terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Leituras em cadeia : Pontos de vista sobre a coleção

Em breve teremos estantes novas, aumentando a capacidade para a coleção.
De momento, prosseguimos com o desbaste e  tratamento tecnico, integrando a bom ritmo novas aquisições.
Numa das nossas sessões com o grupo restrito de reclusas, responsável pela biblioteca prisional do pavilhão a do estabelecimento prisional de Tires, propusemos que indicassem as diferentes ofertas (em papel) que a biblioteca deveria conter para dar resposta às residentes. Ao mesmo tempo, solicitámos que acrescentassem na lista os géneros literários e outros de que mais gostavam.
Seguiu-se um debate animado sobre o que deveria ser a oferta da biblioteca prisional, concluindo todos que deveria ser bastante variada, desde os livros para colorir, revistas, tio patinhas até à “grande” literatura. Começámos, assim, a construir aquilo a que chamámos o “perfil leitor” do pavilhão, referente ao momento atual.
Desse trabalho surgiu um questionário a apresentar às reclusas que frequentam o espaço da biblioteca - uma extensa lista de géneros e tipos de oferta (em papel), da qual se deveriam escolher apenas 5 hipóteses, as mais significativas para a utilizadora inquirida. Esta pequena dinâmica permite que as responsáveis pelo “balcão” ( atendimento, empréstimo e serviço de referência) aprofundem a consciência e o conhecimento da coleção que pretendem divulgar e da sua utilidade, impacto e assertividade para a frequência atual do espaço. Por outro lado, ajuda a percecionar os grupos de afinidade entre as leitoras potenciais. Para os mediadores do livro e da leitura, dá pistas sobre os interesses e aparentes desinteresses das reclusas,  muito útil para a renovação da coleção e para o desenho de futuras intervenções junto deste universo de detidas.
Duas semanas depois de iniciados os inquéritos, poderemos partilhar as respostas predominantes, uma espécie de retrato robô das utilizadoras da biblioteca prisional: Anedotas e humor – 23, Artesanato e trabalhos manuais – 11, Aventura – 14, Banda desenhada – 7, Cinema – 8, Culinária/Gastronomia – 11, Erotismo – 9, Filosofia – 7, História – 10, Horóscopos/Astrologia – 13, Histórias da vida real – 18, Moda – 7,Música – 8, Passatempos (Sudoku, palavras cruzadas …xadrez) – 8, Poesia – 10, Policiais – 7, Psicologia – 7, Religião – 9, Revistas – 10, Romances de amor -20, Saúde - 9

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Leituras em Babel

Pieter Breugel - "Torre de Babel" - Museu Boijmans VanBeuningen -Rotterdam
As sessões de mediação leitora do projeto Leituras em cadeia, vão-se sucedendo numa regularidade serena, na biblioteca prisional do Estabelecimento Prisional de Tires. Atualmente, num pavilhão com 170 reclusas, a quase totalidade é requisitante – por mês, são emprestados 240 livros. Cerca de metade das residentes são estrangeiras, com grande diversidade linguística e cultural, havendo falantes de mais de 10 idiomas – uma verdadeira Babel. Ontem trabalhámos com a “Máquina da poesia” (ver descrição da metodologia), geradora de uma escrita poética simples. Nesta sessão, propus que se organizassem em tandem de entreajuda linguística. Adotei o mesmo procedimento para as reclusas com menor nível de literacia que, em colaboração com uma companheira, ultrapassaram a barreira do significado das palavras. Foi comovente escutar uma reclusa cigana, que afinal sabia ler as suas palavras favoritas… Os poemas foram construídos a partir do significado íntimo das palavras. “Por exemplo: destino. O que é, para ti, esta palavra? O que te faz lembrar?” Assim, com a ajuda da “máquina” fomos avançando. No caso de uma residente Russa, foi necessário recorrer ao Espanhol como língua de intermediação. A todo o momento se conferiu, em coletivo, a tradução correta do sentido do que ia sendo escrito. Uma senhora cabo-verdiana mais velha, uma "Manhanha" (mulher mais velha e sábia), trabalhou com o seu par a partir do Português, traduzi os versos para Crioulo (Alupec) - todas as reclusas acharam belos os versos ditos naquela língua estranha... No final, cada participante levou um caderno e uma esferográfica para continuar a experiência poética na cela.
Numa sessão anterior, constatei que a grande maioria das jovens mães reclusas têm um grande desconhecimento dos trava-línguas, canções e outras brincadeiras sonoras que se fazem com as crianças. O “Pico pico serapico” foi um sucesso… cada vez que pego num livro para a infância, os olhos brilham e então se cantar… Estas reações confirmam a necessidade de se fazerem sessões exclusivamente dedicadas às jovens mães, apostando na conquista leitora pela necessidade de comunicarem com as suas crianças. Ora aqui temos mais uma vertente que a biblioteca prisional deverá abarcar: os livros infanto-juvenis. Num próximo texto, partilharei aqui no blogue o trabalho que vimos desenvolvendo em torno do “Perfil leitor” deste universo de leitoras reclusas.