terça-feira, 14 de julho de 2015

"Rimas salgadas" na lista do Plano Nacional de Leitura

Soube agora que o "Rimas salgadas" passou a integrar a lista de livros recomendados do Plano Nacional de Leitura (3º ciclo - leitura autónoma). Sempre pensei que o livro fosse mais indicado para o 1º e 2º ciclo...talvez seja mais abrangente. Esperemos pela opinião dos jovens leitores. Obrigado Rui Grácio pelo trabalho em equipa.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Segunda-feira

Esferográfica
Ainda o eco da exposição "Inside Outside" e o trabalho de Bárbara Fonte. Um rabisco feito numa folha de bloco, durante uma reunião do Projeto 10x10 (no ano passado). A reunião estava a ser muito interessante até se intrometer um cabelo...

domingo, 12 de julho de 2015

Inside Outside

José Barrias. Foto de Gianluca Vassallo, 2014. 
“(...) a razão essencial de cada diálogo habita sempre na diferença que o nutre, mas também que a razão que o estimulou e estimula foi e é a plataforma que o uniu, formando e amplificando o nosso percurso expositivo sob a forma de obras abertas a pensamentos, impressões, sensações (retinianas e não) que escorreram e escorrem entre nós e, sobretudo, para além de nós.
Alguém me pode explicar onde fica o território do indizível, aquele que é sempre perseguido pelo traço e pela escrita?
Fui percorrendo errante o labirinto onde as obras de Bárbara Fonte e José Barrias se misturam dialogando como iguais em “Inside Outside” (Plataforma Revólver – Junho/Julho 2015). Uma gramática feita de recursos variados da instalação ao desenho passando pela fotografia, vídeo e...livros.
Sou visitante, num eterno conciliábulo entre o artista, o mediador cultural, escrevinhador e o “gostador” que me habitam inquietos. Cheguei a interrogar-me como seria fazer uma visita-oficina a esta exposição especial… E como seria escrever para uma imagem…e porque não aquele desenho ali ou sobre a fotografia do canário morto entre os pelos púbicos de uma adolescente. Calma! Calma! É só um efeito de contaminação com a imagem ao lado: o canário está morto e vão enterra-lo, como no poema de Jacques Prévert (“le chat et l’oiseau”).
Por cortesia de Bárbara Fonte
Bem… Não se descreve esse território, mas sente-se. O corpo que o diga quando se confronta com as peças. Se deixarem o corpo fazer o que lhe apetece, fica a peça interpretada. Por pouco não fiquei ajoelhado religiosamente (como uma freira) em frente à sequência de fotografias onde a artista (Bárbara Fonte) dá corpo (rosto) a alguns vendavais da alma humana. De qualquer forma, tentei identificar devotamente os diversos verbos ali autorretratados.
Por cortesia de Bárbara Fonte
Essa sabedoria cutânea, instantânea e inconsciente que possuímos, devida apenas ao facto de estarmos vivos, é convocada nesta exposição. Penso: Eu já senti tudo isto, sei do que se trata… Bárbara Fonte confirma as minhas suspeitas no o seu vídeo, caderno de notas, onde página a página, exaustivamente, enumera sensações e desafios à interpretação pessoal. Preto e branco, som em bruto, real como um desenho acutilante; mas afinal fala-se de gente e somos levados para um território estranhamente familiar. Como se Bárbara nos dissesse: Vou explicar-te intimamente como funciona a tua cabeça… A certa altura, há uma janela com um lençol e um corpo de mulher entrevisto em segundo plano; o vento faz voltejar o tecido. O visitante incauto fica feliz pois julga ter vislumbrado uma relação entre esta janela de umbrais em pedra e outras na aldeia de Vilarinho das Furnas (cit. Vídeo “Barragem”, 1979, José Barrias) … São tontos os visitantes das exposições, vêm carregados de referências… (embora a reflexão sobre a ausência encontre eco nesta exposição)
Fotograma de um vídeo de Bárbara Fonte que mexeu comigo
A exposição contém uma enorme densidade de sensações mais profundas do que um qualquer “déjà vu ”, é preciso tempo para a percorrer. Ficamos com a sensação que a sucessão de salas é pequena para conter tanta informação vital. José Barrias Já montou um plano para registar tudo o que se sente: Vamos fazer um inventário humano! Documentar este limbo revertendo-o na nobre arte da literatura… É fundamental a existência de um livro, fechado, para que o nosso olhar nele penetre conferindo-lhe um conteúdo, evidentemente pessoal. Ele sabe que se pode desenhar o indizível com um lápis de palavras. Um dispositivo museológico (caixa de acrílico montada sobre uma peanha) exibe um pequeno conjunto de objetos/esculturas todos da mesma escala; uma espécie de salvados. Heresia: leio-os em sequência como se cada um fossem versos de uma poesia; o último verso é uma ave morta. Noutra sala, o artista conclui que naquele recanto ficava bem uma biblioteca – concordo: coloco os óculos e tento ler um romance em miniatura, consultando de seguida o escaparate.
Quase Nouveau Roman, 2014. Múltiplo de Quase Romance, edição de 5 exemplares, escala 1/10.Inside Outside, 2015. José Barrias com Bárbara Fonte, na Plataforma Revólver, Lisboa.
Adiante, mais desenho (e que desenhos!), sempre em fuga do óbvio, abrindo espaços para ausências e transparências, uma memória do imaginado. Traços que se rebelam do suporte, obrigando a uma leitura global da obra nas suas três dimensões, depois contaminam paredes e toda a galeria é já o ateliê do artista, lugar de experimentação livre. Sente-se a alegria na montagem da exposição e ficamos com a sensação que perdemos o essencial: o momento em se pronuncia a proposta, em que nos decidimos a partilhar um território profundamente humano de desencontro, conferindo-lhe uma resolução estética.
 Bárbara Fonte
Bárbara Fonte

Tempo ainda para falar de cabelos entrelaçados
unindo os dois discursos.
Afinal, toda a gente sabe que os cabelos são desenhados com minas muito, muito finas...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Árvore da Poesia

Ao grito de "Columbina!" todos soltaram as aves.
Na imagem Nelson Batista, grande entusiasta deste projeto.
Foto de Hermes Picamilho
Ainda sobre o projeto Columbina, refletindo sobre a forma como levámos as crianças à escrita poética em Beringel e na Biblioteca Municipal de Beja. Habitualmente, utilizo a Máquina da poesia na sua forma original, um painel coletivo, na parede, onde todos vão colocando palavras divididas por 4 categorias. Verificámos que as crianças mais pequenas e os alunos com necessidades educativas especiais (défice moderado) tinham dificuldade no entendimento do “enunciado”. Assim, a proposta foi alterada, simplificada para 3 categorias (verbos, adjetivos e nomes) assumindo a forma de uma árvore, a “Árvore da Poesia”: forra-se uma grande mesa com papel de cenário e as crianças circulam à sua volta fazendo –a crescer a partir de ramos temáticos, introduzindo palavras. As folhas são nomes, os frutos adjetivos e as flores verbos. Quando a árvore estiver frondosa de palavras, começas a recolher flores, folhas e frutos para construir os seus versos, que mais tarde serão presos às patinhas dos pombos. Este trabalho tem que ser mediado com delicadeza, encontrando momentos pessoais para que os alunos façam sair intuitivamente (de forma livre e não direcionada) as palavras que têm dentro de si. Foi assim que fiz com a preciosa ajuda da Lénia Santos e da Paula Martins.
"Árvore da Poesia"
(Ler artigos relacionados)

sábado, 20 de junho de 2015

"Ainda continuamos a arrumar": Formação de Animadores Culturais em Óbidos

Três dias intensos de trabalho e vivência junto dos animadores culturais da Câmara Municipal de Óbidos! Uma iniciativa formativa do programa de mobilidade do Descobrir (Fundação Calouste Gulbenkian). A equipa destacada para esta tarefa é boa: Aldara Bizarro, Maria Gil, António Pedro, Dina Mendonça, Susana Gomes da Silva e eu. Ao longo destes primeiros dias apresentámos as nossas propostas criativas e propusemos a reflexão. Pelo caminho, muitas dinâmicas de corpo, palavra, desenho e pensamento… Será que é possível educar para a felicidade? Dina Mendonça deixou-nos a pergunta a flutuar no ar… A Maria Gil fez-nos mergulhar no nosso passado, aquele mais esquecido – a infância. Ao construirmos pequenos museus de memórias regressámos lá atrás no tempo, descobrindo mais sobre cada um de nós. Percebemos logo que ainda temos muito para arrumar nas nossas vidas… Acho que este exercício consolidou o grupo, devolvendo a cada um de nós uma veracidade humana tangível. E sempre o corpo, dançando, expressando, proposto pela Aldara; num primeiro dia em parceria comigo, propondo o movimento no espaço segmentado por linhas numa sala toda forrada de papel de cenário: um aquário branco, ideal para as nossas projeções coletivas dançadas. Ao longo dos dias sucederam-se momentos de aquecimento no início dos trabalhos e fechos de sessão muito bem conduzidos pela Susana que tem a difícil tarefa de coordenar um bando improvável...Um dos pontos fortes tem sido o trabalho colaborativo, numa sequência de dias trabalhosos em disponibilidade crescente. (Só se pode estar assim em educação – de corpo inteiro)
Resultado da ferramenta/oficina "Dia positivo"
Um registo de Pedro Basílio
 Fui buscar uma proposta de imagem, O “Dia Positivo”, já com muita estrada feita, mas um pouco esquecida (as últimas apresentações foram já há alguns anos na Culturgest, Teatro Municipal da Guarda, Teatro do Campo Alegre e no Teatro Viriato). Gostei tanto de ver toda gente entusiasmada (encantada) a tornar grande o incrivelmente pequeno. E ficou muito bonito com a criação de paisagens sonoras propostas pelo António Pedro, com recursos sonoros muito simples. Devo dizer que gosto bastante destes momentos, propostos pelo António, em que criamos (por exemplo) sequências de som coletivas, apenas com o nosso corpo e vocalizações, algumas um pouco disparatadas (tenho de aprender a fazer isto…). Acabo de chegar à conclusão de que não consigo fazer uma narrativa completa, mas já fica a ideia… perdoem-me se não falei de tudo que foi acontecendo...
A memória do "cardume"
O grupo de formandos, os “Animadores de Óbidos”, desenvolve uma grande variedade de tarefas no tecido escolar para além de responderem criativamente a eventos propostos pelo Município; é uma vida agitada, sempre junto às crianças. Cada um tem a sua particularidade criativa e uma função nos diferentes complexos escolares construídos no concelho. Já os tinha conhecido (não a todos) numa anterior formação na área da mediação leitora, juntamente com Cristina Taquelim; nessa altura trabalhámos o “Eu sou Tu”, construindo narrativas com o corpo e objetos em grandes folhas de papel de cenário. Acho que só agora os estou a conhecer melhor, esperando expectante pela próxima sequência de dias formativos na secundária Josefa de Óbidos. Até já.
Grande ambiente e envolvimento...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

10x10: A Mentira contra ataca!

Quando começam a chegar ecos do nosso trabalho nas escolas, conferimos a certeza dos rumos. Digo isto a propósito de um email que recebi hoje da nossa querida professora Ana Pereira (Escola Secundária D. Dinis) dando-nos conta do trabalho desenvolvido pelos alunos do 10º na sequência das propostas criadas em conjunto no contexto do Projeto 10x10 (Descobrir/ Gulbenkian). Sinceramente, a professora Ana já multiplica por dez os seus recursos pedagógicos quando aborda a Biologia e a Geologia… A Mentira como ferramenta pedagógica continuou o seu caminho na direção da Biologia, depois de um estágio no Cosmos. Os alunos propuseram a criação de criaturas falsas e mergulharam corajosamente na construção científica da mentira. Há um certo fascínio em fazer de conta que somos os criadores do universo, nas suas mais estonteantes variedades… Mas atenção! É preciso provar os pontos de vista baseados em sólidas argumentações, sustentadas por equivalentes investigações. Assim se fazem as aprendizagens no laboratório de Biologia da professora Ana. Vejam só estas imagens de criaturas “verdadeiras” e atentem à caracterização exaustiva de uma delas… É o que acontece quando se junta um Professor e um artista num laboratório do ensino secundário… Parabéns alunos! Tenho saudades de sentir a vossa alegria na escola! Olhem que no 11º “é a doer”… Não se esqueçam de usar sempre a vossa criatividade. Obrigado Ana.
E que tal esta Serpente Africana, a Venomancer?
Bela ficha técnica!
Venomancer é uma espécie africana de serpentes. É a maior espécie africana de serpentes. Pode atingir 5 metros de comprimento e 50 Kg de peso. O seu tamanho invulgar é atribuído a gigantismo insular.
● Gigantismo insular – é um fenómeno biológico onde o tamanho dos animais isolados numa ilha aumenta dramaticamente ao longo de várias gerações. É uma forma de seleção natural em que tamanhos maiores fornecem uma vantagem de sobrevivência.Como resultado deste gigantismo, estas serpentes dominam o ecossistema onde vivem.
CIRCULAÇÃO:O Venomancer possui circulação fechada dupla incompleta. Ocorre uma mistura de sangue não oxigenado com sangue oxigenado nos ventrículos. Num sistema duplo incompleto, o sangue flui lentamente, logo para um ser como o Venomancer este tipo de circulação não é suficiente. Durante a evolução, o Venomancer conseguiu atravessar esse problema, pois desenvolveu um sistema de traqueias. O oxigénio entra nas aberturas entre as escamas e assim chega ás células. Estes dois sistemas juntos são muito suficientes e conseguem fornecer a quantidade de energia necessária ao metabolismo do Venomancer.
NERVO REGULAÇÃO:

O sistema nervoso é só composto por cérebro, não possui a espinal medula. Todo o metabolismo celular é controlado pelo complexo hipotálamo-hipófise. O cérebro é bastante desenvolvido. Em consequência, o ser realiza as suas atividades fisiológicas de forma rápida.
ALIMENTAÇAO:
O Venomancer possui um canal intestinal muito estreito pelo que ingere apenas alimentos líquidos. Essa limitação implica que em geral, tenha de recorrer à digestão externa (extracorporal intracelular) dos alimentos, provocando enzimaticamente liquefação antes da ingestão. O Venomancer possui um sistema de digestão complexo. A injeção de enzimas digestivas e veneno nas presas, provenientes daa glândulas especificas, localizadas na zona A. Para sugar os tecidos digeridos liquefeitos, deixando para trás a carcaça da presa. 
O estômago funciona como uma bomba que empurra o alimento no trato digestivo.
REPRODUÇÃO:Venomancer desenvolve os seus descendentes completamente dentro de si, nutrindo-se através de uma placenta e um saco amniótico. A retenção de ovos e os partos ao vivo são normalmente associados a climas, sendo que a retenção dos descendentes dentro da fêmea permite-lhe controlar as suas temperaturas com maior eficácia do que se estes se encontrassem no exterior.
TERMORREGULAÇÃO:O Venomancer é um animal de sangue frio, ou seja, para manter as suas funções fisiológicas e para realizar o metabolismo, utiliza fontes externas de calor. Desta forma, as temperaturas corporais do Venomancer sofrem constantemente influência do ambiente. Embora seja muito dependente das temperaturas exteriores, também consegue regular as suas temperaturas corporais de forma bastante significante. Nas condições de hipotermia, o animal lança para o sangue as enzimas tóxicas, que são produzidas por um órgão responsável pela reprodução de tóxicos. Esta enzima ao reagir com os glóbulos vermelhos torna-os resistentes às temperaturas baixas, o que fornece uma vantagem de sobrevivência.
HABILIDADES:O Venomancer não vê bem à noite, isto dificulta a caça noturna, mas o Venomancer possui adaptações cerebrais que através de impulsos nervosos consegue detetar a radiação infravermelha emitida por todas as espécies existentes. Ao detetar esta radiação, o Venomancer localiza a presa e caça-a. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

"Logo à noite no lago Van" - O texto


Cumprindo a promessa, aqui fica o texto de “Logo à noite no lago Van”, acompanhado de umas belas fotos do Paulo Costa (Cam/ Fundação Calouste Gulbenkian) que documentam a apresentação deste trabalho na galeria do Centro de Arte Moderna, dias 17 e 31 de Maio, em sessões muito concorridas.

Esta performance/narrativa começou por um desafio de Ana Vasconcelos (CAM/Gulbenkian) que acompanhou a pesquisa e construção do texto. Depois surgiu o interesse das “Comunidades Arménias” nesta apresentação e em breve estava a trabalhar com o “Dellalian Trio”: Marina Dellalyan, Levon Mouradian, Nariné Dellalian e fantástica Anna Mouradian. Ao longo dos ensaios fomos adaptando a dramaturgia, incorporando elementos propostos pelos músicos Arménios, escolhendo músicas, burilando palavras e tecendo o espetáculo final. Foi um trabalho exigente de construção de uma personagem, pintor como eu, que quis espelhar de uma forma pessoal. Creio que quem conhece a história e o trabalho de Arshile Gorky consegue identificar bem a s citações expressas no texto. Trabalhámos bem! Quero agradecer à equipa de produção do Cam pelo apoio dado à performance, agradecendo a Isabel Carlos a possibilidade deste momento de partilha. Obrigado à Matilde Correa Mendes que pacientemente documentou em vídeo este acontecimento, ao Paulo Costa que o fotografou, à Susana Gomes da Silva que sofreu até ao final a concretização desta ideia e, claro, obrigado Ana por me meteres nestes desafios. Obrigado aos meus companheiros músicos - foi fantástico terem feito a estreia mundial de "The descent of the dove"de Ivan Moody (obra dedicada ao Dellalian Trio) no decorrer da nossa performance. Obrigado ao público do nosso museu!

Logo à noite no lago Van
 Os músicos colocados do lado esquerdo do narrador. O narrador enverga um velho colete sobre uma camisa branca (está sem óculos e apresenta, colado no rosto, um bigode parecido ao de Gorky)
Elementos no espaço da galeria: um cavalete com folhas de papel para desenhar + grafites e um banco alto, 1 cebola, 7 penas de galinha brancas, banco alto. Piano, estantes para as partituras.
 1. Andantino - A. Khachaturyan
 America! America! Everything is possible in America!
2. It ain't necessarily so - G. Gershwin
 (O narrador vai montando o suporte com a folha de papel no cavalete, ajustando a altura – começa o seu desenho)
 Eles lá sabem o que é um Arménio… não entendem…
 Let me introduce my self: Arshile Gorky, primo de Máximo, Russo…pois claro.
Nascido em Novgorod!
Ahhh… Veio fugido à guerra.
 Ahhhh… Passou por Ellis Island…coisa terrível.
Pintor? Oh… very interesting… Modern? Ohhhh…
 Nem sequer sabem onde fica a Arménia! Who cares?...
 Até Mougouch, a minha mulher, está convencida que sou russo.
 Afinal a Pintura é uma grande nação! Willem, o de Kooning, diz sempre isso a gracejar cada vez que passa pelo ateliê da 36 Union Square New York…
 Na arte, afinal, somos todos migrantes…
 Em que língua vocês sonham? Hã?
 É que, no outro dia encontrei um compatriota imigrante que me disse que à força de estar por aqui, já pensava em American.
E vocês? Em língua sonham e pensam?
Sim, isso é que é importante: a língua em que sonhamos….
 À noite, quando fecho os olhos, viajo de novo para os campos de Van, à borda do lago.
 A memória, o inconsciente, é o que de mais precioso tenho em mim.
Uma sensação esquecida torna-se cor.
O sonho, o impossível de se tocar na minha pintura, é o que resta da verdade onde nasci… de minha mãe
Nariné aproxima-se devagar do narrador até ficar ao seu lado
 O narrador poisa suavemente a mão no ombro de Nariné
3. Krunk - Komitas
O narrador fica parado, estático, fitando o infinito
A minha Mãe! A minha mãe… A minha maaaãe…
Porque demorei tanto tempo a fazer o retrato da minha mãe?
Uma ida ao ateliê do fotógrafo, perto da confusão do mercado de Van, flor na mão, o meu melhor fato…
Como ela estava linda com o seu trajo antigo, garrido.
-Era da tua avó. Disse-me.
Têm cores vivas, os nossos tecidos…
Não se mexam! Põe-te direito miúdo! Flash! Já está!
E ficou pronta a fotografia que enviámos ao meu pai, que já tinha emigrado para aqui…
Lembro-me, quando era criança, de brincar nas margens do lado Van.
Vosdanig! Vosdanig! Haviam de ver aminha irmã aflita da margem do lago – Vosdanig, meu irmão. Não te afogues! Volta Manuog!
E eu nadava, braçadas largas nas águas do lago Van…
Sabem? As águas do Van são salgadas, vindas da montanha, do degelo do grande vulcão…
Aposto que não aguentam tanto tempo como eu nas águas geladas!
Sabem que na borda do lago há sempre um gato á espera de comer um Tareg . o único peixe que existe no lago. Os gatos de Van têm cada olho de sua cor.
Vartavar! Vartavar! E como era divertida a “festa da água”! Eu e a minha irmã molhando quem passava nas ruas … (Gargalhada)
Nariné conduz Anna, suavemente até a uma cadeira, para que ela comece a tocar um tema da infância no seu violoncelo
4. Cisne - C. Saint Saens
O narrador está sentado, cabeça enterrada nas mãos, depois volteia a cabeça
Um dia voltaram os Turcos, a cavalo, com as suas espingardas a tiracolo, brandindo os sabres… tingindo tudo de vermelho.
Não! Não me peçam para contar tudo aquilo que vi!
Não! Não!
A minha família tem este destino…O meu tio, que era padre, foi cruxificado pelos Curdos nas portas de madeira da sua velha igreja. A minha tia enlouqueceu e depois foi lá e lançou fogo à Igreja: Pronto! Acabou-se o passado!
Não há tempo a perder! É preciso fugir para Yerevan! A minha Mãe, Vartush e eu… 9 dias a caminhar. À nossa volta tanta gente caminhando, crianças como eu, chorando e muitas ficando pelo caminho…
Foi quase um milagre ter chegado aqui com a minha irmã Vartush!
Primeiro a Grécia e depois pelos mares até Ellis Island
5. Oh Bess, You are My Woman Now - G. Gershwin
O narrador continua o seu desenho
Eles não precisam de saber nada disto!
Nem que fui despedido da fábrica onde trabalhei, pouco tempo depois de ter chegado aqui…
Apanharam-me a desenhar nas embalagens de cartão e depois descobriram o meu refúgio de desenho, lá em cima, no telhado da fábrica.
 Também estudei… um aluno Russo exemplar… poderia ter feito aquela vida…
Mas queria mais…Sabia que só a pintura me salvaria…
Talvez de mim. Da minha condição de emigrante ou… de refugiado!
 Lembro-me do dia em que assinei pela primeira vez a minha nova identidade no canto inferior direito de uma tela, um autorretrato: Arshile Gorky…
So easy…
Sabem que me chamavam de copião?
Pois é… Os críticos são assim… Não entendem nada de nada.
Each time i found them in openings, they always came out with the usual jokes… This week are you Picasso or Miró?
 Certa vez Levy, o galerista, disse-me: “Quando fores realmente Gorky, faço-te uma exposição…”
Hoje, anda de roda de mim como uma abelha de volta de uma flor…
 Mas eu tinha de entender os mestres…Cézanne, Picasso, Miró… Perceber-lhes a pincelada. Conhecer a obra  pelo lado de dentro. Pacientemente, com método!
Como iria sobreviver na América se não fosse singular e informado?
O De Kooning sabe a verdade… Sabe que não estive nas grandes escolas nem passei por Paris… Diz que é mágico aquilo que sei sobre pintura, que sei mais do que ele…
Há quem diga que sou intuitivo….
Se calhar é mesmo isso que a Arte é…intuição e… Trabalho!
Agora chegaram novos amigos, os surrealistas naufragados pela guerra….
Bebo cada palavra que dizem e debato vivamente as ideias.
E continuo a trabalhar freneticamente…
Mas quem consegue criar num ateliê desarrumado? No way!
Os pinceis em linha, chão limpo, tudo aprumado!
Tudo deverá estar como uma tela branca, imaculada como a neve do inverno arménio.
 O fígado é o pente do galo!
 Pequenas cerejeiras protegidas das lebres!
 A água do moinho florido...
 A folha da alcachofra é uma coruja!
6. Sonata para violoncelo solo (fragmento) - A. Khudoyan
 (O narrador vai montando uma cebola com 7 penas espetadas)
 Vou falar-vos da cebola
(o narrador mostra uma cebola com 7 penas espetadas)
Tal e qual o fiz quando me encomendaram os painéis para o aeroporto de Newark …
Foi na minha infância que testemunhei, pela primeira vez a operação poética surrealista da elevação do objeto.
Na Arménia onde nasci, para assinalar a passagem do tempo ao longo da Quaresma até chegar ao domingo de Páscoa, o povo da minha região construía um calendário peculiar. Nas antigas habitações existia um buraco redondo no teto para que os fumos se escoassem. Debaixo dessa abertura era erguida uma cruz de madeira onde se prendia com um cordel uma cebola com 7 penas espetadas. A cada domingo, retirava-se uma pena, testemunhando a passagem do tempo
Estes objetos elevados, penas e cebola flutuantes, foram uma revelação! Tornaram o comum no incomum.
Uma desordem acidental que se torna no milagre moderno, retirando o objeto do seu lugar habitual, anunciando uma nova realidade!
(o narrador termina a leitura do texto e poisa a cebola próximo do cavalete. Continua a desenhar ativamente sobre o papel montado)
 7. The Descent of the Dove - Ivan Moody
(Estreia mundial. Obra dedicada ao Dellalian Trio)
(Terminada a música, o narrador levanta-se, pega na cebola e vai falando…)
 It’s so good to be here in Sherman…
Desde que a filha do almirante, Mogouch minha querida mulher, entrou nos meus dias, tudo está diferente.
As minhas formas flutuam e memórias da minha infância regressam…
Já alguma vez encostaram o nariz ao chão para sentir o cheiro da erva e a cor das plantas? Já abriram a fruta ao meio para cheirar a sua cor?
Ah! Não me posso esquecer de fazer o baloiço para as miúdas…
 Mogouch! Mogouch!
O André vem almoçar!
Qual André?
O Breton, claro!
O que vais cozinhar?
Ele comerá alcachofras, claro…
8. O meu lenço vermelho - Komitas
(O narrador recolhe o lenço vermelho que está pendurado na estante de Levon. Começa a dançar, lembrando as danças Arménias. O narrador vai retirando as penas da cebola, lançando-as no ar, rodopiando pela sala, enquanto os músicos tocam)
(Finda a peça, apenas pronuncia uma frase)
O coração sabe sempre o seu lugar…
Encosta a cebola ao peito
mais fotos aqui