lhe o poder de um futuro leitor. Quero-te para ti leitor, escutador, homem ou mulher capaz de despertar todos os entendimentos do mundo! É nesta convicção acordada que teço os caminhos da palavra.
Há mulheres destinadas a acordar as palavras adormecidas nos corações dos homens. Mulheres que conhecem o contorno das palavras, o seu peso, a sua leveza e…o seu poder. Essas mulheres acordam os homens para a tarefa da cultura que medra lado a lado com o reflorir dos campos: umas escrevem…outras contam. A mulher que me reacordou para a importância das palavras ditas, em pequenos grupos, individualmente ou em público, chama-se Cristina e é Lacobrigense. Estremunhado prossigo balbuciando histórias que por vezes, ganham corpo no papel, convocando razões escondidas na infância para prosseguir comunicando.

2 comentários:

  1. Que bonito, Miguel!... E fiel!
    Testemunhei: vi-o ir, pela noite dentro, num barquito a remos, com crianças, à pesca... de palavras, de contos..., adormecidos no fundo do lago!
    Que ideia original para adensar a magia!
    Como não há de ser Beja "a cidade dos contos"?
    Bem-haja!

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    1. Um trabalho de muitas formiguinhas incansáveis. As Andarilhas são mesmo uma referência na minha vida...

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