domingo, 23 de outubro de 2016

Experimentar, partindo do núcleo museológico do Pisão

No Centro de Apoio Social do Pisão (Alcabideche) tenho vindo a desenvolver, com os técnicos e voluntários, modelos de mediação cultural junto dos utentes desta histórica instituição. De momento estamos a trabalhar o núcleo museológico devolvendo o seu conteúdo aos utilizadores atuais do Pisão. A ideia é conseguir que alguns dos utentes (portadores de doença mental) sejam os monitores deste pequeno museu. Estamos a construir guiões de trabalho e já fizemos uma primeira visita/oficina (“Recontar o Pisão”) a pares (utente/técnico) à coleção. Durante 90 minutos construímos pequenas narrativas (escrita criativa) partindo de objetos do museu e personagens descobertas nas fotografias antigas expostas. Aqui fica um exemplo de um dos textos surgidos a partir da observação de uma interessante fotografia a preto e branco (exposta no núcleo museológico - em cima) e uma enxada (objeto escolhido):
“Um rapaz com ar pensativo, cara apoiada na mão sobre a face direita. Olha interessado e interrogativo, apoiado no varandim. – Mas porque é que ele me está a fotografar? Um homem segura um cão em posição de pose para a fotografia. Sorri. Era talvez o melhor tempo de lazer que ali tinha. – Aqui o Bobi também fica na foto. Eles eram obrigados a trabalhar muito, enxada na mão, lavrando o campo. Por isso é que vemos um guarda na fotografia. A Colónia Agrícola do Pisão era autossuficiente. Alguns estão de paus na mão. Um jovem segura uma cana fazendo de conta que é uma flauta. Eles gostam muito de música, pois sem ela a vida seria muito monótona”
 
 Algumas peças expostas que serviram para inventar textos
Gostei muito da avaliação que os utentes fizeram no final da atividade – Um dos participantes referiu que tinha sido importante para conhecerem a história do Pisão através da “visita dinâmica”, outro falou sobre a evolução das políticas de saúde… Referiram ainda, como tinha sido importante conhecer o museu e pensar no futuro e que “sim, que a atividade tinha servido para se cultivarem”. Falou-se muito do tempo em que a instituição se chamava Colónia Penal e Agrícola do Pisão e das profissões que antigamente ali existiam. O senhor Amadeu comentou que tinha ficado curioso sobre a forma como os residentes se ajudavam uns aos outros naqueles tempos. Temos consciência da necessidade de adaptação do discurso de mediação aos diferentes graus de literacia existentes entre os utentes; por vezes, a solução é registar as palavras dos participantes durante a atividade. Estamos a pensar formar outro grupo que aplique a “Máquina da poesia” naquele núcleo museológico.

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