domingo, 19 de Outubro de 2014

Contos em Oeiras

Ontem juntámo-nos na Biblioteca Municipal de Oeiras para lembrar a Helena Gravato, uma contadora de histórias que nos deixou um vazio difícil de preencher. Foi dia de sessão de contos, com alguma tristeza, mas com a certeza de que o importante é continuarmos a estar juntos, dando força à narração oral. Foi assim que eu contei. Pela Helena, a coisa tinha que sair bem… Estreei duas histórias novas. Os amigos e família (os meus primos estiveram lá!) ajudaram a panela a cantar, enquanto a “sopa de histórias” se ia cozinhando. Lembrando os pescadores da “Grande faina”, contei o “Lugre fantasma”. Senti que a maré cheia tinha entrado na sala! Obrigado a todos que me escutaram. Rita: “Quebrámos o enguiço!”

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

"Leituras Diferentes" em Fitares/Rinchoa (2)

Encontrar o espaço para que cada um 
se encontre a si próprio dentro do coletivo, sem pressas
No projeto “Leituras diferentes” sentimos que estamos a trilhar caminhos novos na mediação leitora junto de alunos com necessidadeseducativas especiais. A Biblioteca Escolar da EB Escultor Francisco dos Santos(Fitares/Sintra) tornou-se no nosso laboratório. Arriscamos, experimentamos, reconhecemos os erros, inovamos. Estamos a usar a “Máquina da Poesia” junto dos nossos jovens especiais; o trabalho segue com a sua velocidade própria, sem pressas, consolidando aprendizagens em torno da língua portuguesa e sua gramática.
Ter todo o tempo do mundo para falar do significado das palavras...
Para cada jovem, uma resposta específica dentro do coletivo. A cada sessão na biblioteca escolar, sucede-se um trabalho de aprofundamento na sala SAF; os livros e outros conteúdos apresentados são relembrados. A professora Regina orientou uma pesquisa de adjetivos através dos populares “smiles” no computador da sala. Agora estamos a trabalhar os verbos e os nomes. Sentimos dificuldade no reconhecimento do conceito de Poesia…os pensamentos abstratos são mais difíceis.
Como encontrar adjetivos?
Os nossos jovens gostam muito de computadores
 e não existe melhor ferramenta de pesquisa do que esta máquina.
 propus que procurassem "smiles" ("emoticons") na internet 
e encontrassem um ou mais adjetivos para cada uma das expressões das "carinhas".
 O resultado foi este cartaz afixado num corredor da escola.
Como este projeto tem um pendor inclusivo, temos realizado sessões com um 5º ano que integra algumas crianças “especiais”. A “Máquina da poesia” correu bem, só foi necessário esperar um pouco para que alguns alunos encontrassem as palavras dentro deles. No início da sessão li alguns poemas (António Torrado, José Fanha, Fernando Pessoa e uma das minhas “Rimas salgadas”). Próximo passo: memorizar os pequenos poemas e construir sussurradores!
Parar a cada dificuldade. Procurar sinónimos, exemplificar e retirar o peso das palavras.

domingo, 12 de Outubro de 2014

Por aqui e por ali...

Um acrílico sobre tela de Carlos Graça,
patente na exposição Integrate - Tomar
Para além do trabalho no terreno que venho desenvolvendo na área das necessidades educativas especiais, guardo sempre uns pedacinhos para dar apoio a projetos emergentes e realizar pequenas intervenções formativas, como foi o caso da minha ida à ESE de Santarém (4/10) para uma aula na pós-graduação em intervenção precoce onde passei em revista diferentes problemáticas deste campo específico de trabalho. Um diálogo interessante e vivo que contou com diversas intervenções de docentes já com experiência no trabalho educativo com necessidades educativas especiais. Respondi assim a um desejo, já antigo da minha amiga Teresa Sá - espero que tenha sido positivo este contacto com uma narrativa nascida na prática.

Ontem, em Tomar, na galeria do IPT, foi tempo de participar na inauguração da exposição de trabalhos artísticos produzido por pessoas com doença mental. Uma forma de dar força ao trabalho desenvolvido pela Paula Carvalho e por uma mão cheia de outros enfermeiros do CHMN, serviço de psiquiatria. Uma iniciativa em torno do estigma criado pela doença e processos de reintegração, comemorando o Dia Mundial da Saúde Mental. Na ocasião, li o meu texto “Quando as mãos fazem, a cabeça ri…”, numa homenagem ao papel dos enfermeiros junto destas pessoas e suas famílias. Espero ver este grupo de amigos, de novo, nas oficinas do programa Descobrir/Gulbenkian.
foto de Maria Henriqueta

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

"Leituras diferentes" no agrupamento da Rinchoa e Fitares

Explorando o "Popville"
Mediação leitora e necessidades educativas especiais
Pegar no livro, segurá-lo bem, mostrar cada parte que o compõem: capa, guardas, páginas e contra capa. Usar o livro de imagens com calma, sabendo que queremos chegar bem próximo de jovens com necessidades educativas especiais. Não são profundas as limitações que aparentam mas bem variadas, exigindo uma resposta individual no contexto do coletivo. O confronto com a mensagem do livro ajuda a definir onde falta a peça, onde é preciso trabalhar. Importa lembrar sempre, que antes de cada deficiência existe uma personalidade e um estádio da vida: criança, pré-adolescente, adolescente ou adulto. A personalidade é sempre determinante na vontade de apreender a narrativa de um livro. Falo dos jovens da sala SAF do agrupamento de escolas Escultor Francisco Santos (Fitares-Sintra), do projeto “Leituras diferentes”.
É dia de mediação do livro e da leitura e já escolhi três livros para trabalhar com serenidade, esperando recolher no final, uma bela coleção de palavras, reflexo das leituras que fizeram na manhã.
“O que cabe dentro de um livro?” – Pergunto, mostrando “Popville”, uma publicação pop-up (ver link, mas o melhor é mesmo manusear o livro). Será que a Rinchoa (local de origem destes jovens) cabe toda dentro de um livro? Olhares incrédulos e comentários surgem na sequência da pequena provocação. Depois começo a folhear: “Era uma vez uma aldeia chamada Rinchoa que foi crescendo, crescendo … até se tornar uma grande cidade”. No final da narrativa está o livro todo aberto com as suas 3 dimensões, com uma grande cidade nascida das suas páginas. A professora Fernanda pega na deixa e fala da tridimensionalidade com um discurso adaptado. Aliás, é comum esta técnica de eco, repetição ou tautologia, para ajudar à interiorização de novos conceitos, por parte dos professores, técnicos e mediadores que trabalham com necessidade educativas especiais. Uma espécie de momento pedagógico que se aproveita informalmente.
Passo para o livro seguinte: “Zoom”. Neste livro trabalhamos a memória leitora e a antecipação leitora, num exercício de constante concentração preceptiva. Costumo estabelecer uma espécie de competição para que os sentidos fiquem alerta. Destaco a importância do olhar focado na leitura dos livros. Importa saber ler os “bonecos”! A mediação do livro é feita num círculo onde todos têm o direito à palavra, valorizando-se as aquisições vocabulares: assim, se alguém diz uma palavra nova, esta é repetida para que todos a sinalizem. Sucedem-se as páginas em jeito de adivinha. O mediador vai apelando à memória iconográfica dos participantes, sem pressa e sentindo o movimento global do grupo em direção ao entendimento. Existem sempre interrupções na mediação do livro: cada participante tem o seu modo próprio de estar e expressa o entendimento do que assistiu com assinatura própria…nunca é inconveniente.
O último livro da sessão foi “A onda” de Suzy Lee (link). Os princípios acima enunciados são os mesmos que se aplicam nesta mediação.(Estimular a oralidade narrativa, a memória leitora/iconográfica e a antecipação leitora…) No entanto, trabalhar “A onda” com este grupo específico de jovens apresenta algumas particularidades que vale a pena mencionar: 
- Os leitores fazem uma ligação afetiva com as gaivotas do livro que funcionam quase como um coro grego, sublinhando as mudanças narrativas. Um ponto a explorar.
-A dobra (entre página par e página ímpar - onde a onda rebenta) domina o livro e é determinante na construção da narrativa, caminhando em paralelo com o tema – uma ida á praia. Costumo apelar à memória do vivido perguntando: Qual foi a última vez que foste à praia? Esta praia faz-te lembrar outra que conheceste? Sabem que faço coleção de conchas? Uma vez fui à praia e tive medo do mar…
- A amizade de uma criança com uma onda abre um campo de afetos com uma não pessoa. Por vezes é mais fácil que uma criança projete as suas afinidades com um elemento da natureza: um bicho, uma árvore ou…uma onda. (Veja-se o sucesso das fábulas e outros livros com animais, junto das crianças...)
- A exploração do objeto livro é muito interessante com esta obra de Suzy Lee. Acontece por vezes, que os jovens com perfil autista ficam fascinados com a dobra do livro e com o efeito que a narrativa tem sobre a configuração final do livro. Ainda da mesma autora é bom que se conheça “Espelho” e “Sombras”
No final da sessão, fazemos uma coleção de palavras para cada um dos livros apresentados, fixando, assim, os conteúdos.
É importante que, encerrando a intervenção, a professora bibliotecária disponibilize os livros para empréstimo domiciliário. Este gesto é muito significativo para estes jovens, responsabilizando-os sobre o livro, fidelizando-os ao espaço de leitura dentro da escola.

Para a semana, há mais…

quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

"A cor das histórias" - primeira sessão

Fotograma do filme de Tiago Afonso "Espaço tempo" (Novas memórias do cárcere - Guimarães 2012)

Primeiro dia do projeto “a cor das histórias”, do programa "Leitura sem fronteiras", no estabelecimento prisional do Linhó. Fui muito bem recebido pela equipa do estabelecimento prisional e uma animadora da prisão pede para participar no encontro. Anuí.
Duas bibliotecas, servindo duas alas, cheias de livros distribuídos desordenadamente, onde um mediador paciente encontra um belo conjunto de pérolas prontas a emprestar a leitores curiosos. As bibliotecas têm um faxina dedicado que aos poucos vai aprendendo a “guardar” livros. Sentamo-nos todos á volta de uma grande mesa. Quero saber deles, o que leem e o que não leem, o que deixam transparecer pelo olhar, a suas origens e o que esperam dos dias que passaremos juntos ali naquela sala impessoal, forrada de livros. Muitos têm origem crioula o que torna fácil uma primeira aproximação com um conto sobre “almas penadas” ao redor de um poço na ilha da Boavista e os meus “Kuatu purkinhus”, daí a pouco falava de Manuel Lopes, de quem encontrei dois volumes nas estantes. Um dos participantes reconhece-me da Cova da Moura e quando falo do Moinho da Juventude, baixa os olhos: já foi visitado, em tempos, pelo Jonhson um mediador/visitador muito ativo no bairro. Diferentes leituras ou formas de ler, foi o tema seguinte; acabei por ler um poema de Gedeão em hip-pop. Mas o grupo está instável - tenho dois reclusos com doença mental e nem sempre é fácil de conduzir a sessão na direção ideal. Outro recluso está insatisfeito e sai. Disseram-me os companheiros de destino que ele é sempre assim: está sempre a partir, nunca fica em iniciativa nenhuma mas vai sempre espreitar. Mostro vários livros de imagem promovendo uma pequena competição de perceção e interpretação, para falar de competências leitoras, de uma forma simples, desmontando o processo junto aos participantes. Oiço rir e reparo que se sentam nas cadeiras de forma mais descontraída: o corpo concorda. Pego num provérbio em crioulo, nessa altura já todos falavam só na língua Cabo-verdiana: “Nu ta nederia, ma nu ka ta kebra” . O que quer dizer mais ou menos: “pau que dobra não parte”. Oiço diferentes versões do mesmo provérbio dito com origem em várias ilhas e pela boca de um jovem Fula (Guiné). A troca de ideias segue para a resiliência, para a capacidade de sobrevivência da mente em condição reclusa. Não quero que ninguém me trate por professor e rapidamente trocamos os nomes, estabelecemos um patamar de comunicação. Fico a saber que um jovem acabou de ler “Os capitães da areia” (Jorge Amado). Diz que se identificou com aqueles meninos. Proponho-lhe “A tenda dos milagres” que encontrei lá no meio da confusão. Gosto de crime e ação – diz outro recluso - dou-lhe “O crime no expresso oriente” de Aghata Christie. O jovem falador Fula está muito interessado na filosofia oriental. Fala dos hindus, de Paulo Coelho. Entendo a sua procura e sugiro “Sidarta” de Hermann Hesse. Outro pegou numa banda desenhada erótica (Precisamos de mais BD aqui nas bibliotecas prisionais)
Ofereço um dos meus livros à biblioteca. Rapidamente, um recluso pega no livro e começa a folhear, pedindo para o levar para a cela. Um rapaz pede que o ajude a escrever poemas em crioulo para enviar a uma mulher, outro diz que gostaria que eu lesse “umas coisas que tem andado a escrever”…
Marcámos encontro para a próxima sexta-feira.

segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

Descobrir a Diferença: Forum livre sobre necessidades educativas especiais

Programa Descobrir/Gulbenkian – Necessidades educativas especiais

No início deste ano letivo temos uma novidade para todos aqueles que trabalham na área das necessidades educativas especiais. Para além do habitual curso de formação (creditada) “Mediar públicos com necessidades educativas especiais” que decorrerá em Fevereiro (convém fazer já a inscrição pois esgota rapidamente), vamos realizar dois encontros a que chamámos “Descobrir a diferença”. Trata-se de um fórum de partilha de ideias e ferramentas desenvolvidas pelos atores que todos os dias trabalham com as necessidades educativas especiais. O primeiro encontro (de acesso gratuito) que decorrerá no sábado dia 25 de outubro na sala 2 do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian às 11h (duração 90 m), contará com a presença de Ana Salgueiro (terapeuta da fala) que vem desenvolvendo um trabalho assinalável na área das perturbações da comunicação. O encontro será moderado por mim e pela Margarida Vieira. Recomendo que façam a vossa inscrição pelo telefone 217823491, por uma questão de lotação da sala.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Museum mediators

Decorreu ontem e hoje a “Museum Mediators European Conference” no belo Museu do Trajo de São Brás de Alportel, na qual tive o prazer de participar. Um dos “case studies” apresentados foi o conjunto das oficinas “Museu aberto” que a equipa das necessidades educativas especiais do Programa Descobrir (Fundação Calouste Gulbenkian) vem desenvolvendo há 9 anos, criando um corpo de conhecimento significativo, resultante da prática, experimentação e da relação estabelecida com públicos com características muito particulares.Sobre este projeto europeu, conduzido com mestria em Portugal pela Mapa das Ideias aqui vos deixo algumas pistas retiradas do sítio da internet que aconselho a visitar:
O papel da Mediação em Museus ainda é subestimado, não sendo reconhecido que a relação com os visitantes do Museu e do património pode representar o limiar de sobrevivência destas instituições. Os Mediadores de Museus e Educadores são profissionais altamente qualificados que vêm de diferentes campos académicos, com pouca ou nenhuma formação educacional e comunicacional – competências tão indispensáveis para suas atividades diárias. Esta realidade levou à criação do projeto Museum Mediators. O principal objetivo foi o de criar práticas e orientações para os profissionais da mediação que representam a estrutura institucional e profissional julgada necessária pelos países europeus participantes: Portugal, Espanha, Itália, Estónia e Dinamarca."
Para todos os meus colegas que trabalham em museus recomendo o visionamento dos diferentes casos apresentados: uma janela aberta ao que se faz, no nosso campo, em diferentes países europeus. Fica aqui o meu agradecimento à equipa da Mapa, em especial à Inês Câmara por terem aberto horizontes aos mediadores de museu portugueses.