Alto Minho a ler: Sussurrar em Darque



Fazer pelo lado de dentro.
Sussurrar fundo no coração dos jovens.
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Os “Sussurradores do Alto Minho” estiveram em Darque, concelho de Viana do Castelo, numa iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho ( “Uma Estratégia Para o Sucesso Escolar”, integrado na operação PIICIE- “Alto Minho School 4 All” – Planos integrados e inovadores de combate ao insucesso escolar ). Estas intervenções têm como objec
tivos integrar os jovens através da palavra, desenvolvendo competências sociais, os níveis de literacia e entendimento do mundo, a expressão escrita e plástica, assim como propor a biblioteca pública como lugar de referência para a juventude, promovendo as colecções das bibliotecas junto dos jovens e estimulando hábitos de frequência juvenis das bibliotecas municipais. Esta acção, desenvolvida no terreno pela Biblioteca Municipal de Viana do Castelo e pela Laredo Associação Cultural em estreita colaboração com o Agrupamento de Escolas de Monte da Ola, teve início na EB 2 3 Carteado de Mena e continuou pelas ruas da comunidade envolvente, em Darque. Mais
Foi precioso o trabalho atento do Fernando Elias Cunha – não faltou nada na produção, na logística, no apoio dado ao projecto.
No primeiro dia, começámos por propor a metodologia “Máquinada poesia” a um belo grupo de alunos, diverso e atento, que acolheu desconfiado a afirmação: “Vou transformar-vos em poetas durante esta hora”. Falei um pouco dos infortúnios amorosos de quem não sabe usar as palavras, disse alguns poemas, apresentei a máquina (toda ela feita de papel de cenário...que coisa tecnológica!...), que fomos enchendo de palavras. Recheada a Máquina com verbos, nomes, adjectivos, lugares (nomes) e estados da natureza humana (nomes). Os alunos foram indo, aos pares, à grande folha de papel de cenário, completando os quadros da Máquina, o mesmo fizeram os professores presentes que foram dando uma ajudinha aos alunos com maior dificuldade.
Lancei o desafio: “Quem acha que não consegue mesmo escrever um verso, que levante o braço.” Logo ali se levantou uma floresta de braços. Depois escolhi uma “vítima” que apresentei a todos como o meu partenaire (parceiro). “Vou vendar, aqui, o meu partenaire (em jeito de circo...) e provar a todos que consegue escrever poesia mesmo de olhos fechados...” A nossa “cobaia” vai apontando ao calhas sobre o papel de cenário diferentes palavras, até que ficar construido um pequeno verso. “Palmas!” Agora, toca a experimentar...Como não podia deixar de ser, “caçámos” o professor Paulo Lima
Se não me engano, foi há 12 anos
 que estive pela primeira vez na EB 2 3 Carteado de Mena.
Hoje senti uma grande diferença do vivido há uns anos atrás.
 Não há tensão na escola, muito menos ruído, harmonia e inclusão.
 A escola tem feito um bom trabalho...
(coordenador da escola) para a nosso brincadeira – não tardou, estava vendado!
Cada um escolheu o seu verso favorito, então expliquei, apresentando um sussurrador, que mais tarde, teriam de sussurrar o que escreveram aos ouvidos dos vizinhos... “O quê? Vamos sair à rua?” - “Sim! E ainda vão decorar, a vosso gosto, um sussurrador pessoal, para passar mensagens poéticas a quem se cruzar convosco pelas ruas. Terminámos a sessão com um poema colectivo sobre a palavra Amor – e cada um emprestou um verso.
Seria muito interessante publicar no blogue da Biblioteca Escolar o resultado obtido. Aos jovens deixei a sugestão de usar o Whatsapp para partilhar as pequenas frases que tinham escrito, algumas irreverentes e outras com um bom sentido de humor.
No dia seguinte, construímos os sussurradores. Esteve toda a gente muito concentrada a trabalhar, apesar da presença da RTP. Esteve fantástico o ambiente na Casa dos baús (sala de recursos de animação cultural) coordenada pela animadora Ana Pinto. De vez em quando entravam outros docentes não envolvidos na proposta, para conhecerem a “Máquina da Poesia”. Outros alunos que tinham faltado á primeira sessão foram aprendendo com um jovem que se voluntariou como monitor, apresentando a máquina aos colegas. De vez em quando ia dizendo um poema. Carminda Lomba, a Professora Bibliotecária, sorria enquanto ajudava uma aluna com mais dificuldades. Ao ler, em Kuduro, um poema de António Gedeão, percebi que vice-directora do agrupamento fazia coro comigo...

Terminada a manhã, tínhamos um belo conjunto de sussurradores preparados para a nossa caminhada pelo bairro, começando nos prédios novos, percorrendo as ruas do centro até chegar ao Centro Comunitário de Darque, para um convívio com os mais velhos.
À hora aprazada” partimos da escola. Faltaram alguns jovens, como era dia de mercado, tiveram de ir ajudar os pais na feira (uma situação recorrente). Lá fomos nós de sussurrador na mão descendo a rua. Juntaram-se a nós Carla Gomes da CIM Alto Minho e a Vereadora Maria José Guerreiro que nos acompanharam na caminhada. Os jovens foram entrando nos cafés, explicando primeiro “ao que vinham” e depois sussurrando os seusversos aos ouvidos dos vizinhos.
No primeiro bairro, “o dos prédios”, entrámos na loja de ferragens, na farmácia, na loja de instrumentos musicais. “Uma senhora com ar enjoado” disse que estava muito ocupada e não podia escutar nada e fomos bater a outra porta. Já no coração do bairro, fomos interpelando quem passava até chegar mos ao Centro Comunitário. Neste “Lar” fomos muito bem recebidos pela responsável pela estrutura que fez uma bela intervenção, muito pedagógica, sobre a realidade destes espaços. Formámos dois grupos, um em cada sala e dissemos (um pouco mais alto) poemas ao ouvido dos mais velhos. Á saída, consegui entender alguns olhares dos jovens sussurradores – aquele dia tinha sido importante para eles. Um dos jovens virou-se para mim e disse-me “Posso não saber escrever poesia, mas gostaria muito de lhe dar um abraço”. E abraçou-me, fundo.
Voltaremos em breve a Viana do Castelo com a oficina “Leituras diferentes

Apontamento da RTP: AQUI



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