domingo, 1 de maio de 2016

Formação: mediação leitora em bibliotecas e doença mental


Objetivos
  • Sensibilizar os técnicos das ONG para a importância e o papel das bibliotecas como veículos de educação não formal, potenciadores de inclusão social;
  • Sensibilizar para a importância do livro e da escrita como formas da valorização do individuo e para a criação de novas autonomias;
  • Sensibilizar os formandos para a importância, na doença mental, da promoção da autonomia em todos os espaços e contextos.
  • Identificar os conceitos de mediação leitora e  escrita imaginativa  como instrumentos de qualidade na promoção do acesso ao conhecimento;
  • Identificar metodologias de aplicação da mediação leitora adequadas aos públicos visados;
  • Identificar instrumentos para aplicação da mediação leitora;
  • Analisar instrumentos criados com vista à sua melhoria e adequação aos públicos e e contextos;
  • Promover a acessibilidade à informação e ao conhecimento a todas as pessoas com vista à sua participação e ao seu desenvolvimento. 
Conteúdos programáticos
  • A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – art.º 3º e 4º
  • Conceito de mediação leitora
  • O papel das bibliotecas na deficiência mental e reabilitação
  • Diferentes metodologias de aplicação da mediação leitora
  • Doença mental - promoção da autonomia e respeito pela individualidade
  • Conceito e papel da escrita imaginativa
  • Metodologia de aplicação: exercícios práticos
  • Apresentação de atividades práticas: poesias, livros e livros de imagens
    • Leitura e apresentação
    • Formas de manipulação de livros
    • Fatores de seleção de livros
    • Objetivos na seleção de livros
    • Realização de ficha de trabalho para exploração de livro
  • Apresentação de curtas-metragens
  • Sessão prática de seleção de livros e preparação das metodologias mais adequadas para a sua comunicação aos públicos visados
  • Análise das propostas e fichas de trabalho elaboradas
  • Sessão de apresentação de livros e debate sobre os resultados 
Destinatários
.    Técnicos envolvidos em atividades de bibliotecas e de serviços/centros de documentação de ONG da deficiência;
.  Técnicos de bibliotecas dos serviços da Administração Pública Central, Regional e Local;

Nº máximo de formandos – 18
Nº de horas/ação: 12h
Formador/ação: Miguel Horta
Local de formação: Lisboa
Instituto Nacional para a Reabilitação . Mais informação


sábado, 30 de abril de 2016

Paulo Varela Gomes


À medida que vão desaparecendo as pessoas que nos marcaram, referentes luminosos de quem gostamos, vamos ficando cada vez mais sós nesta caminhada. Obrigado Paulo.
Em baixo, um artigo escrito pelo Paulo no Jornal de Letras em Março de 1985 a propósito da minha exposição Alcantis e fragas (Galeria Novo Século)

terça-feira, 26 de abril de 2016

Desenhar com a luz num espelho só meu

Desenhando com a luz das lanternas em frente ao espelho: brincadeira simples com meninos e meninas autistas.
 Numa das nossas oficinas dedicadas ao corpo (“Espelho meu” – programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian) eu e a Margarida Vieira deparámo-nos com dificuldades inesperadas com um grupo de crianças do espectro do autismo que tinham vindo para a nossa oficina – Estava a ser muito difícil focar a atenção e o grupo comportava-se de uma forma fragmentada. Para além de existir um “ruído” permanente por parte de uma assistente operacional responsável (1) pela sala, que insistia em agarrar as crianças mais difíceis, lançando a voz sobre os responsáveis da oficina no CAM, numa atitude de afirmação territorial sobre as crianças - não estávamos a conseguir aquela nossa magia habitual de comunicação. Para conseguir criar um grupo, embora solto, recorremos ao paraquedas (ver aqui, apesar de ser uma publicidade…) e “neutralizámos” a senhora desviando a criança dos seus cuidados, que logo aproveitou para percorrer a sala livremente, parando de vez em quando (por pouco tempo) para participar feliz na proposta. Recomendámos aos participantes adultos que respeitassem a voz da Margarida para não haver sobreposição de instruções, garantindo uma imagem clara de liderança (“loba alfa”) e emissão de uma comunicação sem ruído. Cedo se entendeu que poderíamos encontrar um caminho para a focagem e subsequente trabalho em torno do desenho, usando recursos simples e de fácil perceção. É então que entra aqui a atividade “desenhar com a luz”, em frente ao espelho, pedindo às crianças que, na penumbra da sala, rodassem uma pequena lanterna (cabe na palma da mão) criando formas geométricas. Mostrei ostensivamente que iria fotografar o resultado. É conhecido o interesse de crianças autistas pela tecnologia, a existência de botões intimamente ligados à causa/efeito. Cada vez que faziam um desenho com a lanterna em frente ao espelho, mostrava o resultado no visor da máquina fotográfica. Alguns meninos e meninas entenderam bem a ideia, outros permaneceram no seu mundo apesar dos esforços da margarida - ainda não foi desta… Aqui fica o relato da prática. Talvez vocês com “os vossos meninos/as” possam usar este recuso, partilhando connosco os resultados.
lanterninhas da "loja do chinês" - Cabem na mão e são baratas. 
Atenção: é preciso ter algum cuidado com a intensidade da luz característica da tecnologia LED. 

(     (1)   Tenho vindo a conhecer assistentes operacionais fantásticas que intuitivamente acabam por fazer “manobras” descritas em metodologias de trabalho com autismo de uma forma completamente natural, mas permanece, no geral, a imagem da assistente operacional acima descrita, a par de um outro tipo (igualmente comum nas nossas escolas) a da avozinha, cheia de pena que cobre os coitadinhos de beijos. Efetivamente, é cada vez mais urgente disponibilizar momentos de formação ativa junto destas pessoas nucleares na textura da escola; afinal são elas que acolhem os meninos logo de manhã e garantem todo o ciclo da rotina prática no estabelecimento escolar. 

sábado, 23 de abril de 2016

Da Liberdade e do Medo

Contando a história de "Graco"
A minha amiga Maria Teresa Sá desafiou-me para falar sobre a Liberdade e o Medo no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – uma honra... Partilharam a mesa o Professor João Seabra Diniz a Sílvia Madeira, professora e animadora cultural (sobrinha do nosso Francisco Madeira Luís) com moderação da Drª Rita Marta. A imagem de fundo escolhida para este encontro foi baseada em “Pássaros” de Alfred Hitchcock e a sala estava cheia de… gente douta. Mas lá entrei no tema a que me tinha proposto com uma história, pois claro.
“Certo dia voltava eu da escola, quando uma gralha negra como a noite me saltou à frente justamente no carreiro ladeado de estevas que levava a minha casa, vindo da aldeia. A bicha saltitava na minha frente, até parecia que queria falar comigo. Aos saltinhos, de um lado para outro e eu sem entender nada daquelas revoadas. Baixei-me e agarrei uma pedra que arremessei direto ao alado animal. Mas não lhe acertei. A gralha levantou voo, deu duas voltas no ar e voltou a poisar ali, de novo à minha frente, trocista, saltitando no carreiro. Lá estava a ave negra a saltitar ali na minha frente como que a gozar comigo. Discretamente procurei um outro seixo… senti-lhe o peso. Peguei na pedra e, lesto, atirei-a certeira! Zás! Diretamente na lombeira do pássaro. Acertei-lhe! O animal ficou a esvoaçar na poeira do carreiro…tem uma asa partida – pensei. Peguei nela e coloquei-a na minha lancheira de vime, onde se ficou a debater furiosamente. “Tá quieta, negra criatura…”Nessa noite deitei-me cedo e levei a lancheira com o bicho para o meu quarto. Mas a meio da noite comecei a ficar com febre, arrepios alastrando pelo meu corpo suado. Estou doente – Pensei – É por causa da gralha! Pois…é uma bruxa… A ave negra só pode ser uma bruxa! Levantei-me cheio  de tonturas pegando na lancheira de vime - o animal ainda se mexia dentro dela… Abri silenciosamente a porta do monte para não acordar os meus pais e aproximei-me do barranco fronteiro ao nosso monte. Abri a cestinha de vime… e soltei o negro animal que voou misturando-se na escuridão. Voltei para o meu quarto cambaleando e deitei-me num torpor profundo mas agradável, dormindo como um justo. A febre, a doença passou, como por magia… Mas ainda hoje sonho que o pássaro negro atravessa as paredes do meu quarto para me vir visitar.” (Miguel Horta in “Graco”. Contado a primeira vez no Centro de Arte Moderna na performance “Eisen”, sobre a obra de Rui Chafes). 
Como falar do medo e da liberdade é coisa séria, propus ao nosso grupo de leitura e escrita do projeto “Leituras em Cadeia” (Laredo Associação Cultural) uma reflexão sobre o tema. Acorreram 12 mulheres à sessão promovida por mim e pelo professor Luís Dias (“Âncora” do projeto) na Biblioteca Prisional do pavilhão A do EP Tires. Recolhemos, assim, uma serie de opiniões que partilhei no Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Aqui ficam alguns medos numa conversa que nem sempre foi fácil – o tema dos medos relacionados com os filhos foi bastante duro.
Os detalhes são importantes: à porta da prisão ficou a mala com a tristeza e a moça leva agora a alegria na mão.
“Faltam 58 dias para a minha Liberdade. Finalmente vou regressar à Colômbia. Tenho medo que não exista lá ninguém para me receber. “ Tenho medo que a família não me perdoe – diga que sim, mas no íntimo não aceite.”
“Tenho medo que o meu companheiro queira começar de novo. Outra vez aquelas mãos sapudas…e aquela vidinha.” “tenho medo de perder os elos, os afetos.” “Nós aqui estamos privadas de ir e vir.” Mesmo presa tenho situações de Liberdade.” “A minha vingança é gozar a total Liderdade do meu pensamento.” “Cada um deve saber gerir a Liberdade mesmo num universo limitado.” “Liberdade é Vida! Liberdade é medo.” “Tenho medo do que possa fazer dentro daquela cela! Já não a posso ouvir a choramingar. As noites na prisão são longas…” “Tenho medo de ficar livre” “Tenho medo da escolha – cada escolha traz consigo uma consequência.” “”Estou aqui porque não soube ser livre. Não fiz escolhas, deixei-me ir nas escolhas dos outros.” “Há pessoas que não sabem gerir a Liberdade” “Medo de reincidir.” “O Miguel não traga para aqui os filhos juntos com o medo – pode ter consequências terríveis! Olhe que eu saio da sala…” “Medo de não ter tempo” “Medo da morte. Medo da morte dos outros. Medo do sofrimento. Medo do sofrimento que possa causar aos outros” “A proximidade com a morte torna-a mais familiar – acaba com o medo”. Depois disto contei o “Jack e a Morte” (recolha de Tim Bowley).
Lembro-me como foi difícil juntar e interessar um grupo de reclusos crioulos e ciganos na cela/biblioteca da ala F (muito complicada…) do EP Lisboa (Projeto "A cor das histórias") – foram eles que me ensinaram o caminho…. Um dia li um conto de Borges, do livro “Aleph”, onde dois adolescentes lutam até à morte depois de terem retirado de um armário (a coleção do pai) duas navalhas amaldiçoadas pelos espíritos dos seus antigos proprietários, rivais sanguinários. Os moços ciganos adoraram o conto. “AAAiii senhor professor! Até arrepia…” Percebi que este grupo específico tinha um gosto especial por histórias com almas penadas: gostavam do Medo. Deixo-vos aqui uma canção de Lenine (músico Brasileiro) “Medo – Me dá medo do medo que o medo me dá”

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Miríade de histórias" no Museu de Serralves - 2016

No próximo dia 24 de abril 
(entre as 11h. e as 12.30h.)
os visitantes do Museu de Serralves
serão surpreendidos por três grupos de jovens estudantes da Escola da Ponte
que por um dia serão Mediadores de Museu
convidando a percursos distintos e incomuns pela coleção Sonnabend.

Joana Macedo com os alunos da "Ponte" durante a visita à exposição "No limiar da visibilidade" de Wolfgang Tillmans
 É assim Abril época de reflorescimentos que tornam mais vivível o mundo que habitamos. Refiro-me ao projeto “Miríade de histórias”(2ª edição) que conclui a sua viagem no dia 24 de abril e, também, ao nascimento do Lucas, filho da Joana Macedo, grande impulsionadora da Laredo Associação Cultural na cidade do Porto. O projeto propõe uma "inversão de papéis” ativa, na qual os alunos participantes entre 12 e 15 anos atuam como mediadores de museus, mas o fazem a partir de seu próprio olhar, do engendrar de sua própria forma de ver e comunicar a exposição. Desenvolvido entre o Museu de Serralves, a Laredo Associação Cultural e a Escola da Ponte, o projeto contou com encontros ao longo de três meses nos quais foram realizados oficinas, debates e encontros nas exposições do Museu. O trabalho desenvolveu-se a par, Miguel Horta e Joana Macedo mediadores da Laredo e Rita Roque e Andreia Coutinho pelo Museu de Serralves; propondo, escutando, comunicando e registando toda a energia coletiva da escola da Ponte. Um belo trabalho do “Educativo”, como costuma dizer Denise Pollini que coordenou ativamente o desenvolvimento desta  ideia a par da Joana Macedo. Uma palavra de apreço para a Francisca Monteiro, Rosa Ângela e Alexandra Ferreira, professoras da Escola da Ponte que souberam acompanhar a viagem reflexiva dos alunos, num espirito colaborativo e inclusivo, característico desta escola de referência do Movimento da Escola Moderna. Obrigado, também, à Diana Cruz pela paciência e empenho na produção desta iniciativa pedagógica. Obrigado a Maria José Vitorino que, pela Laredo, esteve sempre atenta aos detalhes de produção desta aventura nos museus. 
Estão todos convidados, sobretudo os nossos colegas de outros museus, que poderão assim acrescentar reflexão ao debate que vimos fazendo sobre o devir dos museus.
Primeira edição Aqui. Obrigado Liliana Coutinho pelo impulso inicial do projeto!
Miguel Horta e Rita Roque no Museu de Serralves (Exposição "No limiar da visibilidade")

Porto - 22 de Abril - Casa Museu Abel Salazar


Mediar pessoas na casa da Pessoa.
Contributos para uma programação de proximidade
Recomecemos por Utopia, sim, pela ilha que tanto almejamos e poderia bem representar uma casa museu perdida numa malha urbana ou no centro de uma aldeia cercada por bosques. No livro de Thomas Moro a fantástica Utopia é de difícil acesso quer devido a condições naturais quer artificiais. De nada nos serve encerrarmo-nos no nosso conciliábulo perfeito, que até dispõe de um dialeto inventado (talvez o Musês) que apenas serve para alimentar os nossos monólogos criativos. Era bom ter alguém com que falar… Pois bem vamos cumprimentar o vizinho. Este pode ser um bom princípio para a construção de uma programação de proximidade. 

Projeto Columbina 2016 - Beja