domingo, 24 de maio de 2015

A vigia do batiscafo - Rimas salgadas

"Carapau de corrida" - Ilustração para o livro "Rimas salgadas"
Acabei por substituir este desenho por outro onde o peixe ficou mais reconhecível
 Pediu-me o Professor Mário Ruivo, para falar um pouco sobre o meu livro “Rimas salgadas” que será apresentado no dia 3 de junho na Fundação José Saramago (18h). Não se sabe muito bem onde começa um livro…o mais certo é começar com um pequeno poema que vai flutuando na cabeça enquanto decorrem os dias. Depois, há um momento habitualmente despoletado por uma criança, a vontade muito grande de comunicar com essa pequena pessoa. Bom, talvez tudo isto tenha começado na minha infância, na praia do Vau (Portimão) numa daquelas madrugadas que antecedem um memorável dia de pesca a bordo do Sabiá (o barco do meu Tio). Ou ainda, mais pequenino, revirando as pedras na maré vazia à procura de animais escondidos nas poças de água, sendo surpreendido por um polvo bebé muito zangado que logo tingiu tudo de preto com o seu ferrado. O certo é que todo aquele azul que despenhava em ondas sobre os meus pés continha algo de intrinsecamente concordante com os meus olhos e com a minha existência, ao ponto de passar intensamente para a minha pintura. Agora está aí o livro e responde a algumas preocupações que me veem assaltando. As crianças sabem pouco sobre o oceano; não há tempo para o mar no meio de tanta meta curricular, sendo certo que só conseguimos defender aquilo que conhecemos bem. Os mais pequenos, mesmo aqueles que vivem perto do mar não conhecem o nome e os hábitos das criaturas marítimas. Tenho a noção de que é preciso conhecer o Oceano, para melhor o defender; e esta é a tarefa das próximas gerações! Achei que seria possível fazer um livro em que as ilustrações se aproximassem da realidade sem a frieza da ilustração científica. É possível escrever de uma forma simples sobre a biologia. Alguns poemas são cantáveis, outros convocam ritmos urbanos, testemunho da mediação leitora que venho fazendo nos mais diversos contextos. Agora que o nosso país se bate pelo reconhecimento da extensão da plataforma, o que nos conferirá soberania sobre uma vasta região do Atlântico, este livro traz consigo o meu gosto latente pela geologia e pela biologia marítima, a par de uma grande admiração pela tarefa da investigação. Eu nunca mergulhei num batiscafo, como fez Mário Ruivo, observando pela vigia uma miríade de misteriosas criaturas e fenómenos naturais, mas espero que este pequeno livro seja uma janela de descobertas e sedução para as crianças leitoras que o folheiem.

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