quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um pinheiro de Natal...em Vale de Madeiros.

Passara lá pela mata e vira o seu maior pinheiro marcado com um lenço vermelho a drapejar ao vento Norte… Entendeu logo o sinal. Então, imaginou logo a cena na noite da Consoada com o seu enorme pinheiro a arder no largo fronteiro à capela e os vizinhos saídos da missa do galo a perguntar:
- Então? Quem é o desgraçado do dono do pinheiro este ano?

Quando jovem fizera exactamente o mesmo na véspera do Natal, lá em Vale de Madeiros. Escolhia-se sempre o maior pinheiro da pior pessoa da aldeia, aquela que menos respeitara as regras, não escritas, da comunidade.
Assim, pela calada da noite fria, ele e um bando de jovens estouvados haviam deitado muitos pinheiros abaixo, ao som da motosserra roendo o tronco. Um baque surdo e a grande árvore caindo no chão, revolvendo a caruma toda no meio da geada.
Agora… fora ele o escolhido, para gozo geral dos jovens que haveriam de aquecer as mãos nas brasas da sua velha árvore... E aquela gente toda saindo das orações ao Deus menino, chasqueando da sua pessoa.
Fora ficando cada vez mais seco e azedo desde a morte da sua mulher, como um choupo desfolhado pela invernia. Agarrado ao dinheiro, não pensava noutra coisa senão amealhar. E para quem? Talvez fosse uma mimosa azeda, chupando água desalmadamente. Sempre fora homem de trabalho duro, sol a sol, amealhando o pouco que a terra dava. Guardava para o Futuro: uma espécie de grande colheita destinada só a alguns eleitos que teriam lugar reservado junto ao "Supremo", no dia do deve e do haver.
A neta aparecera-lhe um dia em casa a pedir ajuda. Ele respondera que “trabalhasse, que era o que ele fazia!”. E ela saíra de rosto carregado e olhos marejados de lágrimas. Nem para a família era bom...
Bem notava os olhares na sua direcção, durante os bailes da “Associação”, lá no terreiro dos grandes eucaliptos. Se continuasse assim, pelo Carnaval, decerto lhe poriam um "pisão" na porta de casa e sabe-se lá que mais o povo da terra iria inventar..


Ficou ali parado a olhar o pano vermelho atado a uma ramada da sua árvore….
E, no silêncio da mata, pensou conversando consigo mesmo:
- Assim como assim, este já está condenado! Que o queimem...a rapaziada lá se irá divertir à volta da fogueira. Mas, quando chegar o Entrudo, hei-de convidar essa malta para beber um caneco do meu vinho, assim que escutar o som do pedregulho contra a porta do meu quintal!


Pisão: Tradição de Entrudo típica de Canas de Senhorim que consiste em amarrar um pedregulho à porta da casa da “vítima”, através de um sistema engenhoso de cordas, fazendo-a levantar da cama a altas horas da noite. Provoca sempre riso!
Associação: Clube desportivo e recreativo de Vale de madeiros onde se fazem belos bailes nas noites de Verão.
Nota: Um texto velhinho mas que me apeteceu publicar, relembrando o crepitar das lareiras na noite de Natal.

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