sexta-feira, 28 de outubro de 2016

10xHematoxilina

Brincando com a imagem projetada
O Projeto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian) continua com a intensidade esperada na Secundária Seomara da Costa Primo (Amadora), com os professores Helena Moita de Deus e Nuno Resende. Se é certo que a observação à “lupa” (ou microscópio) nos faz mergulhar no microcosmos através dos olhos, propondo momentos de encantamento com um mundo numa escala diversa da humana, outras formas de aceder ao “extremamente pequeno” são possíveis, envolvendo o corpo todo num encantamento de escala proposto pela oficina que aqui descrevo.
Sou filho de médicos Anatomopatologistas, investigadores e humanistas. A minha infância foi marcada pelas idas ao serviço de Anatomia Patológica do Hospital de Santa Maria onde me encantava com pedaços do corpo humano em frascos de formol ou esquemas do sistema nervoso em maquetas realistas e, ainda mais significativo- a Microscopia. Dos magníficos microscópios com ópticas Carl Zeiss até ao outro, eletrónico misterioso e grande, que possuía uma sala própria, todos me propuseram um outro olhar sobre o mundo e sobre a perenidade humana. Habituei-me a ver aventais de chumbo, o meu pai trabalhava com substâncias radioativas (Tório), salas impecavelmente limpas, gente de bata branca, com sorrisos igualmente claros, para o filho do Senhor Professor e da Doutora Maria Eugénia; preparadores de laboratório iniciaram-me no segredo das hematoxilinas na sua miríade colorida. Entre as mulheres de bata branca estava a minha irmã Lucília, sempre carinhosa e atenta comigo. Concluo, hoje, que um laboratório médico é uma espécie de ateliê colorido dedicado ao estudo do corpo. Sobre as mesas de fórmica clara ou balcões de escura baquelite, alinhavam-se exércitos de pequenos frascos cheios de corantes apetitosos, mais poderosos que as anilinas que davam cor aos bolos da Avó Felisbela. Máquinas, muito precisas, executavam cortes em peças de parafina contendo material orgânico, obtendo micro- películas observáveis ao microscópio, depois de devidamente mergulhadas em soluções coloridas e colocadas sob uma lamela contra a superfície de uma lâmina maior, igualmente de vidro - depois era só coloca-la no suporte do microscópio e mergulhar na imagem. A minha Mãe costumava sentar-me ao seu colo quando estava senta à secretária a trabalhar a altas horas da noite e desafiava-me nas minhas noites de insónia infantil a espreitar pelo microscópio, sossegando-me com a sua voz calma. Soube, desde muito cedo, o que era uma célula e a sua morada exata. Um dia fiquei muito impressionado com uma fotografia a preto e branco que o meu Pai me mostrou. Era um conjunto de células prenhe de radiação (raios gama) fotografadas a partir do microscópio eletrónico, emanando o seu poder destrutivo para as vizinhas – Lembro-me de ter pensado que me pareciam pequenos sois brilhando no meio do universo. Desde pequeno que mergulho neste território secreto.
Como todas as crianças que querem imitar os pais numa espécie de jogo simbólico que se estende até à adolescência, interpretei, fazendo, a atividade plástica do laboratório. Assim surgiu este trabalho a que chamei “Dia positivo” e batizado de “Hortoscopia” (por graça) nesta edição do Projeto 10x10. No passado, apresentei esta oficina com diferentes designações: no Centro de Apoio às Organizações de Base (“Slides Diretos”- 1979) no Teatro Viriato (“Casulo de imagens” - 2005) e no Teatro do Campo Alegre e mais recentemente numa formação dedicada aos animadores culturais do Município de Óbidos promovida pelo programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian (2014).
Apontando uma asa de "formiga de asa" capturada num canteiro da escola

A pergunta do dia foi: “Qual a diferença entre olhar e ver?”. Qual a relação com a ciência (a pesquisa) contida nesta simples questão? Desafiei os alunos a procurarem elementos bem pequenos (que coubessem num caixilho de diapositivo) - andou toda a gente agachada nos canteiros da escola à procura de elementos para os seus slides... Depois cada um colocou o pequeno elemento numa película de acetato, como se fosse uma preparação laboratorial, acrescentando verniz colorido barato sobre a superfície. Os diapositivos foram colocados no projetor de slides. Seguiu-se uma série de interjeições: Oh! Que fixe! Parece um homem a remar. Parece uma bruxa. Parecem estrelas… A cor no slide trouxe poesia e sonho ao caule da planta ou à asa da formiga projetadas sobre a parede branca do laboratório. A coleção de palavras recolhidas como avaliação a cada uma das criaturas aquàticas presentes (todos têm um cognome marítimo) prova que a manhã foi bem passada na aula de Biologia. Outros voos se preparam a partir destas imagens…mas isso, é já um segredo para a próxima aula de Educação Física.
 Recolectores...
Preparações em grupo...
Avaliação e fecho da aula em círculo



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