sábado, 23 de abril de 2016

Da Liberdade e do Medo

Contando a história de "Graco"
A minha amiga Maria Teresa Sá desafiou-me para falar sobre a Liberdade e o Medo no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – uma honra... Partilharam a mesa o Professor João Seabra Diniz a Sílvia Madeira, professora e animadora cultural (sobrinha do nosso Francisco Madeira Luís) com moderação da Drª Rita Marta. A imagem de fundo escolhida para este encontro foi baseada em “Pássaros” de Alfred Hitchcock e a sala estava cheia de… gente douta. Mas lá entrei no tema a que me tinha proposto com uma história, pois claro.
“Certo dia voltava eu da escola, quando uma gralha negra como a noite me saltou à frente justamente no carreiro ladeado de estevas que levava a minha casa, vindo da aldeia. A bicha saltitava na minha frente, até parecia que queria falar comigo. Aos saltinhos, de um lado para outro e eu sem entender nada daquelas revoadas. Baixei-me e agarrei uma pedra que arremessei direto ao alado animal. Mas não lhe acertei. A gralha levantou voo, deu duas voltas no ar e voltou a poisar ali, de novo à minha frente, trocista, saltitando no carreiro. Lá estava a ave negra a saltitar ali na minha frente como que a gozar comigo. Discretamente procurei um outro seixo… senti-lhe o peso. Peguei na pedra e, lesto, atirei-a certeira! Zás! Diretamente na lombeira do pássaro. Acertei-lhe! O animal ficou a esvoaçar na poeira do carreiro…tem uma asa partida – pensei. Peguei nela e coloquei-a na minha lancheira de vime, onde se ficou a debater furiosamente. “Tá quieta, negra criatura…”Nessa noite deitei-me cedo e levei a lancheira com o bicho para o meu quarto. Mas a meio da noite comecei a ficar com febre, arrepios alastrando pelo meu corpo suado. Estou doente – Pensei – É por causa da gralha! Pois…é uma bruxa… A ave negra só pode ser uma bruxa! Levantei-me cheio  de tonturas pegando na lancheira de vime - o animal ainda se mexia dentro dela… Abri silenciosamente a porta do monte para não acordar os meus pais e aproximei-me do barranco fronteiro ao nosso monte. Abri a cestinha de vime… e soltei o negro animal que voou misturando-se na escuridão. Voltei para o meu quarto cambaleando e deitei-me num torpor profundo mas agradável, dormindo como um justo. A febre, a doença passou, como por magia… Mas ainda hoje sonho que o pássaro negro atravessa as paredes do meu quarto para me vir visitar.” (Miguel Horta in “Graco”. Contado a primeira vez no Centro de Arte Moderna na performance “Eisen”, sobre a obra de Rui Chafes). 
Como falar do medo e da liberdade é coisa séria, propus ao nosso grupo de leitura e escrita do projeto “Leituras em Cadeia” (Laredo Associação Cultural) uma reflexão sobre o tema. Acorreram 12 mulheres à sessão promovida por mim e pelo professor Luís Dias (“Âncora” do projeto) na Biblioteca Prisional do pavilhão A do EP Tires. Recolhemos, assim, uma serie de opiniões que partilhei no Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Aqui ficam alguns medos numa conversa que nem sempre foi fácil – o tema dos medos relacionados com os filhos foi bastante duro.
Os detalhes são importantes: à porta da prisão ficou a mala com a tristeza e a moça leva agora a alegria na mão.
“Faltam 58 dias para a minha Liberdade. Finalmente vou regressar à Colômbia. Tenho medo que não exista lá ninguém para me receber. “ Tenho medo que a família não me perdoe – diga que sim, mas no íntimo não aceite.”
“Tenho medo que o meu companheiro queira começar de novo. Outra vez aquelas mãos sapudas…e aquela vidinha.” “tenho medo de perder os elos, os afetos.” “Nós aqui estamos privadas de ir e vir.” Mesmo presa tenho situações de Liberdade.” “A minha vingança é gozar a total Liderdade do meu pensamento.” “Cada um deve saber gerir a Liberdade mesmo num universo limitado.” “Liberdade é Vida! Liberdade é medo.” “Tenho medo do que possa fazer dentro daquela cela! Já não a posso ouvir a choramingar. As noites na prisão são longas…” “Tenho medo de ficar livre” “Tenho medo da escolha – cada escolha traz consigo uma consequência.” “”Estou aqui porque não soube ser livre. Não fiz escolhas, deixei-me ir nas escolhas dos outros.” “Há pessoas que não sabem gerir a Liberdade” “Medo de reincidir.” “O Miguel não traga para aqui os filhos juntos com o medo – pode ter consequências terríveis! Olhe que eu saio da sala…” “Medo de não ter tempo” “Medo da morte. Medo da morte dos outros. Medo do sofrimento. Medo do sofrimento que possa causar aos outros” “A proximidade com a morte torna-a mais familiar – acaba com o medo”. Depois disto contei o “Jack e a Morte” (recolha de Tim Bowley).
Lembro-me como foi difícil juntar e interessar um grupo de reclusos crioulos e ciganos na cela/biblioteca da ala F (muito complicada…) do EP Lisboa (Projeto "A cor das histórias") – foram eles que me ensinaram o caminho…. Um dia li um conto de Borges, onde dois adolescentes lutam até à morte depois de terem retirado de um armário (a coleção do pai) duas navalhas amaldiçoadas pelos espíritos dos seus antigos proprietários, rivais sanguinários. Os moços ciganos adoraram o conto. “AAAiii senhor professor! Até arrepia…” Percebi que este grupo específico tinha um gosto especial por histórias com almas penadas: gostavam do Medo. Deixo-vos aqui uma canção de Lenine (músico Brasileiro) “Medo – Me dá medo do medo que o medo me dá”

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