segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Lembrando o meu pai


Hoje, no aniversário do nascimento do meu Pai, lembro-o com um grande texto da Professora Maria José Forjaz de Lacerda. Uma questão de dimensão...
 
JORGE DA SILVA HORTA
LEMBRANDO O CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
Maria José Forjaz de Lacerda
Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Medicina de Lisboa
 
O centenário do nascimento de Jorge da Silva Horta cumpriu-se no dia 23 de Dezembro de 2007.

Merecia ter sido lembrado.

Mas nenhuma das instituições a que deu o seu saber e o seu prestígio durante o século XX (em especial a Faculdade de Medicina de Lisboa e o Instituto de Anatomia Patológica, instituições que serviu durante quase meio século) se lembraram de o homenagear naquela data; como ele próprio diria (desculpando, talvez, tudo e todos) “em holocausto a outras necessidades da Faculdade”1.

Desempenhou altos cargos, entre os quais se destacam os de Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Director do Serviço e do Instituto de Anatomia Patológica, Director da Faculdade de Medicina de Lisboa, Bastonário da Ordem dos Médicos, Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, Membro da Academia das Ciências, Presidente e Fundador da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica e Director Interino do Instituto de Medicina Legal. A todos se dedicou sempre com o mesmo entusiasmo e o mesmo sentido de serviço à Medicina e à Universidade.

Fui uma das suas últimas assistentes na disciplina de Anatomia Patológica. Ao relembrá-lo agora, penso traduzir a vontade de muitos dos que foram seus alunos e colaboradores e que recordam, não só o Mestre que os ensinou, mas também “o Homem Público que, em todas as actividades que exerceu, se dignificou a si próprio e as Instituições que serviu”2.

Ele era o Mestre. Ele era o Professor dialogante. Ele era o Amigo. Era assim que o víamos. Dotado de uma notável inteligência, de um extraordinário gosto pelo ensino e de uma cultura invulgar, foi um patologista e um académico brilhante, respeitado pelos seus pares, pelos seus alunos e pelos seus colaboradores.

 Mas não era um Homem fácil nem consensual. É ele próprio que o diz3:

Sou um homem vulgar, com bastantes defeitos, apesar de alguns não transparecerem – e também – porque não dizê-lo? com um certo número de qualidades.

Esforcei-me sempre, todavia, por ultrapassar a mediania; por isso fui um lutador e, como tal, ambicioso, mas sem nunca ter atropelado alguém. A luta deu-me uma certa dureza e, por esta razão, fui considerado por muitos como “um homem difícil”. Foram bem conhecidas as minhas “iras”, mas elas sempre se desfizeram depressa sem deixar qualquer marca. Se de alguma coisa que me diga respeito tenho de me orgulhar – foi o facto de nunca ter albergado sentimentos de ódio”.

 E, mais adiante, continua: “Fui sempre um homem que amou a liberdade. Cada um tem em si o centro do seu mundo – pode dispor livremente de si próprio com a salvaguarda de não atingir a liberdade dos outros.”

 Aqueles que, como eu, trabalharam e conviveram com ele sabem bem que esta era a sua maneira de ser.  

Teve a seu favor o tempo em que viveu e as “circunstâncias” que o rodearam, o que não  retira qualquer mérito à carreira rápida e brilhante que prosseguiu, tanto a nível académico como assistencial.  Para isso contribuíram dois factos: A vinda de Friedrich Wolwhill para Portugal e o “vazio” que havia na disciplina de Anatomia Patológica. Jorge Horta refere-se a estes factos, dizendo3:

 Devo confessar que na minha ascensão fui largamente bafejado pela sorte, pois aos 32 anos de idade tinha abertos na minha frente os lugares de professor extraordinário e catedrático e praticamente não tinha opositores. Mais ainda: tinha o privilégio de ser o único discípulo de Wohlwill em Portugal”.

Na verdade, revendo a carreira de Jorge Horta é fácil constatar que assim foi: licenciou-se em 1932 e, em 1934 Wohlwill, prestigiado patologista alemão de origem judaica, chegava a Portugal, constituindo para nós o elo de ligação da Escola Alemã de Virchow, (através de Conheim e Fraenkel, de quem foi discípulo) e a nova geração de patologistas que iria despontar pela mão de Jorge da Silva Horta. Vale a pena recordar estas suas palavras4 quando nos fala de Wohlwill e deste período da sua vida, que foi também um período importante da medicina portuguesa:

“Ele ensinou-nos a anatomia patológica desde os seus quadros mais simples, as técnicas de autópsia e de coloração histológica – e transmitiu-nos um método. Fez-nos compreender como se deve respeitar a verdade científica, como devemos dizer «parece-me» e, finalmente «não sei».

E, mais adiante, continua:

“Wohlwill aproximou-nos muito dos clínicos. A atitude anátomo-clínica foi da maior vantagem para nós, para os clínicos e para os doentes. Ao nosso laboratório, bem como à sala de autópsias, afluíam homens de todas as especialidades, de dentro e de fora do hospital.

“Um momento feliz potencializou a actuação de Wohlwill, resultando assim um impulso vigoroso que, em período tão difícil, originou uma rápida subida de nível da medicina portuguesa: é que à sua volta em esforço comum reuniram-se homens como Pulido Valente, Egas Moniz, Reynaldo dos Santos, Fernando Fonseca e Morais David, entre outros. As sessões dos Sábados, ainda na memória de todos, constituíram a expressão máxima dessa atitude anatomo-clinica”.

E foi neste ambiente de humanismo e de excepcional saber que Jorge Horta fez a sua formação, tornando-se a partir de meados do século XX um dos patologistas mais conceituados do País e um académico brilhante.

Dotado de uma viva inteligência, trabalhou com afinco durante o período em que foi o único discípulo de Wohlwill (1936-1946), e soube apreender todo o conhecimento que lhe foi transmitido, pondo-o ao serviço da prática hospitalar e do ensino da cadeira na Faculdade de Medicina de Lisboa. Como atrás referimos, a sua carreira foi rápida e brilhante: doutorou-se em 1940; fez concurso para o título de Professor Agregado em 1943; foi nomeado Professor Extraordinário em 1944, sem prestação de provas por ser concorrente único; em 1948 fez concurso para Professor Catedrático, em que foi aprovado por unanimidade.

 Uma longa e árdua tarefa o esperava agora. Wohlwill tinha partido e tinha deixado um legado: formar novos patologistas que perpetuassem a sua escola – a Escola de Anatomia Patológica de Lisboa5. E foi isso que Jorge Horta conseguiu fazer. A sua capacidade de liderança, as suas excepcionais qualidades didácticas e o seu gosto pelo ensino fizeram dele um professor admirado e respeitado por alunos e colegas e um patologista prestigiado no país e no estrangeiro.

A sua actividade no campo da Anatomia Patológica esteve sempre ligada à investigação. Ainda como monitor e posteriormente assistente livre da cadeira iniciou os trabalhos de investigação para a sua tese de doutoramento (“Hiperparatiroidismo experimental”); posteriormente, como patologista geral que era, interessou-se por temas referentes a múltiplas patologias, entre as quais destacamos, entre outras, patologia óssea, linfóide, ginecológica, endócrina e gastrenterológica, de que resultaram várias publicações.

Mas há dois temas que, a partir de meados do século XX, dominaram a sua investigação: Amiloidose de tipo português e Torotraste. Vale a pena analisar com mais atenção estes dois temas, pela repercussão que tiveram a nível nacional e internacional.

Foi em 1952 que Corino de Andrade, prestigiado neurologista do Hospital de Santo António do Porto, identificou clinicamente, em pescadores da Póvoa do Varzim, uma doença que viria a ter, ao longo do tempo, várias designações: Amiloidose de tipo português, Doença de Andrade; Paramiloidose; Doença dos Pézinhos; Amiloidose tipo I (Andrade) e Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF).

 Jorge Horta fez o diagnóstico anatomo-patológico da doença mas o seu nome ficaria esquecido, não aparecendo nunca associado a Corino de Andrade em qualquer publicação. A lesão dos nervos periféricos era complexa e difícil de interpretar histológicamente. (A substância amilóide dispõe-se no epinervo, no perinervo e no endonervo, formando nódulos bem limitados que aumentam progressivamente de tamanho, destruindo e distorsendo as neurofibrilhas).Jorge Horta era então um patologista de grande prestígio em todo o país, e Corino de Andrade veio a Lisboa mostrar-lhe as lâminas, nas quais Horta fez prontamente o diagnóstico de “amiloidose” Este facto só viria a ser lembrado muito mais tarde por Pereira Guedes. Vale a pena recordar as suas palavras6:

“………Por tudo isto se entendeu que não deveria o Hospital Geral  de Santo António deixar de prestar homenagem, através do seu Boletim, ao Mestre, ao Investigador e ao Médico cujo nome lhe ficou indissoluvelmente ligado a partir da identificação da substância amilóide – que a ele primeiro coube – na Polineuropatia Amiloidótica Familiar que Corino de Andrade isolou como entidade nosológica e a cujo estudo ele próprio dedicou muito da sua acção de investigador”

Dos estudos que efectuou sobre a natureza e as características histológicas e histoquímicas da substância amilóide na PAF resultaram várias publicações e conferências em reuniões científicas no país e no estrangeiro.7,8,9,10

Mas, sem dúvida nenhuma, a investigação mais importante da sua vida foi a que realizou sobre as lesões causadas no organismo humano pela injecção do dióxido de tório coloidal (torotraste). Este produto foi introduzido em 1928 como meio de contraste radiológico, e amplamente utilizado em todo o mundo, sobretudo nas décadas de 30 e 40 do século passado. Em Portugal foi utilizado especialmente em angiografia cerebral (Egas Moniz) e arteriografia da aorta e membros( Reynaldo dos Santos). Deixou de ser utilizado em 1955.

Ouvi muitas vezes Jorge Horta dizer que “O torotraste tem muito de «traste» e muito pouco de tório”. Esta frase encerra toda a verdade acerca desta substância: é uma solução coloidal que apenas contem 25% de dióxido de tório, mas que uma vez introduzido no organismo, nunca mais é eliminado e fica retido para sempre nos órgãos do chamado “sistema reticulo-endotelial”, emitindo radiações, sobretudo radiações α, que, apesar de terem fraco poder de penetração, vão induzir a médio e longo prazo, lesões, sobretudo no local da injecção (o chamado «granuloma do torotraste») e nos locais de depósito definitivo. Aí, as partículas são fagocitadas, ficando cerca de 70% retidas no fígado, 20% no baço e 10% na medula óssea e gânglios linfáticos.

No início da década de 60 do século passado, Jorge Horta foi convidado através do Prof. Harold Stwart - representante de várias instituições médicas americanas com interesse no estudo dos indivíduos atingidos por acções ionizantes – para formar um grupo de trabalho destinado a estudar os doentes que, em Portugal, tinham recebido torotraste para fins de diagnóstico. Foi assim formado o “Portuguese Study Group of Thorium Dioxide’s Side Effects” financiado, durante 13 anos, pela “Environmental Control Administration, EUA”. Este grupo fez um trabalho importante, no qual foram apurados 2432 doentes injectados entre 1930 e 1955. Destes, cerca de metade foram detectados no rastreio e avaliados nos aspectos clínico, anatomo-patológico, laboratorial e epidemiológico. Sobre este estudo foram feitas várias reuniões no país e no estrangeiro e foram publicados vários trabalhos com marcada repercussão a nível nacional e internacional.11,12,13,14

Mas a acção de Jorge Horta na Faculdade não ficou limitada à Direcção do “seu” Instituto, à docência e à investigação.

 Em 19 de Setembro de 1955 foi nomeado Director da Faculdade de Medicina, cargo que, a seu pedido, deixou de exercer em 9 de Fevereiro de 1960.

Não foi fácil este período. Muitos problemas surgiram, mas Jorge Horta soube enfrentá-los com coragem e determinação, procurando sempre o apoio do Conselho Escolar para resolver as dificuldades que tinha que enfrentar.

Surgiu uma nova reforma do Ensino Médico (Decreto-Lei nº 40360 de 20 de Outubro de 1955) com um plano de estudos diferente, que alterou a ordem de colocação de algumas das disciplinas do curso e criou novas cadeiras para as quais foi necessário criar condições logísticas e humanas que tornasse possível o seu ensino. Tudo isto implicou uma reorganização do curso que não foi fácil, mas que Jorge Horta tentou sempre resolver com a colaboração do Conselho Escolar e dos alunos. Lembremo-nos que, neste período, não havia qualquer órgão de gestão onde os alunos tivessem voz, mas Jorge Horta nunca os ignorou, procurando sempre ouvi-los e compreender as questões por eles levantadas.

Mas havia outro problema que vinha de trás, e que Jorge Horta julgou ser possível resolver. Lembremo-nos que o Hospital de Santa Maria, inaugurado em Abril de 1953, tinha sido pensado para ser um Hospital Escolar. No entanto, em 1952, ainda no decurso das obras, foi publicado um Decreto-lei que integrava todos os Hospitais no então denominado Ministério do Interior. Desta medida resultou que o Hospital de Santa Maria ficou a ser tutelado por dois ministérios diferentes - Ministério do Interior e Ministério da Educação – o que viria a gerar, ao longo dos anos as ambiguidades e a contestação de todos conhecida.

Jorge Horta, com um sentimento de perfeito universitário, queria manter a todo o custo o Hospital Escolar, sob a tutela do Ministério da Educação. Para isso propunha que houvesse uma escala hierárquica única, sendo a Faculdade a garantir todo o serviço assistencial. Lutou por isso junto dos ministérios mas não conseguiu concretizar o seu objectivo15. Reconhecemos hoje que tinha razão mas a sua visão foi considerada utópica.

Nas funções que exerceu como Director da Faculdade, Jorge Horta sabia ter autoridade, sem ser autoritário, como exprime nestas palavras16:“A autoridade terá de ser uma constante para fazer algo de novo que não seja anárquico – mas autoridade não implica submissão pura e simples. Há que dialogar!”. E foi com este espírito aberto e franco que Jorge Horta procurou sempre ouvir os estudantes e satisfazer os seus pedidos, quando justos e razoáveis. Neste período eu era aluna da Faculdade e lembro-me bem da ligação cooperante que existia entre o Director e os alunos. Como exemplo, basta lembrar que na “nova” Faculdade não havia uma “Sala de Alunos”. Encontrávamo-nos e falávamos nas aulas práticas, nos anfiteatros (que, então nos pareciam enormes) ou nos longos corredores que percorríamos apressadamente de aula em aula. As palavras de Xavier Morato15 são elucidativas a este respeito: “A verificação da inexistência de local onde os alunos pudessem descansar, aguardar a hora das aulas, estudar, reunir-se e – por que não? – divertir-se, fê-lo instar pela construção desse local, o que conseguiu. Deve-se-lhe, pois, a chamada “Sala dos Alunos”.

O Conselho Escolar (único órgão de gestão existente na época, constituído por todos os Professores Catedráticos) nem sempre o apoiou, sobretudo nas opções que tomou em relação aos alunos. Havia quem o achasse sincero, mas outros chamaram-lhe «demagogo» ou «ingénuo»15. Mas Jorge Horta, não só como Director da Faculdade mas em toda a sua actividade profissional, foi sempre um Homem «ahead of his time». Já nessa altura pensava que na Faculdade devia haver uma gestão diferente, pensava sobretudo na criação de «corpos docentes – discentes» com funções específicas. Sem o saber, estava já a falar num modelo de gestão que só viria a concretizar-se cerca de 20 anos depois…

Pelo seu prestígio, pelas suas qualidades, pela sua determinação, pela sua capacidade de criar consensos e até pela sua intolerância perante a inércia e a indiferença de muitos, «o tempo da sua direcção na Faculdade correspondeu a uma época áurea da Instituição»15.

Apesar disso, não ficou satisfeito, como podemos ver nestas palavras que proferiu muitos anos depois, referindo-se, com uma certa nostalgia, à Direcção da “sua” Faculdade”3:

·         “Sonhei sempre em ocupar este lugar; foi uma das minhas ambições. Tinha a confiança dos estudantes e de alguns professores. O sonho seria, entre outras coisas menos importantes, organizar “corpos docentes-discentes” com funções específicas que dessem a tão necessária coesão à Faculdade. Mas a maior parte do meu Conselho não o consentiu. Viam na convivência com os estudantes um perigo – eles que tinham tão bem vivido até aí separados dos alunos por uma forte barreira de cimento.

Jorge Horta foi exonerado, a seu pedido em 9 de Fevereiro de 1960. Ao saber do seu pedido de demissão, no fim de 1959, os alunos fizeram um documento com cerca de 2000 assinaturas (correspondiam, à data, aproximadamente, ao número de alunos existentes na Faculdade), pedindo para ele continuar a ser o “seu” Director. Mas Jorge Horta não quis continuar, talvez desencantado pelo que não conseguiu (ou não o deixaram) fazer. Podemos ver isso nestas suas palavras3:

 No fim de quatro anos pedi a minha demissão: fiquei triste e bastante amargurado. Tenho, porém, a consciência de que alguma coisa ficou feita. Pelo menos, modificou-se um pouco o «espírito velho» e nasceu, apesar de uma certa tibieza «um novo comportamento»

Mas o seu prestígio era grande e ultrapassou os muros da Faculdade. Dedicou grande parte da sua actividade ao estudo dos problemas relacionados com o ensino médico pré e pós graduado, á Universidade e à reorganização do Serviço de Saúde em Portugal.

Desempenhou, por isso, cargos de grande relevo, entre os quais destacamos os de Bastonário da Ordem dos Médicos (1956-62), Presidente da Sociedade das Ciências Médicas (1969-77), Presidente e fundador da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica (1963) e membro da Academia das Ciências, Instituições a que deu todo o seu saber e experiência

Exerceu o cargo de Bastonário da Ordem dos Médicos durante dois triénios (1956-1959 e 1959-1962). Um marco da maior importância durante este período foi a publicação em 1961 do “Relatório das Carreiras Médicas”.

Profundamente insatisfeito com a prática da Medicina no nosso País disse-o, no discurso de posse do 2º mandato17:

“Todos nós estamos de acordo num ponto. A medicina que exercemos está muito aquém da praticada nos países de civilização mais avançada. Teremos de procurar os meios de possuir quadros técnicos suficientes em número e em qualidade: em seu redor se habilitarão as futuras gerações de médicos e isto, tanto no ramo da medicina curativa como da preventiva. Para tanto é necessária uma organização, estruturada desde a Universidade. Teremos de possuir meios técnicos que nos garantam junto do doente e do homem são, uma acção perfeita e eficiente”.

E foi, numa tentativa de resolver esta situação que, numa reunião da Secção Regional de Lisboa da Ordem dos Médicos, em Agosto de 1958, surgiu a ideia da constituição de um grupo de trabalho que elaborasse um relatório que viria a defender a ideia do “Serviço Nacional de Saúde”. São suas estas palavras17:

 “É digno, pois, dos mais rasgados elogios o esforço dispendido pelas comissões de Lisboa e Porto encarregadas do «estudo das carreiras médicas». Pela primeira vez os médicos, colectivamente, no seio do seu organismo representativo, a Ordem, abandonaram a fácil posição de crítica para propor neste campo soluções definidas. Sinto-me feliz por ter sido no decorrer do meu mandato que estes acontecimentos se tenham registado. Arredadas as paixões, postos de lado os problemas particulares, teremos de confessar que estamos em presença de um documento notável”.

“Ele mostra-nos uma forma como se poderá modificar a medicina que exercemos. É preciso pois modificar e modificar profundamente”

Um dos subscritores e principal relator, Miller Guerra18, lembra este período: “A criação de um sistema nacional de saúde nasceu das circunstâncias em que se encontravam, por volta de 1958, os médicos e os doentes sem recursos. A situação era paradoxal: de um lado, estavam os médicos recém-formados que não tinham ocupação nos hospitais ou na clínica livre; do outro estavam doentes sem assistência”

E, é precisamente nesse relatório, divulgado em 1961, que é defendida a ideia da criação de um Serviço Nacional de Saúde.

Vale a pena recordar estas palavras de Jorge Horta, acerca da sua actuação como bastonário19:

Pela vida fora também ocupei alguns quadros porque a isso fui obrigado. Ainda a esse respeito dei tudo o que tinha a dar. Foi pouco? Talvez, mas fi-lo tendo sempre em vista o sentido útil. Fui Bastonário da Ordem. Então fui obrigado a lutar pelo que me parecia a «boa causa», mas tenho de admitir duas coisas: uma – que as minhas qualidades não teriam sido suficientes – outra, que muitas vezes não fui compreendido. No meu segundo mandato chamei a mim os jovens médicos. Aqui nasceu o que mais tarde se havia de chamar «Movimento Médico». Assim se escreveram os três relatórios de Lisboa, Porto e Coimbra e assim nasceu o tão falado e hoje tão propositadamente esquecido «Relatório das Carreiras Médicas». O relator foi Miller Guerra: a honra lhe cabe. Quanto a mim só escrevi umas poucas páginas sobre Ensino Médico, mas controlei o conjunto”.

Apesar de todo o seu entusiasmo na criação de um Serviço Nacional de Saúde que fosse digno para médicos e doentes, não conseguiu concretizar este objectivo, como se torna evidente nestas suas palavras19:

“O cargo de Bastonário obrigou-me a tensões constantes com ministros e políticos. Julgo que o Dr. Salazar poucas vezes deve ter ouvido tantas verdades – e foram elas tão duras – (só o adulavam!) como as que eu e os restantes membros do Conselho Geral da Ordem lhe dissemos. Por esse tempo houve até um ministro que em público, no Porto, me chamou «comunista».

Outro cargo que Jorge da Silva Horta desempenhou foi o de “Presidente da Sociedade das Ciências Médicas” (Fig.2): Tomou posse como 54º Presidente desta instituição a 3 de Novembro de 1969, cargo que exerceu até 1975. O seu mandato ficará sempre ligado à inauguração da nova sede na Av. da República. Era um problema que datava de 1958, devidamente acompanhado por todas as direcções. Como nos diz Torres Pereira20 (nesta altura, Secretário-Geral da Sociedade): “As dificuldades foram sem conta e não é este o momento nem o local para as historiar. Para a história ficará sim, que sendo Jorge Horta Presidente foi publicado em 1970 no «Diário do Governo» a legislação conveniente que tornou possível a transferência e inauguração da nova sede”.

Também, nesta altura, se vivia em Portugal o período revolucionário pós-25 de Abril, o que trouxe alguma perturbação à vida da Sociedade. Entre outras coisas foi necessário travar a inauguração solene da nova sede e cancelar a deslocação a Lisboa do cientista Jean Bernard. Torres Pereira20 salienta a atitude de Jorge Horta, ao mesmo tempo firme e conciliadora,  durante este período conturbado da vida social e política. São suas estas palavras: “ o que quero fundamentalmente salientar é o mérito do Presidente que, cuidadosamente, com serenidade, bom senso, amor à Sociedade e realismo perante a vida política, soube, na Direcção da Sociedade, aceitar sugestões duns, críticas de outros, fazer prevalecer noutros casos o seu melhor ponto de vista, em suma soube estar à altura da responsabilidade, conduzindo-se como um bom presidente”.

Outro aspecto que importa salientar é a actividade de Jorge Horta na criação da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica, no ano em que se comemorava o centenário da criação da cadeira de Anatomia Patológica nas Faculdades de Medicina de Lisboa, Porto e Coimbra. Foi em Outubro de 1963. Até aí, os encontros científicos dos patologistas faziam-se raramente nas reuniões da Sociedade Anatómica Portuguesa. Jorge Horta foi o grande dinamizador da criação da Sociedade e, foi graças ao seu dinamismo e entusiasmo que a sociedade nasceu.

A primeira Assembleia Geral teve lugar na sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa em 25 de Outubro de 1963 e teve por finalidade votar a eleição dos primeiros corpos gerentes e, logo no ano seguinte, em 20 e 21 de Março de 1964 teve lugar em Lisboa a 1ª Reunião científica, no Instituto de Anatomia Patológica, que tem desde sempre funcionado como sede da Sociedade.

 Enquanto Presidente da Sociedade Jorge Horta foi o grande impulsionador de muitas das actividades que então se foram realizando: as reuniões realizavam-se regularmente três vezes por ano nos Institutos de Anatomia Patológica das Faculdades de Medicina de Lisboa, Porto e Coimbra, o que serviu para que todos se fossem conhecendo melhor e fossem trocando saberes e experiências. A pouco e pouco foram-se estreitando relações entre os patologistas portugueses e foi-se consolidando a estrutura de uma sociedade que, mais tarde viria a estabelecer contactos com Angola, Moçambique, Espanha e Brasil.

Muito ficou por dizer nesta breve nota sobre a actividade de Jorge Horta nos diferentes cargos que ocupou. A todos prestigiou, a todos deu o máximo do seu saber e da sua competência. Mas nem todos o satisfizeram de igual modo.

Propositadamente deixámos para o fim aquele a que mais se dedicou durante cerca de 40 anos com um interesse e uma satisfação invulgares: ser Professor. A sua atitude perante o ensino e as perspectivas de futuro para o ensino médico estão bem expressas em muitas das suas publicações21,22,23,24,25,26. Aquela sua forma de ensinar, aberta e dialogante, marcou várias gerações de estudantes, que ainda hoje o recordam com saudade e respeito. Em trabalho anterior já nos referimos longamente a este assunto e seria repetitivo focá-lo novamente agora27. Deixamos apenas aqui algumas das suas palavras, que mostram bem o seu extraordinário gosto pela docência:

·         “Ser Professor de Anatomia Patológica – sim – foi a maior ambição que profissionalmente tive. Foi sempre com uma doce ansiedade que senti aproximarem-se os últimos dias de férias. De novo, dentro em breve, teria os meus alunos. Eram 300 ou 400 estudantes aos quais eu dava o que sabia e da melhor forma que era capaz de fazer. Com eles também aprendi bastante no meu próprio comportamento do acto de ensinar, resultando uma nova pedagogia que todos os anos tentei fosse cada vez mais perfeita. Para tanto as minhas aulas teóricas, e um pouco também as aulas práticas, constituíram um diálogo por vezes constante”.

·         “Quando, colocando-me no campo meramente profissional, me interrogo: o que fui eu? O que fiz neste campo? Antes de tudo fui Professor, já porque ensinar foi sempre aquilo que mais gostei de fazer, já porque nos estudantes, estou certo, ficou alguma coisa de útil.

·         “Conduzir um barco e saber que a tripulação está satisfeita com ele. Conduzir sem conduzir, dando primeiro a oportunidade para criticar e, depois, pedindo até essa critica  - a qual se torna completamente indispensável a quem ensina. Ensaiar novos métodos, deixar trabalhar por si os estudantes mas em contacto connosco. Ver a nossa biblioteca cheia, ver os estudantes a fazer nela as suas pesquisas, para uma aprendizagem individual ou de grupo. Nestes anos que são tão longos nunca tive da parte deles uma razão de queixa”

 

REFERÊNCIAS

1.     Silva Horta J. A Anatomia Patológica na Escola Médico-Cirúrgica e na Faculdade de Medicina de Lisboa. A sua evolução como especialidade e o seu ensino. Bol. Acad. Ciências Lisboa, 1963; XXXV: 288-305

2.     Ducla Soares A. Letra de Médico. O Médico, 1977; LXXXV: 596-597

3.     Silva Horta J. Palavras proferidas em homenagem prestada pela Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica. Arq. Pat. Ger. e Anat. Pat. Coimbra, 1982; XVIII: 113-119

4.     Silva Horta J. A Anatomia Patológica na Escola Médico-Cirúrgica e na Faculdade de Medicina de Lisboa. A sua evolução como especialidade e o seu ensino. Boletim da Academia das Ciências de Lisboa, 1963; XXXV: 288-305

5.     Forjaz de Lacerda MJ. O Professor Friedrich Wohlwill e a criação da Escola de Anatomia Patológica de Lisboa da Faculdade de Medicina de Lisboa. Revista da FML, 2003; Série III; 8 (6): 399-405

6.     Pereira Guedes J. Professor Jorge da Silva Horta. Boletim do Hospital Geral de  Santo António, Porto, 1978, 1(5); 5-6

7.     Silva Horta J. Pathologische Anatomie der portugiesischen Paramyloidosenfälle mit besonderer Bevorzugung des peripheren Nervensystems. Acta Neurovegetativa, 1955; 12: 105-110

8.     Silva Horta J, Dias Coelho MR. Localisations de substance paramyloide dans le Système Nerveux Central. Arch. «De Vecchi» Anat. Path. 1960; 31: 163

9.     Silva Horta J, Renato Trincão. Anatomie pathologique de la paramyloidose du «type portugais».  Acta Neuropathologica, 1963; Suppl. II: 54

10.  Silva Horta J, Filipe I, Silva Duarte C. Portuguese polyneuritic familial type of amyloidosis. Path. Microbiol. 1964; 27: 809

11.  Silva Horta J. Lebersarkom einer Frau 3 Jahre und 2 Monate nach Thorotrastinjektion. Chirurg. 1953; 24: 218

12.  Silva Horta J, Collette J. Roriz ML. Circulation lymphatic du foie. Visualization du réseau lymphatique du fois chez des individus injectés avec le thorotraste . Arch. «De Vecchi» Anat. Path. 1961; 35: 1

13.  Silva Horta J, Abbat JD, Cayolla da Mota L, Tavares MH. Leukemia, malignancies and other late effects following administration of thorotraste . Z. Krebsforsch. 1972; 77:202-216

14.  Silva Horta J, Cayolla da Motta L, Tavares MH. Thorium dioxide effects in man. Epidemiological, clinical and pathological studies (Experience in Portugal). Environmental Research. 1974; 8 (2): 131-159

15.  Xavier Morato MJ. Jorge Horta – O Director da Faculdade de Medicina. O Médico, 1977; LXXXV: 603-604

16.  Silva Horta J. Uma geração que não se pode demitir. Alocução presidencial na sessão inaugural do ano académico na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa de 1969/70. Semana Médica, 1969; 537: 3-13

17.  Silva Horta J. Discurso do Bastonário da Ordem dos Médicos no Acto de Posse. Bol. Ord. Méd. 1959; VIII: 431-450

18.  Miller Guerra, em Gonçalves Ferreira, História da Saúde e dos Serviços de Saúde em Portugal, 1990, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

19.  Silva Horta J. Palestra proferida no dia da sua jubilação (23 de Dezembro de 1977), na Biblioteca do Instituto de Anatomia Patológica.

20.  Torres Pereira A. Jorge da Silva Horta – Presidente da Sociedade das Ciências Médicas. O Médico, 1977; LXXXV: 605-606

21.  Silva Horta J. Exercício Médico – Ensino Médico; Modificação do Exercício; Renovação do Ensino. Boletim da Academia de Ciências de Lisboa, 1962; XXXIV: 3-13

22.  Silva Horta J. A Universidade perante os modernos métodos pedagógicos. Actas do I Congresso Nacional de Anatomia Patológica, 1968; 41-49

23.  Silva Horta J. A lição magistral e os outros métodos didácticos. O Médico, 1971 58: 17

24.  Silva Horta J. Defesa de uma carreira de investigação científica na medicina portuguesa. Semana Médica, 1960; 82: 1-8

25.  Silva Horta J. Da Universidade para a profissão médica. Boletim da Ordem dos Médicos, 1959; VIII: 7-15

26.  J. Silva Horta. A Universidade nos nossos dias e no futuro. Estudos Gerais Universitários de Angola, 1968; 7-16
Forjaz de Lacerda MJ. O Ensino de Anatomia Patológica na História da Faculdade de Medicina de Lisboa até ao fim do Século XX. 2ª Parte – Desde a criação da Real Escola de Cirurgia (1825) até à Reforma de 1930. Revista da FML, 2009; 14: 201-220

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