quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

10x10: As rochas não são só calhaus!

Iniciando as aulas em círculo, um forum que desarrumou a sala de aula
Está aí o Projeto 10x10 (descobrir/Gulbenkian)! Estou a trabalhar com a Ana Pereira, professora de Geologia/Biologia da Secundária D. Dinis, com uma turma do 10º ano. Geologia, matéria agreste a um primeiro olhar, mas que será a matéria prima dos próximos meses. Ao fim da segunda sessão, já vou conhecendo a turma. Imaginem que há duas aulas que me tento apresentar e falar de mim. Mas a cada coisa dita ou apresentada surge logo um motivo de conversa em torno da matéria (não em cima dela)… E lá vamos relacionando o vivido com o conteúdo das aulas, sempre em círculo, uma espécie de fórum onde paramos a cada dúvida. Fartamo-nos de fazer perguntas. Há sempre uma dinâmica no início da aula: primeiro foi um acróstico com as características de cada um de nós. Depois uma pergunta: “Se fosses uma rocha que rocha serias? “. Cada um falou de si, mas também da matéria. Existe uma misteriosa esmeralda, dois granitos distraídos e o útil petróleo… Mas afinal qual é a diferença entre um mineral e uma rocha? – Alguém perguntou. A professora não responde, sabe que a resposta surgirá naturalmente, na próxima aula – ficámos a pensar… À conta deste projeto, voltei a estudar o nosso planeta e embrenhei-me nas mais profundas investigações que apenas geram mais e mais perguntas, a par do espanto neste reencontro com a natureza telúrica da nossa orbe. Hoje foi dia da Micropedagogia Drummond de Andrade… Distribuí a todos o poema “No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
Depois começou o jogo. Cada um repetiu os dois versos iniciais, acrescentando uma pergunta no final.
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Que pedra era?
E tinham de responder o nome de uma rocha antes de lançarem o desafio a outro colega. Quem errar ou não se lembrar do calcário, do basalto ou da obsidiana, (…) sai!
O ponto alto do debate foi quando apresentei ao grupo um dos meus desenhos com uma pedra que germina… Será possível? Uns diziam que sim e argumentavam outros disseram que não, apresentando as suas razões…E lá continuámos em torno da matéria (e não em cima!) Por último, um outro desafio, usando os manuais escolares que, a seu tempo, revelaremos… (é preciso manter o leitor “pendurado” na narrativa… Eh!Eh!Eh!)


quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Com olhos de gato na prisão

Moebius
Hoje provoquei o riso num recluso…e soube tão bem. Foi ao escutar uma das “Gregerías” de Ramón Gomés de la Serna. Ia lendo e fomos comentando cada uma delas, descontraidamente. Foi mais uma sessão de “A cor das histórias” a decorrer no estabelecimento prisional do Linhó (Programa Leitura sem Fronteiras - DGLAB/DGRSP), hoje com poucos leitores (a falha de informação e as regras de segurança reduziram-me o número de participantes na sessão). Houve tempo para ler os “Poemas de Deus e do Diabo” de José Régio (o “Cântico Negro” tem sempre um grande impacto…) e passámos pela banda desenhada, com a recente edição, entre nós, do clássico “Les yeux du chat” (Moebius e Jodorowsky) que despertou múltiplas interpretações. Houve ainda tempo para falar um bocadinho sobre a gramática da língua Cabo- Verdiana (ALUPEC). A volatilidade da presença dos reclusos é notória… Ainda tenho um grande trabalho de consolidação pela frente.

domingo, 19 de Outubro de 2014

Contos em Oeiras

Ontem juntámo-nos na Biblioteca Municipal de Oeiras para lembrar a Helena Gravato, uma contadora de histórias que nos deixou um vazio difícil de preencher. Foi dia de sessão de contos, com alguma tristeza, mas com a certeza de que o importante é continuarmos a estar juntos, dando força à narração oral. Foi assim que eu contei. Pela Helena, a coisa tinha que sair bem… Estreei duas histórias novas. Os amigos e família (os meus primos estiveram lá!) ajudaram a panela a cantar, enquanto a “sopa de histórias” se ia cozinhando. Lembrando os pescadores da “Grande faina”, contei o “Lugre fantasma”. Senti que a maré cheia tinha entrado na sala! Obrigado a todos que me escutaram. Rita: “Quebrámos o enguiço!”

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

"Leituras Diferentes" em Fitares/Rinchoa (2)

Encontrar o espaço para que cada um 
se encontre a si próprio dentro do coletivo, sem pressas
No projeto “Leituras diferentes” sentimos que estamos a trilhar caminhos novos na mediação leitora junto de alunos com necessidadeseducativas especiais. A Biblioteca Escolar da EB Escultor Francisco dos Santos(Fitares/Sintra) tornou-se no nosso laboratório. Arriscamos, experimentamos, reconhecemos os erros, inovamos. Estamos a usar a “Máquina da Poesia” junto dos nossos jovens especiais; o trabalho segue com a sua velocidade própria, sem pressas, consolidando aprendizagens em torno da língua portuguesa e sua gramática.
Ter todo o tempo do mundo para falar do significado das palavras...
Para cada jovem, uma resposta específica dentro do coletivo. A cada sessão na biblioteca escolar, sucede-se um trabalho de aprofundamento na sala SAF; os livros e outros conteúdos apresentados são relembrados. A professora Regina orientou uma pesquisa de adjetivos através dos populares “smiles” no computador da sala. Agora estamos a trabalhar os verbos e os nomes. Sentimos dificuldade no reconhecimento do conceito de Poesia…os pensamentos abstratos são mais difíceis.
Como encontrar adjetivos?
Os nossos jovens gostam muito de computadores
 e não existe melhor ferramenta de pesquisa do que esta máquina.
 propus que procurassem "smiles" ("emoticons") na internet 
e encontrassem um ou mais adjetivos para cada uma das expressões das "carinhas".
 O resultado foi este cartaz afixado num corredor da escola.
Como este projeto tem um pendor inclusivo, temos realizado sessões com um 5º ano que integra algumas crianças “especiais”. A “Máquina da poesia” correu bem, só foi necessário esperar um pouco para que alguns alunos encontrassem as palavras dentro deles. No início da sessão li alguns poemas (António Torrado, José Fanha, Fernando Pessoa e uma das minhas “Rimas salgadas”). Próximo passo: memorizar os pequenos poemas e construir sussurradores!
Parar a cada dificuldade. Procurar sinónimos, exemplificar e retirar o peso das palavras.

domingo, 12 de Outubro de 2014

Por aqui e por ali...

Um acrílico sobre tela de Carlos Graça,
patente na exposição Integrate - Tomar
Para além do trabalho no terreno que venho desenvolvendo na área das necessidades educativas especiais, guardo sempre uns pedacinhos para dar apoio a projetos emergentes e realizar pequenas intervenções formativas, como foi o caso da minha ida à ESE de Santarém (4/10) para uma aula na pós-graduação em intervenção precoce onde passei em revista diferentes problemáticas deste campo específico de trabalho. Um diálogo interessante e vivo que contou com diversas intervenções de docentes já com experiência no trabalho educativo com necessidades educativas especiais. Respondi assim a um desejo, já antigo da minha amiga Teresa Sá - espero que tenha sido positivo este contacto com uma narrativa nascida na prática.

Ontem, em Tomar, na galeria do IPT, foi tempo de participar na inauguração da exposição de trabalhos artísticos produzido por pessoas com doença mental. Uma forma de dar força ao trabalho desenvolvido pela Paula Carvalho e por uma mão cheia de outros enfermeiros do CHMN, serviço de psiquiatria. Uma iniciativa em torno do estigma criado pela doença e processos de reintegração, comemorando o Dia Mundial da Saúde Mental. Na ocasião, li o meu texto “Quando as mãos fazem, a cabeça ri…”, numa homenagem ao papel dos enfermeiros junto destas pessoas e suas famílias. Espero ver este grupo de amigos, de novo, nas oficinas do programa Descobrir/Gulbenkian.
foto de Maria Henriqueta

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

"Leituras diferentes" no agrupamento da Rinchoa e Fitares

Explorando o "Popville"
Mediação leitora e necessidades educativas especiais
Pegar no livro, segurá-lo bem, mostrar cada parte que o compõem: capa, guardas, páginas e contra capa. Usar o livro de imagens com calma, sabendo que queremos chegar bem próximo de jovens com necessidades educativas especiais. Não são profundas as limitações que aparentam mas bem variadas, exigindo uma resposta individual no contexto do coletivo. O confronto com a mensagem do livro ajuda a definir onde falta a peça, onde é preciso trabalhar. Importa lembrar sempre, que antes de cada deficiência existe uma personalidade e um estádio da vida: criança, pré-adolescente, adolescente ou adulto. A personalidade é sempre determinante na vontade de apreender a narrativa de um livro. Falo dos jovens da sala SAF do agrupamento de escolas Escultor Francisco Santos (Fitares-Sintra), do projeto “Leituras diferentes”.
É dia de mediação do livro e da leitura e já escolhi três livros para trabalhar com serenidade, esperando recolher no final, uma bela coleção de palavras, reflexo das leituras que fizeram na manhã.
“O que cabe dentro de um livro?” – Pergunto, mostrando “Popville”, uma publicação pop-up (ver link, mas o melhor é mesmo manusear o livro). Será que a Rinchoa (local de origem destes jovens) cabe toda dentro de um livro? Olhares incrédulos e comentários surgem na sequência da pequena provocação. Depois começo a folhear: “Era uma vez uma aldeia chamada Rinchoa que foi crescendo, crescendo … até se tornar uma grande cidade”. No final da narrativa está o livro todo aberto com as suas 3 dimensões, com uma grande cidade nascida das suas páginas. A professora Fernanda pega na deixa e fala da tridimensionalidade com um discurso adaptado. Aliás, é comum esta técnica de eco, repetição ou tautologia, para ajudar à interiorização de novos conceitos, por parte dos professores, técnicos e mediadores que trabalham com necessidade educativas especiais. Uma espécie de momento pedagógico que se aproveita informalmente.
Passo para o livro seguinte: “Zoom”. Neste livro trabalhamos a memória leitora e a antecipação leitora, num exercício de constante concentração preceptiva. Costumo estabelecer uma espécie de competição para que os sentidos fiquem alerta. Destaco a importância do olhar focado na leitura dos livros. Importa saber ler os “bonecos”! A mediação do livro é feita num círculo onde todos têm o direito à palavra, valorizando-se as aquisições vocabulares: assim, se alguém diz uma palavra nova, esta é repetida para que todos a sinalizem. Sucedem-se as páginas em jeito de adivinha. O mediador vai apelando à memória iconográfica dos participantes, sem pressa e sentindo o movimento global do grupo em direção ao entendimento. Existem sempre interrupções na mediação do livro: cada participante tem o seu modo próprio de estar e expressa o entendimento do que assistiu com assinatura própria…nunca é inconveniente.
O último livro da sessão foi “A onda” de Suzy Lee (link). Os princípios acima enunciados são os mesmos que se aplicam nesta mediação.(Estimular a oralidade narrativa, a memória leitora/iconográfica e a antecipação leitora…) No entanto, trabalhar “A onda” com este grupo específico de jovens apresenta algumas particularidades que vale a pena mencionar: 
- Os leitores fazem uma ligação afetiva com as gaivotas do livro que funcionam quase como um coro grego, sublinhando as mudanças narrativas. Um ponto a explorar.
-A dobra (entre página par e página ímpar - onde a onda rebenta) domina o livro e é determinante na construção da narrativa, caminhando em paralelo com o tema – uma ida á praia. Costumo apelar à memória do vivido perguntando: Qual foi a última vez que foste à praia? Esta praia faz-te lembrar outra que conheceste? Sabem que faço coleção de conchas? Uma vez fui à praia e tive medo do mar…
- A amizade de uma criança com uma onda abre um campo de afetos com uma não pessoa. Por vezes é mais fácil que uma criança projete as suas afinidades com um elemento da natureza: um bicho, uma árvore ou…uma onda. (Veja-se o sucesso das fábulas e outros livros com animais, junto das crianças...)
- A exploração do objeto livro é muito interessante com esta obra de Suzy Lee. Acontece por vezes, que os jovens com perfil autista ficam fascinados com a dobra do livro e com o efeito que a narrativa tem sobre a configuração final do livro. Ainda da mesma autora é bom que se conheça “Espelho” e “Sombras”
No final da sessão, fazemos uma coleção de palavras para cada um dos livros apresentados, fixando, assim, os conteúdos.
É importante que, encerrando a intervenção, a professora bibliotecária disponibilize os livros para empréstimo domiciliário. Este gesto é muito significativo para estes jovens, responsabilizando-os sobre o livro, fidelizando-os ao espaço de leitura dentro da escola.

Para a semana, há mais…

quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

"A cor das histórias" - primeira sessão

Fotograma do filme de Tiago Afonso "Espaço tempo" (Novas memórias do cárcere - Guimarães 2012)

Primeiro dia do projeto “a cor das histórias”, do programa "Leitura sem fronteiras", no estabelecimento prisional do Linhó. Fui muito bem recebido pela equipa do estabelecimento prisional e uma animadora da prisão pede para participar no encontro. Anuí.
Duas bibliotecas, servindo duas alas, cheias de livros distribuídos desordenadamente, onde um mediador paciente encontra um belo conjunto de pérolas prontas a emprestar a leitores curiosos. As bibliotecas têm um faxina dedicado que aos poucos vai aprendendo a “guardar” livros. Sentamo-nos todos á volta de uma grande mesa. Quero saber deles, o que leem e o que não leem, o que deixam transparecer pelo olhar, a suas origens e o que esperam dos dias que passaremos juntos ali naquela sala impessoal, forrada de livros. Muitos têm origem crioula o que torna fácil uma primeira aproximação com um conto sobre “almas penadas” ao redor de um poço na ilha da Boavista e os meus “Kuatu purkinhus”, daí a pouco falava de Manuel Lopes, de quem encontrei dois volumes nas estantes. Um dos participantes reconhece-me da Cova da Moura e quando falo do Moinho da Juventude, baixa os olhos: já foi visitado, em tempos, pelo Jonhson um mediador/visitador muito ativo no bairro. Diferentes leituras ou formas de ler, foi o tema seguinte; acabei por ler um poema de Gedeão em hip-pop. Mas o grupo está instável - tenho dois reclusos com doença mental e nem sempre é fácil de conduzir a sessão na direção ideal. Outro recluso está insatisfeito e sai. Disseram-me os companheiros de destino que ele é sempre assim: está sempre a partir, nunca fica em iniciativa nenhuma mas vai sempre espreitar. Mostro vários livros de imagem promovendo uma pequena competição de perceção e interpretação, para falar de competências leitoras, de uma forma simples, desmontando o processo junto aos participantes. Oiço rir e reparo que se sentam nas cadeiras de forma mais descontraída: o corpo concorda. Pego num provérbio em crioulo, nessa altura já todos falavam só na língua Cabo-verdiana: “Nu ta nederia, ma nu ka ta kebra” . O que quer dizer mais ou menos: “pau que dobra não parte”. Oiço diferentes versões do mesmo provérbio dito com origem em várias ilhas e pela boca de um jovem Fula (Guiné). A troca de ideias segue para a resiliência, para a capacidade de sobrevivência da mente em condição reclusa. Não quero que ninguém me trate por professor e rapidamente trocamos os nomes, estabelecemos um patamar de comunicação. Fico a saber que um jovem acabou de ler “Os capitães da areia” (Jorge Amado). Diz que se identificou com aqueles meninos. Proponho-lhe “A tenda dos milagres” que encontrei lá no meio da confusão. Gosto de crime e ação – diz outro recluso - dou-lhe “O crime no expresso oriente” de Aghata Christie. O jovem falador Fula está muito interessado na filosofia oriental. Fala dos hindus, de Paulo Coelho. Entendo a sua procura e sugiro “Sidarta” de Hermann Hesse. Outro pegou numa banda desenhada erótica (Precisamos de mais BD aqui nas bibliotecas prisionais)
Ofereço um dos meus livros à biblioteca. Rapidamente, um recluso pega no livro e começa a folhear, pedindo para o levar para a cela. Um rapaz pede que o ajude a escrever poemas em crioulo para enviar a uma mulher, outro diz que gostaria que eu lesse “umas coisas que tem andado a escrever”…
Marcámos encontro para a próxima sexta-feira.