quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Museum mediators

Decorreu ontem e hoje a “Museum Mediators European Conference” no belo Museu do Trajo de São Brás de Alportel, na qual tive o prazer de participar. Um dos “case studies” apresentados foi o conjunto das oficinas “Museu aberto” que a equipa das necessidades educativas especiais do Programa Descobrir (Fundação Calouste Gulbenkian) vem desenvolvendo há 9 anos, criando um corpo de conhecimento significativo, resultante da prática, experimentação e da relação estabelecida com públicos com características muito particulares.Sobre este projeto europeu, conduzido com mestria em Portugal pela Mapa das Ideias aqui vos deixo algumas pistas retiradas do sítio da internet que aconselho a visitar:
O papel da Mediação em Museus ainda é subestimado, não sendo reconhecido que a relação com os visitantes do Museu e do património pode representar o limiar de sobrevivência destas instituições. Os Mediadores de Museus e Educadores são profissionais altamente qualificados que vêm de diferentes campos académicos, com pouca ou nenhuma formação educacional e comunicacional – competências tão indispensáveis para suas atividades diárias. Esta realidade levou à criação do projeto Museum Mediators. O principal objetivo foi o de criar práticas e orientações para os profissionais da mediação que representam a estrutura institucional e profissional julgada necessária pelos países europeus participantes: Portugal, Espanha, Itália, Estónia e Dinamarca."
Para todos os meus colegas que trabalham em museus recomendo o visionamento dos diferentes casos apresentados: uma janela aberta ao que se faz, no nosso campo, em diferentes países europeus. Fica aqui o meu agradecimento à equipa da Mapa, em especial à Inês Câmara por terem aberto horizontes aos mediadores de museu portugueses. 

Blimunda foi à prisão


Já está disponível o número especial da revista Blimunda (Fundação José Saramago), em papel e em digital. O trabalho em Mediação Leitora que desenvolvi na prisão de Guimarães, por ocasião da capital da cultura, vem abordado num extenso artigo pela pena criativa de Andreia Brites. Depois de desfrutarem desta bela revista, podem ainda saber mais sobre as “Novas memórias do cárcere”, Aqui.

domingo, 14 de Setembro de 2014

Quando as mãos fazem, a cabeça ri.

"Meu rosto teu"
Não sei exatamente quando Arnaldo me começou a evitar no café. Costumávamos encontrar-nos sempre à noitinha no café do bairro: a mesma mesa, o Correio da Manhã aberto sobre o tampo, duas bicas e uma conversa que se prolongava até ao fecho das portas. Política, desporto, mulheres eram os nossos assuntos de eleição às vezes esgrimidos em tom polémico ou até zangado. Mas na noite seguinte, lá estava ele sentado, a seguir aos telejornais. Aliás, as novelas nunca foram do nosso agrado. Esse pequeno momento era o escape perfeito para um dia passado na repartição, trabalho até dizer chega e sempre com o Silveira, chefe da secção, a morder-me os ouvidos com aquela voz cavernosa de travo a bagaço, como quem diz um segredo: “tem aqui mais uns processozinhos para lhe alegrar a manhã…”.
Também não parava muito em casa… Já não tinha nada para dizer à minha mulher e a minha filha exibia um silêncio adolescente difícil de descortinar.
Lembro-me que as nossas conversas de café começaram a azedar. Dizem que até fui violento. Não me lembro. “O gajo é maluco” – diziam entre dentes. Mas a única vez que estive verdadeiramente louco foi quando me apaixonei por Elvira, a minha esposa. Aí estava mesmo apanhadinho de todo e fiz coisas que não conto a ninguém. Isso é que é ser maluco! De qualquer forma passei a tomar café sozinho, com o pessoal no balcão a olhar de soslaio. Parece que comecei a falar sozinho, preocupado. Mas tinha toda a razão: veja-se o estado do mundo…Não há de uma pessoa ficar ralada com o planeta? Pouco faltou para começar a infernizar a mulher sobre o que deveria comer lá em casa. Uma ida comigo ao supermercado era um desatino com aquela complicação que fazia com as compras, sempre a justificar a outros clientes que passavam o porquê da minha compra ou a censurar em voz alta a escolha de determinados produtos expostos nas prateleiras. Um dia o segurança da superfície comercial disse-me que não poderia entrar mais nas instalações. As coisas começaram a andar mal lá por casa. Cada vez que Elvira falava em médico eu explodia. Entretanto comecei a dormir mal, escutava vozes, escutava-as em todo o lado: Faz isto, não faças aquilo – um sofrimento. Mas isto, a senhora enfermeira já sabe…
Desde que vim aqui para o Centro e percebi o que se estava a passar comigo, as coisas mudaram… Mas o melhor mesmo foi quando a senhora nos levou ao Museu. Não sei porquê, mas entendo muito bem tudo aquilo que aqueles pintores nos querem dizer. É claro que nunca cortaria uma orelha, a senhora sabe isso. Mas deu-me uma vontade enorme de pintar, assim à solta. Entende? Quando pinto, parece que estou a falar amigavelmente comigo através das tintas. Sabe que não me lembro nada daquilo que penso enquanto estou a pintar ou desenhar? Apenas fica o desenho pronto e já está! Às vezes viro-me para as vozes e digo: está calada e deixa-me pintar! Agora descobri que pintar a escutar música tocando baixinho faz com que surjam novas imagens…
Quer saber uma? No outro dia entrei no café e chamei pelo Arnaldo que estava lá colado ao balcão - Anda cá, senta-te e espreita isto que aqui tenho! - E mostrei-lhe as minhas aguarelas… Ele sentou-se desconfiado, pegou nos papéis, observou atentamente, coçou a cabeça e perguntou - Foste mesmo tu que fizeste isto? - Anui, com a cabeça. - É pá…És mesmo um artista! E depois pedimos dois cafés e começámos a falar das últimas transferências da pré-época do campeonato de futebol.
Vou-lhe contar uma coisa: esta manhã, depois do pequeno-almoço a minha filha abraçou-me… Olhe que até me vieram as lágrimas aos olhos…
Sabe uma coisa? Quando as mãos fazem, a cabeça ri…

Sintra: Mediação cultural e inclusão

Cartão de cidadão gigante - Fitares 2013
Está quase a começar a intervenção em 3 agrupamentos de escolas do concelho de Sintra na área das Necessidades Educativas Especiais – uma iniciativa da divisão de educação da câmara municipal de Sintra. Um trabalho sob o signo da inclusão, que utilizará metodologias não formais no seu desenvolvimento. Cada agrupamento terá o seu projeto específico: uns mais ligados à educação artística e outros à mediação leitora. Assim temos o projeto “Leituras Diferentes”, ação de mediação leitora junto de alunos com necessidades educativas especiais integrados nas suas turmas, que decorrerá no A. E. Escultor Francisco dos Santos (este é já o terceiro ano de intervenção em Fitares) e no A. E. Ferreira de Castro (estreante nestas andanças). Já no agrupamento de escolas Monte da Lua utilizaremos diversos recursos de educação artista no desenvolvimento do projeto “Corpo das ideias”, igualmente uma ação de características inclusivas.

Aqui vos darei conta, ao longo do ano, do desenvolvimento das ideias pelas escolas de Sintra.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Ladainha para um imigrante clandestino

Sistema de deteção por raio-x 
instalado nas fronteiras ocidentais.
A consciência tranquila da Europa...
Um grande negócio para as máfias
 que lucram com o medo e a fome dos outros...


Quase ninguém diz
Que te viu na fronteira
Com raio-x…

Não te vejo
Diluis-te nas ruas
por onde passo
trabalho invisível
salário escasso
Não te vejo
No escritório
alcatifa limpa
e lavatório
Não te vejo
Ao almoço
mexendo o tacho
segurando o moço
Não te vejo
Na construção
do edifício
assentando tijolo
no precipício
Não te vejo
Escoando o esgoto
negro ofício
todo roto
Não te vejo
Quando uso
 teu corpo
e pago pouco
o meu desejo
Não te vejo
Na cidade
levando molhos
de publicidade
Não te vejo
Quando beijo
meus filhos
bem tratados
ao longo do dia
com mil cuidados

Não ficaste na fronteira…
De qualquer maneira:
não te vejo

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

A cor das histórias - 2014

“A cor das histórias” é um projeto de mediação leitora em contexto prisional inscrito no programa “Leitura sem fronteiras” promovido pela Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas e pela Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.
Participam neste programa mais três mediadoras do livro e da leitura: Sara Monteiro que irá trabalhar no Estabelecimento Prisional de Silves, Sandra Barbosa no EP Leiria (jovens) e Fernanda Pinto, a mais experiente do nosso grupo, no EP Alcoentre. O programa conta ainda com a presença dos meus amigos da Andante que levarão o espetáculo “Adversos” a 5 estabelecimentos prisionais.
Foi a Maria Cabral que me meteu nesta aventura que abracei sem hesitar e que provocou grandes mudanças interiores no modo como vejo a leitura e a sociedade. Sobretudo apurou o meu olhar na direção do Outro.
Este ano estarei a trabalhar no EP Linhó, usando a minha metodologia habitual: seduzir para a leitura em coletivo (de volta de uma grande mesa), recorrendo primeiro à narração oral depois a poesia e textos escolhidos presentes no acervo da biblioteca prisional, sempre promovendo o debate sobre o lido e o escutado. Juntarei o recurso da ilustração e a banda desenhada promovendo o empréstimo “domiciliário” (neste caso a cela). Por fim lançarei mão de alguns exercícios de escrita criativa onde a poesia será a rainha. Mas tudo dependerá da composição humana desta pequena comunidade de leitores.

Não deixarei de dar notícia, aqui no LAREDO, deste trabalho que se desenvolve nos estabelecimentos prisionais; em breve com a notícia de um outro projeto.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Fica tão longe Lampedusa...


Ao deparar com a imagem de um barco cheio de refugiados africanos e sírios, lembrei-me logo de uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva, pertencente à coleção do Centro de Arte Moderna (Gulbenkian): “História trágico-marítima”.
Depois saiu-me esta ladainha…

Fica tão longe Lampedusa…
Pai, ainda falta muito?
Dorme filho, dorme
encostado ao companheiro
como se fora travesseiro
Mas ele tosse, pai...
Podem ser frias
as noites no mar
só a terra
nos pode curar
Fica tão longe Lampedusa…
E aquele outro, pai?
Chora?
Não meu filho
Recita palavras do Profeta
que nos guiarão
sobre as águas
à tão esperada meta
Fica tão longe Lampedusa…
Tenho fome, pai
Em breve terás de comer
Tenho sede, pai
Na Europa te darão de beber
Fica tão longe Lampedusa…
Pai, que bravo o mar está!
Para onde quer
que a barca vá
somos o cardume de Alá
Fica tão longe Lampedusa…