Opiniões Arte

Filipa Oliveira
"Troncos e marés", 2012

Comunicação pictórica - sinais, símbolos, imagens e cores sobre uma superfície plana - é uma das mais antigas e mais ricas de invenções humanas, como a escrita ou a música. Tudo começou nas rochas, em superfícies de jarros de barro e nos fios tecidos dos têxteis, e passou em seguida para as paredes, painéis de madeira, cobre e tela. Agora inclui ecrãs plasma, photoshop e novelas gráficas. Mesmo assim, a pintura sobre uma superfície portátil continua a ser um dos meios mais eficientes e íntimos de auto-expressão. Roberta Smith, New York Times, 26 de Março 2010

Pintar nos dias de hoje acarreta uma enorme responsabilidade. A história da pintura, as suas consecutivas mortes e renascimentos, não deixa de estar presente em cada quadro criado. E já muito foi pintado. Miguel Horta tem esta situação muito presente quando inicia um novo trabalho, contudo afirma “a pintura é a minha coluna vertebral”.
Depois de uma prolongada ausência do circuito expositivo, Miguel Horta regressa com a exposição “Troncos e Marés”, uma nova série que se distancia da estética das obras anteriores. No novo conjunto de trabalhos apresentados, afasta-se do minimalismo e serialismo que dominava o seu trabalho para entrar numa figuração que quase se aproxima da ilustração no traço.
Troncos são os principais protagonistas destas pinturas, mas troncos que ganham uma dimensão humana. O ponto de vista está dentro do corpo, diz Leibniz. E é esse mesmo ponto de vista que Miguel Horta apropria. Em cada tela, cuidadosamente desenhada e esculpida, os troncos encarnam diferentes dimensões humanas viajando do abandono à loucura, da sobrevivência à morte. É sempre o tronco enquanto corpo que habita um espaço, o ponto de partida.
Entende-se assim como, no trabalho de Miguel Horta (que apesar intrinsecamente pintor, trabalha também como mediador cultural), a árvore é concebida como um símbolo do ser-se humano. Escreve o artista: “entendo como se podem constituir como metáforas da nossa própria existência, também com cabeça tronco e membros. Leio os matizes e a involuntária expressão dos rudes golpes sobre os ramos. Inevitavelmente, algum deste sentimento vegetal irá parar à minha pintura.” Sentimento vegetal transformado aqui em energia vital, em dinamismo do pincel e em dramatismo visual.


Paulo Varela Gomes
"Alcantis e fragas", 1985

Paulo Varela Gomes no JL (Jornal de Letras), Março de 1985

Eduardo Guerra Carneiro
"Alcantis e fragas", 1985

Eduardo Guerra Carneiro no Diàrio Popular, março de 1985 

Paula Moura Pinheiro
"Movimentos Vegetais", 1987

Paula Moura Pinheiro no Semanário, Março de 1987

Lúcia Marques
Expresso
"Trabalhos de Pest" (2000)

Tratando-se de uma das técnicas de registo possíveis, o desenho é geralamente associado ao impulso imediato do riscar sobreo o papel e, nesse sentido, parece viabilizar uma sintese de precepções em concordância com a fluidez do pensamento. No caso, o acto de desenhar é entendido sobretudo como exercicio de memórias e estruturação de formas pré-determinadas, pré – existentes, distantes no espaço e no tempo.Fruto de uma estadia recente em Budapeste, os trabalhos que Miguel Horta (n. 1959) agora apresenta evocam o universo marinho, de que o artista se viu privado durante esse período, contrariando sempre o automatismo gestual da inscrição com a minúcia de um continuo refazer, numa adequação mimética e intencional face ao referente real. Do utensilio náutico “caseiro” ( a pedra do brandal) ao habitante ancestral dos rochedos banhados pelo mar (como a lapa), passando por alguma vegetação e possíveis vestígios humanos,os seus desenhos procuram sempre recuperar a elegância sólida das formas, detendo-se na rugosidade dos desniveis ou na sombra dos volumes, e assim reconfigurar a identidade de um objecto ou de um lugar de afectos. Um preciosismo que não deixa de espartilhar a experiência sensível do visitante



M.Ll. B.
La Vanguardia, 4 Fevereiro de 1992

(…) Titula su exposición, maliciosamente, “Luciferario”, jugando evidentemente con la luciferasa de la luciérnaga o el lucio y con la alusión a Lucifer. Los contrastes entre esos fondos oscuros y el color de un brillo fosforescente revelan que el pintor se inspira en el abismo de la mina quizás en las profundidades del mar. Podría considerársele como uno más de los partidarios de una tendencia que se reclame subsidiaria de la ecología, de las fuerzas naturales.


Ferran Escoda
“El Guia “ Fevereiro / Março 1992

(…) La pintura de Miguel Horta busca la construcción de un lenguaje coherente, de registos sutiles y controlados, técnicamente seguro y sin la precipitación del efecto gratuito.Luciferário es el título de esta exposición barcelonesa, un ejercicio y una reflexión sobre la luz.(…) Cada pintura se convierte en un detalle de imágenes matéricas, pero al mismo tempo nos enfoca cosmos ilimitados, perfiles de una realidad atemporal. Dentro de un gestualidad controlada, la pintura de Miguel Horta se estratifica, adquiere volumen y sugiere la música inaudible de la luz:” Y todo esto comienza a moverse… cantos rodados vagabundos adquiren un sonido definido cortando el silencio de las profundidades; rocas palpitantes mostrando las texturas rítmicas de las que están compuestas.”(…) Esta pintura que a la vez es obsesiva en el detalle y disfruta del vértigo del universo, es producto de ese localismo que nos hace internacionales. La síntesis de su lenguaje esta hecha de piedras lanzadas al vacío, de peces que nos alimentan, de la esencia de caldos primordiales. (…)
Pero detrás de cada surco, de cada espacio desgarrado, se esconde la presencia de un movimiento humano que quizá algun día aparezca


Eva Sastre Forest
Arcs&Cracs
Barcelona 1992

Miguel Horta resgata na sua pintura a rara luz que existe nas profundezas da terra; um clarão que invoca essas forças da natureza ainda ocultas e que emergem no meio da escuridão e do acinzentado do ambiente como poderosos halos, ecos, brilhos, fosforescências de origem incerta. Na textura das suas obras apalpa-se o elemento inerte, mas também a incandescência do mineral que experimenta transformações, atritos, viagens e erosões; desprendem-se um calor e uma luz ancestrais, que embrulham as rochas, praias, gretas e cavernas numa aura atemporal e por isso bem real. Estamos dentro de um mapa no qual as linhas marcam o tempo que passa mas que simultaneamente resta (!) porque percebemos as rugas e as pegadas de outro seres; outros elementos que aí estiveram, mas que ainda cá estão. Restos mumificados, fósseis, estratificações porosas, relevos, fendas e vazios onde habitam elementos que desafiam o gélido hálito do abismo, transformando a energia que surge das entranhas num magma poderoso, que após a catástrofe, sabe ressuscitar as fontes de vida….

Maria de Sousa
"Jogos de superficie"
Monumental


Apercebemo-nos portanto que esta exposição não é um espelho do mundo qu nos rodeia. Esta é a ilustração do pintor como memória. Da memória como mistério. A memória quase explicável vinda com genes de pais microscopistas. Fácil. Mas também uma outra memória, mais profunda, colectiva, do nunca visto. Remeniscente de Altdorf.  Imagens vindas repetidamente não se sabe de onde: já na sua exposição intitulada Fronteiras (1990), do fundo de um mar de criaturas luminosas nas exposições Luciferário(1992) e Luminar (1994), hoje, mais uma vez, obrigando-nos a reconhecer o pintor, sozinho, poeta, “memória de imagens de futuro”, como definida a criatividade por antónio Damásio no “Erro de Descartes”. É talvez oportuno deixar na introdução a este catálogo, um segredo. Um segredo de datas. Miguel Horta data o quadro no dia em que teve a ideia de o fazer. Na hora em que “viu”, pela primeira vez, a imagem do que irá ser um dia, o quadro. Que hoje nós, um pouco atónitos pela sua singularidade, podemos ver. Despojado o criador da intimidade da coisa criada. Mas talvez que toda a exposição de pintura seja isso: a coragem, ou a necessidade, de um homem(ou mulher) não ficar mais só, na vasta solidão do imaginado.


Chaké Matossian
"Territórios", 1989

Chaké Matossian no Semanário (1989)