sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Dilfícil Leitura: quase em Óbidos

Esta imagem tem um grande significado para mim...
Fala muito sobre a equipa que está a trabalhar no centro escolar da Ventosa.
Quando uma Professora de ensino especial trabalha com o livro...
Estamos prontos para ir a Óbidos partilhar os nossos livros e a nossa forma de trabalhar. Os alunos monitores, que formam tandens com meninos e meninas do ensino especial, estão a ficar bem afinadinhos. A professora Joana Rodrigues já alinhavou um guião para nos orientarmos e, em breve, teremos uma ficha de exploração (proposta) para cada um dos livros apresentados. As auxiliares de educação estão entusiasmadas. As professoras de ensino especial empenhadas. O agrupamento solidário. A Biblioteca Municipal (que é a "culpada" disto tudo), atenta, garante o transporte. E a organização do Folio/Educa tem sido fantástica com o nosso grupo especial, garantindo a logística. Obrigado aos Pais por confiarem em nós e na natureza do nosso trabalho. Já sabemos que vamos receber um grupo de Cadaval, da parte da tarde. A organização do Folio/Educa tem sido fantástica com o nosso grupo especial.
Querem colaborar na revolução inclusiva? Lá vos esperamos no dia 24 no Espaço O

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Bairro leitor - Leitura de proximidade


Notas alinhavadas para a comunicação no Colóquio
"Leitura, Literacia e Cidadania: Práticas e desafios"
promovido no âmbito do projeto Bairro Leitor
11 de outubro 2017
 Antes de falar de algumas iniciativas de mediação leitora no projeto Bairro Leitor, gostaria de abordar um tema em que tenho pensado ultimamente: a deontologia e a sinceridade na mediação cultural, junto de comunidades em exclusão.

História de uma relação
 No dia em que Ele lhe disse, quero-te para ti, a relação mudou completamente. Ela pode medrar livremente, tornando-se ainda mais interessante do que já era. Cresceu, ganhou autonomia e personalidade. E Ele, cada vez mais apaixonado, conseguiu conservá-la sempre junto a si, não porque a prendesse ou manipulasse mas porque dela se aproximava subtilmente, sem intrusão, solidário a cada iniciativa, enfim com um profundo respeito e sem gota de paternalismo.
Aqui poderemos começar a brincar aos contextos das relações.
Ela, neste contexto, será sempre a comunidade/bairro e o papel atribuído a Ele poderá ser assumido por diferentes personagens, vejamos.
Primeiro. Ele é político e respeita a comunidade sem a querer manipular, apoia-a, e ela reage reconhecida. Ele não olha para ela como uma reserva de caça aos votos e resiste às diversas tentações dos políticos…
Segundo. Ele é uma IPSS, associação sociocultural (…)  Ela é fundamental para a sobrevivência da estrutura. Precisa daquela comunidade para continuar a pagar os salários aos seus funcionários com projectos e subsídios recebidos… Será que Ele quer que Ela melhore, evolua ou cresça muito?
Terceiro. Ele é uma associação local só crescerá se houver dinâmica, mudança visível nela. E se Ela não se quiser transformar? Se não tiver consciência da importância da mudança?
Quarto. Ela é comunidade/bairro e pretende ficar solteira, ponto. No entanto sabe que quer mudar e só precisa de Ajuda e apenas querendo que a oiçam, quando pensa em conjunto.
Quinto. Ele é mediador cultural (1), está encarregado de promover o livro, a leitura, as artes, as literacias de um modo geral. Vem animado de uma crença transformadora. Não tem ambições territoriais pois já está comprometido. A sua primeira tarefa é conhecê-la. Sim! A Ela, a comunidade! Estudar. Passear pelo bairro. Ver e ser visto. Interagir. Registar. Pensar. E começar a construir o Perfil Leitor (2) do bairro, o que implica ter uma ideia quase completa do nível de literacia da comunidade. Fica a saber onde pode ser útil. Ele sabe que os processos de transformação se conseguem pelo lado de dentro, recuperando a comunicação, o diálogo, reerguendo a Ágora de forma justa. Uma justiça de trato e na relação com os habitantes.

A mediação cultural

O trabalho desenvolvido numa comunidade, em torno das literacias e de diferentes leituras conduz a um maior entendimento do mundo e à autonomia operativa das populações. A existência de uma Biblioteca viva ou outro lugar de comunicação, contribui para a melhoria da qualidade de vida e permite retirar as pessoas do isolamento, nos bairros ou nas suas células familiares, num mundo que fez o seu retorno ao privado (3). O mediador sabe como é importante preservar os nichos culturais, a sua cultura idiossincrática, tradições, línguas, rotinas e eventos, em articulação saudável com o mundo contemporâneo. Um mundo em mutação rápida, líquido, que urge entender para dar segurança aos passos que damos (4).  
As pessoas não entendem logo os processos da mediação cultural. Estão habituadas ou a calar ou falar aos berros com as estruturas. O mediador é mesmo estranho: não é da Junta, não é da “Judite”(5) , nem de nenhuma seita invasiva e fala de leitura onde ninguém lê… De arte onde quase ninguém vai ao museu. Não trabalha pelo outro, não trabalha para o outro… trabalha com o outro, coopera (6).  A mediação cultural (neste projeto com as dimensões da arte e das literacias) promove a comunicação e o diálogo através dos livros, do conto, do movimento, do desenho, de dinâmicas variadas todas elas seguindo uma metodologia própria. Usa métodos colaborativos. Interage questionando, deixando que o outro construa a sua resposta pessoal. A mediação cultural é paciente e conhece o valor do tempo. Gesta lenta, persistente como uma combustão sem chama.
Imagem colhida durante a formação
"Ler, Escrever, Contar Histórias"
7 e 14 de outubro - Biblioteca do Bairro
 A mediação do livro e da leitura permite experimentar diferentes emoções, encantamentos e outras reações, promovendo o diálogo interior e exterior de quem participa nas sessões. Uma abordagem não formal na partilha do conhecimento, longe dos cânones, promovendo a qualidade do tempo na companhia do outro. Uma miríade de possibilidades!... O mais difícil é passar a umbreira da porta da biblioteca ou do outro.
Links (exemplos) para 3 situações citadas, realizadas durante esta fase do projeto Bairro Leitor (Bip/Zip):
Comunidade Cigana: Aqui
Comunidade de origem Cabo-verdiana: Aqui
Trabalho transformador na escola local: Aqui

Notas
(1) O mediador dedica-se a estabelecer pontes de passagem para o conhecimento, potenciando experiências culturais significativas capazes de operar transformações no indivíduo e no meio envolvente. Assenta na crença de que a fruição da produção cultural e dos seus meios de expressão permitem um entendimento mais claro do mundo que habitamos, tornando cada um de nós um cidadão mais capaz de agir sobre os destinos do planeta, das comunidades e da sua própria vida.
(2) Conceito Laredo desenvolvido ao longo do projeto “Leituras em Cadeia” (Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian)
(3) Citando Orlando Garcia
(4) Citando Zygmunt Bauman
(5) Polícia Judiciária

(6) Djunta Mon. Na língua cabo-verdiana para além da cooperação, traz consigo a ideia de construção física, por exemplo, uma casa

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nova temporada de "Baleizão, o valor da memória"



A nova temporada de BALEIZÃO,o valor da memória está aí! Estão previstos espetáculos para Lisboa no Museu do Dinheiro (19, 20 e 21 de outubro - Gratuito) e no Festival Ar com presença em Tábua e Mira… No final do espectáculo haverá uma conversa entre os dois artistas, Aldara Bizarro e Miguel Horta e o público presente, sobre as memórias convocadas no palco.
 Não me lembro quando é que se instalou a cotação do Baleizão lá em casa mas lembro-me muito bem da minha Mãe utilizar o Baleizão sempre que eu queria uma coisa que os meus pais não tinham possibilidade de comprar. Dizia-me assim: Sabes, isso não posso comprar porque custa muitos Baleizões. Às vezes, quando eu insistia, dizia-me a quantidade, 5, 10, 20, ou 30, conforme os casos. O Baleizão, que a minha mãe utilizava para cotar o valor das coisas impossíveis, era um gelado, de uma cervejaria com o mesmo nome, da cidade onde eu vivia, Luanda, em Angola. Custava 2$50!
 Esta é a carta que dá início ao exercício de memória e de celebração da vida, entre dois amigos, realizada através da troca de cartas, textos, desenhos e fotografias sobre as suas infâncias, vividas em países diferentes, na década de 70. No palco, convocam memórias das suas infâncias; uma vivida em Angola durante a guerra colonial; a outra em Lisboa, com uma forte marca do barlavento algarvio.
Concepção e direcção de Aldara Bizarro
Interpretação e co-criação de Miguel Horta e Aldara Bizarro
Coprodução do Museu do Dinheiro 2017.
Apoio da SMUP

Em circulação, disponível para Teatros, Museus, Bibliotecas (...)
Nota de 1 Baleizão (1B$) - A moeda única da Memória
Uma criação de Miguel Horta para o espectáculo "Baleizão, o valor da memória"

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Bairro leitor: Contos no Casalinho da Ajuda


Algum dia teria que ser…
Lá contei em conjunto com o Adriano Reis numa sessão que batizámos de “Na boka note”. O evento decorreu na Escola Básica Homero Serpa que generosamente abriu as portas à comunidade na sexta-feira dia 6 de Outubro. O Adriano trouxe as suas histórias de Santo Antão (até fiquei a saber a verdadeira história da fajã das Janelas). Ficámos com umas ideias a bailar na cabeça… Acho que foi bem engraçado e o público, maioritariamente de origem cabo-verdiana esteve muito atento às histórias que iam surgindo ora em português ora em crioulo. Uma iniciativa do projeto Bip/Zip “Bairro Leitor” que está a chegar ao final da primeira fase.

Uma intervenção enquadrada na Biblioteca do Bairro, com petiscos pelo meio (uns maravilhosos pasteis de milho com recheio de atum)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Oficinas improváveis regressam a Torres Vedras

Aprendendo a fazer o "Luzinhas"
Torres Vedras, 4 de Outubro. Recomeçaram as “Oficinas Improváveis”, com a primeira sessão na biblioteca escolar da Escola Básica nº1, no centro da cidade. Trata-se de uma iniciativa com a assinatura da Biblioteca Municipal de Torres Vedras que envolve várias bibliotecas escolares e unidades de ensino especial do concelho em torno dos livros e da palavra. Com periodicidade mensal, estas oficinas intervêm junto de crianças e jovens com necessidades educativas especiais, promovendo a utilização do livro e de outros recursos das bibliotecas, numa perspectiva inclusiva.  Ano após ano, a Biblioteca Municipal tem apostado neste campo tão específico da mediação leitora junto das necessidades educativas especiais. Como consequência deste labor continuado, este ano, o Folio/Educa, desafiou-me a apresentar uma proposta para partilha durante o festival. Assim surgiu o “Dilfícil Leitura” que está a ser construído em conjunto no Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo). As oficinas deste ano apresentam uma componente formativa, sendo desenvolvidas por duas mediadoras da Biblioteca Municipal de Torres Vedras coadjuvadas por mim – vamos construindo autonomias… Nesta primeira sessão, trabalhei essencialmente a literacia auditiva (a partir da  metodologia “dos sons nascem histórias” e a construção de narrativas, que foram desenvolvidas em conjunto com alunos tutores das turmas de inclusão. Claro que nessa sessão o "Luzinhas" apareceu, interagindo com as crianças… 

Bairro Leitor: Persistente, como combustão sem chama

"Uma biblioteca é uma casa onde cabe toda a gente" - Sessão de conto "Na boka note"
Fotografia de Clara Silva
Logo no início do trabalho do Bairro Leitor (Bairro do Casalinho da Ajuda, Lisboa - Bip/Zip), um dos problemas identificados por promotores e parceiros do projecto, nomeadamente pela  Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda, era o evidente isolamento da única escola pública do bairro, a E B Homero Serpa, face à comunidade envolvente. Um ano depois, grande contraste este, que agora reconhecemos: ver a escola aberta, ocupada por uma formação que está a decorrer aos sábados, ou por uma sessão de contos ("Na boka note") que fez entrar pela porta da frente um pequeno grupo da comunidade de origem cabo-verdiana, na última sexta-feira… Acreditamos que o desenvolvimento da Biblioteca do Bairro, transformando gradualmente a biblioteca escolar, vem contribuindo para esta mudança, melhorando a vida do bairro e desenhando um modelo saudável e sustentável. Para tal, a par das sessões de mediação em torno do livro da leitura e das artes, contámos com a presença regular de uma mediadora, formadora e bibliotecária, em cooperação estreita com as professoras bibliotecárias, os docentes e não docentes da escola, a gestão do agrupamento, com envolvimento directo da Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda, da agir XXI e da Estal. A biblioteca do bairro, gerada e nascida na escola, poderá assumir-se como plataforma de mediação para todas as literacias, propondo-se à comunidade envolvente.  
Gesta lenta e persistente, como combustão sem chama.
"Ler, escrever e contar" - Formação da Biblioteca do Bairro/Casa das Artes, creditada pela ESTAL
Primeira sessão 07/10/2017
A formação, que começou no sábado passado e se prolonga no próximo, incide sobre práticas de mediação da leitura, do livro ao conto, passando pelo corpo com destaque para a voz, o movimento e a escuta. A compreensão do fenómeno da leitura em contexto de comunicação com o outro é fundamental em qualquer acto de mediação cultural. Comecei o curso com algumas dinâmicas simples (micropedagogias) muito úteis na gestão de grupos; de seguida, partilhei diferentes livros e sobre eles debatemos, trabalhámos e levantámos questões incontornáveis em educação no contexto dos bairros. Parceiros do projecto envolvidos diretamente na proposta: Estal - Centro de Formação, Laredo Associação Cultural e  Agrupamento de Escolas Francisco Arruda. O grupo participante está bem composto por docentes, mediadores da leitura, técnicos da Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa (BLX), uma professora bibliotecária e uma mediadora da associação local Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda. Um curso intenso, com um belo ambiente.... 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

"Dilfícil Leitura" : Os alunos tutores

Personagem para comunicação com crianças especiais em momentos fundamentais
.
Uma espécie de fantoche/mão
 Mais uma crónica de projeto em Biblioteca Escolar 
a acontecer no mês das Bibliotecas Escolares. 
Porque há Bibliotecas Escolares corajosas, 
que propõem ideias de inclusão e leitura, 
onde a maioria acha impossível
a presença dos livros.
Uma revolução que emerge lentamente
de um coletivo consciente, 
que deseja a escola pública ainda mais inclusiva.

Ontem foi um dia emocionante no projeto “Dilfícil leitura” que vou apresentar no FOLIO/Educa em conjunto com a comunidade educativa do Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de escolas de S. Gonçalo/Torres Vedras). A equipa que vem desenvolvendo a ideia, é composta por alunos com necessidades educativas especiais e por colegas das turmas de inclusão, auxiliares de educação, professores de ensino especial e a professora bibliotecária Joana Rodrigues. Emocionado, porque conheci uma mão cheia de crianças generosas e participativas que estão a dar sentido à palavras Inclusão. Ontem reunimos os alunos tutores, responsáveis pela leitura a par, com alguns colegas do ensino especial. Foi muito divertido! Explicámos a nossa ideia, contando o que temos feito. Experimentámos livros, partilhámos as “leituras dilfíceis” das anteriores sessões. Os tutores puderam folhear os livros e rindo-se muito de algumas brincadeiras de comunicação que mostrei, como os meus dedos falantes, intrigantes e luminosos  (personagens para comunicação)… Que bom é reconhecer o envolvimento das “assistentes operacionais”, que são quase família destes meninos e meninas, neste projeto que aos poucos vai fazendo o seu caminho.
Ler publicações anteriores:

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O FOLIO Educa já está a acontecer no Centro Escolar da Ventosa


Ventosa - Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo
Ao fim de três sessões do “Dilfícil Leitura”, Folio Educa, conseguimos juntar à volta da mesma mesa, professores de ensino especial, auxiliares de ensino especial, professores bibliotecários e um grupo de meninos com necessidades educativas especiais, onde prevalecem crianças com características (espectro) do autismo e… livros! Conseguimos identificar um primeiro grupo de livros que formam uma unidade pedagógica, explorando com coerência as questões da motricidade fina, gramática emergente, de perceção limpa, propondo narrativas simples e, num dos casos, partindo para a criação tridimensional. Trabalhamos em círculo, à volta de uma mesa, entremeando crianças e adultos. Ao longo da sessão vamos propondo diferentes livros, tendo o cuidado de não deixar ficar em cima da mesa outros exemplares, para não dispersar as crianças. Observamos atentamente as reações a cada livro apresentado. A mediação muda, torna-se variada, misturando lengalengas com livros e, também, pequenos objetos sonoros que servem para estimular a atenção ou pequenas lanternas de dedo para ajudar na leitura a par. Vamos afinando estratégias de trabalho com as crianças; cada uma é única, especial, requerendo uma forma de comunicar específica. Gosto de me sentar nesta mesa da biblioteca escolar e trabalhar com este grupo grande e variado de profissionais de educação e meninos, numa proposta prática, um laboratório que aos poucos vai chegando a algumas conclusões. Estou contente. Hoje decidimos que vamos fazer fichas/guiões de exploração para cada um dos livros “aprovados” pelas crianças e analisados pelos docentes.

À medida que as sessões se forem sucedendo, aqui darei mais notícias do que andamos a fazer no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras)
Leitura a par com ajuda de uma ferramenta luminosa
Dilfícil leitura - Não é gralha. O título é mesmo assim., DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Formação Bairro Leitor

Bairro Leitor. Formação. Oportunidade a não perder. ENTRADA LIVRE.
Atividade do Bairro Leitor, projeto BIPZIP 2016-2019, para que a Biblioteca do Bairro tenha mais valor e se torne sustentável e interessante para toda a comunidade. Aberto a profisisonais e não profissionais. Frequência grátis, sujeita inscrição por email para bibliotecadobairro@gmail.com (nome e contactos, incluindo email). Formação em processo de creditação para docentes (12h). Formadores: Isabel Branco, Maria José Vitorino, Miguel Horta. Parceiros envolvidos na proposta: ESTAL-Centro de Formação, Laredo Associação Cultural,.Agrupamento de Escolas Francisco de Arruda.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Sofia Troni escreve sobre a Laredo Associação Cultural no jornal digital "Escritores.online"

Resistente e ecológica como a lapa, a Laredo Associação Cultural permanece na “zona entre marés” para promover as literacias e a cidadania através da educação não formal em museus, bibliotecas, prisões, bairros sociais e festivais literários.
Miguel Horta, presidente da Laredo Associação Cultural, conta que tentaram vários nomes para a associação até chegarem à palavra “laredo”: “Laredo tem uma definição um pouco lata. Laredo é a zona entre marés. É o limite máximo da maré cheia e o limite máximo da maré vazia. É uma expressão utilizada pelos pescadores do barlavento algarvio e dos Açores, no Faial e no Pico, que costumam dizer «esse laredo é bom para a lapa», que habitualmente é uma zona rochosa junto ao mar, uma zona onde os pescadores recolectores fazem o seu trabalho”. Por isso a lapa como símbolo da associação: “A lapa também, porque é super resistente. É um animal herbívoro, ecológico. Uma praia com lapas é uma praia ecologicamente equilibrada, com pouca poluição, porque a lapa é um bicho muito sensível, mas ao mesmo tempo extremamente resistente. E depois significa esta coisa da persistência das ideias… e tem também esta ligação ao mar que é um dos campos do nosso trabalho”.

Na boka note - Sessão de conto no Bairro Leitor



A Biblioteca do Bairro
Escola Básica Homero Serpa
Bairro do Casalinho da Ajuda
do projeto Bairro Leitor
acolhe sessão de conto e de convívio

No dia 6 de outubro pelas 18.30h venha escutar Adriano Reis e Miguel HortaNa boka note” contando histórias de Cabo Verde e não só… Esta sessão de conto e convívio pretende dar visibilidade e promover a inclusão da comunidade de origem africana, nomeadamente cabo-verdiana, através da escuta e da partilha de histórias. Este encontro prossegue a linha de trabalho das Conversas do Casalinho, iniciada em janeiro de 2017 com a comunidade cigana num dos cafés do Bairro, propiciando desenvolvimentos futuros tendo em vista a sustentabilidade do projeto. Pretende, igualmente, estimular a apropriação da escola básica Homero Serpa e da Biblioteca do Bairro como um bem comum e um serviço público em setores cada vez mais latos da comunidade e entre os profissionais de educação envolvidos. Sobre o nosso convidado especial, Adriano Reis, podemos dizer que é actor, trabalhador sociocultural e contador de Storia de Lá. Sabemos que a paixão e o amor pelas estórias o cativaram para a transmissão da palavra, partilhando a sua identidade crioula (Africana). Mais sobre este comunicativo narrador crioulo aqui, no seu Palco da Vida.

Bem skuta storia di lá! Nu ta spera bo na Biblioteka di Bairu!

Para chegar à escola Homero Serpa:

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Dilfícil Leitura" leva mediação leitora especial ao FOLIO

Comecei esta semana uma intervenção no Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de escolas de S. Gonçalo -Torres Vedras) que une a biblioteca escolar à unidade de ensino especial, num projeto de mediação do livro e da leitura com crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente com características de autismo. Trata-se de um convite endereçado por Maria José Vitorino, curadora do FOLIO EDUCA, Festival Literário Internacional de Óbidos, que tem como tema, este ano, "Revoluções, Revoltas, Rebeldias". Efetivamente, vamos ter de nos preparar para a grande revolução da inclusão na educação, sabendo que a promoção das literacias e a mediação da leitura serão veículos para a construção dessa sociedade mais justa, tendo as bibliotecas um papel central a desempenhar nesta caminhada. Coisa difícil… Ou melhor, coisa DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil. Assim inspirado, batizei este laboratório partilhado de mediação leitora de “Dilfícil Leitura”. Este convite surge no seguimento da intervenção continuada da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação do livro e da leitura junto de famílias e crianças especiais, através do programa “Sentir especial”, que nos últimos dois anos acolheu as “Oficinas improváveis”, que têm visitado as bibliotecas escolares do concelho. Vamos trabalhar um conjunto de livros intencionalmente escolhidos e recorrer a dinâmicas criativas com os nossos alunos com necessidades educativas especiais e com mesmo número de meninos das turmas de inclusão. Formarão uma espécie de tandem, leitores a par, que se manterão ao longo do ano letivo, dando continuidade á ideia. Esta espécie de laboratório de comunicação e criação de literacias acontecerá na biblioteca escolar e na unidade de ensino estruturado. Os livros e as metodologias que se provarem acertadas com os nossos pares improváveis serão partilhados no Folio Educa com grupos de crianças, auxiliares e docentes equivalentes, de outras escolas do país, a convidar pela curadoria do evento. A partilha deste laboratório, em contexto de oficina, acontecerá no Folio (Óbidos) a 24 de outubro, com duas sessões (manhã e tarde). 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Arribalé!" de novo na estrada...

Arribalé! é um espetáculo original de narração oral em torno do Mar, suas criaturas e gentes. Agora em reposição, disponível para ir a escolas (bibliotecas escolares), teatros e bibliotecas públicas. “Arribalé!” nasceu de uma residência criativa no’’ O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) em março de 2015. Contos, poemas, pequenas canções, passando pelas pragas do Algarve e outras oralidades, tudo faz parte desta apresentação que tem como pano de fundo um conjunto de ilustrações do autor. Sessenta minutos, pensados para a família, onde o espetador é convidado a mergulhar nas histórias e seres da nossa costa. Paralelamente à apresentação, encontra-se disponível o livro que foi mote para este espetáculo, Rimas salgadas (PNL 2015), poesia e ilustração para a infância e juventude (Grácio Editor). No final, terá lugar um encontro com os leitores.

Poderíamos imaginar uma criança revirando pedras na maré vazia em busca de criaturas marinhas escondidas na sombra ou um adolescente afoito pescando sozinho num barco sacudido pelas vagas de barlavento. Este é Miguel Horta um pintor que se dedica à escrita e à ilustração. Mas também um mediador cultural em diferentes contextos humanos, fazendo sorrir e refletir quem o escuta através dos contos e desafios que lança. Depois de Pinok e baleote e Dacoli e dacolá, estas Rimas salgadas chegam-nos diretamente da sua infância num exercício de partilha da urgência de pensar o Mar.
Mais informação: horta700@gmail.com

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O filho do trolha

Ilustração: Miguel Horta 
(Direitos reservados)
Texto a pedido da minha amiga Paula Carvalho
sobre comportamentos de risco
a apresentar nas II Jornadas Templárias de Psiquiatria CHMT

-Ó senhora doutora, nem sei muito bem como lhe contar isto…
-Ahhh… Não é doutora.
-Como?
-Senhora enfermeira?
-Combinado.
- Entende-me na mesma…
- Pois bem… Eu já sou um Kota, como diz o meu neto. Fui avô muito cedo. Maluqueiras da minha juventude… Por isso, já tenho dois netos, lindos… São a luz dos meus olhos… sabe como é? Pois claro, fala com muita gente. Ou melhor – atende.
Como ia dizendo, eu nunca fui um santinho. Deixei de estudar muito cedo…
Logo depois da tropa desencaminhei-me. O trabalho era fácil, ganhávamos bem. Trabalhava nas obras. Vivendas! Aprendi o ofício muito cedo com o meu pai. Logo em pequeno comecei alinhar as botas sujas de cimento ao lado das botifarras do meu pai, à entrada de casa… e a minha Mãe aos berros a protestar contra a sujidade… A entender os desenhos dos arquitetos, era o maior! E depois, o fazer também era comigo… Tratava os tijolos e a argamassa por tu! Os sacanas dos vizinhos lá da Musgueira, chamavam o meu Pai de “trolha”. Não entendiam. Ele trabalhava como um galego. Aliás, vinha de famílias galegas. Era um bom homem. Bem melhor do que eu sou.
Desencaminhei-me. Pois foi…
Eram os tempos do Cavaco e fartou-se de entrar dinheiro neste “canteiro”. Era fácil ganhar graveto, ainda por cima, tinha uns “amigos da corda”, como dizia o meu Pai… (Que deus o tenha…que era galego). Chegava à sexta-feira e a malta tinha um molho de notas na mão – escudos, o dinheiro que havia dantes. Chamávamos ao nosso trio a “Chavalada Brava”… Eu, um moço chamado Toni e outro mais malino, o Chico. Comprámos um Wolksvagen a trielas, ficou em meu nome. Era o mais atinado, até tinha conta na Caixa... Depois, íamos à conquista do Cais do Sodré. Miúdas giras, uma ou outra cena de porrada (nada de grave…) muito whisky, absinto (era proibido, antes do 25 de Abril, mas dá cá uma pedrada que se fica a ver desenhos animados...) charros (era um campeão a enrolar…”Cónicas”! A malta adorava as minhas cónicas: umas perfeitas peças de artesanato fumegante….).
Uma noite, no Jamaica, conheci uma miúda fininha que engraçou comigo. Eu, um tosco dos bairros, ela uma janada de boas famílias das avenidas novas que cheirava a pele lavada e que me olhava com uns olhos redondos, gulosos. Embrulhei-me com ela e, em pouco tempo, já estava em festas na avenida de Roma, nuns apartamentos finos…dos pais, ausentes, claro… Um dia, numa dessas festas, a miúda chamou-me à parte e mostrou-me um pozinho branco em cima de um espelho. “Queres provar?” Foi nesse dia que aprendi a snifar. De snifadela em snifadela, com obras em todas as casas dos amigos dela – uma casa de banho ali, uma pintura de parede acolá. Uma vez gamei um vibrador de uma gaveta. Foi uma galhofa lá no café da Musgueira, com as miúdas todas a querer ver o que era, como funcionava… embora sabendo tudo, claro.
Numa noite de loucura lá no bairro, já com as narinas bem brancas, encontrámos um vizinho na tasca que se lamentava por lhe faltar ferro para acabar de construir o seu barraco, e “como é que iria ser com o Inverno à porta”…  Num gesto de cavalheirismo a “Chavalada Brava” decidiu resolver o assunto e fomos gamar ferro a um estaleiro de uma empresa famosa. Colocámos uma grelha em cima do “Carocha”  e lá fomos estrada fora, na bisga, em demanda das vigas de ferro. Havia um cão maldisposto no estaleiro da empresa… Nada que um bife de alcatra não resolvesse…. E depois, começámos a carregar a grelha do tejadilho com as vigas fininhas de ferro, acho que era viga de 8… ficaram a pender em redondo, muito bem presas à estrutura do carro. Quando achámos que tínhamos as suficientes, alegres ligámos o Wolksvagen. Nesse momento, com a vibração do motor e do movimento, o tejadilho abateu-se sobre nós encarcerando-nos no metal do carro, transformado em gaiola em forma de “V”. Foi uma vergonha ver chegar a polícia e depois os bombeiros (para nos desencarcerar). O pior foi a bófia encontrar o saquinho do pó para o fim de semana…. Até o juiz se riu de nós na audiência. O advogado, que era um estagiário, não nos ajudou. No nosso trio havia o Chico Cigano e isso foi o suficiente para nos olharem desconfiados…ainda por cima da Musgueira! Lembro-me de ter escutado a expressão: “coitados, são uns mitras…” Lá fui parar ao estabelecimento prisional de Lisboa. Perdi o rasto dos outros, e também, da fininha… mas os hábitos permaneceram, pois, lá dentro, não faltava quem me pusesse as narinas brancas e até de outras cores… Só que eu já estava farto daquela cena. Quando a educadora da prisão me perguntou se eu queria fazer o Ciclo lá dentro, aceitei. Até tive uma boa nota… Saí  da prisão com tanta raiva (ainda por cima o Chico disse ao Juiz que era tudo meu -o carro, o pó… - e o cobardolas do Toni calou-se), que decidi mudar de terra. Vim aqui para Tomar. Mas sabe, senhora enfermeira… Eu sou daninho. Sim. Constitui a minha família e tornei-me mestre-de-obras, até acabar por criar a minha pequena empresa. Só agora, em velho, me voltei a desviar. Como o gado : tresmalhado…
Por amor de Deus, a senhora enfermeira não diga nada ao meu filho, que deve estar lá fora a fumar cigarros uns atrás dos outros… pregos para o caixão dele…Já lhe disse.
O Toni, do nosso trio, deu comigo há dois anos. Veio numa excursão a Tomar, junto com uma data de zombies, velhadas da nossa idade, e choquei de frente com ele lá na Corredora. Eu sempre gostei dele, era o mais silencioso da Chavalada. Escutei com atenção a aventura da sua vida – safou-se, como eu. Embora tenha tido a tarefa de o levar em braços pelo centro de Tomar até à pensão onde ficou alojado com outros velhos como nós. Continuava a ser uma esponja. Mas ele é a única testemunha do que vivi – pode provar que tudo é verdade. Passei a ir ter com ele a Lisboa, para os bailes dos Alunos deApolo ou para as matinés da Ribeira. Ficava numa pensão jeitosa e pouco tempo depois ele começou a apresentar-me umas miúdas. Aquilo foi água no deserto para um camelo como eu. A minha mulher achava que ia à capital conversar com os fornecedores… Eu ia, era mesmo para a gandaia! Tinha dinheiro das minhas obras e senti-me rejuvenescer… Enfim… Já passou. Agora sinto-me mal, fraco… se calhar é gripe… Ando fraco…sabe? Quer ver, senhora enfermeira? Apareceram-me umas manchas no pescoço e também aqui no peito. Mas acho que tenho as vacinas todas em dia…

sábado, 2 de setembro de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Biblioteca Municipal de Pombal: Refletindo sobre o trabalho com crianças ciganas


Decorreu na segunda-feira, na biblioteca municipal de Pombal, a última oficina deste verão, com as crianças ciganas da cidade. Havia muita eletricidade no ar, com as festas da cidade, época de muito trabalho para os pais desta comunidade. Foi, talvez, a oficina mais difícil, com a pior escuta, até agora. Em determinada altura perdi a mão do grupo. Agora procuro entender o que se passou. Levado pelo excesso de confiança pelo sucesso das sessões anteriores, não preparei um "Plano B" para o caso de eles estarem mais frenéticos... Também o nosso mediador cigano não soube gerir os meninos, muito por ter pouca consciência da natureza do trabalho em educação artística e mediação leitora que estava a ser desenvolvido naquele momento. Não tem mal, mas confirma a necessidade de formação intensa nas áreas artísticas, mediação leitora e da dinâmica de grupos. É preciso seduzir estes mediadores ciganos para a leitura e para as expressões, antes de os lançar no terreno, para trabalho com os seus pares mais novos. A grande maioria destes jovens pouco contacto teve com o livro infanto juvenil, tendo pouco convívio com outros produtos culturais. Sem um domínio básico das metodologias de educação não formal, difícil será gerir um grupo para além do habitual berro e puxão de orelhas que testemunhei dentro da biblioteca. Também, os técnicos responsáveis pela sala de leitura infantil não ganham nada com a comunicação em ralhete e aos berros devendo aprofundar conhecimento sobre o trabalho com esta comunidade, estabelecendo uma relação justa com estes utilizadores. Ainda outro dado fundamental – a constituição dos grupos. Deveria ter refletido sobre o assunto, mas quando cheguei, já os grupos estavam constituídos, com diversidade etária num rácio demasiado elevado para a natureza do trabalho que queríamos desenvolver, onde a escuta, a serenidade e a cooperação, são mote para o início das sessões. No lançamento de um trabalho com crianças ciganas é recomendável que a intervenção seja feira por dois profissionais da mediação cultural, preparada anteriormente em tandem, com os olhos postos na continuidade. Só promovemos o empréstimo domiciliário, criando leitores assíduos, com projectos em continuidade dotados de uma visão mais lata, que permita sair das quatro paredes das bibliotecas indo ao encontro das crianças e suas famílias, diretamente nos bairros de origem. O verão vai servir para aprofundar a reflexão. Um abraço forte para a Ana Maria Cabral que me lançou o desafio e para a Marli Silva que me tem coadjuvado – obrigado.

Uma metodologia simples para trabalhar adjetivos 
("Filactera, meu Amor" - direitos reservados Miguel Horta)
De qualquer forma, a sessão de 24 de Julho correu bem ao nível de alguns objetivos pensados. Começámos com uma dinâmica de concentração e palavra, baseada nos nomes das aves e no vendedor de passarinhos (Passarinheiro – jogo de roda) que dantes havia nas nossas feiras. As crianças sabiam o nome de imensos pássaros, muito mais que os meninos das grandes cidades… Para que se concentrassem no nome da ave escolhida e nas regras do jogo, dei a cada participante um tsuru, à medida que iam acertando na palavra. Depois partimos para a leitura de um álbum de imagens sobre um passarinho na gaiola (“Tom y el pássaro” – Patrick Lenz). Depois a sessão descambou e não consegui chegar a Jacques Prévert (“Como fazer o retrato de um pássaro). Passado o momento de dispersão e ruído voltámos ao trabalho, terminando os desenhos a propósito do “livro com um buraco”. A sessão terminou com um pequeno jogo de “adivinha o adjetivo” partindo dos “emoticons”.
A partir do "livro com um buraco" de Hervé Tullet.
Desenho sobre fotocopia a preto e branco, de fotografia.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Construir a Narração: Inauguração do Convento do Carmo (Torres Novas)

Passo a vida a afinar o olhar, para poder reconhecer o outro. Sem este exercício é difícil entender uma comunidade. Vem esta constatação a propósito do meu último trabalho em Torres Novas, “A Visita”, uma intervenção em mediação cultural que partiu da memória do Hospital Velho desta cidade para chegar aos Torrejanos de agora. Quem me desafiou, foi  João Aidos, que conheço há uma boa mão cheia de anos. Sei que há uma coisa que nos une, o gostarmos de pessoas- ainda temos a capacidade de nos espantar com a expressão de quem habita os espaços, sejam eles latos urbanos ou pequenos e singulares bairros. Mais uma vez, este Engenheiro Improvável me lançou o desafio de pesquisar as histórias dos espaços para que as pudesse devolver à população que os possui, por legado. Andei em torno da memória do “Hospital Velho” (antigo Convento do Carmo), conversando com as mães que pariram naquela maternidade, com os filhos e com os profissionais que lá trabalharam. Neste trabalho de mineração da memória conheci alguns médicos ímpares. O Dr. José Manuel Bento Sampaio (que foi aluno do meu Pai na Faculdade de Medicina) veio de Almeirim, numa das noites que antecederam o evento, partilhou a sua visão do hospital, muito útil para a minha organização do conhecimento. Deixou ficar o seu livro “Memorial do Hospital Distrital de Torres Novas e do Serviço de Pediatria”, que li atentamente. A Dr.ª Ermelinda Júlia encheu-me com o seu afeto, facilitando contactos, acompanhando a construção da minha narração. E que dizer de um serão à conversa com um médico único, de elevado perfil intelectual, o Dr. Carlos Nuno? Também ele contactou com o meu Pai no Hospital de Santa Maria. Deu-me uma visão geral muito límpida da história do Hospital, sobretudo, o retrato humano, referido amiúde pelas mães que ali pariram e por outros doentes que ali foram tratados. No meu trabalho de pesquisa que incluiu residência na cidade, tive a preciosa ajuda do Serviço Educativo do Teatro Virgínia (daqui envio um abraço para a Cláudia Hortêncio!) que me fez chegar às mãos documentação histórica da Misericórdia e dos arquivos municipais. A equipa do Teatro recolheu um conjunto de depoimentos, na primeira pessoa (memórias/histórias), que foram projetados numa sala do Convento, como parte integrante na minha intervenção. 
A instalação incluía, ainda, uma árvore do claustro, que secara entretanto, e se transformou no lugar dos Tsurus, onde cada Torrejano nascido no “Hospital Velho” escreveu o seu nome, o nome de sua mãe, da parteira (quando sabiam) e do pediatra. No domingo à tarde já a árvore estava cheia de pássaros de papel. Cada pessoa que chegava com uma recordação acabava sempre por desfiar a memória, por vezes com bastante emoção. As histórias que recolhi e aquelas que inventei, tecendo um único conto, foram partilhadas ao longo do fim de semana, de mão dada com algumas canções onde a figura da Mãe é central.
Aqui fica um excerto do conto que foi narrado durante o fim de semana.
(...)
Irmãs de Leite

Maria Engrácia, a bela e frágil filha do dono da Farmácia, começou a ter as dores por volta do almoço. Às 10 de noite já entrava no Hospital Velho, não pela escadaria, mas sim pela rampa das urgências. Ao mesmo tempo Maria Sofia, uma moça rija da Meia Via, subia a escadaria, parando para soprar a cada lance. Quando chegou lá acima, quase estava parida. As duas mulheres ficaram no mesmo quarto apertado (que nem biombos tinha, à época) de duas camas em que bastava esticar a mão de um leito para o outro para fazer uma amizade, dando a mão à vizinha, nas horas de aflição. Engrácia pariu primeiro e foi reconduzida à sua cama onde tentou que a bebé que lhe puseram sobre o peito pegasse na maminha retirando aquele primeiro leite colostro com que a vida nos dá as boas vindas. Mas nada. Entretanto chega, desempoeirada Sofia, pelo seu próprio pé, senta-se na cama, a enfermeira põe-lhe a filha nos braços e a criaturinha logo começa a chupar raivosamente no mamilo da mãe. Escutou-se um Chup!Chup! sonoro que invadiu todo o quarto. E Engrácia naquele desespero: "Bebe filhinha, bebe!” Despachada Sofia daquela primeira parte da ceia da filha, virou-se para a vizinha e disse: “Ó mulher! Queres que a minha filha abra o caminho do leite para a tua? Com duas chupadelas ficas logo com as mamas desentupidas!” E assim foi. Sofia passou cuidadosamente a filha para os braços da vizinha e sentou-se na cama com a filha de Engrácia nos braços. A filha de Sofia nem estranhou um peito diferente: deu duas sacudidelas no mamilo de Engrácia, ao jeito dos cabritinhos e Chup! Chup! lá ficou o leite a escorrer. Retirou a filha e entregou a outra menina ao peito da vizinha, que logo sorveu esfomeada o peito de sua mãe. E repetiram a operação para o outro peito. Ao longo dos dois dias que estiveram no hospital as meninas saltaram pelas quatro maminhas sem qualquer problema. “Queres que ela agora prove desta?”. Ficou ali selada a leite uma amizade improvável e duradoura. Anos mais tarde (20 anos), deram entrada no Hospital Velho duas jovens mulheres com o mesmo tempo de gestação, entrando em trabalho de parto quase em simultâneo. Exigiram ficar em camas vizinhas e pariram quase ao mesmo tempo. Primeiro a filha de Engrácia e depois a de Sofia. Não tiveram nenhuma dificuldade em amamentar, mas deu-se a mesma dança de bebés entre maminhas. A enfermeira de turno comenta com a Doutora: “Até parecem irmãs, pela forma como se dão…” “Sim! Irmãs de leite!” - retorquiu a médica. (...)
O Dr. Carlos Nuno
muito atento às histórias que iam surgindo