sexta-feira, 19 de agosto de 2016

“A importância do brinquedo e do brincar para o desenvolvimento da criança" - Penalva do Castelo

A caixa do lixo
No dia 7 de Julho estive em Penalva do Castelo na sua Biblioteca Municipal num seminário sobre “A importância do brinquedo e dobrincar para o desenvolvimento da criança”, respondendo ao desafio lançado pela minha amiga Joana Pina. A sala estava cheia, com algumas caras conhecidas, lá estavam o Pitum e a Lira Amaral – o tema é muito importante! Gostei bastante de escutar a professora Marta Rosa (IAC) na sua reflexão acutilante e muito organizada. Fiquei fascinado com o trabalho de adaptação dos brinquedos para crianças com paralisia cerebral, apresentado por Fátima Vilaço e Elisabete Pereira da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra – ficou a vontade de me encontrar com estas duas técnicas para aprender mais um pouco sobre a técnica, com vista a uma possível adaptação ao campo da educação artística. A minha intervenção incidiu mais sobre a criação de estratégias lúdicas junto de crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Antes de chegar à narrativa da prática em educação artística e mediação leitora junto da diferença, falei um pouco sobre o brincar. Discorrendo em jeito de memória: O primeiro brinquedo é o corpo – Um mamilo ou talvez a luz contra a transparência da pele. Brincar e comunicação fundidos num só gesto, repetido docemente enquanto se cresce. Outros primeiros brinquedos vão surgindo com diferente funções de estímulo sensorial – são rocas, na extremidade dos membros, seguras pelas mãos, que já serviram de brinquedo. O bebé tem à sua disposição uma miríade de brinquedos mediadores da perceção com o mundo. Alguns brinquedos tornam-se objetos transicionais, por serem contentores familiares de afeto, garantindo noites tranquilas. Por vezes os objetos transicionais são batizados (o Chico, o Ninon, o Nhônhô…), passam a fazer parte da família, mas têm uma função diferente na brincadeira. O tempo passa e aprende-se a usar o brinquedo, a brincadeira ganha sentido. E de repente o brinquedo é convocado para a grande dramatização do conhecimento que a criança vem construindo sobre o mundo: a interiorização das aprendizagens promovida pelo jogo simbólico, o faz-de-conta. Os brinquedos-atores são variados: os legos, as bonecas, até pedaços de madeira e cerâmicas toscas representando a família, dependendo da cultura de origem. Em 1980 fiz um percurso no interior da ilha de Santiago para conhecer a cerâmica cabo-verdiana. Quando cheguei a Fonte de Lima, entendi que para além do binde (bilhas tradicionais) existia uma grande quantidade de pequenos bonecos que tinham uma função específica: eram brinquedos que as raparigas adolescentes faziam em barro para os seus irmãos mais novos; na altura da cozedura da cerâmica adulta, elas aproveitavam a boleia para fazer essas preciosidades. Não havia Barbies, nem Playmobil, nem o maravilhoso Lego.
A minha preocupação tem sido mais com o brincar e com o brincador, esse mediador de sorrisos que tanto pode ser uma criança como um adulto ou jovem que se disponha a semear risadas participando no divertimento. Acho que a brincadeira ajuda a arrumar a cabeça – e isto é tão verdade junto de pessoas com necessidades educativas especiais. Ao longo da minha intervenção fui sugerindo a utilização de objetos comuns em brincadeiras com sucesso garantido, como as lanterninhas, os sussurradores, fui referindo o recurso a meios pobres na construção plástica e até de brinquedos (tenho um amigo que é carpinteiro) mostrei uma imagem da minha caixa de lixo que uso para trabalhar o corpo, a par de alguns exercícios de psicomotricidade… Enfim, ficou muito por dizer… Quero agradecer à organização pela oportunidade de participar numa sessão tão concorrida e viva. Como se diz na Beira: Bem-Haja 

Sem comentários:

Enviar um comentário