sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Leituras em Babel

Pieter Breugel - "Torre de Babel" - Museu Boijmans VanBeuningen -Rotterdam
As sessões de mediação leitora do projeto Leituras em cadeia, vão-se sucedendo numa regularidade serena, na biblioteca prisional do Estabelecimento Prisional de Tires. Atualmente, num pavilhão com 170 reclusas, a quase totalidade é requisitante – por mês, são emprestados 240 livros. Cerca de metade das residentes são estrangeiras, com grande diversidade linguística e cultural, havendo falantes de mais de 10 idiomas – uma verdadeira Babel. Ontem trabalhámos com a “Máquina da poesia” (ver descrição da metodologia), geradora de uma escrita poética simples. Nesta sessão, propus que se organizassem em tandem de entreajuda linguística. Adotei o mesmo procedimento para as reclusas com menor nível de literacia que, em colaboração com uma companheira, ultrapassaram a barreira do significado das palavras. Foi comovente escutar uma reclusa cigana, que afinal sabia ler as suas palavras favoritas… Os poemas foram construídos a partir do significado íntimo das palavras. “Por exemplo: destino. O que é, para ti, esta palavra? O que te faz lembrar?” Assim, com a ajuda da “máquina” fomos avançando. No caso de uma residente Russa, foi necessário recorrer ao Espanhol como língua de intermediação. A todo o momento se conferiu, em coletivo, a tradução correta do sentido do que ia sendo escrito. Uma senhora cabo-verdiana mais velha, uma "Manhanha" (mulher mais velha e sábia), trabalhou com o seu par a partir do Português, traduzi os versos para Crioulo (Alupec) - todas as reclusas acharam belos os versos ditos naquela língua estranha... No final, cada participante levou um caderno e uma esferográfica para continuar a experiência poética na cela.
Numa sessão anterior, constatei que a grande maioria das jovens mães reclusas têm um grande desconhecimento dos trava-línguas, canções e outras brincadeiras sonoras que se fazem com as crianças. O “Pico pico serapico” foi um sucesso… cada vez que pego num livro para a infância, os olhos brilham e então se cantar… Estas reações confirmam a necessidade de se fazerem sessões exclusivamente dedicadas às jovens mães, apostando na conquista leitora pela necessidade de comunicarem com as suas crianças. Ora aqui temos mais uma vertente que a biblioteca prisional deverá abarcar: os livros infanto-juvenis. Num próximo texto, partilharei aqui no blogue o trabalho que vimos desenvolvendo em torno do “Perfil leitor” deste universo de leitoras reclusas. 

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