terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Outras marés

(detalhe)
Agora que a exposição está montada, visível aos olhos de todos que por lá queiram passar, apetece-me falar de outras marés que subiram em mim. “Porquê as árvores?” – Perguntam-me. É certo que em 1987 apresentei na Galeria Novo Século a exposição “Movimentos Vegetais” (Na altura, Paula Moura Pinheiro no “Semanário” escreveu um texto muito interessante que intitulou “Ondulações balsâmicas”…gostei.). Também em “Trabalhos de Pest” (desenhos apresentados na Galeria Monumental em 1999) surgiram alguns ramos, talvez algas. Não se sabe muito bem sobre a génese do que se cria… As árvores foram surgindo naturalmente na minha expressão, depois de encontradas abandonadas por uma tempestade na solidão do areal. E eram troncos vivos, orgânicos, quase animais, numa profunda tristeza que me remetia para as pessoas; linfa e seiva na existência. Ao longo dos últimos anos tenho trabalhado com pessoas presas, promovendo o livro e a leitura; gente com cabeça, tronco e membros, ramos tolhidos pela condição reclusa. Como tema de escrita e leitura, propus a árvore e cada um escolheu a sua mediante o caracter que possuía: O grande “pé de Ipê” da floresta amazónica, o Embondeiro de África, sem esquecer o Polón da Guiné que junto do recluso Oliveira, do Cipreste e do preso Laranjeira, partilhavam a mesma cela. Também nas nossas sessões de educação artística do Centro de Arte Moderna, junto de pessoas com necessidades educativas especiais, a árvore foi o tema escolhido para se poder trabalhar o esquema corporal, partindo de peças da coleção de arte contemporânea (Alberto Carneiro ou Gabriela Albergaria, entre outros).
Ainda uma última imagem: Recuam as águas com a seca, deixando à mostra desnudadas árvores que do leito da barragem vazia emergem como espectros à luz do dia. Ali estão… talvez mortas, mas sobretudo sem saberem se são alga pertencente às águas ou tronco e raiz da terra. E ficam assim tão silenciosas, como gente cismando queda sobre no solo do planeta.

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