sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Santiago de Compostela: Biblioteca Inclusiva Leitura e Diversidade


No dia 20 de fevereiro vou participar nas jornadas formativas da Rede de Bibliotecas Escolares da Galiza, na Escola Galega de Administación Pública em Santiago de Compostela onde partilharei o trabalho de mediação do livro e da leitura que venho fazendo junto de alunos com necessidades educativas especiais, através da Laredo Associação Cultural. Este encontro formativo acontece no seguimento da intervenção/projeto Dilfícil Leitura apresentado no Folio/Educa (Óbidos/Portugal) a convite da Curadora Maria José Vitorino (Professora Bibliotecária). Na realidade, tudo começou há 3 anos por iniciativa de Goretti Cascalheira, Biblioteca Municipal de Torres Vedras, lançando as Oficinas improváveis que têm percorrido as bibliotecas escolares do concelho promovendo a leitura inclusiva e a acessibilidade aos livros.Trata-se de um projeto que decorreu durante 2 meses intensos numa biblioteca escolar rural (no meio das vinhas) no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras) e envolveu crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente do perfil autista (severo), crianças das diferentes turmas que se constituíram em tandem para desenvolverem leitura a par  e mediação leitora, 1 professora bibliotecária (figura central em todo o processo), 3 professores de ensino especial e 3 auxiliares de educação e Miguel Horta, mediador da leitura no contexto das necessidades educativas especiais. Este projeto decorreu com grande envolvimento da Rede de Bibliotecas Escolares e da Laredo Associação Cultural e do Agrupamento de escolas de S. Gonçalo (Torres Vedras). O trabalho foi desenvolvido em laboratório, na biblioteca escolar onde foram criadas as condições para o seu desenvolvimento. Apresentámos um conjunto de livros que foram testados pelas crianças e adultos. Um dos objetivos do projeto, para além da pesquisa pedagógica, foi retirar as unidades de ensino especial (multideficiência e autismo) do isolamento que vivem na escola. Por outro lado, interessava-nos clarificar a diferença entre acessibilidade e inclusão, e foi nesse ponto de vista que também pensámos os livros, permitindo a fruição, tanto pela criança autista, quer pelo seu par. Importava mostrar que a biblioteca é um lugar onde cabe toda a gente e que as metodologias não-formais usadas na “casa dos livros” tinham um efeito positivo sobre as crianças, propondo um caminho mais aberto, diverso das práticas correntes do ensino especial no nosso país. Os professores de ensino especial desta escola de Torres Vedras abraçaram o projeto, tratando de adaptar alguns livros a objetivos específicos da aprendizagem da leitura funcional e não só, com assinalável sucesso, relembrando que o livro é uma ferramenta sobre a qual se podem inventar mil e uma formas de mediar, de acordo com o perfil específico dos alunos. Durante o projeto foram desenvolvidos alguns materiais auxiliares ao momento da leitura que pretendem captar o foco e a perceção das crianças mais dispersas. Também valorizámos o empréstimo domiciliário no contexto da sala de ensino especial, mesmo sabendo que algumas das nossas crianças poderiam danificar os livros. Outra decisão deste projeto, foi valorizar o papel das auxiliares de educação, referentes sólidos das crianças especiais (autismo e multideficiência) no interior da escola, como mediadoras de leitura especializada, a par dos docentes e do mediador da leitura. A ida ao Folio/Educa (Festival Internacional de Literatura de Óbidos) foi o ponto alto do nosso projeto – durante um dia, alunos em tandem, auxiliares de educação, professores de ensino especial e o mediador de serviço, partilharam com grupos visitantes (alunos e professores) os livros e a metodologia desenvolvida na escola da Ventosa. Este projeto envolveu toda a comunidade escolar, com especial destaque para os Pais que confiaram na nossa aventura, e aponta um caminho possível para a inclusão, onde a biblioteca escolar desempenha um papel proactivo e central. Na sequência do “Dilfícil Leitura” a professora bibliotecária Joana Rodrigues lançou uma nova ideia de leitura inclusiva no interior da escola, “Ler é ser especial”.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Baleizão em Tábua


No dia 10 de fevereiro o “Baleizão, o valor da memória” esteve em Tábua (Festival Ar - Teatrão), uma terra de que gosto bastante, onde tenho laços fortes na mediação do livro e da leitura. Foi muito interessante ver o Luís Branquinho na sua nova função, à frente do Centro Cultural de Tábua, confirmando aquilo que já adivinham: não faltou nada, da parte técnica à hospitalidade e passando pela capacidade de mobilizar o público de Tábua, com uma forte expressão intergeracional.  Na sequência do espetáculo, preparámos a Oficina da memória, um ateliê de movimento/corpo, desenho e escrita, que resgata as lembranças dos participantes numa partilha criativa, orientada pelos dois artistas. Um momento transversal etariamente, onde jovens, crianças, adultos e seniores, se envolvem como mineiros da memória. Gostei de rever a Ana Cristina que me comoveu na oficina, ao partilhar a sua luta familiar e a minha querida amiga Cláudia Sousa (mediadora do livro e da leitura) veio de Viseu para saborear o seu geladinho Baleizão. E que dizer daqueles jovens de onde surgiram belos textos depois de os termos despertado com olfatos e sabores? Obrigado a Gi da Conceição por ter trazido os seus alunos ao nosso ateliê.  A sala estava muito bem composta, talvez centena e meia de pessoas e a Oficina da Memória, esgotou. Lá estivemos sobre o palco, Aldara Bizarro trazendo as memórias de uma infância vivida em África, e eu levando o Barlavento algarvio até à Beira Alta. Estamos de volta, desta vez a Coimbra (Oficina Municipal de Teatro) no dia 24 de março com a mesma configuração, com uma oficina e um espetáculo.
Fotografia de Gi da Conceição

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Pato e o Samba da Matrafona


Trabalhando o livro "Under the Ocean" sob o olhar divertido e atento das professoras de ensino especial
As oficinas improváveis continuam pelas bibliotecas do Concelho de Torres Vedras. Ontem, eu e a Vera Fortunato estivemos na Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Madeira Torres com uma mão cheia de alunos especiais acompanhados pelos docentes de ensino especial, a professora bibliotecária e uma auxiliar de educação. Formámos um círculo e, ao ritmo do Carnaval de Torres, começámos a partilhar livros e músicas. Não, não foi o Samba da Matrafona, foi “O pato” de João Gilberto. Mergulhámos no Oceano, que é o tema do carnaval deste ano e li "O Samba do peixe-aranha". Lemos ao ritmo do samba: António Torrado, Vergílio Alberto Vieira e o meu “Rimas salgadas”. Fomos à praia com Suzy Lee (“a Onda”) e o livro Pop-up “Under the Ocean” (Anouck Boisrobert e Louis Rigaud - Tate/Londres). No final, lemos a par o poema “Devagar e depressa” de António Torrado (“À esquina da rima, buzina”) e fechei a sessão cantando “A vida do marinheiro”, já que alguns alunos se vão mascarar de marítimos…
Cá em casa, é o que estamos a escutar por estes dias...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

The poetry-making machine


Versão em português da Màquina da Poesia, aqui
At the beginning of every workshop, the monitor should challenge the participants that they too will become poets by the end of the session. Of course, there will be looks of disbelief to such statement. But this works as a starting point for presenting them the “poetry-making machine”, drawn upon a large blank paper sheet, supposedly a “very complex mechanism”. It consists in a large rectangle, divided in 4 “mechanic parts” (being the third column is itself subdivided), as shown:
           
Then, the participants are asked “With what can we build a poem? What  commodities can we make use of? What are the source materials for us to work poetry with? What fuels this machine?” And, the answer should be “Words! Of course! An input of words is necessary for it to work!”
Each participant is asked to introduce a word (nouns, names, characters, spaces, objects...) in the first column (1). The monitor gives an example with the noun “word”, and then follows with “poet” and “idea”, and writes them on the paper with a large marker. Each participant writes in the columns until it is full.
 Then, the monitor explains that the second column (2) will be filled with verbs, the third (3A) with words form the same category as the first column, the fourth (3B) will be filled with abstractions and concepts (such as wisdom, love, courage, taste, intelligence...), and the final column (4) with adjectives. Suggestions are taken from each participant until the “machine” is full.

           
Now, the monitor should give an example, using the “machine” to create a somewhat poetic sentence, taking a word from each columns. For example “A cat a friendly darkness dreams”, or “Poets kiss a secret book”, and so on. The participants are encouraged not just to follow this pattern of collecting and rearranging, but also to try different and unusual wording combinations, even if they sound weird. They can change the articles, the verb moods, tenses and voices, as well as introduce prepositions. It must be made clear that the columns sequence does not have to be the chosen order for the words in each sentence, and that rhyming is not necessary for poetic creation.
The monitor should observe and support the participants when writing sentences, helping them and suggesting words, and encouraging those with manifest difficulty and poor language skills. Support can be given by explaining simple solutions, such as deriving and adjective form a noun or vice versa (for example “Wisdom → wise”). At this point, is very important that the monitor mingles with the participants, with enough sensibility and empathy to diagnose those whose difficulty with grammar and vocabulary forces them to voluntarily refrain from actively participating. Our experience suggests that it is of the utmost importance to take some time with a participant, for example, to explain the correct orthography of a word, or to show the correct use of a verb tense or mood, for it may help them overcome a particular difficulty and improve their self-esteem.
In the end, the five best sentences from each participant should be chosen by the monitor, to be read out loud. At this point, the images and metaphors evoked by the texts should be underlined as the main product of the “machine”, regarded as the main characteristic of the poetic genre. “You do not have to rhyme, just imagine what can you draw with your minds!”

Three further exercises are introduced to the participants. First, the sentences are grouped by common words and themes. “Who wrote verses with dolphins?”, “Who wrote sentences with the word Love?”, the monitor, for example, can ask. The selected sentences are collected and ordered as verses in a poem, and read out loud, to show the unexpected coherence for a collective poem. Then, a Japanese Haiku work is read. Usually someone notices how close they are to the verses they have created. The purpose of this second exercise is to confirm them that they have, in fact, made poetry. At last, the participants who did not enjoy writing are challenged to illustrate what they think are the best poems and verses from the workshop. 
Sometimes I blindfold the participants and prove that they are able to write poetry even with their eyes closed

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Maré de Histórias em Dois Portos


Este ano o tema do Carnaval de Torres Vedras é o Oceano; todas as escolas do concelho foram convidadas a participar. O Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo juntou-se à proposta convidando-me a trazer o Mar para dentro da Biblioteca Escolar, com a “Maré de Histórias”. O meu livro “Rimas Salgadas” tem estado em destaque. Os alunos da Ventosa vão ao Carnaval vestidos de estrelas-do-mar cor-de-laranja – ficam lindíssimos. Em cada sessão com os alunos da escola nunca me esqueço de dizer (cantando) o poema “Onde nascem as estrelas?”.
Já com na Escola Básica de Dois Portos o caso é diferente: escolheram os Lobos do Mar como tema da fantasia que vão levar à festa. Na sexta-feira estive lá na escola com o “Rimas Salgadas” e não só. Gostei muito de trabalhar na biblioteca escolar daquela escola acolhedora… Levei comigo um lindo livro de pano, “O Senhor Mar” da Bru Junça, feito para um poema "História do Senhor Mar" de Matilde Rosa Araújo (O Livro da Tila). (Em todos os grupos da escola, apenas dois meninos tinham visto livros de pano...)
História do Senhor Mar
Deixa contar…
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda…
Com muita onda…
E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe…

Gostei de todas as sessões, mas há uma que não vou esquecer – a que fiz com os meninos e meninas do jardim-de-infância, à volta de uma mesa. Comecei folheando o livro da Bru enquanto ia dizendo o pequeno poema. No final um menino pediu: conta outra vez! E lá contei com a minha pequena assistência baloiçando-se ao sabor das ondas da poetiza. Depois tratei de dizer cantando os meus poemas. Peguei num lápis e desenhei peixes e mais peixes. Para os meninos e meninas do 3º e do 4º ano desenhei um Lobo do Mar com um papagaio no ombro e um cachimbo na boca! O livro da Bru fez-me sempre companhia, com ele na mão, encerrei todas as sessões cantando “Vou-me embora vou partir mas tenho esperança”…

sábado, 27 de janeiro de 2018

A maré vai subindo na Ventosa...

25 de janeiro
A maré de histórias subiu ontem na Biblioteca Escolar da Ventosa (Torres Vedras. Primeiro com as crianças e depois com a comunidade numa sessão de conto e poesia muito participada e descontraída. Estava uma sala muito bem composta, o que dá a justa imagem do trabalho de qualidade desenvolvido pela professora Joana Rodrigues (RBE) em prol do livro e da leitura. Foi precisamente neste Centro Escolar que decorreu o Projeto “Dilfícil Leitura” que levou ao Folio/Educa o nosso trabalho com as crianças autistas e outras fantásticas crianças diferentes, mais os seus pares, numa ideia afoita, desenvolvida por todos, mediador do livro e da leitura, professores de ensino especial, professora bibliotecária e auxiliares de educação. Dando continuidade à nossa ideia, na perspetiva da leitura a par, a professora bibliotecária iniciou um novo projeto inclusivo, batizado de “Ler é Ser Especial” que irá aprofundar a leitura em tandem, em estreita colaboração com os docentes de ensino especial. Está prevista a minha participação… Logo vos direi.
um grupo de crianças corajosas

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Educar na desordem

Clara Andermatt e Mickaela Dantas numa fotografia de Alípio Padilha 
Tive o prazer de assistir a um ensaio aberto do espetáculo/projeto “A Educação da Desordem” da Companhia Clara Andermatt no estúdio da ACCCA, junto de muita gente que não conhecia do meio da dança. Foi muito interessante escutar a troca de opiniões entre profissionais. No palco, Clara Andermatt e Mickaella Dantas. Percebemos logo que está a nascer um espetáculo coerente, muito bonito (estético) e corajoso. Está em palco uma coreógrafa que reflete, falando e dançando, sobre o processo criativo com uma bailarina. Talvez procure a sua imagem refletida na outra mulher que ali dança… E que jovem mulher, aquela … Mickaella Dantas, que vem fazendo um belo percurso pela CandoCo Dance Company (Londres). Percorre o espaço metamorfoseando-se perante o nosso olhar incauto. Deste diálogo entre as duas mulheres, vão surgindo momentos de rara beleza, onde os sentidos da normalidade são traídos e seduzidos pelo objeto artístico que se vai construindo, pouco a pouco, em palco. Não sei porquê, ou não sei explicar bem, mas quando Mickaella começou a dançar deitada sobre a mesa, com aquelas calças reluzentes ao som de Tom Jones, lembrei-me da figura da contorcionista, fazendo a sua prestação sob os projetores de um circo de província, algures na minha infância.
Assim nasce um espectáculo. Obrigado.