quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Os contos continuam... em Santa Cruz (Torres Vedras)

Fotografia por cortesia de "O espaço do tempo"

O Rio de Contos está quase a chegar… mas antes irei a Santa Cruz, à Biblioteca de Praia (Biblioteca Municipal de Torres Vedras) para uma sessão de contos ( e não só) em torno do Mar.  Uma sessão baseada no espetáculo “Arribalé”. A sessão começa às 21.30h. Convém chegar a horas…a sala é pequena (Rua Dr Esteves de Oliveira – mesmo no centro -tel. 261 933 543).

Rio de Contos - II Encontro de Narração Oral de Almada - Programa

B- Biblioteca Municipal José Saramago - Feijó
C - Clube Desportivo e Recreativo do Feijó
P- Palco da Praça da Portela - Laranjeiro



terça-feira, 30 de agosto de 2016

Andarilhar, sempre!

Contos para escutadores especiais...
Regresso à costa depois das Palavras Andarilhas; corre um vento norte rijo, bem diferente da canícula de Beja. É sempre bom voltar a encontrar os companheiros de trabalho e outros trabalhadores da palavra. Já estabeleci laços fortes e cumplicidades com a equipa da Biblioteca Municipal de Beja. São inúmeras as ideias lançadas a partir daquele lugar de leitura. O Projeto Columbina é uma dessas propostas que vêm fazendo o seu caminho pelo país – não é  Nelson Batista? Como já vos tinha dito, nesta edição das “Andarilhas” partilhei a minha experiência de trabalho (em crescendo) de mediação leitora e narração oral junto das necessidades educativas especiais. Um trabalho mais discreto, longe dos grandes espaços de narração. No sábado contei no auditório da Biblioteca Municipal com a comunidade terapêutica e comunidade de reinserção da Caritas de Beja e mais alguns andarilhos curiosos que foram ao cheiro dos contos... O início da sessão não foi fácil, mas quando começaram a rir com as “partes” do Algarve, comecei a serenar. A sessão terminou com um ex-recluso que nos presenteou com um belo poema – Bom trabalho Cáritas! Mais tarde fui ao Lar da CerciBeja contar e mediar alguns livros com um grupo variado (nas problemáticas presentes) e muito afetuoso. (na parede da CerciBeja está escrito em grandes letras: "Vidas coloridas!") Como estava um calor terrível comecei com um conjunto de “brincadeiras intertextuais” em torno da ideia de vento. Um cartão grande simulou uma ventania refrescando os ouvintes, depois um livro de imagens sobre o vento e um poema de António Torrado. Canções, histórias bem-dispostas com objetos bem visíveis e simbólicos que se podem tocar. Apesar do calor, divertimo-nos todos!
Os escutadores da CerciBeja
Comunicando no Centro de Paralisia Cerebral de Beja
usando as luzinhas do SIM, NÃO e TALVEZ
No dia seguinte, no Centro de Paralisia Cerebral, também brinquei com o vento (cheguei a sussurrar ventanias e poemas aos ouvidos do pessoal) e sabem uma coisa? A rapariga da história “Caganita”, a tal que ia casar com o príncipe, entrou na igreja de cadeira de rodas. Ao longo deste percurso pelas Andarilhas tive sempre o apoio do Nelson Batista e da Susana Gomes que foi providencial na moderação do debate que teve lugar na Casa do Contador no final da tarde de domingo: “Para uma mediação diferente?”. A sala estava à cunha, com um bom número de profissionais da área das necessidades educativas especiais e mediadores da leitura. Foi uma conversa animada em torno das características especiais da mediação leitora junto das NEE. Falámos da escolha de livros e objetos de mediação de acordo com as características dos ouvintes. No caso do livro a Onda de Suzy Lee, falei das diferentes questões que podem ser trabalhadas com aquele livro, exemplificando. Igualmente como exemplo, mediei o livro Zoom (Istvan Banyai) junto dos participantes. Salientámos a importância do corpo como primeira ferramenta de mediação: do toque ao contacto visual, passando movimentação pela sala e outras interações com estes escutadores especiais. Ressaltou deste encontro a crescente necessidade de formação nesta área de trabalho e ficou uma pergunta no ar: Como posso preparar melhor a minha biblioteca para receber leitores especiais?
Foto - Cortesia  da Radiomiudos
Um dos momentos mais engraçados das "Andarilhas" foi a entrevista que um menino crioulo me fez para a Radiomiudos (um projeto muito bonito). As perguntas e as respostas foram em crioulo e contei em direto a histórias dos “Purkihus”("Katxupa"). Obrigado Pedro Barros! Nhas mantenha! Também por lá estava outro crioulo, Adriano Reis, homenageando muito bem o Mestre Lalaxu (Horácio Santos) - a seu pedido ainda contei "Na posu bedju" em crioulo e português (uma história tradicional pequenina sobre "almas penadas")...espero que tenham gostado.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Projeto "10x10" 2016 já está na estrada!

No verso da fotografia lá estava a dedicatória: "Um amplexo fanucho"
a lembrar que as "Palavras Marcianastambém passaram pela residência..
Acaba de terminar a última residência artística do Projeto 10x10 (Fundação Calouste Gulbenkian); é a quinta vez que esta proposta se repete, reunindo professores e artistas dentro da sala de aula, em busca de um novo caminho pedagógico nas secundárias do país. (vale mesmo a pena conhecer as edições anteriores). A mudança começa no desassossego da ideia, confirmando o cansaço e o insucesso dos modelos estafados. Mas para pensar algo novo, que contribua como uma golfada de ar fresco para a mutação dos modelos pedagógicos, implica uma grande dose de humildade, entrega e permanente reflexão sobre cada questão levantada ao longo do processo. É neste desafio que me incluo, sem reservas, talvez porque sempre acreditei nas miragens, ou porque este ano se comemoram os 500 anos da ilha de Thomas Moro. Vai-se lá saber das motivações de um artista… (dirão alguns). Apenas posso afiançar, de modo egoísta, que esta semana de trabalho numa das belas salas da Fundação Calouste Gulbenkian, realmente mexeu comigo, por dentro na minha prática artística, confirmando o compromisso social e educativo do meu trabalho. Conheci colegas/artistas novos e uma boa mão cheia de professores do ensino secundário, sobretudo a equipa com quem vou trabalhar na Secundária Seomara da Costa Primo (Amadora). Os que vão ficar mais longe, podem sempre contar comigo - sou fácil de encontrar… É sempre um prazer imenso estar com a Dina Mendonça que não se cansa de nos levar a pensar, com a magnífica Aldara Bizarro que sempre traz o corpo para o campo da educação (obrigado por me teres feito dançar de mãos dadas e olhos fechados) ou António Pedro que, com muito pouco (meios simples), nos ajuda a fazer surgir música e comunicação. Vieram outros colegas…como a Carla: perdemo-nos num arquipélago de almofadas, do qual só poderíamos fugir colaborando entre todos. A silenciosa Rosário Costa trouxe a simplicidade da interrogação, por isso aqui fica uma bela foto (com dedicatória) obtida através do método “Pinhole”, capturada no metropolitano de Lisboa. Retive as imagens das montras de Loulé, fixadas por Miguel Cheta, pois trouxeram um Algarve que estava adormecido dentro de mim, para o terreno da residência. Em cima de uma mesa ficou um coração de porco, palpitando…e não para! Não para… 
Ao longo dos próximos meses aqui vos darei conta desta nova viagem!
post scriptum: Temos uma fada chamada Judith...mas dessa falaremos depois... ;)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

“A importância do brinquedo e do brincar para o desenvolvimento da criança" - Penalva do Castelo

A caixa do lixo
No dia 7 de Julho estive em Penalva do Castelo na sua Biblioteca Municipal num seminário sobre “A importância do brinquedo e dobrincar para o desenvolvimento da criança”, respondendo ao desafio lançado pela minha amiga Joana Pina. A sala estava cheia, com algumas caras conhecidas, lá estavam o Pitum e a Lira Amaral – o tema é muito importante! Gostei bastante de escutar a professora Marta Rosa (IAC) na sua reflexão acutilante e muito organizada. Fiquei fascinado com o trabalho de adaptação dos brinquedos para crianças com paralisia cerebral, apresentado por Fátima Vilaço e Elisabete Pereira da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra – ficou a vontade de me encontrar com estas duas técnicas para aprender mais um pouco sobre a técnica, com vista a uma possível adaptação ao campo da educação artística. A minha intervenção incidiu mais sobre a criação de estratégias lúdicas junto de crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Antes de chegar à narrativa da prática em educação artística e mediação leitora junto da diferença, falei um pouco sobre o brincar. Discorrendo em jeito de memória: O primeiro brinquedo é o corpo – Um mamilo ou talvez a luz contra a transparência da pele. Brincar e comunicação fundidos num só gesto, repetido docemente enquanto se cresce. Outros primeiros brinquedos vão surgindo com diferente funções de estímulo sensorial – são rocas, na extremidade dos membros, seguras pelas mãos, que já serviram de brinquedo. O bebé tem à sua disposição uma miríade de brinquedos mediadores da perceção com o mundo. Alguns brinquedos tornam-se objetos transicionais, por serem contentores familiares de afeto, garantindo noites tranquilas. Por vezes os objetos transicionais são batizados (o Chico, o Ninon, o Nhônhô…), passam a fazer parte da família, mas têm uma função diferente na brincadeira. O tempo passa e aprende-se a usar o brinquedo, a brincadeira ganha sentido. E de repente o brinquedo é convocado para a grande dramatização do conhecimento que a criança vem construindo sobre o mundo: a interiorização das aprendizagens promovida pelo jogo simbólico, o faz-de-conta. Os brinquedos-atores são variados: os legos, as bonecas, até pedaços de madeira e cerâmicas toscas representando a família, dependendo da cultura de origem. Em 1980 fiz um percurso no interior da ilha de Santiago para conhecer a cerâmica cabo-verdiana. Quando cheguei a Fonte de Lima, entendi que para além do binde (bilhas tradicionais) existia uma grande quantidade de pequenos bonecos que tinham uma função específica: eram brinquedos que as raparigas adolescentes faziam em barro para os seus irmãos mais novos; na altura da cozedura da cerâmica adulta, elas aproveitavam a boleia para fazer essas preciosidades. Não havia Barbies, nem Playmobil, nem o maravilhoso Lego.
A minha preocupação tem sido mais com o brincar e com o brincador, esse mediador de sorrisos que tanto pode ser uma criança como um adulto ou jovem que se disponha a semear risadas participando no divertimento. Acho que a brincadeira ajuda a arrumar a cabeça – e isto é tão verdade junto de pessoas com necessidades educativas especiais. Ao longo da minha intervenção fui sugerindo a utilização de objetos comuns em brincadeiras com sucesso garantido, como as lanterninhas, os sussurradores, fui referindo o recurso a meios pobres na construção plástica e até de brinquedos (tenho um amigo que é carpinteiro) mostrei uma imagem da minha caixa de lixo que uso para trabalhar o corpo, a par de alguns exercícios de psicomotricidade… Enfim, ficou muito por dizer… Quero agradecer à organização pela oportunidade de participar numa sessão tão concorrida e viva. Como se diz na Beira: Bem-Haja 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Andarilhar com a Diferença!

"leituras diferentes" - Sintra - AEEFS
As Andarilhas estão quase a chegar… Nesta edição, a minha participação incindirá sobre a mediação leitora, contos e Necessidades Educativas Especiais. No Sábado dia 27, na Cerci/Beja, vou pegar nalguns livros e contar histórias. Pelas 15h vou estar com um grupo de amigos da Cáritas, caras conhecidas a obrigar a uma escolha afinada das histórias a contar… No dia 28 às 11h da manhã, terá lugar o maior desafio de todos – trabalhar com pessoas com paralisia cerebral. No domingo às 17h vamos ter oportunidade de trocar algumas ideias sobre este campo de trabalho, numa tertúlia que terá lugar na “Casa do Contador”. Quem estiver interessado em acompanhar estas sessões de narração e livros junto da diferença, poderá falar com a organização das Palavras Andarilhas – está prevista a possibilidade de alguns profissionais acompanharem este percurso. Lá vos espero em Beja!

Algumas referências sobre esta área específica de trabalho:
Um Texto

sábado, 13 de agosto de 2016

Ópera na prisão (30 de junho)

Foto: Fundação Calouste Gulbenkian
Foto: Fundação calouste Gulbenkian
Poderia passar uma noite ou um dia todo a falar de como o projeto “Opera na Prisão” de Paulo Lameiro e da sua equipa (Sociedade Artística e Musical dos Pousos) é importante, importantíssimo e aponta claramente o caminho da criatividade como forma de os reclusos se reencontrarem, de voltarem a estar sintonizados com a vida. Vale a pena saber mais sobre este projeto – existe muita informação disponível na net. Foi um privilégio fazer parte da equipa (Aldara Bizarro, Miguel Horta e Sofia Cabrita – Descobrir/Gulbenkian) que realizou uma oficina criativa dedicada ao grupo de jovens reclusos artistas que levaram à cena “D. Giovanni:1003 – Leporello 2015”. A nossa partilha foi composta por uma série de exercícios divertidos de corpo e movimento e por uma adaptação do modelo OVI (Olhar, Ver e Interpretar – sector educativo CAM/Gulbenkian). Trabalhámos duas peças: “Homenagem a Almada”, instalação de Maria Beatriz e “Ouve-me” um vídeo de Helena Almeida. Discreta, Adriana Pardal esteve sempre em cima do acontecimento, para que nada faltasse...Obrigado Leonor Nazaré por me aturares na procura de informação – acabei por mostrar um conjunto de imagens das peças de Maria Beatriz que ajudaram a contextualizar a obra, abrindo novos apetites. Gostei muito do momento em que o grupo alargado partilhou opiniões sobre a obra das duas artistas – afinal, quem tem medo da arte contemporânea? Os nossos participantes gostaram e eu diverti-me, como sempre. 
"Então isto é uma instalação? O que está escrito lá em baixo? Parece uma carta à mãe dela..."
Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Nare faz voar um tapete

A vida corre tão veloz que às vezes não encontro tempo para vos dar conta em tempo útil de acontecimentos importantes. É o caso da nossa oficina de férias “Lugar habitáculo” que terá a sua próxima realização de 22 a 26 de agosto no Centro de Arte Moderna.  Como se pode pensar um espaço para que seja habitável? Qual o papel do nosso corpo nesse processo de pensamento e aprendizagem? Será que a nossa casa imaginária pode ser uma morada coletiva? O grupo será desafiado a construir coletivamente um espaço habitável, modular, móvel, feito a partir de materiais simples e leves como o cartão, onde a arquitetura e a escultura se confundem – um habitáculo-lugar sempre em transformação. Mãos à obra?! Os culpados são os do costume: Miguel Horta, Maria Remédio, Joana Andrade e Hugo Barata. A nossa primeira semana de oficina de verão correu-nos muito bem - gostei muito da construção da morada coletiva. Mas realmente o momento que mais me tocou foi a nossa visita à exposição “Kum Kapi: Tapetes viajantes”. Eu explico… No nosso grupo tínhamos duas crianças arménias, refugiadas, Nare e Vahagn, que pouco dominavam a língua portuguesa mas que acabaram por se entrosar na perfeição com as outras crianças. Quando entrámos na exposição de tapetes arménios deparámo-nos com um deles (criado por Mekhitar Garabedian, artista arménio, 1977- Alepo) onde figurava o alfabeto arménio. Ora nenhum de nós sabia soletrar aquela escrita estranha). Uma mãozinha tocou-me levemente, era Nare. Depois disse baixinho. “Se quiseres eu posso dizer o que ali está escrito…eu sei” E começou a cantar o alfabeto arménio, uma declinação melodiosa que a todos nos remeteu ao silêncio. A Maria Remédio gravou… E aqui vos deixamos esse momento de rara beleza.


Suavemente o tapete mágico levitou sobre as lajes da sala…