domingo, 15 de janeiro de 2017

Bairro Leitor Janeiro

Um jovem artista do bairro, Mauro, assinala com uma pintura o local onde antes podíamos ver cavalos, lá no Casalinho da Ajuda
Nas minhas deambulações pelo bairro do Casalinho da Ajuda, no contexto do projeto “Bairro Leitor” (Bip Zip) deparo-me com detalhes curiosos que revelam dinâmicas próprias dos habitantes. Todos os dias vou conhecendo mais um pouco. Nota-se a vontade de construir um bairro mais amigável para todos e com uma convivialidade serena mas, nem todos os residentes têm essa visão para o futuro. A pobreza vem sempre de mão dada com índices baixos de literacia – aqui começa o nosso desafio. No dia 20 de janeiro vamos realizar um encontro/conversa no Café do senhor Fernando em torno da história do Povo Cigano. Garantem-me que os residentes, que a maioria dos ciganos vizinhos desconhecem a longa história da sua diáspora. Tenho lido, preparando-me para partilhar alguma informação, esperando que a comunidade Cigana adira á nossa proposta. Segundo a minha companheira de projeto, Maria José Vitorino, seria interessante ter um fundo local que refletisse esta comunidade numa futura biblioteca híbrida comunitária. 
A Maria José Vitorino, junto com a Professora Bibliotecária Lurdes Caria, com a colaboração do parceiro Academia de Jovens do Casalinho, está a dar vida à Biblioteca Escolar da Escola Básica do Casalinho, organizando a coleção e intervindo junto dos alunos PIEF. Sei que estão a preparar uma surpresa para a Semana da Leitura… Tenho apoiado a Academia de Jovens do Casalinho no seu processo de enraizamento e dinâmica local. De momento estou a fazer o logotipo da associação, que elegeu o galo da torre da Ajuda como símbolo para o seu trabalho junto dos jovens (depois logo mostro o boneco...). É como se estivesse a esvoaçar em torno do objetivo…  De repente lembrei-me do projeto PO5, nos idos do pós 25 de abril, que promoveu o planeamento familiar em terras da Beira Alta, junto da comunidade de Farejinhas (Castro Daire) – Os mediadores para a saúde não começaram logo pelo tema central, escutaram e propuseram a resolução de outros assuntos (problemas locais), criando recetividade para o cerne a trabalhar mais à frente. Assim tem sido, igualmente, aqui no Casalinho da Ajuda: primeiro o logotipo, a formação, a escuta e o diálogo, depois virá a ação, mais coerente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Leituras em cadeia": O significado dos sonhos

Trata-se de um livro corriqueiro, bem comercial, mas ganhou  importância no contexto do Leituras em Cadeia (Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com o Ministério da Justiça e a Delta Cafés, pensado pela Laredo Associação Cultural, com a preciosa colaboração da Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana e do Agrupamento de Escolas Matilde Rosa Araújo). Nos primeiros tempos do projeto (há 2 anos atrás), quando procurávamos uma porta de entrada para a promoção da leitura e intervenção bibliotecária no Pavilhão 1 do Estabelecimento Prisional de Tires, questionámos as residentes (reclusas) dinamizadoras da biblioteca prisional sobre as preferências de leitura das mulheres ali detidas. “Sonhos. Interessam-se pelo significado dos sonhos. Sonham e correm para a biblioteca para ler sobre o significado dos seus pesadelos ou de outros mais privados.” Informaram-nos, sorrindo. “O livro estava para aí, já em fanicos, e acabou mesmo por desaparecer” Continuou a reclusa “O mais certo é ter sido roubado…tal o interesse…” Corroborou outra residente. “Alguma que saiu em liberdade e levou o livro dos sonhos consigo.” “Ou foi mudada de pavilhão e não devolveu o livro. Acontece muito, sabe…” Atalhou a mais velha. Foi a partir deste episódio que resolvemos criar uma ferramenta simples para identificar as tendências leitoras das mulheres detidas naquele pavilhão (cerca de 170). Assim nasceu o “Perfil leitor”, um questionário sobre o tipo de livros que interessavam aquelas mulheres, uma lista de desejos que transcendia, em muito, o rudimentar registo dos empréstimos existente à época na biblioteca prisional. A intenção era outra – queríamos saber o perfil leitor, presente e futuro do Pavilhão, através de um quadro onde os géneros literários vinham identificados não pelo rigor do cânon, mas sim num vocabulário regular, próprio de um conjunto de mulheres com nível de literacia essencialmente médio/baixo. E assim foi, partindo da análise das respostas obtidas começámos a completar a coleção. As reclusas responsáveis pela biblioteca acolhiam cada nova residente apresentando a biblioteca e entregando o questionário em mão, muitas vezes ali preenchido com ajuda, quer pelas dificuldades linguísticas quer pelo baixo grau de literacia. Ninguém ficava de fora, mesmo não sabendo ler, pois na biblioteca existe uma miríade democrática de recursos disponíveis. Ah! É verdade – quem nos arranjou o livro foi o senhor Valentim, alfarrabista brasileiro da Charneca da Caparica, nosso colaborador e seguidor atento do projeto. Obrigado à sua Biblioteca Cultural Central das Ideias que funciona no meio da rua junto ao mercado da Freguesia.


Encontro normal com a diferença

Foto de ensaio: por cortesia da Companhia dançando com a Diferença
Uma fotografia não chega para dar ideia da riqueza de conteúdos gerada pelo debate, que teve lugar no Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) no âmbito do IV Encontro Normal com a Diferença, promovido pela Companhia Dançando com a Diferença. Este debate abriu uma semana de trabalho intenso em residência criativa que juntou uma mão cheia de jovens bailarinos, cada um com a sua diferença, nas instalações do Convento da Saudação. O trabalho criativo desenvolveu-se em torno do conceito de poder e foi por aí mesmo que a conversa começou na sala da lareira. Tive, como companheiros de tertúlia, Luísa Taveira (Companhia Maior), Maria de Assis (Descobrir/Gulbenkian), Henrique Amoendo e Clara Andermatt (estes últimos, anfitriões do projeto). A relação entre Poder e Deficiência tem diferentes leituras e a nossa conversa refletiu isso mesmo: por um lado, o Poder encarado do ponto de vista dos governos, sociedade, direitos desejados, preconceitos instalados e a relação turbulenta que deste ponto de vista se estabelece com as pessoas diferentes. Por outro lado, o poder impactante que a comunidade deficiente pode ter na transformação da sociedade, usando esse poder da diferença através da expressão artística – O artista possui um poder que lhe advém dessa diferença criativa. Ficou claro, para quem assistiu ao debate, que os públicos também se educam no sentido do entendimento pleno do objeto artístico produzido em palco, por um ensemble onde pontuam bailarinos ditos normais num processo colaborativo com colegas diferentes – Uma situação bem distinta da ida ao “gabinete de curiosidades” ver os coitadinhos dos deficientes. Como contributo para o debate, foi-nos fornecido um excerto de uma interessante entrevista com Bruce Gladwin, diretor artístico, e Alice Nash, produtora executiva do Back to Back Theatre que, em determinada altura, refletem sobre o poder manipulador de um encenador ou outro mediador artístico sobre os artistas diferentes. Diz Bruce Gladwin: “Os atores têm uma palavra a dizer no processo de tomada de decisões? Alguém lhes pôs palavras na boca? São no fim de contas marionetas dentro da peça? Isto é realmente uma questão de exploração. Acho que são perguntas ótimas e saudáveis. ... Como encenador de um grupo de artistas que são todos percebidos como tendo uma deficiência intelectual, estou muito consciente do potencial abuso de poder que existe nesta relação... Há responsabilidade de exercer um cuidado criterioso…”  A talhe de foice, Luisa Taveira fez-nos pensar sobre a Ética no trabalho com pessoas diferentes. Escutei e fiz um relance interior para a minha prática de mediador artístico junto da diferença- Será que fui sempre linear e honesto? E quando tive pressa em obter resultados? No debate em que todos participámos, cada um com o tempo que necessitava para se expressar, foi claro, honesto de uma horizontalidade rara. Destaco aqui a forma clara, assertiva, como Henrique Amoendo conduz as conversas com os diferentes artistas, tornando-as biunívocas. Lembro-me de ter pensado que o palco é o lugar mais inclusivo neste trabalho com a diferença.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Mithos a ler

Um outro projeto onde a nossa Associação está envolvida é o Mithos a ler que acaba de inaugurar uma biblioteca comunitária inclusiva na sede da Mithos- histórias exemplares (associação de apoio à multideficiência). Agora, com a biblioteca já inaugurada, a nossa ação concentra-se na formação dos companheiros/as que fazem atendimento no local e na formação de jovens voluntários mediadores de leitura que posteriormente desenvolverão o seu trabalho junto dos utilizadores do espaço de leitura pública de temática especializada. No dia 21 de janeiro de 2017 terá lugar uma primeira sessão de formação de voluntários de mediação leitora na Biblioteca da Mithos. Esta formação tem como objetivo dotar os jovens voluntários do projeto Mithos a ler de um conjunto de ferramentas muito simples de intervenção junto de leitores diferentes. Concomitantemente, os participantes terão a oportunidade de entender melhor o que é a mediação leitora, não faltando oportunidades de treinar a manipulação de livros, construir ferramentas e experimentar algumas dinâmicas. No futuro, pretende-se que estes jovens garantam algumas actividades no âmbito da biblioteca inclusiva, desenvolvendo propostas junto dos leitores visitantes. A inscrição é gratuita existindo o compromisso de cumprir tempo de voluntariado na associação.  
A equipa-base da Mithos no dia da inauguração
 que contou com a presença do deputado Jorge Falcato, Fernando Fontes, Susana Magalhães (Inclu) e  Diogo Martins.
   

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Sussurrar junto de professores bibliotecários

Nesta reta final do ano tive uma experiência muito curiosa com os professores bibliotecários do concelho de Vila franca de Xira. Fui convidado a participar, juntamente com os alunos do projeto “Oceanutópicos”, na reunião concelhia de professores bibliotecários. Tivemos oportunidade de apresentar a ferramenta sussurrador, como peça essencial do trabalho que desenvolvemos na Escola Professor Reynaldo dos Santos (VFX) e no Folio Educa, comunicando utopias pelas ruas da vila histórica. Os alunos sussurraram utopias oceânicas aos ouvidos dos docentes presentes, esperando que estes disseminem a ideia nas suas escolas de origem. Neste encontro, em boa hora “congeminado” pela Professora Hermínia Falcão e pela “andorinha” Helena Brígida, tive ainda oportunidade de falar da aplicação, em contexto de projeto, do objeto Sussurrador, junto dos alunos com necessidades educativas especiais, turmas “Pief”, “Cef” e outros grupos educativos mais avessos à leitura e à escrita. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Dias especiais...

...Dizendo os disparates do costume...
Às vezes a vida passa e não encontramos tempo para assinalar dias especiais… Quase a terminar o ano de 2016, gostaria de fazer um destaque à escola que melhor trabalhou a minha pequena obra neste primeiro período letivo. Não se trata de atribuir um Óscar, mas sim de reconhecer o excelente trabalho desenvolvido pela Ludobiblioteca da escola básica nº2 da Parede, coordenada por Leonor Pêgo, e assinalar uma mão cheia de docentes que conseguiram entusiasmar os alunos para a leitura dos meus livros. Muito obrigado – foi um belo dia passado na Parede! Vejam lá a reportagem: Aqui

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

BAIRRO LEITOR: Falando com os vizinhos

 Ao lado dos prédios, um moinho com umas belas pinturas na parede.
Vamos subindo o Bairro do Casalinho da Ajuda, onde decorre o projeto Bairro Leitor; vou bem acompanhado pelo Miguel e pela Mónica, residentes e dirigentes associativos da Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda. Entramos na zona de cima, os IOs (como aqui lhes chamam), um conjunto de edifícios destinados a residências universitárias, agora ocupados pela comunidade cigana. À medida que vamos percorrendo o bairro, aproximam-se vários jovens; o casal vai recolhendo nomes para um campeonato de futsal (Nesta altura, movimentam já 80 jovens nesta competição!). Miguel Cordeiro é afável, cumprimenta os vizinhos e vai passando a ideia de que se esperam mudanças para melhor no bairro – apresenta-me ao patriarca cigano, o Senhor Octávio, homem de rosto nobre e olhar azul. Falo do projeto e da importância da leitura, no meio de uma rua onde esvoaça o lixo ao vento. “Estou a ler um livro sobre a história dos Romani”- digo-lhe. A conversa deriva logo para a história dos nómadas, sobre a qual aquele homem vestido de negro sabe detalhes que só agora descortino, quase no final do livro. Pergunto-lhe se a comunidade conhece a sua própria história e ele responde-me que não, só uma pequena minoria. “Gostaria de ler esse seu livro…”-Afirma. Proponho a realização de um encontro sobre a história dos ciganos no café da esquina. Ele e Miguel que não perdeu pitada da conversa concordam. Há nossa volta já está uma meia dúzia de habitantes interessados na conversa. Comprometo-me a organizar esse encontro junto com os companheiros de projeto da Academia. Despedimo-nos, sem que antes de descer a rua, Miguel e Mónica recolhessem mais dois nomes para a competição desportiva. Qualquer biblioteca comunitária que nasça neste bairro terá de ter um bom acervo relacionado com a comunidade cigana… A ssim se começa a mediar o livro, falando com os vizinhos.
O projeto também contempla a recuperação de alguns espaços públicos
como é o caso do parque infantil