sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

(Re)pensar a intervenção nos bairros

Mural na parede da sede, relembrando Eduardo Pontes, mediador cultural de referência, cofundador da Associação Cultural Moinho da Juventude - Bairro da Cova da Moura
Respondendo ao desafio da Mafalda Teixeira
do Município da Lourinhã, a quem agradeço o convite,
estive presente no Seminário (RE)pensar a intervenção em bairros sociais.
Tive o grande prazer de rever Orlando Garcia,
companheiro do movimento associativo dos animadores culturais
da segunda metade dos anos setenta do século passado,
e fartei-me de aprender! Daqui vai um abraço para os meus colegas de painel:
Miguel Guterres, Susana Sousa e Marta Santos
Aqui publico, a pedido de alguns participantes, algumas notas[1] 
que estiveram na base da minha intervenção,
bem como o poema “Ágora”, pertencente a um livro que teima em não ser editado.


Ágora

Quero
de novo
a ágora
preenchendo os nossos espaços
sílabas batidas
entre lábios e dentes

Quero
o sorriso concordante
a gargalhada dissonante
e o tempo de partilha
numa ilha feita gente

Quero
o momento do contacto
com o outro
ao meu lado
num só acto

E responder-te
do fundo do palato:
É comunicando
que se aprende!

(Transversais, Miguel Horta)


Maria José Vitorino (Laredo AC) - Bairro leitor/Biblioteca do Bairro

Sobre a Laredo Associação Cultural

Andei à procura de algumas palavras que pudessem apresentar o trabalho da Laredo Associação Cultural e consegui reunir uma mão cheia delas: Leitura, Literacia, Educação, Inclusão, Conhecimento. Ainda, algumas características do nosso trabalho: colaborativo, em rede, em tandem, em filosofia de projeto, transversal, diverso, plural… Sobretudo, trata-se de um trabalho inclusivo, porque existem diferentes exclusões: culturais, linguísticas, económicas, físicas e mentais, geográficas, de género (…)
Trabalhamos em Estabelecimentos Prisionais, promovendo Bibliotecas capazes de um trabalho autónomo de promoção das literacias e de mediação leitora, geridas por reclusos com apoio da estrutura educadora (escola, tratamento prisional e biblioteca municipal). Trabalhamos com Museus na acessibilidade e inclusão, propondo metodologias criativas e desenvolvendo formação, pesquisando constantemente ferramentas de mediação artística. Trabalhamos com Bibliotecas (Rede Pública, RBE e comunitárias) promovendo as literacias, a inclusão, a leitura, o livro, e o digital. Também aqui temos uma oferta formativa. Trabalhamos o laredo, a zona entre marés, porque acreditamos que é fundamental promover uma efetiva literacia oceânica, de forma inclusiva, e formando guardiões do mar. Trabalhamos junto de pessoas com necessidades educativas especiais, e com elas, desenvolvendo conhecimento e ofertas inclusivas nos mais variados contextos, do escolar ao institucional, passando pela vizinhança. 
E trabalhamos em bairros, com a sua realidade…
Envolvemo-nos em Lisboa num projeto Bip Zip – “BairroLeitor” (Casalinho da Ajuda), agora em fase de sustentabilidade. Mas também na Cova da Moura (Amadora) com o Moinho da Juventude, e em breve, se tudo correr bem, em Porto Salvo (Oeiras) e Zambujal (Amadora).
O que une todos estes lugares? O trabalho em torno das literacias, da leitura… enfim, caminho que sempre foi de bibliotecas. Bibliotecas comunitárias, às vezes tentando hibridar a partir de bibliotecas escolares. Propondo sempre contra a exclusão. Por vezes, estas bibliotecas assumem características de Ludoteca, ou poderão surgir a partir de casas comunitárias ou coletivas - exatamente como acontece no município da Lourinhã ou na Bela Vista de Setúbal - mas serão sempre de leitura de proximidade, num trabalho em torno das literacias como objetivo e também como meio para melhorar a qualidade de vida e gerar harmonias locais. Recomenda-se que estes lugares de comunicação sejam criados de forma orgânica, fluida, acrescentando valências surgidas naturalmente por proposta da população ou pelas dinâmicas geradas pelo projeto.
Vivemos um mundo contemporâneo líquido e veloz, o que exige dos mediadores e dos espaços comunitários uma constante adaptação às mudanças, só possível se as ideias estiverem alicerçadas em projetos pedagogicamente sólidos, partilhados, colaborativos, com lideranças evidentes e seguras. Estes espaços comunitários de partilha e promoção das literacias deverão ser lugares com mais-valia educativa, seguindo metodologias não formais, trabalhando na direção do crescimento interior dos habitantes (vizinhos) através do conhecimento. É neste desiderato que assenta a mediação leitora[2].

O Mediador

Costumamos dizer que a leitura ensina a ler o mundo nas suas diferentes cambiantes e que nós, mediadores da leitura, estamos lá na biblioteca comunitária, disponíveis para colaborar nesse caminho de crescimento interior que todo o leitor faz quando segue a sua curiosidade e intuição leitoras. Paulo Freire afirmava que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”[3].
Dizia-me uma professora, coordenadora de uma escola básica inserida numa zona problemática, mas sem ser considerada escola TEIP. Neste bairro a coisa é complicada, já não existe um patriarca cigano nem se respeita a lei oral que tradicionalmente rege as famílias caló. Discutem violentamente entre si e vociferam com a escola. Perderam a sua identidade. São culturas em perigo, perdidas na voragem contemporânea. O mediador[4] sabe como é importante preservar os nichos culturais, a sua cultura idiossincrática, tradições, línguas, rotinas e eventos, em articulação saudável com o mundo contemporâneo. Um mundo em mutação rápida, líquido, que urge entender para dar segurança aos passos que damos. As pessoas não entendem logo os processos da mediação cultural. Estão habituadas a calar ou falar aos berros com as estruturas. O mediador é mesmo estranho: não é da Junta, não é da “Judite”[5], nem de nenhuma seita invasiva, nem do RSI[6] e fala de leitura onde ninguém lê… De arte onde ninguém vai ao museu. Não trabalha pelo outro, não trabalha para o outro… trabalha com o outro, coopera. Usa métodos colaborativos. Não quer a comunidade para si[7], não a quer manipular, não quer tirar vantagem, prefere que ela evolua livremente de acordo com a matriz humana que a caracteriza. Interage questionando, deixando que o outro construa a sua resposta pessoal.
A mediação cultural é paciente porque conhece o valor do tempo. Gesta lenta, persistente como uma combustão sem chama. E depois do trabalho feito, partimos e deixamos tudo aos vizinhos.
Jovens ciganas construindo sussurradores na Biblioteca Comunitária

[1] Fica de fora a longa resposta à pergunta: Como se monta uma biblioteca comunitária? 
[2] A Mediação Leitora, a Mediação Social, a Mediação em Museus (Educação artística) entre outras, pertencem à família maior da Mediação Cultural. Deixaremos de lado, nesta comunicação, a mediação artística, e a Educação de Adultos, considerada como Educação Permanente, outras ferramentas base da nossa associação.
[3] Paulo Freire. Abertura do Congresso Brasileiro de Leitura, Campinas, Novembro de 1981
[4]O mediador dedica-se a estabelecer pontes de passagem para o conhecimento, potenciando experiências culturais significativas capazes de operar transformações no indivíduo e no meio envolvente. Assenta na crença de que a fruição da produção cultural e dos seus meios de expressão permitem um entendimento mais claro do mundo que habitamos, tornando cada um de nós um cidadão mais capaz de agir sobre os destinos do planeta, das comunidades e da sua própria vida.” in Leituras em Cadeia Projeto Gulbenkian, publicação a editar em 2018
[5] Designação popular urbana de Lisboa para Polícia Judiciária.
[6] Designação corrente de Rendimento Social de Inserção, medida de política social criado no séc. XXI. Nos bairros populares portugueses, usa-se a sigla para referir os técnicos de serviço social que acompanham as populações carenciadas e a atribuição de subsídios e apoios sociais.
[7] Deontologicamente, não deverá possuir intenções eleitoralistas.

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