segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Sofia Troni escreve sobre a Laredo Associação Cultural no jornal digital "Escritores.online"

Resistente e ecológica como a lapa, a Laredo Associação Cultural permanece na “zona entre marés” para promover as literacias e a cidadania através da educação não formal em museus, bibliotecas, prisões, bairros sociais e festivais literários.
Miguel Horta, presidente da Laredo Associação Cultural, conta que tentaram vários nomes para a associação até chegarem à palavra “laredo”: “Laredo tem uma definição um pouco lata. Laredo é a zona entre marés. É o limite máximo da maré cheia e o limite máximo da maré vazia. É uma expressão utilizada pelos pescadores do barlavento algarvio e dos Açores, no Faial e no Pico, que costumam dizer «esse laredo é bom para a lapa», que habitualmente é uma zona rochosa junto ao mar, uma zona onde os pescadores recolectores fazem o seu trabalho”. Por isso a lapa como símbolo da associação: “A lapa também, porque é super resistente. É um animal herbívoro, ecológico. Uma praia com lapas é uma praia ecologicamente equilibrada, com pouca poluição, porque a lapa é um bicho muito sensível, mas ao mesmo tempo extremamente resistente. E depois significa esta coisa da persistência das ideias… e tem também esta ligação ao mar que é um dos campos do nosso trabalho”.
Continuar a ler: https://escritores.online/laredo-associacao-cultural/

Na boka note - Sessão de conto no Bairro Leitor



A Biblioteca do Bairro
Escola Básica Homero Serpa
Bairro do Casalinho da Ajuda
do projeto Bairro Leitor
acolhe sessão de conto e de convívio

No dia 6 de outubro pelas 18.30h venha escutar Adriano Reis e Miguel HortaNa boka note” contando histórias de Cabo Verde e não só… Esta sessão de conto e convívio pretende dar visibilidade e promover a inclusão da comunidade de origem africana, nomeadamente cabo-verdiana, através da escuta e da partilha de histórias. Este encontro prossegue a linha de trabalho das Conversas do Casalinho, iniciada em janeiro de 2017 com a comunidade cigana num dos cafés do Bairro, propiciando desenvolvimentos futuros tendo em vista a sustentabilidade do projeto. Pretende, igualmente, estimular a apropriação da escola básica Homero Serpa e da Biblioteca do Bairro como um bem comum e um serviço público em setores cada vez mais latos da comunidade e entre os profissionais de educação envolvidos. Sobre o nosso convidado especial, Adriano Reis, podemos dizer que é actor, trabalhador sociocultural e contador de Storia de Lá. Sabemos que a paixão e o amor pelas estórias o cativaram para a transmissão da palavra, partilhando a sua identidade crioula (Africana). Mais sobre este comunicativo narrador crioulo aqui, no seu Palco da Vida.

Bem skuta storia di lá! Nu ta spera bo na Biblioteka di Bairu!

Para chegar à escola Homero Serpa:

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Dilfícil Leitura" leva mediação leitora especial ao FOLIO

Comecei esta semana uma intervenção no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras) que une a biblioteca escolar à unidade de ensino especial, num projeto de mediação do livro e da leitura com crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente com características de autismo. Trata-se de um convite endereçado por Maria José Vitorino, curadora do FOLIO EDUCA, Festival Literário Internacional de Óbidos, que tem como tema, este ano, "Revoluções, Revoltas, Rebeldias". Efetivamente, vamos ter de nos preparar para a grande revolução da inclusão na educação, sabendo que a promoção das literacias e a mediação da leitura serão veículos para a construção dessa sociedade mais justa, tendo as bibliotecas um papel central a desempenhar nesta caminhada. Coisa difícil… Ou melhor, coisa DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil. Assim inspirado, batizei este laboratório partilhado de mediação leitora de “Dilfícil Leitura”. Este convite surge no seguimento da intervenção continuada da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação do livro e da leitura junto de famílias e crianças especiais, através do programa “Sentir especial”, que nos últimos dois anos acolheu as “Oficinas improváveis”, que têm visitado as bibliotecas escolares do concelho. Vamos trabalhar um conjunto de livros intencionalmente escolhidos e recorrer a dinâmicas criativas com os nossos alunos com necessidades educativas especiais e com mesmo número de meninos das turmas de inclusão. Formarão uma espécie de tandem, leitores a par, que se manterão ao longo do ano letivo, dando continuidade á ideia. Esta espécie de laboratório de comunicação e criação de literacias acontecerá na biblioteca escolar e na unidade de ensino estruturado. Os livros e as metodologias que se provarem acertadas com os nossos pares improváveis serão partilhados no Folio Educa com grupos de crianças, auxiliares e docentes equivalentes, de outras escolas do país, a convidar pela curadoria do evento. A partilha deste laboratório, em contexto de oficina, acontecerá no Folio (Óbidos) a 24 de outubro, com duas sessões (manhã e tarde). 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Arribalé!" de novo na estrada...

Arribalé! é um espetáculo original de narração oral em torno do Mar, suas criaturas e gentes. Agora em reposição, disponível para ir a escolas (bibliotecas escolares), teatros e bibliotecas públicas. “Arribalé!” nasceu de uma residência criativa no’’ O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) em março de 2015. Contos, poemas, pequenas canções, passando pelas pragas do Algarve e outras oralidades, tudo faz parte desta apresentação que tem como pano de fundo um conjunto de ilustrações do autor. Sessenta minutos, pensados para a família, onde o espetador é convidado a mergulhar nas histórias e seres da nossa costa. Paralelamente à apresentação, encontra-se disponível o livro que foi mote para este espetáculo, Rimas salgadas (PNL 2015), poesia e ilustração para a infância e juventude (Grácio Editor). No final, terá lugar um encontro com os leitores.

Poderíamos imaginar uma criança revirando pedras na maré vazia em busca de criaturas marinhas escondidas na sombra ou um adolescente afoito pescando sozinho num barco sacudido pelas vagas de barlavento. Este é Miguel Horta um pintor que se dedica à escrita e à ilustração. Mas também um mediador cultural em diferentes contextos humanos, fazendo sorrir e refletir quem o escuta através dos contos e desafios que lança. Depois de Pinok e baleote e Dacoli e dacolá, estas Rimas salgadas chegam-nos diretamente da sua infância num exercício de partilha da urgência de pensar o Mar.
Mais informação: horta700@gmail.com

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O filho do trolha

Ilustração: Miguel Horta 
(Direitos reservados)
Texto a pedido da minha amiga Paula Carvalho
sobre comportamentos de risco
a apresentar nas II Jornadas Templárias de Psiquiatria CHMT

-Ó senhora doutora, nem sei muito bem como lhe contar isto…
-Ahhh… Não é doutora.
-Como?
-Senhora enfermeira?
-Combinado.
- Entende-me na mesma…
- Pois bem… Eu já sou um Kota, como diz o meu neto. Fui avô muito cedo. Maluqueiras da minha juventude… Por isso, já tenho dois netos, lindos… São a luz dos meus olhos… sabe como é? Pois claro, fala com muita gente. Ou melhor – atende.
Como ia dizendo, eu nunca fui um santinho. Deixei de estudar muito cedo…
Logo depois da tropa desencaminhei-me. O trabalho era fácil, ganhávamos bem. Trabalhava nas obras. Vivendas! Aprendi o ofício muito cedo com o meu pai. Logo em pequeno comecei alinhar as botas sujas de cimento ao lado das botifarras do meu pai, à entrada de casa… e a minha Mãe aos berros a protestar contra a sujidade… A entender os desenhos dos arquitetos, era o maior! E depois, o fazer também era comigo… Tratava os tijolos e a argamassa por tu! Os sacanas dos vizinhos lá da Musgueira, chamavam o meu Pai de “trolha”. Não entendiam. Ele trabalhava como um galego. Aliás, vinha de famílias galegas. Era um bom homem. Bem melhor do que eu sou.
Desencaminhei-me. Pois foi…
Eram os tempos do Cavaco e fartou-se de entrar dinheiro neste “canteiro”. Era fácil ganhar graveto, ainda por cima, tinha uns “amigos da corda”, como dizia o meu Pai… (Que deus o tenha…que era galego). Chegava à sexta-feira e a malta tinha um molho de notas na mão – escudos, o dinheiro que havia dantes. Chamávamos ao nosso trio a “Chavalada Brava”… Eu, um moço chamado Toni e outro mais malino, o Chico. Comprámos um Wolksvagen a trielas, ficou em meu nome. Era o mais atinado, até tinha conta na Caixa... Depois, íamos à conquista do Cais do Sodré. Miúdas giras, uma ou outra cena de porrada (nada de grave…) muito whisky, absinto (era proibido, antes do 25 de Abril, mas dá cá uma pedrada que se fica a ver desenhos animados...) charros (era um campeão a enrolar…”Cónicas”! A malta adorava as minhas cónicas: umas perfeitas peças de artesanato fumegante….).
Uma noite, no Jamaica, conheci uma miúda fininha que engraçou comigo. Eu, um tosco dos bairros, ela uma janada de boas famílias das avenidas novas que cheirava a pele lavada e que me olhava com uns olhos redondos, gulosos. Embrulhei-me com ela e, em pouco tempo, já estava em festas na avenida de Roma, nuns apartamentos finos…dos pais, ausentes, claro… Um dia, numa dessas festas, a miúda chamou-me à parte e mostrou-me um pozinho branco em cima de um espelho. “Queres provar?” Foi nesse dia que aprendi a snifar. De snifadela em snifadela, com obras em todas as casas dos amigos dela – uma casa de banho ali, uma pintura de parede acolá. Uma vez gamei um vibrador de uma gaveta. Foi uma galhofa lá no café da Musgueira, com as miúdas todas a querer ver o que era, como funcionava… embora sabendo tudo, claro.
Numa noite de loucura lá no bairro, já com as narinas bem brancas, encontrámos um vizinho na tasca que se lamentava por lhe faltar ferro para acabar de construir o seu barraco, e “como é que iria ser com o Inverno à porta”…  Num gesto de cavalheirismo a “Chavalada Brava” decidiu resolver o assunto e fomos gamar ferro a um estaleiro de uma empresa famosa. Colocámos uma grelha em cima do “Carocha”  e lá fomos estrada fora, na bisga, em demanda das vigas de ferro. Havia um cão maldisposto no estaleiro da empresa… Nada que um bife de alcatra não resolvesse…. E depois, começámos a carregar a grelha do tejadilho com as vigas fininhas de ferro, acho que era viga de 8… ficaram a pender em redondo, muito bem presas à estrutura do carro. Quando achámos que tínhamos as suficientes, alegres ligámos o Wolksvagen. Nesse momento, com a vibração do motor e do movimento, o tejadilho abateu-se sobre nós encarcerando-nos no metal do carro, transformado em gaiola em forma de “V”. Foi uma vergonha ver chegar a polícia e depois os bombeiros (para nos desencarcerar). O pior foi a bófia encontrar o saquinho do pó para o fim de semana…. Até o juiz se riu de nós na audiência. O advogado, que era um estagiário, não nos ajudou. No nosso trio havia o Chico Cigano e isso foi o suficiente para nos olharem desconfiados…ainda por cima da Musgueira! Lembro-me de ter escutado a expressão: “coitados, são uns mitras…” Lá fui parar ao estabelecimento prisional de Lisboa. Perdi o rasto dos outros, e também, da fininha… mas os hábitos permaneceram, pois, lá dentro, não faltava quem me pusesse as narinas brancas e até de outras cores… Só que eu já estava farto daquela cena. Quando a educadora da prisão me perguntou se eu queria fazer o Ciclo lá dentro, aceitei. Até tive uma boa nota… Saí  da prisão com tanta raiva (ainda por cima o Chico disse ao Juiz que era tudo meu -o carro, o pó… - e o cobardolas do Toni calou-se), que decidi mudar de terra. Vim aqui para Tomar. Mas sabe, senhora enfermeira… Eu sou daninho. Sim. Constitui a minha família e tornei-me mestre-de-obras, até acabar por criar a minha pequena empresa. Só agora, em velho, me voltei a desviar. Como o gado : tresmalhado…
Por amor de Deus, a senhora enfermeira não diga nada ao meu filho, que deve estar lá fora a fumar cigarros uns atrás dos outros… pregos para o caixão dele…Já lhe disse.
O Toni, do nosso trio, deu comigo há dois anos. Veio numa excursão a Tomar, junto com uma data de zombies, velhadas da nossa idade, e choquei de frente com ele lá na Corredora. Eu sempre gostei dele, era o mais silencioso da Chavalada. Escutei com atenção a aventura da sua vida – safou-se, como eu. Embora tenha tido a tarefa de o levar em braços pelo centro de Tomar até à pensão onde ficou alojado com outros velhos como nós. Continuava a ser uma esponja. Mas ele é a única testemunha do que vivi – pode provar que tudo é verdade. Passei a ir ter com ele a Lisboa, para os bailes dos Alunos deApolo ou para as matinés da Ribeira. Ficava numa pensão jeitosa e pouco tempo depois ele começou a apresentar-me umas miúdas. Aquilo foi água no deserto para um camelo como eu. A minha mulher achava que ia à capital conversar com os fornecedores… Eu ia, era mesmo para a gandaia! Tinha dinheiro das minhas obras e senti-me rejuvenescer… Enfim… Já passou. Agora sinto-me mal, fraco… se calhar é gripe… Ando fraco…sabe? Quer ver, senhora enfermeira? Apareceram-me umas manchas no pescoço e também aqui no peito. Mas acho que tenho as vacinas todas em dia…

sábado, 2 de setembro de 2017