quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amor

Perguntaram-me ontem como eu geria as emoções inevitáveis que surgem ao longo das sessões de leitura e de escrita em estabelecimentos prisionais. Será que sou imune aos rasgos de alma gerados na tensão do cárcere? Não. Apenas adio para mais tarde a expressão do sentido, curada por vezes na correnteza da escrita. Mas enquanto estou dentro da biblioteca prisional visto-me como referência, como mediador no meio de gente ali chegada por diferentes veredas da vida.

Peço a Mohamed, jovem do Magrebe, que me escolha uma palavra e a escreva no grande papel da “Máquina da poesia”, exercício para estimular a escrita poética. Ele dá a entender que domina mal a nossa língua e que irá escrever em árabe. E escreve da direita para a esquerda numa grafia elegante: الحب. “Que significa?” Pergunto. E ele responde: Amor. A partir daí que surge uma grande conversa sobre a cultura muçulmana. Depois, aplicaram-se na escrita de pequenos Haiku partindo das palavras escolhidas.
Hoje mostrei o livro “Eu espero” de Davide Cali e Serge Bloch, passando as páginas devagar e lendo pausadamente as pequenas legendas. O efeito foi forte. Depois perguntei a cada um o que esperava. E começou: “Eu espero a paz” “Eu espero a liberdade” “Eu espero ser um homem melhor” “Eu espero regressar a casa com dignidade” A densidade das emoções foi crescendo até chegar a um recluso que afirmou esperar que inventassem um novo medicamento retrovírico para curar a sua terrível doença. As lágrimas têm cheiro, mesmo aquelas que ficam retidas a meio do caminho.
Já agora, sabem como se escreve “coração”? O Mohamed ensinou-me: القلب

3 comentários:

  1. obrigada pela partilha Miguel. Já disse isto, mas apetece-me repetir: Gosto muito de te ler. الحب para ti também

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  2. As minha comoção não teve lágrimas... Mas é também cheia de amor, de admiração... Segundo o Google, em árabe "amor" escreve-se assim: عمور
    Mais tortuoso... como na vida! :-)

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  3. Obrigado Sofia! Obrigado Manuela! Levamos sempre para casa um pedacinho daqueles com quem partilhamos a leitura...

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