"Tinha uma pedra" em Torres Vedras

 

No dia 15 de Março, pelas 18horas, inauguro mais uma exposição de desenho do ciclo “Tinha uma pedra” na galeria da Biblioteca Municipal de Torres Vedras. O espaço escolhido é pequeno, intimista, obrigando a uma seleção de trabalhos de pequena dimensão. Será um momento cheio de significado, como se estivesse a expor em casa dos amigos; a minha relação com a Biblioteca Municipal vem de longe, sempre em projetos desafiantes que me têm obrigado a refletir sobre o modo de mediar pela arte, pela literacia e de forma inclusiva. Ainda por cima, o meu novo ateliê e nosso espaço da Laredo Associação Cultural fica em Torres Vedras (sobre esta notícia escreverei depois). Imaginam como estou contente e grato ao Município por esta oportunidade de consolidar a sementeira.

Como sempre, no decorrer das minhas exposições, terá lugar uma oficina de desenho que parte do tema da pedra encontrada para 2 horas de experimentação de diversas técnicas de desenho. Acontecerá no Sábado 23 de Março na Biblioteca Municipal de Torres Vedras e carece de inscrição prévia. Uma oficina aberta a todos a partir dos 8 anos, a pensar, também nos adultos (pais, namorados, seniores, estudantes...) que gostam de desenhar. Levarei os materiais que usei para criar os desenhos da exposição, para que todos possam experimentar

Sobre este conjunto de desenhos executados em 2022/2023

Não existe um modelo, as imagens chegam diretamente do inconsciente, de mão dada com as intenções, essas mais estruturadas, criando uma malha de sustentação para o corpo da obra. Talvez estas pedras tenham adquirido vida própria ao longo do processo que as gerou; às vezes surge uma metáfora e deixo fluir sobre a folha de papel. O desenho continua a ser uma metodologia pessoal para entendimento e explicação do Mundo. O desenho é concreto, preciso, mesmo quando é necessário traçar o indizível. A pintura estrutura-se na teia conceptual do desenho, ganha segurança e rumo de pesquisa. No meu trabalho, o desenho e a pintura sempre conviveram complementando-se, cruzando-se, cada um sabendo bem o seu lugar. O desenho e a escrita, embora de natureza distinta, têm propriedades comuns, juntando-se na reflexão e no plano, numa compatibilidade tão antiga como a própria história do homem.

Mas o desenho tem uma existência autónoma, um dialeto que se expressa de um modo distinto. Neste conjunto de obras, a introdução da ponta seca, a par do lápis, traz uma dimensão táctil às imagens. Os diversos riscadores são numerados de acordo com a sua dureza e tom com que se expressam, distinguindo-se no traço. Assim, temos uma vasta família: 3H HB, 2B, 3B, 8B. Só para citar alguns. E o 0? Pergunto-me. Como é o zero? É o nada? E se o zero for o sulco invisível deixado pela ponta seca? Um lugar onde não é depositada nenhuma matéria deixando que o papel (o suporte) fale. E há tantos desenhos feitos com estes riscadores zero, sobre rochas, metal ou areia ... Perco-me nas diferentes possibilidades geradas por este labor silencioso... A pedra foi o objeto eleito para esta pesquisa, o pretexto para que o lápis vá falando sobre o papel,. É certo que traz a geologia e o universo consigo, mas projeta muito mais, irmanando o público. A atmosfera é o que sinto, vejam como respiro.

Miguel Horta, Verão de 2023

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