sábado, 20 de dezembro de 2014

10x10 - Na sombra do vulcão da Chã (Fogo)

Quase em cima do Natal, aqui estou a dar notícias da nossa odisseia geológica com a turma do 10º ano da secundária D. Dinis (projeto 10x10 – Descobrir/Gulbenkian). Estamos a fazer uma maquete de um vulcão, ao mesmo tempo que a Chã das Caldeiras é invadida pela lava que aos poucos engole a aldeia de Portela. Assustadoramente, a “matéria” a dar nas aulas está a acontecer em tempo real. A ilha do Fogo é muito importante para mim: parte da minha pintura  nasceu nesta cratera vulcânica, sentindo-se o eco deste pulsar geológico aqui e ali nos trabalhos que vou produzindo. Também a escrita e a ilustração sofreram a influência desta ilha Cabo-verdiana; um bom exemplo disso é meu livro “Pinok e Baleote” - passa-se numa ilha muito parecida com esta (“Tamarindo”). Algumas personagens foram inspiradas nas gentes de S. Filipe, não faltando, mesmo, uma erupção vulcânica descrita nas páginas do livro. Decisiva esta viagem no ano de 1980…
Agora, de mãos no gesso, damos corpo ao vulcão…ainda faltam os matizes próprios deste fenómeno geológico… O laboratório de geologia/biologia transforma-se num ateliê de pintura e ideias todas as terças feiras de manhã. A professora Ana Pereira vai circulando pelos grupos que se atarefam na finalização dos planetas imaginários, perguntando, desafiando, certificando-se que os conteúdos da “mentira cósmica” estão bem consolidados. Como é uma turma pequena, já nos conhecemos bem – torna-se possível passar o conhecimento de forma personalizada, atenta, o contrário da massificação do ensino. Estou a “torcer” pelo sucesso escolar deste grupo de alunos; fiquei triste quando uma aluna mais fragilizada deixou as aulas, reduzindo assim o tamanho do grupo.
Criando novas formas de vida para um planeta imaginado...
Investigando: A partir do que já se conhece do cosmos,
construir uma argumentação sólida para a mentira.
Cooperar...
procurar os tons exatos para a atmosfera de um planeta sulfuroso
Aproxima-se a aula pública na Fundação Calouste Gulbenkian. Vamos ter de decidir em conjunto o formato final da nossa apresentação, mas estes alunos da área das ciências são pouco adeptos de palcos... Tomaremos as nossas decisões, como sempre, em plenário (fórum). Para quem não conhece este projeto, as aulas públicas que terão lugar no fim de semana de 24 e 25 de janeiro serão um bom momento de descoberta.
Contemplando a obra...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Acolá em Vale de Madeiros, Canas de Senhorim e Nelas

Regressei às bibliotecas e escolas do concelho de Nelas para falar do meu livro “Dacoli e dacolá” que está cheio de referências a esta zona da Beira Alta, onde passei momentos decisivos da minha vida. Um dia intenso que começou cedo na escola de Vale de Madeiros, a seguir na Biblioteca escolar da EB 2.3 de Canas de Senhorim e terminou em beleza na Biblioteca Municipal de Nelas: alunos envolvidos e atentos, um reflexo do empenho da bibliotecária Paula Vitória e de todos os professores bibliotecários do concelho. Gostei de conversar com os meninos e meninas de Vale de Madeiros naquela escolinha de acolhedor soalho em madeira. É nessa aldeia que vive  (dentro de uma história) Lídia- a rapariga que pegou fogo à floresta da Felgueira…
Ao fim de algum tempo em convívio com os leitores, começo a portar-me mal (talvez por contaminação), mas parece que o pessoal mais novo aprecia bastante os disparates em torno da língua Portuguesa… Em Canas de Senhorim e Nelas, o mesmo acordo: Se vocês perguntam, eu tenho o mesmo direito…. Assim os pequenos leitores perguntam e eu pergunto também, pondo a cabeça a andar à roda com questões difíceis como: “Qual a diferença entre mentira e fantasia” ou “a diferença entre olhar e ver”. Quando o grupo é bom, peço para me comentarem a frase, explanando bem as razões das suas opiniões: “As respostas verdadeiramente interessantes são aquelas que destroem as perguntas!”…Porquê? Gosto de escutar aquelas cabeças que pensam… Quase sempre, confidencio (lendo) um poema não publicado, indagando se ele deve ser apresentado a leitores da mesma idade deles. Recolho, então, opiniões. A certa altura pergunto, a propósito da “menina que escutava as pedras” (Dacoli e Dacolá) - O que é que as pedras lhe diziam? Oiço falar de nomadismo e de povos do passado, mas oiço uma menina a dizer baixinho: “Histórias, algumas de agora, passadas lá nos Fiais”… É isso, as pedras parecem mudas, mas só para quem esteja desatento. Mesmo espartilhados pelas metas curriculares, os professores conseguem encontrar o espaço e o tempo para trabalhar um autor mais desconhecido; a hospitalidade beirã ganha aqui a sua expressão verdadeira. Estão todos de parabéns em Nelas e Canas de Senhorim: quando o “Rimas Salgadas” finalmente estiver disponível, regressarei!
Às vezes as perguntas são bem difíceis e o perguntador exigente...

domingo, 14 de dezembro de 2014

Quelle aire claire à Noël!

Este natal no Centro de Arte Moderna, partindo da obra de Salette Tavares, desenvolveremos um oficina de construção de  “Dicionários pessoais (palavras que desenham)”. Esta oficina, em tempo de férias, será orientada pelos monitores/artistas Joana Andrade, Carla Rebelo, Rita Cortez Pinto e Miguel Horta, propondo um trabalho em torno da palavra. Desenhando a palavra que voa para o espaço usando todo o seu potencial gráfico, brincando com os sons e os sentidos da escrita e dando-lhe corpo e movimento em exercícios coletivos e individuais. Uma oportunidade de fruir o museu descontraidamente, enquanto se prepara a ceia de natal. Para quem não conhece a obra de Salette Tavares, porque não aproveitar este tempo de pausa para dar um salto ao Centro de arte Moderna? A exposição encerra a 25 de janeiro.

Mais informação sobre a oficina: Aqui.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O nosso Km2


No dia 10 de novembro participei, junto com outros artistas (Margarida Mestre, Maria Gil e Sofia Cabrita), numa dinâmica destinada a jovens estudantes da Secundária Marquesa de Alorna, cujo objetivo era levar a refletir, de forma criativa, sobre o “Km2” que “habitam” em torno da escola. “o nosso Km2” é um projeto promovido pelo Programa de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa. Sobre este projeto local pode ler-se: Através de um conhecimento mais aprofundado da freguesia de Nossa Senhora de Fátima, onde a Fundação Gulbenkian se encontra sedeada, este projeto tem como objetivo contribuir para a construção de uma cultura de comunidade participativa e atuante. Pretende-se estimular o desenvolvimento de redes de proximidade e vizinhança para encontrar respostas para os problemas sociais que afetam esta população. Visa também fomentar a criação de redes de voluntariado que respondam a algumas das problemáticas identificadas, envolvendo todos os agentes presentes na freguesia na descoberta e aplicação de soluções.
Ora, 90 minutos para pensar no território, com os seus lugares, afetos e ligações que se estabelecem com coordenadas particulares é pouco, mesmo assim as sessões correram bem. Num ecrã, a imagem do planeta (Google Earth) que ao longo da sessão se foi aproximando do território da escola, até que se pudessem identificar claramente as ruas do nosso no Km2. Depois de uma série de pequenos exercícios de movimento e jogos, propostos pela Sofia, que geraram risadas e descontraíram o corpo e as ideias, estávamos prontos para o próximo desafio: criar uma cartografia pessoal e coletiva encontrando diferentes lugares: Um lugar para estar sozinho, um lugar proibido ou perigoso, um lugar para namorar, um lugar de memórias e um lugar de encontro. 
Foi muito interessante o debate que se gerou na procura desses lugares, inscritos em cartões coloridos que foram dispostos no chão da sala, tendo como referente central a escola e, claro, os pontos cardeais. Através destas conversas, fomo-nos apercebendo das dinâmicas dos jovens e dos seus bairros de origem (se é certo que alguns moram na proximidade, outros vêm de longe). De entre as escolhas dos jovens destaco algumas que me parecem muito interessantes. Os jardins da Fundação são referidos pelos participantes como um lugar para estar sozinho. Um local. Os locais para namorar são variados, dispersos e pessoais. Já o ponto de encontro é sempre perto da escola. Como resposta á pergunta – onde começa o território da escoa? – Alguns responderam que começava logo de manhã à saída de casa. Lembro-me, como numa sequência quase cinematográfica, de uma rapariga que escolheu um banquinho, mesmo na base da ponte metálica que atravessa a linha de comboio, para estar sozinha; outro rapaz escolheu essa mesma ponte como ponto de encontro… Sobretudo, gostei de ver os jovens sentados descontraidamente na alcatifa das belas salas da Fundação, falando dos seus lugares e descobrindo dados novos sobre a geografia de vida dos seus colegas de turma. Nem sempre tenho hipótese de falar dos meus colegas artistas e do prazer que me dá trabalhar em conjunto – hoje o Óscar vai para a Sofia Cabrita!

sábado, 6 de dezembro de 2014

Mentira cósmica 2

 Os planetas vão ganhando corpo nesta edição do projeto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian). A “mentira cósmica” torna-se palpável. Vivem-se momentos de empenho nesta turma do 10º ano, a par de muitas interrogações sobre o impacto esperado deste meteoro pedagógico. Alguns astros surgem com a superfície rugosa, testemunha de uma formação convulsiva. Outros aparentam uma calma amarela e enganosa, sugerida por um oceano sulfúrico. Outro, ainda, banhado pela luz de duas estrelas, é orbitado por três satélites pequenos e enigmáticos. Há outro que ostenta um brilho diamantífero nas margens do grande oceano cerúleo. Para além do que se vê, sempre a construção imaginativa de mãos dadas com o argumento que dá corpo a uma ideia, mesmo que geológica. Tento adivinhar o que vai na cabeça destes jovens – talvez uma visão íntima do que é a escola, num tempo feito para crescer, sobretudo nos afetos. Reconheço a importância dos professores como referentes insuspeitos na construção individual, muito para além do curriculum ministrado.
De volta de um satélite

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Mais!!

"MÁSSS!" de Peter Schossow
Terminou hoje o ciclo de sessões de promoção da leitura e da escrita do projeto “A cor das histórias” (Leitura sem fronteiras) no estabelecimento prisional do Linhó. Se já tínhamos ido à praia com o livro “A Onda” (Suzy Lee), hoje voltámos lá com o álbum “MÁAAS!” de Peter Schossow, um mar de outono de onde queremos levantar voo. Outro livro de imagens, “Migrando” (Mariana Chiesa Mateos), trouxe o drama da imigração e dos naufrágios no Mediterrâneo para a nossa grande mesa. Fica sempre um travo de tristeza, incontornável, à saída da prisão, no final de um projeto. Consegui calma e escuta num pequeno grupo de reclusos, depois surgiu a escrita. Um recluso Romeno vence a dificuldade da língua e lê-nos um poema. Outro estende-me um papel, dizendo: “Olhe, publique lá no seu blogue”. Aqui te cumpro a vontade, Kido!

Dizer adeus
de lá de longe
lá do fundo

Mas será que o adeus eterno existe?
Não acredito

O coração persiste
quando um amar de amigo
companheira
familiar
ou um outro ente querido
persiste em dizer
que adeus eterno não existe.

Quando partires
não digas adeus
que vais para sempre
porque é mentira

Levas contigo
pedaço de mim
do meu coração
Alguém
que um dia
encontrarei de volta
não aqui

Num astro mundo
te espero
de maneira a devolveres
o que é meu
Porquê?
Porque eu
também fiquei
com algo teu

Kido E. T.


A grande mesa tem uma série de livros espalhados, as minhas escolhas de leitura. O “faxina da biblioteca” toma nota dos livros que seguem para as celas (uma espécie de empréstimo domiciliário). Leio poemas da antologia de poesia de José Fanha – Zé, tenho a certeza de que irias gostar de conhecer estes teus leitores… O jovem romeno pergunta: “Tem mais livros no seu saco?” (um saco de pano das Andarilhas) - O livro “Gaveta dos papeis” de José Luís Peixoto foi escutado até à exaustão e gerou um debate profundo sobre a vida. Por hoje, é o que vos escrevo. Ainda ficou por fazer um balanço mais detalhado e crítico deste ciclo de trabalho.

Smile!

 Haviam de ver a cara dos nossos amigos do 7ºD quando lhes disse para “tirarem os cadernos diários da mochila e escreverem o sumário: “A importância dos adjetivos na utilização do telemóvel, facebook e Messenger”. É mesmo para escrever nos cadernos! – sublinhei. Assim começou mais uma sessão do projeto leituras diferentes que decorre no agrupamento de escolas escultor Francisco dos Santos (Fitares/Sintra). A sessão foi completamente dedicada aos adjetivos através da proposta de um jogo (bem agitado) utilizando os emoticons (vulgo “smiles”) para encontrar as diferentes qualidades atribuídas a cada expressão de rosto. A turma foi dividida em três equipas que se esforçaram para encontrar o maior número possível de adjetivos, correspondentes aquelas “carinhas” que passam o tempo a serem enviadas pelos telemóveis. Como ninguém quer enviar o “smile” errado ao namorado/a, o melhor é saber quais as palavras exatas a utilizar; até porque convém saber as claras intenções de quem nos envia uma mensagem…