sábado, 14 de janeiro de 2012

Um texto de Filipa Oliveira

(detalhe)
Comunicação pictórica - sinais, símbolos, imagens e cores sobre uma superfície plana - é uma das mais antigas e mais ricas de invenções humanas, como a escrita ou a música. Tudo começou nas rochas, em superfícies de jarros de barro e nos fios tecidos dos têxteis, e passou em seguida para as paredes, painéis de madeira, cobre e tela. Agora inclui ecrãs plasma, photoshop e novelas gráficas. Mesmo assim, a pintura sobre uma superfície portátil continua a ser um dos meios mais eficientes e íntimos de auto-expressão.

Roberta Smith, New York Times, 26 de Março 2010

Pintar nos dias de hoje acarreta uma enorme responsabilidade. A história da pintura, as suas consecutivas mortes e renascimentos, não deixa de estar presente em cada quadro criado. E já muito foi pintado. Miguel Horta tem esta situação muito presente quando inicia um novo trabalho, contudo afirma “a pintura é a minha coluna vertebral”.
Depois de uma prolongada ausência do circuito expositivo, Miguel Horta regressa com a exposição “Troncos e Marés”, uma nova série que se distancia da estética das obras anteriores. No novo conjunto de trabalhos apresentados, afasta-se do minimalismo e serialismo que dominava o seu trabalho para entrar numa figuração que quase se aproxima da ilustração no traço.
Troncos são os principais protagonistas destas pinturas, mas troncos que ganham uma dimensão humana. O ponto de vista está dentro do corpo, diz Leibniz. E é esse mesmo ponto de vista que Miguel Horta apropria. Em cada tela, cuidadosamente desenhada e esculpida, os troncos encarnam diferentes dimensões humanas viajando do abandono à loucura, da sobrevivência à morte. É sempre o tronco enquanto corpo que habita um espaço, o ponto de partida.
Entende-se assim como, no trabalho de Miguel Horta (que apesar intrinsecamente pintor, trabalha também como mediador cultural), a árvore é concebida como um símbolo do ser-se humano. Escreve o artista: “entendo como se podem constituir como metáforas da nossa própria existência, também com cabeça tronco e membros. Leio os matizes e a involuntária expressão dos rudes golpes sobre os ramos. Inevitavelmente, algum deste sentimento vegetal irá parar à minha pintura.” Sentimento vegetal transformado aqui em energia vital, em dinamismo do pincel e em dramatismo visual.
Appleton Square

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