terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"10x10 - Ensaios entre Arte e Educação"

Ao fim de 5 anos de intervenção e reflexão aturada, o Projeto 10x10 /Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian) chega ao fim. Deixa uma sementeira de possibilidades e espelhadas pelo livro "10x10 - Ensaios entre Arte e Educação", lançado este sábado no final da apresentação das aulas públicas da 5ª edição. É justo aplaudir de pé e demoradamente Maria de Assis que nos levou a todos, artistas e professores à fronteira de um território que parecia utopia, mas afinal, naturalmente alcançável por escolas corajosas que saibam ver a educação em perspetiva com o futuro. Participei em 4 das 5 edições do projeto e não regressei igual ao meu ateliê – reconheço as extensões e ferramentas acrescentadas à minha prática artística, sobretudo no que diz respeito à tarefa da mediação. A pintura é por natureza solitária e o convívio com outros artistas, nomeadamente das artes performativas, acrescentou vocabulário a uma linguagem pessoal destinada à comunicação com o outro. O projeto trouxe mais rigor e estrutura ao planificado e deu visibilidade e valor acrescentado às minhas ideias. Espantei-me com o poder de contaminação das minhas propostas ao vê-las enquadradas numa escala mais abrangente. Melhorei a minha gramática de comunicação criativa e aprendi, com Dina Mendonça e com os meus pares a clarear ideias com mais facilidade. Confirmei o poder das empatias e das intuições e reconheci na teimosia a focagem que me levou até ao fim, mesmo em situações difíceis; embora sempre tenha contado com o fiel apoio de Judith Silva Pereira. O olhar atento e crítico de Judith foi decisivo no rumo do projeto no terreno das escolas. Hoje sei muito mais sobre as comunidades escolares e modelos pedagógicos. Como sempre, um livro conduz sempre a outro, e o mesmo poder têm as reflexões, pela sua condição cinética. As páginas do meu blogue acompanharam com bastante detalhe as 4 edições do “10x10” em que participei, ficando como memória. O livro que agora se publica, revelando a enorme generosidade dos artistas intervenientes, reflete bem o que foi alcançado. O capítulo das “Micropedagogias” é um útil repositório de estratégias e metodologias de efeito comprovado em contexto escolar…mas como sempre, apesar da receita ser boa, tudo vai depender da competência do cozinheiro pedagógico. Registo com agrado a presença da universidade como eco do que foi feito, validando e propagando o conhecimento construído. Mas é preciso ir mais longe, numa linguagem eficaz, que contamine uma nova geração de mediadores artistas, logo nos bancos das escolas especializadas. Voltando á generosidade dos artistas, foi com muito prazer que li os artigos/depoimentos dos meus pares que constituem um dos núcleos do livro. Uma palavra de gratidão para as pacientes mediadoras (Susana Gomes Silva, Ana Rita Canavarro, Dina Mendonça e Elisabete Paiva) que aturaram as residências e assembleias e outra para a Adriana Pardal que foi “segurando as pontas”. Aos Professores, pois este é um projeto para docentes, obrigado por entrarem na nossa “loucura”; alguns ficaram afetivamente guardados em mim – continuem a desinquietar adolescentes! No final, sei que uns quantos professores vão continuar a aplicar o que descobriram no 10x10, outros voltarão às tradicionais aulas expositivas e outros, a seu tempo reflorirão… O planeta tornou-se pequeno e os perigos mais próximos. Outros conhecimentos tornam-se urgentes e emergentes na escola. Eis um devir - Educar para uma literacia da existência, aquela que permite agir com responsabilidade e livremente sobre os destinos da orbe. Alguns alunos já o entenderam…

Obrigado aos companheiras/os artistas. Obrigado Maria.

Download do livro: https://gulbenkian.pt/descobrir/wp-content/uploads/sites/16/2016/04/10x10_EnsaiosentreArteeEducacao.pdf

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Mithos a Ler - Formação

Decorreu no passado dia 21 de janeiro a primeira sessão de formação de mediadores voluntários de leitura promovido pela Mithos, integrada no projeto “Mithos a ler”. Falámos sobre os objetivos da formação e papel futuro dos mediadores, depois mergulhámos nos livros explorando diferentes formas inclusivas de os usar, numa relação comunicativa. Este ciclo formativo continuará no próximo dia 11 de fevereiro, com novos livros e novas propostas dinâmicas. Esperamos que no dia 4 de março, os nossos formandos consigam mediar algumas propostas durante a feira do livro que decorrerá na sede da Mithos em Vila Franca de Xira. 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Bairro Leitor Janeiro

Um jovem artista do bairro, Mauro, assinala com uma pintura o local onde antes podíamos ver cavalos, lá no Casalinho da Ajuda
Nas minhas deambulações pelo bairro do Casalinho da Ajuda, no contexto do projeto “Bairro Leitor” (Bip Zip) deparo-me com detalhes curiosos que revelam dinâmicas próprias dos habitantes. Todos os dias vou conhecendo mais um pouco. Nota-se a vontade de construir um bairro mais amigável para todos e com uma convivialidade serena mas, nem todos os residentes têm essa visão para o futuro. A pobreza vem sempre de mão dada com índices baixos de literacia – aqui começa o nosso desafio. No dia 20 de janeiro vamos realizar um encontro/conversa no Café do senhor Fernando em torno da história do Povo Cigano. Garantem-me que os residentes, que a maioria dos ciganos vizinhos desconhecem a longa história da sua diáspora. Tenho lido, preparando-me para partilhar alguma informação, esperando que a comunidade Cigana adira á nossa proposta. Segundo a minha companheira de projeto, Maria José Vitorino, seria interessante ter um fundo local que refletisse esta comunidade numa futura biblioteca híbrida comunitária. 
A Maria José Vitorino, junto com a Professora Bibliotecária Lurdes Caria, com a colaboração do parceiro Academia de Jovens do Casalinho, está a dar vida à Biblioteca Escolar da Escola Básica do Casalinho, organizando a coleção e intervindo junto dos alunos PIEF. Sei que estão a preparar uma surpresa para a Semana da Leitura… Tenho apoiado a Academia de Jovens do Casalinho no seu processo de enraizamento e dinâmica local. De momento estou a fazer o logotipo da associação, que elegeu o galo da torre da Ajuda como símbolo para o seu trabalho junto dos jovens (depois logo mostro o boneco...). É como se estivesse a esvoaçar em torno do objetivo…  De repente lembrei-me do projeto PO5, nos idos do pós 25 de abril, que promoveu o planeamento familiar em terras da Beira Alta, junto da comunidade de Farejinhas (Castro Daire) – Os mediadores para a saúde não começaram logo pelo tema central, escutaram e propuseram a resolução de outros assuntos (problemas locais), criando recetividade para o cerne a trabalhar mais à frente. Assim tem sido, igualmente, aqui no Casalinho da Ajuda: primeiro o logotipo, a formação, a escuta e o diálogo, depois virá a ação, mais coerente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Leituras em cadeia": O significado dos sonhos

Trata-se de um livro corriqueiro, bem comercial, mas ganhou  importância no contexto do Leituras em Cadeia (Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com o Ministério da Justiça e a Delta Cafés, pensado pela Laredo Associação Cultural, com a preciosa colaboração da Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana e do Agrupamento de Escolas Matilde Rosa Araújo). Nos primeiros tempos do projeto (há 2 anos atrás), quando procurávamos uma porta de entrada para a promoção da leitura e intervenção bibliotecária no Pavilhão 1 do Estabelecimento Prisional de Tires, questionámos as residentes (reclusas) dinamizadoras da biblioteca prisional sobre as preferências de leitura das mulheres ali detidas. “Sonhos. Interessam-se pelo significado dos sonhos. Sonham e correm para a biblioteca para ler sobre o significado dos seus pesadelos ou de outros mais privados.” Informaram-nos, sorrindo. “O livro estava para aí, já em fanicos, e acabou mesmo por desaparecer” Continuou a reclusa “O mais certo é ter sido roubado…tal o interesse…” Corroborou outra residente. “Alguma que saiu em liberdade e levou o livro dos sonhos consigo.” “Ou foi mudada de pavilhão e não devolveu o livro. Acontece muito, sabe…” Atalhou a mais velha. Foi a partir deste episódio que resolvemos criar uma ferramenta simples para identificar as tendências leitoras das mulheres detidas naquele pavilhão (cerca de 170). Assim nasceu o “Perfil leitor”, um questionário sobre o tipo de livros que interessavam aquelas mulheres, uma lista de desejos que transcendia, em muito, o rudimentar registo dos empréstimos existente à época na biblioteca prisional. A intenção era outra – queríamos saber o perfil leitor, presente e futuro do Pavilhão, através de um quadro onde os géneros literários vinham identificados não pelo rigor do cânon, mas sim num vocabulário regular, próprio de um conjunto de mulheres com nível de literacia essencialmente médio/baixo. E assim foi, partindo da análise das respostas obtidas começámos a completar a coleção. As reclusas responsáveis pela biblioteca acolhiam cada nova residente apresentando a biblioteca e entregando o questionário em mão, muitas vezes ali preenchido com ajuda, quer pelas dificuldades linguísticas quer pelo baixo grau de literacia. Ninguém ficava de fora, mesmo não sabendo ler, pois na biblioteca existe uma miríade democrática de recursos disponíveis. Ah! É verdade – quem nos arranjou o livro foi o senhor Valentim, alfarrabista brasileiro da Charneca da Caparica, nosso colaborador e seguidor atento do projeto. Obrigado à sua Biblioteca Cultural Central das Ideias que funciona no meio da rua junto ao mercado da Freguesia.


Encontro normal com a diferença

Foto de ensaio: por cortesia da Companhia dançando com a Diferença
Uma fotografia não chega para dar ideia da riqueza de conteúdos gerada pelo debate, que teve lugar no Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) no âmbito do IV Encontro Normal com a Diferença, promovido pela Companhia Dançando com a Diferença. Este debate abriu uma semana de trabalho intenso em residência criativa que juntou uma mão cheia de jovens bailarinos, cada um com a sua diferença, nas instalações do Convento da Saudação. O trabalho criativo desenvolveu-se em torno do conceito de poder e foi por aí mesmo que a conversa começou na sala da lareira. Tive, como companheiros de tertúlia, Luísa Taveira (Companhia Maior), Maria de Assis (Descobrir/Gulbenkian), Henrique Amoendo e Clara Andermatt (estes últimos, anfitriões do projeto). A relação entre Poder e Deficiência tem diferentes leituras e a nossa conversa refletiu isso mesmo: por um lado, o Poder encarado do ponto de vista dos governos, sociedade, direitos desejados, preconceitos instalados e a relação turbulenta que deste ponto de vista se estabelece com as pessoas diferentes. Por outro lado, o poder impactante que a comunidade deficiente pode ter na transformação da sociedade, usando esse poder da diferença através da expressão artística – O artista possui um poder que lhe advém dessa diferença criativa. Ficou claro, para quem assistiu ao debate, que os públicos também se educam no sentido do entendimento pleno do objeto artístico produzido em palco, por um ensemble onde pontuam bailarinos ditos normais num processo colaborativo com colegas diferentes – Uma situação bem distinta da ida ao “gabinete de curiosidades” ver os coitadinhos dos deficientes. Como contributo para o debate, foi-nos fornecido um excerto de uma interessante entrevista com Bruce Gladwin, diretor artístico, e Alice Nash, produtora executiva do Back to Back Theatre que, em determinada altura, refletem sobre o poder manipulador de um encenador ou outro mediador artístico sobre os artistas diferentes. Diz Bruce Gladwin: “Os atores têm uma palavra a dizer no processo de tomada de decisões? Alguém lhes pôs palavras na boca? São no fim de contas marionetas dentro da peça? Isto é realmente uma questão de exploração. Acho que são perguntas ótimas e saudáveis. ... Como encenador de um grupo de artistas que são todos percebidos como tendo uma deficiência intelectual, estou muito consciente do potencial abuso de poder que existe nesta relação... Há responsabilidade de exercer um cuidado criterioso…”  A talhe de foice, Luisa Taveira fez-nos pensar sobre a Ética no trabalho com pessoas diferentes. Escutei e fiz um relance interior para a minha prática de mediador artístico junto da diferença- Será que fui sempre linear e honesto? E quando tive pressa em obter resultados? No debate em que todos participámos, cada um com o tempo que necessitava para se expressar, foi claro, honesto de uma horizontalidade rara. Destaco aqui a forma clara, assertiva, como Henrique Amoendo conduz as conversas com os diferentes artistas, tornando-as biunívocas. Lembro-me de ter pensado que o palco é o lugar mais inclusivo neste trabalho com a diferença.