sexta-feira, 24 de abril de 2015

Estrada fora, na carrinha dos Cabeçudos...

Pois ontem foi o Dia Mundial do livro e lá andei pelas estradas da região saloia na carrinha da Livraria Cabeçudos. Tudo bem…Rui, o meu condutor/livreiro, é atento à estrada e à conversa…por sinal de grande qualidade. Lá estivemos com as crianças da Carvoeira e da Silveira em animadas sessões, algumas bastante filosóficas. Gostei sobretudo da conversa sobre o amor que surgiu na escola básica da Carvoeira. A certa altura o tema passou a ser “o que devem os autores escrever para as crianças?”. As opiniões dividiram-se, autónomas, num conhecimento expresso que Agostinho da Silva entenderia bem ao deparar-se com estas meninas e meninos sábios… E quem seria capaz de imaginar 100 crianças muito atentas e bem comportadas escutando um escritor/ilustrador sentadas no chão do Centro Paroquial da Silveira? Assim se reconhece, nas duas escolas, a qualidade do trabalho desenvolvido pelos docentes. Este périplo por terras de Torres Vedras teve como tema o meu livro “Dacoli e Dacolá”. Como sempre, fiz o meu acordo: Vocês perguntam e eu também vos ponho questões. Afinal os escritores também servem para fazer pensar… 
Cada grupo desenho a personagem "Mariazinha" à sua maneira...
Lindos estes desenhos a partir do conto "A menina que escutava as pedras"
Fazendo uma ilustração ao vivo...

segunda-feira, 20 de abril de 2015

100 anos sobre o genocídio do povo Arménio

Autorretrato com a mãe - Arshile Gorky
Como o tempo passa depressa… Há dois anos atrás, lembro-me de ter tirado uma fotografia com a minha mãe para enviar ao meu pai que estava na América, aqui mesmo, junto ao mercado de Van. Nunca tinha visto um fotógrafo... uma máquina de fole, cenários pintados. Eu, com o melhor fato que tinha, flor branca na mão, apanhada nos campos que encimam a cidade. Ela trouxe as suas vestes antigas - da tua avó! – explicou-me enquanto ajeitava o meu casaco para a pose. Um clarão e ... já está! E carta lá seguiu pelo correio... Hoje, as ruas estão apinhadas e alguns homens discursam inflamadamente no mercado; os seus olhos estão pintados com o medo. Os soldados russos espreitam nervosos: Van terá de ser evacuada e Yerevan fica tão longe…9 dias de marcha.

sábado, 18 de abril de 2015

Miríade de histórias

"Esta visita é o culminar de um trabalho colaborativo desenvolvido, ao longo de três meses, pelo Serviço Educativo do Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Escola da Ponte, em parceria com a Laredo, intitulado Miríade de Histórias. No lugar de sermos nós, profissionais da educação artística em museus, a ensinar como ver arte contemporânea, pedimos às crianças e adolescentes que participam neste projeto que, através dos seus olhares em formação, nos mostrem como ver de outro modo, sem medo de errar, transportando-nos pela experiência que o encontro com cada obra de arte pode desencadear. Queremos aprender a ver com quem nos visita." (mais aqui)

Se um incauto visitante de museus chegar a Serralves no próximo domingo de manhã, o mais certo é que encontre um grupo de crianças orientando a visita e propondo outras leituras, pelos olhos da infância. Se tudo correr como se espera, as galerias de exposição terão pequenos grupos de alunos da Escola da Ponte mostrando, num domingo, o fruto das suas pesquisas e opiniões nascidas do projeto “Miríade de histórias”, proposto pela Laredo associação cultural. É profundamente inspirador, reconhecer que a descoberta de sentidos e interpretações sobre a coleção do Museu de Serralves foi feita num ambiente de liberdade e pesquisa autónoma proposto por esta escola de referência para todos quanto acreditam que é possível mudar o futuro através da educação. Joana Macedo tem sido o motor (incansável) para esta ideia que também tem como mediadores de serviço Miguel Horta e Susana Tavares, ainda com a presença sábia da Maria José Vitorino que, em Lisboa, nos ajuda a refletir e a organizar o corpo das ideias. Desde o primeiro momento, sentimos o apoio e o envolvimento do Museu de Serralves, expresso pela presença constante de Liliana Coutinho ao longo dos momentos em que o projeto se desenvolve, abrindo as portas do museu a esta iniciativa singular. Ao logo da construção da ideia, lembrei-me sempre de Elvira Leite e da sua “filosofia de projeto” impressa nas iniciativas de Serralves. Tudo isto começa pela ideia, animada pela Joana Macedo que desenvolveu a sua prática pedagógica, também, pela Escola da Ponte. O modelo pedagógico da escola é claramente concordante com a linha de orientação dos Mediadores Culturais da Laredo. Em pouco tempo a ideia estava delineada, tendo sido abraçada pela equipa educativa de Serralves e coordenadores pedagógicos da Escola da Ponte. Os protagonistas, esses, são os alunos da “consolidação” (C2 - um dos três patamares/núcleos de aquisição de conhecimento existentes na escola da Ponte), pequena gente distinta e de opinião própria numa composição inclusiva que muito nos toca. Num primeiro contacto com o museu de Serralves, numa vista (mediada) orientada por Miguel Horta e Joana Macedo, as crianças conheceram o museu e visitaram as obras patentes na exposição “O processo SAAL” que continha um núcleo de peças da artista Ângela Ferreira. Tiveram, também, oportunidade de conhecer a obra de Monir Farmanfarmaian e as suas esculturas recolectoras de luz. Logo ali, foi claro para os mediadores que a questão da arquitetura tinha despertado um interesse especial entre os alunos. Depois fomos seguindo o evoluir do debate e da dinâmica própria da “Ponte”, onde cada criança pede a palavra e tem direito a um silêncio ouvinte, contribuído para a construção límpida das ideias, aprofundada em pequenos grupos de trabalho. Trata-se de um exercício do tempo com qualidade, a lembrar a forma como os artistas constroem as suas obras no coração do ateliê. Nessa vista à escola reconhecemos discretamente alguns ecos da ida ao museu do Porto.
Com os alunos na escola da Ponte
Tem lugar nova ida ao Museu de Serralves, nova visita mediada, desta vez por Susana Tavares e Joana Macedo, com a intenção de apresentar aos alunos outra exposição como ponto de apropriação coletivo para uma posterior partilha. A exposição escolhida foi “Arquitetonização” de Mónika Sosnowska (Polónia). Gostei, particularmente, do recurso escolhido pelas duas mediadoras ao propor a construção de óculos (mágicos) para que o olhar sobre as peças fosse novo, inventando momentos de interpretação dentro do museu. Passou o tempo necessário para o germinar das ideias e regressámos á escola. Nem sei bem descrever aquele encontro na sala das expressões onde refletimos todos, alunos, professores e mediadores, numa situação de horizontalidade absoluta, sobre aquilo que vamos fazer no domingo. Escutámos histórias escritas a partir das obras expostas e opiniões das crianças sobre aquilo que sentiram em contacto com o trabalho de Mónika Sosnowska. A partir daqui, devo guardar segredo e não contar mais nada sobre aquilo que vão encontrar no museu de Serralves no próximo domingo, a partir das 11h. São todos bem-vindos!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Corpo das ideias: o autorretrato



Na Secundária de Santa Maria (Sintra), iniciámos uma nova fase do projeto “Corpo das ideias” abordando a questão da identidade, de braço dado com os adjetivos que nos caracterizam. A manhã foi ocupada com o autorretrato e a construção de um retrato escrito utilizando a ferramenta Tagxedo (on line). Os alunos estão entusiasmados. Como não poderia deixar de ser, também conversámos sobre a vida a partir do livro “Vir ao mundo” (Emma Giuliani)…Há sempre um livro nas nossas sessões!

domingo, 12 de abril de 2015

Sussurrar poesia em Fitares/Rinchoa

Desarrumando a biblioteca escolar com a "Máquina da poesia"
Sou adepto dos projetos em continuidade, aqueles que lançam práticas "duradoras para o futuro. Vem este curto desabafo a propósito do projeto “Leituras diferentes” que decorre no agrupamento de escolas escultor Francisco dos Santos (Rinchoa/Fitares), resultante de uma candidatura da unidade de ensino especial a uma medida financeira disponibilizada pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra, que vem acompanhando ativamente a problemática das necessidades educativas especiais no tecido escolar do Concelho. Este é já o terceiro ano de intervenção e convívio com os docentes de ensino especial no agrupamento. Já houve tempo para errar, para refletir e ousar novas ideias, sempre na perspetiva da inclusão. Uma das nossas ambições é a difusão de algumas metodologias aplicadas com os alunos especiais junto de turmas consideradas “normais”. Ao mesmo tempo, ao intervir ativamente na escola, não só queremos mudar mentalidades com, também, combater o isolamento pedagógico do nosso trabalho especializado no contexto da comunidade escolar. Sendo um projeto de mediação leitora com alunos diferentes, queremos envolver, cada vez mais, a biblioteca escolar, por a considerarmos um recurso precioso no todo da escola onde é possível lançar mão de metodologias não formais- não se lê em profundidade por obrigação e é necessário um tempo e um espaço para que a leitura faça sentido. 
Os sussurradores na biblioteca escolar
No início do ano, lançámos a “Máquina da poesia”, funcionando a par com a ferramenta “sussurrador”. Pelo meio temos realizado sessões de mediação leitora junto dos nossos alunos especiais da unidade, um 5º ano inclusivo e uma turma de PCA (curricula alternativos). Gosto tanto de ver os docentes entusiasmados com estas ideias – os jovens estão a escrever! Nada disto seria possível sem o empenho evidente dos professores. Falta-nos, ainda, implementar o empréstimo domiciliário ativo junto dos nossos jovens com menos elasticidade social e dificuldades cognitivas. Afinal, a biblioteca é a casa de todos os leitores, diferentes como só um leitor sabe ser.
 Comemorando o Dia Mundial da Poesia, os nossos alunos invadiram a escola sussurrando pequenos poemas da sua autoria aos ouvidos da comunidade escolar: percorreram corredores, entraram na secretaria, no refeitório, até a Cristina, a diretora do agrupamento, teve direito a um poema personalizado. Uma palavra amiga e reconhecida para outros professores, sobretudo de expressão plástica, que contribuíram para que os sussurradores fossem feitos com os dedos da imaginação. Uma sugestão aos professores de português: experimentem a nossa “Máquina da poesia” (nós explicamos como funciona), vão ver que os vossos alunos serão levados à escrita poética de uma forma fluida. Já agora…não têm curiosidade de saber que livros estamos a usar junto dos nossos leitores? Pois, perguntem na biblioteca escolar.
a professora Cristina teve direito a uma sussurradela pessoal

terça-feira, 7 de abril de 2015

Leituras diferentes

Foto de  Lurdes Cara D' Anjo
Mais uma sessão do projeto “Leituras Diferentes” na EB2.3 Escultor Francisco dos Santos, com o 5º ano da professora Florinda. O regresso às aulas começou com o dois livros: “Vir ao mundo” de Emma Giuliani (um belo livro de primavera) e “Mais” de Peter Schössow (um livro cheio de vento). O desafio do dia foi a escrita imaginativa usando um jogo de dados “Story cubes” como pretexto para a criação de histórias (faz lembrar o efeito de “A arca dos contos”), E funcionou – uma boa ferramenta! 

domingo, 5 de abril de 2015

A Grande invasão!

Como posso saber se a areia da minha praia está limpa?
Ana Pêgo conduzindo algumas experiências no jardim Gulbenkian
Terminou a oficina “a grande invasão” (oficina do programaDescobrir/Gulbenkian) em torno do perigo do lixo marítimo, com espaço para o transformar em obras de arte. Uma semana alegre, sem aquela educação ambiental escolarizada; os conceitos ficam lá todos, enquanto se derrete o plástico para uma pregadeira ou se prepara uma capa para o caderno de registos aproveitando velhos sacos de plástico. Gostei de ver as crianças de volta do enorme monte de lixo recolhido na praia (pela Ana Pêgo), identificando a origem, contando, tirando conclusões. Esta oficina viveu muito do espírito criativo da bióloga Ana Pêgo, que arrisco a apelidar “mediadora do mar”: emprestou toda a sua energia criativa e crença à causa do mar, passando esse espírito às crianças que conviveram connosco ao longo destes dias. Desta vez tive uma presença mais discreta, apoiando a concretização plástica dos objetos; pelo caminho, também aprendi e fiquei ainda mais consciente da presença nociva dos plásticos na nossa sociedade. Obrigado Ana.
 Ficaram lindas as pregadeiras
 feitas com o plástico encontrado na praia!
Um terrível tubarão
 prepara-se para devorar um peixinho amarelo
Nos cadernos de registo,
 ficaram umas histórias bem divertidas
 escritas a partir de criaturas inventadas com plástico abandonado.