domingo, 13 de março de 2016

Chave 131- Leituras em Cadeia

Chegar ao estabelecimento prisional, tocar à campainha, uma porta pesada que se abre, o sorriso da guarda que já nos conhece, a entrega de cartão de identidade para cumprir as formalidades, um cartão vermelho que deveremos ostentar dizendo “professor” (dantes davam-me o cartão de voluntário) e o 131 - a chave já remendada do cacifo onde guardo os meus pertences (nada de metal, telemóvel…). Depois a passagem pelo raio x (para os livros) e o detetor de metais. Uma caminhada pela alameda descampada, fustigada persistentemente pelo vento norte, até chegar a zona central dos edifícios e, mais além, o pavilhão 1, onde temos a “nossa” biblioteca. Antes de subir para a zona de leitura, mais uns procedimentos de segurança e dois dedos de conversa amena com os/as guardas do pavilhão. Gostaríamos muito de poder documentar fotograficamente o desenvolvimento do projeto “Leituras em cadeia(projeto da Fundação Calouste Gulbenkian), mas este é um dos constrangimentos naturais do trabalho neste contexto. No entanto poderemos falar do empenho das reclusas na organização dos livros que vão ostentando cotas atribuídas, encontrando o seu lugar nas estantes. Ou da ansiedade alegre da espera pelas novas estantes e computador que darão um outro aspeto e eficácia ao espaço de leitura prisional. A biblioteca já tem um balcão de atendimento onde as reclusas da equipa do projeto, recebem os livros emprestados, recomendam outros, preenchem a requisição destinada à leitura domiciliária, leia-se, na cela. A Maria José Vitorino, para além das tarefas da formação em biblioteconomia, andou numa roda-viva com as comemorações do dia 8 de Março que envolveram projeções do filme “As sufragistas” em diferentes locais do estabelecimento prisional. Com o professor Luís Dias e a professora Maria João Feio temos promovido sessões de reflexão e escrita com um grupo de 15 reclusas; primeiro com o tema da “Mulher” (no contexto do dia 8 de março) e depois, em torno do “medo e da Liberdade”. Poderia classificar estes encontros como do pensamento (filosóficos…), mas também encontros dolorosos e intensos como o último em que falámos sem medo sobre o Medo e sem liberdade sobre a Liberdade. Assim que pudermos, divulgaremos a matéria escrita que vem surgindo pela mão das reclusas desta ala do estabelecimento prisional de Tires.

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