sexta-feira, 10 de junho de 2011

Algumas notas sobre "A cor das histórias" e a mediação do livro em contexto prisional

Sessão da oficina "Eu sou Tu" no EPR Montijo (foto autorizada)
O programa “Leitura sem fronteiras” resulta de uma parceria entre a Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas e a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, pretende levar o gosto pela leitura aos reclusos do nosso país através de intervenções executadas por um pequeno grupo de mediadores. É neste contexto que se insere “A cor das histórias” que venho desenvolvendo há alguns anos. Sessões regulares de promoção do livro, da leitura e da escrita com diferentes grupos de reclusos. Estas oficinas criativas já passaram pelo EP Lisboa (Ala G e E), EPR Setúbal, EP Odemira (feminino) e EPR Montijo. Com a extinção das duas direcções gerais e os cortes orçamentais aplicados, este esforço pela literacia e integração está irremediavelmente em risco..
O perfil do mediador cultural que vai intervir neste meio dita o sucesso do trabalho. Maturidade e capacidade de leitura das pessoas que tem pela frente são duas características fundamentais a par de uma cultura eclética que lhe permita uma elasticidade nos conteúdos e propostas. Só sabendo quem é o futuro leitor que ali se senta para uma sessão poderemos escolher o livro certo ou o desafio a lançar. A escolha dos livros a propor é muito importante, percorrendo um universo variado que pode ir da banda desenhada ao humor passando pela poesia, policial ou grande romance, para quem tenha competências leitoras bem desenvolvidas. Mas é na comunicação e modo de abordagem de cada novo grupo que reside a chave do sucesso. Recomendam-se subtis dinâmicas de grupo e soluções originais que passam pelo conto ou, no meu caso, pela utilização do crioulo de Cabo Verde para abordar grupos de jovens urbanos. Nestes grupos a introdução de leituras em Hipop de autores portugueses tem dado os seus frutos; daí à produção escrita dos reclusos, é um pequeno salto… Também a ilustração traz para este grupo, jovens que gostam mais de desenhar…dizem eles. Para ilustrar é preciso ler… E as imagens também se lêem. Propostas de escrita lúdica têm sempre muito sucesso quando aplicadas com asserividade.
As bibliotecas prisionais são muito variadas, podendo ir dos grandes espaços (Alcoentre) a pequenas celas transformadas com acervo envelhecido, húmidas e frias. A presença dos mediadores gera mudanças. Só o projecto “A cor das histórias” trouxe mais 500 livros de qualidade a estes espaços, fruto de doações de pessoas atentas. Mas falta muita banda desenhada e poesia; por vezes não temos o livro certo para o futuro leitor pois a escolha é limitada. A ida destes profissionais aos estabelecimentos prisionais tem operado mudanças no acesso ao espaço de leitura e organização, a par de despertar para esta causa distinta do percurso escolar os Educadores Prisionais, aliados fundamentais no interior da prisão. É comum que reclusos que frequentam estes “clubes de leitura” se decidam a voltar à escola. Uma das recomendações que venho fazendo desde que entrei neste universo é a necessidade de catalogação das colecções prisionais que pode acontecer com um simples programa de Exel. Não custa nada formar reclusos de penas médias em catalogação rudimentar e funcionamento de bibliotecas. Também a existência de Jornais Prisionais publicando a produção escrita dos reclusos permite a continuação das aprendizagens e promove a auto-estima.
Algumas parcerias podem ser encetadas no terreno mais próximo: com agrupamentos de escolas ou Bibliotecas Municipais, propondo projectos ou simplesmente dando apoio à biblioteca prisional na catalogação ou colmatando lacunas na colecção. Importa ter a consciência de que se trata de um trabalho lento, persistente onde não existe uma data precisa para o reflorir de quem está detido. Uma tarefa de todos numa altura em que o Estado se demite da sua função social não financiando projectos que acontecem a montante da sociedade com claras consequências no futuro.

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