quinta-feira, 22 de junho de 2017

O que nos disse um retrato...

As nossas Miss Constable
Chegámos ao fim do ano letivo e acho que estou bem feliz com os resultados da minha oficina “O que nos diz um retrato”, no Museu Gulbenkian. Claro que as últimas realizações ficaram mais oleadas com a prática; mais oficinas existissem, melhor seria o resultado. “O que nos diz um retrato” é a única oficina que realizo atualmente para o setor educativo do Museu Gulbenkian, no campo das necessidades educativas especiais, colaboração que iniciei em 2005, a convite de Susana Gomes da Silva. Nestas oficinas, o público foi constituído, maioritariamente, por grupos de participantes portadores de doença mental. Nas primeiras duas sessões, os visitantes foram convidados a conhecer o Museu Gulbenkian e as suas obras de forma descontraída, desvendando, aos poucos, as histórias escondidas “por detrás” de cada peça exposta. 
A conversa em torno dos diferentes retratos é dinâmica, gerando opiniões surpreendentes no público visitante. A riqueza vocabular cuidada, adaptada à composição de cada grupo, deve ser intuída logo no início, sendo fundamental que o monitor possua uma competência da palavra que permita ir do sinónimo até ao adjetivo mais expressivo para uma comunicação bem-sucedida. Mais uma vez a empatia das pessoas que gostam de comunicar com o outro, torna-se evidente numa relação, que embora limitada no tempo, tem grande intencionalidade de afecto.  O Museu é uma “Máquina do Tempo! A linha temporal é estabelecida, não com datas a decorar, mas sim com referências enraizadas na cultura geral (e até popular) garantindo a perceção do tempo na arte e no discurso expositivo: “Um pouco antes deste momento, em que Carpaccio pintou o quadro, Alvares Cabral, chegava ao Brasil” ou “Reconhecem aquele cabelo?” “Faz lembrar a cabeleira do Marquês de Pombal!”. Diz um participante “Pois bem" Respondo, "o quadro foi pintado no ano em que se deu o tremor de terra”  A propósito do “Século das luzes”, um dos núcleos da coleção de  Calouste Sarkis Gulbenkian, toda a visita se torna bastante interessante,  pela intenção evidente dos pintores da época, ao criarem retratos onde se evidenciam os universos pessoais dos retratados, onde a sabedoria, o “bom trato” muitas outras características humanas e socialmente muito úteis se evidenciam. Para cada peça uma abordagem específica com objetivos comuns estabelecidos anteriormente, mas que devem surgir como um rio fluindo na comunicação entre pessoas. Por exemplo, quando abordo o busto de Molière, faço uma adivinha, interpelando os participantes sobre a origem da peça. “Conseguem identificar a personagem ali reproduzida? A cabeleira é verdadeira ou falsa? Vou fazer uma adivinha sonora…” Agacho-me sobre o belo soalho de madeira do Museu Gulbenkian e faço “as pancadinhas de Molière” batendo com os nós dos dedos no chão. Adivinham sempre... Serve este exemplo para mostrar como é importante fazer apelo a todos os sentidos dos visitantes especiais, quando fazemos visitas ao Museu. Depois desta experiência de percurso descontraído pelo museu, durante duas sessões, segue-se a preparação do trabalho em ateliê. 
Cada participante é desafiado a escolher uma personagem de uma peça do Museu. A partir deste desafio, constrói-se a proposta plástica que vai ganhando autonomia e expressão. Aprofundamos, em oficina, a história da peça escolhida, apresentando intertextualidades interessantes ou divertidas sugeridas pelas personagens dos quadros. Surgem as perguntas: “E se eu vivesse naquele tempo? O que faria se a personagem do quadro viesse aos nossos dias? E se eu vivesse na época? Como seria a cidade onde vivia a rapariga do quadro? Em que estação do ano foi pintado?” Todas as perguntas facilitam respostas espelhadas em desenhos originais. Em certos momentos, cai um silêncio enorme na sala – utentes e técnicos estão tão absorvidos nos desenhos que dão corpo ás suas personagens adotadas no Museu, que não dizem uma palavra. 
Depois vem o trabalho com base em fotografias onde o corpo recria as poses das personagens escolhidas. “Lembra-se da posição em que estava o nosso burgomestre?” “Consegue imitar a expressão subtil do rosto da marota da Miss Constable?” São sempre umas figuras divertidas, as que fazemos no átrio do Museu Gulbenkian, quando tiramos as fotografias no meio de outros visitantes… Quase no final da oficina mostro algumas brincadeiras que fiz com ajuda do Photoshop (neste caso o Paintshop Pro). A risada é geral! Todos querem ver as fotos “trabalhadas” dos colegas… Sem darem por isso, mergulharam dentro das peças e as histórias dos quadros passaram a fazer parte das suas existências…

Voltem sempre ao nosso Museu.
São tantas as personagens que vivem no Museu

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Mithos a ler. Formação Necessidades Educativas Especiais

Brincando!
Teve lugar a 7 de junho mais uma formação gratuita para mediadores da leitura voluntários dispostos a trabalhar o livro e a palavra junto de pessoas com necessidades educativas especiais. Trata-se de uma iniciativa do projeto Mithos a Ler (parceria entre a Mithos – histórias exemplares e a Laredo) responsável por uma biblioteca comunitária inclusiva em Vila Franca de Xira, um caso raro de um coletivo que aposta na acessibilidade aos conteúdos específicos para e com pessoas com deficiência. O projeto está em crescimento… Pois então, fiz o meu trabalho com um grupo inclusivo e divertido que esteve uma tarde inteira de volta dos livros, de técnicas simples para mediação e ilustração. Trabalhámos vários livros de acordo com os diferentes tipos de problemática mediação, partilhei uma maneira simples de promover o jogo simbólico criando personagens a partir de objetos do quotidiano e, finalmente, propus um exercício de desenho para e com pessoas cegas. Agora é importante dar um salto à Biblioteca Municipal para perceber que elementos da coleção poderão ser requisitados, localmente, para o nosso trabalho.
 brincando aos desenhos 3D
 Ilustrando com e para pessoas cegas
Recursos simples para o jogo simbólico

Desenho na ponta dos dedos

Desenho do Armindo sobre "papel de cebola" - "Cadela"

A propósito do vasto campo da Literacia Tátil
Um recurso que não é novo
mas continua a funcionar

Em 1983 tomei contacto com cegos da ACLB, quando da minha exposição “pinturas de uma viagem a Cabo Verde”, que esteve exposta a poucos quarteirões daquela associação. Ao permitir que algumas pessoas pudessem passar as mãos pelas telas, lendo as texturas e ritmos do meu trabalho, consegui entender um outro ponto de vista sobre o mundo. Mas a grande viragem deu-se em 2012 quando trabalhei no Agrupamento de Escolas de Rio de Mouro, na EB nº2 (escola de referência para cegos), enquadrado numa iniciativa da Câmara de Sintra. É certo que já utilizava outros recursos imaginados para trabalhar com este grupo específico de pessoas (Centro para a Educação do Cidadão Deficiente/ateliê e na oficina “ideias na ponta dos dedos” – Fundação Calouste Gulbenkian), mas a questão da possibilidade do desenho e suas implicações continuavam a agitar as minhas reflexões. Quis o destino que me cruzasse com a professora Elisa Gaspar que partilhou comigo as suas descobertas. Até que um dia uma cadela entrou na sala de aula e um dos meninos cegos fez um desenho da bichinha sobre uma folha de “papel de cebola”. Um resultado espantoso para uma criança com cegueira à nascença! No caso da cegueira adquirida existe uma memória do objeto, sendo a sua representação muito facilitada; na cegueira congénita o desenho é feito pela experiência tátil direta e complementadas pelas descrições escutadas ou lidas em Braile. 
O “papel de cebola” é uma película plástica texturada, percorrida por uma malha regular apertada, que permite registar sulcos feitos com a ponta de um lápis ou outro riscador. Os desenhos são feitos sobre um dispositivo com base de borracha (pode ser napa) com uma peça que se justapõe sobre a película (em Inglês, Sketchpad – a este propósito é muito interessante conhecer o trabalho do arquiteto Chris Downey). Este dispositivo tem sido usado na educação formal de crianças cegas servindo habitualmente para desenhos de cariz funcional (formas geométricas e grafismos próprios do mundo visual). Existe o preconceito de que como não vêem…não vale a pena propor o desenho criativo. O meu desafio foi criar dinâmicas que permitissem a expressão em desenho construídas a partir deste recurso. Rapidamente se entendeu que era possível fazer jogos de adivinha tátil, seguidos de desenho, abrindo portas para registos imaginativos. Este recurso tem um potencial inclusivo muito forte. Concluí, que no geral, o desenho da figura humana sobre o “papel de cebola” executado por crianças cegas, não apresentava diferenças significativas dos desenhos de outras crianças sobre papel, obedecendo às mesmas características evidenciadas nos estudos de Piaget. Foi preciso explicar isto mesmo, muitas vezes… A partir daí, o “papel de cebola” e outros suportes planos, obedecendo ao mesmo objetivo, têm servido para múltiplas descobertas no campos das artes plásticas aplicadas à cegueira (e também de forma inclusiva). Introduzi esta metodologia nas actividades educativas do Programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian dedicado a públicos com necessidades educativas especiais no ano de 2012 e em diversos contextos de formação ao longo dos últimos anos. Recentemente, durante uma formação que dei no encontro "Caminhos de Leitura" (Pombal) conheci um grupo de mediadoras sociais de Coimbra que utiliza esta metodologia nos seus trabalhos, à semelhança da mediadora cultural Joana Maia (Mithos) no projeto “Vem calçar os sapatos do outro”. Como sempre o segredo não está na ferramenta mas sim nas metodologias imaginadas e investigadas…
Imagens da formação de voluntários mediadores da leitura
Mithos - Histórias exemplares - Junho 2017
Afinal os cegos ilustram...
Objetos que contam histórias 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um traço no Mar

Durante o mês de Maio, esteve patente ao público de Torres Vedras, na bela biblioteca municipal, a minha exposição de ilustração “Um traço no Mar” que reuniu um conjunto de desenhos a lápis feitos para os meus livros (Dacoli e Dacolá, Pinok e Baleote e Rimas Salgadas). No dia 20 de maio, no contexto desta iniciativa, teve lugar uma oficina de ilustração para iniciados e inclusiva. “Foi uma oficina muito Zen”, disse-me uma amiga da Biblioteca Municipal. De facto correu tudo muito tranquilo, muito harmonioso, num silêncio em que dava para escutar a conversa do lápis namorando o papel. Gostei bastante. Goretti Cascalheira: podemos organizar outra oficina de ilustração?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sussurrar poesia na Festa dos Contos!

 
Só agora encontrei um pedacinho para falar um pouco sobre a Festa dos Contos que decorreu em Montemor-o-Novo de 18 a 20 de maio. É um festival de narração oral com a escala certa para a cidade e representa um enorme esforço do Carlos Marques e companheiros com resultados fantásticos. Basta ver a quantidade de gente que esteve na sessão de sexta-feira à noite, onde Thomas Bakk foi aplaudido de pé. Estas formiguinhas fartam-se de trabalhar e o resultado é a evidente conquista do público de Montemor-o-Novo. Existem escutadores para os contos! Ao longo de dos dias trabalhei com a comunidade de Montemor, alunos de turmas Pief que me tocaram lá no fundo, crianças da Oficina da Criança (lugar histórico da educação pela arte) e os meninos e meninas da universidade da terceira idade que me alegraram a sessão com as suas canções. Tive a sorte de ter sempre o apoio da Alexandra Jesus em todos os detalhes logísticos da minha intervenção e gostei muito de conhecer a equipa camarária dos diferentes espaços educativos da cidade. Primeiro apresentei a maquina da poesia aos diferentes grupos e todos escreveram, corajosamente; seguiu-se a construção personalizada de sussurradores, para disparar poemas a quem passava nas ruas durante a romaria. À cabeça da romaria dos sussurros e contos iam os bombos, atrás trinta e tal sussurradores nas mãos de crescidos, menos crescidos e crianças, interpelando os ouvidos de quem passava incauto nas ruas e bem longe da poesia. Fomos todos desembocar no Pátio dos Contos…e a festa continuou! (eu é que tive que rumar para Torres Vedras por causa da minha exposição de ilustração)
 escrevendo Poesia na Oficina da Criança
Carlos Marques: estilo, também, na sussurração
 Dizem que estes jovens são difíceis...
A universidade da terceira idade em acção com o professor Vitor ao centro

domingo, 4 de junho de 2017

"Eu sou Tu" no Casalinho (Bairro Leitor).

"Eu sou Tu": Um dos trabalhos finais
O educador que interage com as crianças do jardim-de-infância
deverá fazer o registo do que as crianças vão dizendo
Aos poucos a história vai surgindo sobre o papel 
Começando por aquecer as palavras e o corpo
Exemplificando o processo, antes da divisão em pequenos grupos
Sempre com o envolvimento de educadores, professora bibliotecária e auxiliares de educação
Belo ambiente!
No projeto Bairro Leitor, na Biblioteca do Bairro, tenho desenvolvido a oficina Eu sou Tu  ao longo de duas manhãs, com todas as crianças de jardim de Infância da escola básica Homero Serpa no Bairro do Casalinho da Ajuda. Um trabalho aturado, desenvolvido em colaboração com as Educadoras de Infância e auxiliares educativas da escola, coordenado por Lurdes Caria, professora bibliotecária do agrupamento de escolas Francisco Arruda. O trabalho decorreu de forma muito tranquila, com escuta, o que dá uma ideia da qualidade destes docentes do jardim-de-infância. A oficina Eu sou Tu (© 2003 – “Primaverarte” – Dedu – Sintra) trabalha a construção de narrativas a partir do corpo, num processo colaborativo a partir de grupos com 5 elementos ( 1 cabeça/tronco, 2 braços e duas pernas) que constituem um corpo único, personagem de uma grande história coletiva que acontece, à escala, desenhada e escrita sobre uma grande folha de papel de cenário. Num dos dias, ao chegar cedo à escola, fui abordado por um grupo de crianças do primeiro ciclo que protestaram pelo facto de só estar a trabalhar com os mais velhos (Pief) ou com os mais pequenos, e que não deveria ser assim… “Não achas, carequinha?” (tratam-me assim, quando não se lembram do meu nome). Claro está que numa das manhãs, lá voltei eu “às rimas” (poemas e lengalengas) e às histórias, com um grupo que estava sem professora, naquele dia. De referir ainda, que continuamos a desenvolver, junto dos jovens Pief, a "Máquina da poesia" e o trabalho com os sussurradores, logo a abrir a manhã, na nossa biblioteca. 
Por vezes o trabalho é a par com os alunos, como se fosse um jogo,
O mediador regista os textos dos alunos Pief sobre o quadro
 aqui com o mesmo valor de uma folha de papel.
Trabalhando com os alunos Pief, no interior da Biblioteca