quinta-feira, 22 de maio de 2014

EISEN - o texto

    Foto de Maria João Carvalho
"Amei muito uma mulher que dizia que durante o sono partilhava comigo
 o que mais precioso tinha: o seu inconsciente"

texto do conto "Eisen" apresentado em Maio de 2014 no Centro de arte Moderna durante um "Encontro inesperado" (Blind date) 
  
(em silêncio explorando e escutando a escultura “durante o sono” com luvas de conservador calçadas) (No chão está poisado o seu casaco)

A letra F! Uma bela questão…

(depois cantarolando em jeito operático)

O senhor ferreiro Ferradas
que em Ferragudo vivia
no fogo da sua forja
com ferro tudo fazia

Facas, foices e forquilhas
fateixas e ferraduras

Mas será que fazia esculturas?

Mas um dia que o ferreiro
se ferrou a dormir no chão
entrou pela fresta da porta
uma abelha com ferrão

E sem fazer cerimónias
ferrou uma valete ferrada
na face gorda e rosada
do tal ferreiro Ferradas

Ao ser picado o ferreiro
ficou todo infernizado
e logo fez um letreiro
todo em ferro forjado:

Faço trabalhos em ferro
sou ferreiro de profissão
abelhas ficam lá fora
não preciso de ferrão!

(descalça as luvas colocando-as no bolso)

Chamo-me José Ferro, operário metalúrgico, filho de ferreiro, mas todos me conhecem por Eisen…por causa Dele. É que Ele fala e lê alemão, essa língua precisa e estranha.
 Sou encarregado da oficina…oh, desculpem! Do ateliê metalúrgico, como ele gosta de chamar ao nosso espaço de trabalho…

Fui chamado aqui ao museu pela diretora.
Parece que as esculturas expostas manifestam comportamentos estranhos, pouco habituais para obras de arte.

Dizem, os guardas do museu, que à noite, quando as luzes da nave central se fecham, escutam estranhos ruídos e lamentos vindos desta zona da exposição.

Dizem… Que algumas esculturas se lamentam com saudades do corpo que as habitou, outras serpenteiam e movem-se em direção à luz.

Outras, até, levitam, erguem-se no ar e lá ficam presas em locais inacessíveis.

Dona Clara, a senhora da limpeza, afirma que foi atacada pela aranha verde quando varria o chão. Kredu! Nhor Déus!
E disse-me logo: Foi o senhor que ajudou a fazer, agora resolve! Okey?
Eu não vou limpar mais sozinha aquele canto do museu!

Outro segurança afirma que escapou no último momento de uma lua negra que o perseguia impiedosa pela escadaria… Klong! Klong! Klong! Refugiou-se atrás de uma coluna, banhado em suor. E a lua continuou rolando corredor fora…Klong! Kçong! Klong!

De qualquer forma, estas peças parecem exercer um poder estranho sobre quem com elas convive.
Vejam só esta escultura que o senhor Gaspar faz com o canhoto dos bilhetes que rasga á entrada…

 (Vai ao casaco e pega na escultorinha, mostrando-a ao público)
(enquanto a escultorinha de papel circula pelo público ele canta e deambula pelo espaço)

Ferro que nasces
no fundo da terra
feres o chão
arado na primavera

Ó Ferro!
Ó Ferro!
Choro meu homem
perdido
lá na batalha

Geboren wird
Tief in der Erde
Shlägst den boden
Pfug im Frühling

O Eisen!
O Eisen!
Bedauer mein Mann
Verloren
Dort in der Schlacht

(recolhe a escultorinha)
(vira-se para o público)

Ainda há pouco estava aqui um grupo de crianças a dançar de mãos dadas, em torno desta peça.
E iam dizendo disparatadamente:
-Esta parece-me um polvo.
- Uma alforreca! Dizia outra
E a mais pequenina - Um sol negro…
-Mas porque é que tu não falas? (virando-se para a escultura) - Estás a dormir?

Fala, fala… (encostando o ouvido à peça) Para quem a souber escutar… murmura…

(de novo virado para o público)

  E também respira. Respira como as outras…inspira, expira, inspira, expira…

Viram? Viram? Mexeu-se! A escultura mexeu-se (ficando agachado junto a base da escultura)

(depois levantando-se e olhando a assistência)

Sim, Doutora Isabel! Vou resolver o seu problema… Tenho uma familiaridade insuspeita com estas criaturas… Perdão!... Estas Esculturas…
Disse eu para acalmar a sábia mulher…

E agora estou aqui convosco e tenho esta tarefa para fazer…

Também eu me arrepio, à noite, quando fecho as luzes do ateliê…tenho a impressão de que aquelas peças estão vivas. Não param de olhar para mim.
Mostram um interesse especial pelo meu corpo.
Depois saio, para o meio da bruma que vem do mar, subindo a serra, envolvendo a mata.
Outras estão lá na sombra noturna das árvores como espectros vigilantes.

Às vezes fico observá-lo lá no ateliê…
Muito direto, de maçarico flamejante na mão, trabalhando o ferro.
Depois para, interrompe a chama, tira os óculos de soldadura e fica a mirar a peça, absorto, em silêncio…uma porção de minutos.
 Só se ouve o zumbido de um néon teimoso e intermitente…Deve estar avariado…

No dia seguinte lá está Ele, muito cedo, lá no ateliê. Arranjou a lâmpada, já não zune.
Está muito direito sentado à bancada a ler, por certo em alemão.
Ao lado, um conjunto de desenhos com um traço muito fino e sumido.
Alguns com estranhas mulheres nuas…                                                                  
 São os estudos para uma nova peça…
Sorri. Poucas palavras e começamos a trabalhar como se fossemos canteiros de volta de uma escultura tumular gótica.
 Só que não se escuta o truca! Truca, Truca! Mas sim o silvo do fogo, o raspar agreste da rebarbadora percorrendo a superfície metálica… e Klong!Klong!Klong!

Pergunto-me: será que o ferro é a matéria da alma?

Usamos o zircão de ferro dos meteoritos para datar o nosso planeta, mas como se esculpe a alma que o habita em todas as suas contradições?
Leve – pesado, luz-escuridão, morte-vida. Será que conseguimos imortalizar aquele breve momento de transição entre um estado e outro? A orla o limbo ou o hiato?... já não tenho palavras para explicar…

Amei muito uma mulher que dizia que durante o sono partilhava comigo o que de mais precioso tinha: o inconsciente.
Pela manhã, acordava sempre com a mão dela poisada ao meu coração.

Talvez estas peças sejam ferramentas para entender a alma humana em profundidade…

Viram aquela ave que atravessa a parede como um pensamento livre, alado? Sim! Aquela lá na entrada do museu.
Lembra-me outro pássaro da minha infância.

Certo dia voltava eu da escola, quando uma gralha, negra como a noite, me saltou à frente, justamente no carreiro entre as estevas que levava a minha casa. A bicha saltitava na minha frente, até parecia que queria falar comigo. Baixei-me e agarrei uma pedra que arremessei direto ao alado animal. Mas não acertei. A gralha levantou voo, deu duas voltas e no ar e voltou a poisar ali, de novo à minha frente. E a ave negra continuou a saltitar ali na minha frente como que a gozar comigo. Discretamente procurei um outro seixo, senti-lhe o peso. Peguei na pedra e lesto atirei-a certeira! Zás! Acertei-lhe! O animal ficou a esvoaçar na poeira do carreiro…tem uma asa partida – pensei. Peguei nela e coloquei-a na minha lancheira de vime, onde se ficou a debater.
Nessa noite deitei-me cedo e levei a lancheira de vime com o bicho para o meu quarto. Mas a meio da noite comecei a ficar com febre, muitos arrepios. Estou doente – Pensei - É uma bruxa… Ave negra é uma bruxa!
 Levantei-me cheio de tonturas e peguei na cesta de vime. Abri a porta do monte silenciosamente, para não acordar os meus pais, e aproximei-me do barranco fronteiro ao monte. Abri a cestinha de vime e soltei o negro animal que voou misturando-se na escuridão. Voltei para o meu quarto e deitei-me descansado, dormindo como um justo.
 Mas hoje em dia ainda sonho que o pássaro negro atravessa as paredes do meu quarto para me vir visitar.

Mas porque é que estou para aqui em devaneios?
Afinal sou apenas um operário metalúrgico, sindicalizado.
E estou para aqui a falar de sonhos…
Eu não quero falar dos meus sonhos!

Talvez as esculturas estejam doentes…
Talvez o Museu seja um hospital para obras de arte…
Abram as janelas, deixem-nas sair!
Não vêm que o lugar delas é no meio da floresta?
Entre a luz e a escuridão natural?

Viram? Viram? Mexeu-se outra vez! (apontando a base da escultura)
(retirando as luvas do bolso)
Vamos trabalhar…

E bendito e louvado, está este conto terminado
Foto de Maria João Carvalho

2 comentários:

  1. Fiquei siderada quando acabei de ler e reler este texto. Acho que ando a perder qualidades. Em tempos, sabia escrever o que sentia quando o que lia uma coisa em grande. Neste momento, não sei dizer nada. Sublime!

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