sábado, 31 de maio de 2014

Fala-me de Ti

Trabalho em profundidade. É o que me apetece dizer da proposta que Margarida Rodrigues, nossa estagiária no Centro de Arte Moderna (NEE), lançou junto de um grupo de visitantes com perturbação mental. A palavra como desenho interior das nossas emoções, construindo um retrato possível; sobreposta à imagem real, a fotografia ganha um poder de sinceridade interior muito grande. Sessão muito bem conduzida, com silêncios, espaço de reflexão e escrita/desenho. Uma boa adaptação da oficina “meu rosto Teu”. Participei, vi e aprendi. "Meu Rosto Teu": Nem toda a comunicação precisa de ser ruidosa…

sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Vanitas e a Tia" apresentada na Festa dos Contos (2013)

De repente dei com este registo feito na “Festa dos Contos” de Montemor-o-Novo (festival de narração oral organizado pelo amigo Carlos Marques) na Primavera de 2013. Trata-se de “Vanitas e a tia Aldina” um texto/conto feito a partir do tríptico “Vanitas” de Paula Rego (coleção do Centro de Arte Moderna/FCG). Na altura, resolvi partilhar com os meus colegas contadores de histórias esta outra forma de utilizar a narração oral para mediar Arte no interior dos museus. Mas a apresentação fica melhor no interior do museu, com a peça mesmo ao nosso lado… De qualquer forma, este registo das Oficinas do Convento já dá uma ideia do ambiente que se gera.
O texto original do conto pode ser lido: aqui.

Vídeo caseiro para o Mural Interactivo do Bibliotecário


Vídeo caseiro que serviu de ponto de partida para o debate promovido pelo Mural Interativo do Bibliotecário (Brasil) sobre diferentes realidades bibliotecárias. Juntamente com Paula Sequeiros animámos a conversa em torno da leitura em contexto prisional. Fica aqui um obrigado à Fabíola Bezerra por ter promovido esta conversa que atravessou o oceano e da qual resultou um e-book reunindo o contributo de todos.
Como os mediadores do livro não são especialistas em biblioteconomia, aqui fica o esclarecimento de Maria José Vitorino sobre um dos meus lapsos no vídeo:
"A CDU não é um sistema de catalogação.  É um sistema de classificação / indexação, que também é usado como base de organização da arrumação dos documentos, por aplicação nas cotas. Catalogação é outra coisa, e outra operação do tratamento documental - normalizada por normas internacionais, desde os anos 70 (ISBD) e nacionais (Regras Portuguesas de Catalogação - da responsabilidade da Biblioteca Nacional), adaptadas em normas de cada biblioteca (manuais de procedimentos). Por esta operação se descreve fisicamente o documento, e o seu conteúdo, de modo a poder ser recuperado ("catado") por  pesquisa através de pontos de acesso normalizados e validados : autor(es), título, cota, editor, ano de publicação, título de colecção, etc..."

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Sussurrador (ferramenta)

O que é um sussurrador? Pois é um tubo de cartão, habitualmente usado na indústria têxtil para enrolar peças de tecido (poderá ter outras origens…), utilizado pelos mediadores da leitura para promover a palavra dita e escrita em ambientes ruidosos, com poucos ouvidos.
Mas se segredarmos palavras numa extremidade, o recetor, do outro lado, vai escutá-las com clareza. Trata-se pois de um objeto de comunicação: ensina a falar baixinho, passa a mensagem sem ruído, mesmo nos locais mais agrestes. Muito útil no trabalho com jovens que desacreditaram da palavra, possibilitando invasões poéticas, disparando poemas (baixinho) mesmo no centro de uma grande cidade. Garantidamente divertido! Ver aqui e aqui duas referências ao trabalho no terreno.
Convém personalizar o sussurrador, com decoração a gosto, afinal trata-se de um objeto de uso pessoal. O comprimento também tem importância no som captado: quando mais longo for, maior a distorção (os jovens gostam desta opção por ser mais próxima do som metálico…)
Nos últimos anos tenho utilizado esta ferramenta junto de crianças e jovens com défice cognitivo e autismo. Sobretudo no autismo, demonstra resultados importantes, pois isola o som da mensagem sobrepondo-o a todos os outros estímulos sonoros que perturbam e impedem o entendimento. Muitas vezes temos a sensação de que já esgotámos todos os recursos para comunicar com estas crianças que se fecham sobre si próprias; usei esta ferramenta e consegui algumas pequenas vitórias.
Como sempre, uma ferramenta não resolve nada, se não tiver a montante um projeto muito bem estruturado nos seus objetivos e percurso. Mas isso vocês já sabem… 
Foto de Sofia Maul

terça-feira, 27 de maio de 2014

Pais-em-rede-fazemos-a-diferença

Pois neste sábado rumei à Areia (Guincho – Cascais) para uma sessão/convívio com famílias com crianças e jovens portadores de deficiência. Uma dinâmica de corpo, propondo o trabalho em equipa/cooperação, antecedeu um momento de troca de ideias sobre a gestão das emoções e outras realidades características destas famílias diferentes. Foi uma conversa tranquila, discreta com um grupo de pais que não me conhecia… Procurámos referências e pontos de encontro para uma conversa que me pareceu de primeiro contacto. Falámos de pequenas soluções, como a das borrachinhas e o espelho. Aproveitei para partilhar alguns livros que acho importantes para trabalhar com estes jovens especiais em conjunto com o resto da família; mostrei o “Zoom”, “ABC3D”, “A surpresa de Handa” e “Popville”, entre outros. Pelo meio também falei do trabalho que desenvolvo com Margarida Vieira no Programa Descobrir (FCG), sobretudo no que diz respeito às oficinas dedicadas à família.Gostei de escutar o elogio que os pais fizeram ao trabalho dos mediadores deste projeto da Câmara de Cascais... Acho que fiquei preso nesta rede informal, com vontade de trazer outras propostas a um próximo encontro.
LudoBiblioteca da Areia (Guincho) é um espaço arejado, de interior cuidado, cheio de luz, com uma equipa jovem e profissional, enfim, onde dá vontade de ficar a ler ou contar uma história às crianças (está integrada na escola básica da Areia - Cascais). 

sábado, 24 de maio de 2014

Grandes desenhos e Filosofia

Poderíamos chamar a este conjunto de fotos: desenhos para pensar. São apenas o testemunho do trabalho em equipa com Rita Pedro, contribuindo para a sua sessão no projeto “Levar a ler” (laboratório da criatividade – Cascais). Grandes desenhos que funcionaram como cartografias gigantes dos participantes e acabaram por espelhar preocupações, reflexões e algumas conclusões, relembrando a importância da Filosofia como ferramenta para a construção de autonomias, nascidas no interior das crianças. Estou certo que esta metodologia pode germinar no coração da escola. É sempre um prazer trabalhar com a Rita.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Reflorir com Arte

Painel executado durante a oficina "O mundo lá fora" (2x5,5m) - Descobrir/Gulbenkian
Ao fim de uns anos a receber e a trabalhar dentro do museu com doença mental, com as mais diversas origens, criamos laços. Sabemos do combate surdo contra a doença, que não se controla no início, reparamos nas mudanças e vemos o reflorir individual destes visitantes especiais. Certos grupos crescem por dentro formando uma unidade de entreajuda; sabemos que a arte contemporânea e a nossa proposta pedagógica têm efeito sobre estas pessoas que nos olham com aceitação e prazer. Às vezes sofremos baixinho mas não falamos – é segredo (shiu!) E há dias assim, em que começamos a trabalhar e surge um enorme e belo painel, espelho da convivência com a oferta cultural da Fundação Calouste Gulbenkian. Na imagem vão reconhecer a peça “Durante o sono” de Rui Chafes e duas esculturas de Houdon (Apolo e Diana). Os visitantes conversam com elas, e nós estamos lá representados no painel: a Margarida Vieira, sorridente como sempre e eu, talvez um pouco expectante. Voltem sempre, amigos da Casa do Cruzeiro

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Algumas notas sobre "Eisen"

Fotografias de Maria João Carvalho
Mas afinal, como nascem as histórias?
Afirmam uns que segredadas por vozes interiores que nos ditam o texto, inscrito automaticamente pela mão obediente…
Falar da construção da performance/conto “Eisen” é uma tarefa que se pode demonstrar longa, dada a tessitura de intertextualidades e de referências pessoais que habitam o texto. Para além de objeto artístico, o conto propunha-se abrir janelas no campo interpretativo e deixar ficar um pouco da atmosfera do trabalho em ferro. Aqui deixo aqui algumas referências (não todas...) sobre o processo…
Habituei-me a conviver com a peça “Durante o sono” de Rui Chafes nas oficinas/visita que venho realizando no Centro de Arte Moderna, sobretudo com público com necessidades educativas especiais. É sempre com espanto e prazer que registo as opiniões de pessoas com doença mental ou observo a desconcertante reação de crianças e jovens autistas. Não há dúvida – as peças falam connosco; questionam-nos, interrogam o nosso corpo deixando um travo permanente de ausência. Há vários anos que a obra deste escultor me vem perturbando e inquietando gerando respostas quase sempre de teor poético, único método fiável para analisar os hiatos da existência.
Uma breve conversa com escultor confirmou a direção a seguir. A partir de certo momento não quis ler mais sobre a obra para não contaminar o texto que aos poucos ia emergindo naturalmente em direção ao momento da escrita, habitualmente compulsivo na fluência.
Tive que vestir a pele de um operário metalúrgico (filho de ferreiro), trabalhador no ateliê metalúrgico do artista, para conseguir fazer um percurso narrativo partilhável com o público. São várias as referências gratas que Rui Chafes faz aos seus colaboradores. Estava encontrada a personagem.
Todo o texto é pontuado por referências discretas às obras de arte expostas na retrospetiva, cabe ao público visitante encontrar essas esculturas como se fosse um participante num jogo de pista. Durante a narração, canto, primeiro a “cantiga do ferreiro”, brincando com a letra F que mudou inevitavelmente o nome do artista por influência da matéria com que trabalha…o ferro. A outra canção, “o elogio do ferro”, inventada em tempo recorde, é uma piscadela de olho às canções de Schubert. Num dos trechos, quando uso a onomatopeia "truca, truca", refiro o "poema da pedra lioz" de Gedeão com intenção de trazer luz e contraste entre o trabalho com o calcário (da escultura das pedras tumulares) e o ferro, matéria deste artista.
A dona Clara e o senhor Gaspar são pessoas reais, colegas do museu; o simpático segurança faz mesmo pequenas esculturas em papel com os canhotos dos bilhetes que corta à entrada das exposições. Ainda há aquela mulher que povoa o meu imaginário trazendo para o conto o inconsciente, alcançado por via do amor.
A pequena história da gralha, na infância de José Ferro (personagem da narrativa), nasceu antes de “Eisen” como parte de um texto maior a que chamei “Graco”. Um dia haverá de se autonomizar ganhando o corpo coerente de um conto… Era inevitável a presença da infância nesta narração, com os seus medos escuros e as alegrias luminosas.
Sinto que esta exposição vai deixar saudades pelas paredes do museu.

A minha primeira experiência com a construção de narrativas a partir das obras expostas, ensaiando uma outra forma de mediar Arte dentro dos Museus, começou com o conto “João sem memória” (in “Dacoli e dacolá” – Grácio Editor), com a intenção de falar do património e das coleções aos jovens visitantes do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas. Seguiu-se “A invasão dos macacos” a propósito de uma série de animais de Júlio Pomar expostos no então Museu de Arte Moderna de Sintra que à época abrigava a Coleção Berardo. No Museu Grão Vasco, “O rapaz da máquina fotográfica” serviu para introduzir a exposição de José Pessoa, fotografia de diferentes acervos dos museus portugueses. Na Casa das Histórias Paula Rego um dos contos escolhidos foi “Não há fumo sem fogo” (in“Dacoli e dacolá” – Grácio Editor). “Vanitas e a tia Aldina” surge na sequência da conferência “Em nome das artes e dos públicos”, acolhida em 2013 na Fundação Calouste Gulbenkian. Assim, surgiu um texto em torno do tríptico “Vanitas” de Paula Rego (acervo CAM) dando corpo à primeira iniciativa do setor educativo, “Encontros Inesperados”, que ao longo de um fim de semana reuniu um número significativo de visitantes em torno da narração oral. “Eisen” faz agora parte deste percurso de comunicação e partilha dos conteúdos do museu, nesta permanente tarefa de sedução do público que nos visita.

EISEN - o texto

    Foto de Maria João Carvalho
"Amei muito uma mulher que dizia que durante o sono partilhava comigo
 o que mais precioso tinha: o seu inconsciente"

texto do conto "Eisen" apresentado em Maio de 2014 no Centro de arte Moderna durante um "Encontro inesperado" (Blind date) 
  
(em silêncio explorando e escutando a escultura “durante o sono” com luvas de conservador calçadas) (No chão está poisado o seu casaco)

A letra F! Uma bela questão…

(depois cantarolando em jeito operático)

O senhor ferreiro Ferradas
que em Ferragudo vivia
no fogo da sua forja
com ferro tudo fazia

Facas, foices e forquilhas
fateixas e ferraduras

Mas será que fazia esculturas?

Mas um dia que o ferreiro
se ferrou a dormir no chão
entrou pela fresta da porta
uma abelha com ferrão

E sem fazer cerimónias
ferrou uma valete ferrada
na face gorda e rosada
do tal ferreiro Ferradas

Ao ser picado o ferreiro
ficou todo infernizado
e logo fez um letreiro
todo em ferro forjado:

Faço trabalhos em ferro
sou ferreiro de profissão
abelhas ficam lá fora
não preciso de ferrão!

(descalça as luvas colocando-as no bolso)

Chamo-me José Ferro, operário metalúrgico, filho de ferreiro, mas todos me conhecem por Eisen…por causa Dele. É que Ele fala e lê alemão, essa língua precisa e estranha.
 Sou encarregado da oficina…oh, desculpem! Do ateliê metalúrgico, como ele gosta de chamar ao nosso espaço de trabalho…

Fui chamado aqui ao museu pela diretora.
Parece que as esculturas expostas manifestam comportamentos estranhos, pouco habituais para obras de arte.

Dizem, os guardas do museu, que à noite, quando as luzes da nave central se fecham, escutam estranhos ruídos e lamentos vindos desta zona da exposição.

Dizem… Que algumas esculturas se lamentam com saudades do corpo que as habitou, outras serpenteiam e movem-se em direção à luz.

Outras, até, levitam, erguem-se no ar e lá ficam presas em locais inacessíveis.

Dona Clara, a senhora da limpeza, afirma que foi atacada pela aranha verde quando varria o chão. Kredu! Nhor Déus!
E disse-me logo: Foi o senhor que ajudou a fazer, agora resolve! Okey?
Eu não vou limpar mais sozinha aquele canto do museu!

Outro segurança afirma que escapou no último momento de uma lua negra que o perseguia impiedosa pela escadaria… Klong! Klong! Klong! Refugiou-se atrás de uma coluna, banhado em suor. E a lua continuou rolando corredor fora…Klong! Kçong! Klong!

De qualquer forma, estas peças parecem exercer um poder estranho sobre quem com elas convive.
Vejam só esta escultura que o senhor Gaspar faz com o canhoto dos bilhetes que rasga á entrada…

 (Vai ao casaco e pega na escultorinha, mostrando-a ao público)
(enquanto a escultorinha de papel circula pelo público ele canta e deambula pelo espaço)

Ferro que nasces
no fundo da terra
feres o chão
arado na primavera

Ó Ferro!
Ó Ferro!
Choro meu homem
perdido
lá na batalha

Geboren wird
Tief in der Erde
Shlägst den boden
Pfug im Frühling

O Eisen!
O Eisen!
Bedauer mein Mann
Verloren
Dort in der Schlacht

(recolhe a escultorinha)
(vira-se para o público)

Ainda há pouco estava aqui um grupo de crianças a dançar de mãos dadas, em torno desta peça.
E iam dizendo disparatadamente:
-Esta parece-me um polvo.
- Uma alforreca! Dizia outra
E a mais pequenina - Um sol negro…
-Mas porque é que tu não falas? (virando-se para a escultura) - Estás a dormir?

Fala, fala… (encostando o ouvido à peça) Para quem a souber escutar… murmura…

(de novo virado para o público)

  E também respira. Respira como as outras…inspira, expira, inspira, expira…

Viram? Viram? Mexeu-se! A escultura mexeu-se (ficando agachado junto a base da escultura)

(depois levantando-se e olhando a assistência)

Sim, Doutora Isabel! Vou resolver o seu problema… Tenho uma familiaridade insuspeita com estas criaturas… Perdão!... Estas Esculturas…
Disse eu para acalmar a sábia mulher…

E agora estou aqui convosco e tenho esta tarefa para fazer…

Também eu me arrepio, à noite, quando fecho as luzes do ateliê…tenho a impressão de que aquelas peças estão vivas. Não param de olhar para mim.
Mostram um interesse especial pelo meu corpo.
Depois saio, para o meio da bruma que vem do mar, subindo a serra, envolvendo a mata.
Outras estão lá na sombra noturna das árvores como espectros vigilantes.

Às vezes fico observá-lo lá no ateliê…
Muito direto, de maçarico flamejante na mão, trabalhando o ferro.
Depois para, interrompe a chama, tira os óculos de soldadura e fica a mirar a peça, absorto, em silêncio…uma porção de minutos.
 Só se ouve o zumbido de um néon teimoso e intermitente…Deve estar avariado…

No dia seguinte lá está Ele, muito cedo, lá no ateliê. Arranjou a lâmpada, já não zune.
Está muito direito sentado à bancada a ler, por certo em alemão.
Ao lado, um conjunto de desenhos com um traço muito fino e sumido.
Alguns com estranhas mulheres nuas…                                                                  
 São os estudos para uma nova peça…
Sorri. Poucas palavras e começamos a trabalhar como se fossemos canteiros de volta de uma escultura tumular gótica.
 Só que não se escuta o truca! Truca, Truca! Mas sim o silvo do fogo, o raspar agreste da rebarbadora percorrendo a superfície metálica… e Klong!Klong!Klong!

Pergunto-me: será que o ferro é a matéria da alma?

Usamos o zircão de ferro dos meteoritos para datar o nosso planeta, mas como se esculpe a alma que o habita em todas as suas contradições?
Leve – pesado, luz-escuridão, morte-vida. Será que conseguimos imortalizar aquele breve momento de transição entre um estado e outro? A orla o limbo ou o hiato?... já não tenho palavras para explicar…

Amei muito uma mulher que dizia que durante o sono partilhava comigo o que de mais precioso tinha: o inconsciente.
Pela manhã, acordava sempre com a mão dela poisada ao meu coração.

Talvez estas peças sejam ferramentas para entender a alma humana em profundidade…

Viram aquela ave que atravessa a parede como um pensamento livre, alado? Sim! Aquela lá na entrada do museu.
Lembra-me outro pássaro da minha infância.

Certo dia voltava eu da escola, quando uma gralha, negra como a noite, me saltou à frente, justamente no carreiro entre as estevas que levava a minha casa. A bicha saltitava na minha frente, até parecia que queria falar comigo. Baixei-me e agarrei uma pedra que arremessei direto ao alado animal. Mas não acertei. A gralha levantou voo, deu duas voltas e no ar e voltou a poisar ali, de novo à minha frente. E a ave negra continuou a saltitar ali na minha frente como que a gozar comigo. Discretamente procurei um outro seixo, senti-lhe o peso. Peguei na pedra e lesto atirei-a certeira! Zás! Acertei-lhe! O animal ficou a esvoaçar na poeira do carreiro…tem uma asa partida – pensei. Peguei nela e coloquei-a na minha lancheira de vime, onde se ficou a debater.
Nessa noite deitei-me cedo e levei a lancheira de vime com o bicho para o meu quarto. Mas a meio da noite comecei a ficar com febre, muitos arrepios. Estou doente – Pensei - É uma bruxa… Ave negra é uma bruxa!
 Levantei-me cheio de tonturas e peguei na cesta de vime. Abri a porta do monte silenciosamente, para não acordar os meus pais, e aproximei-me do barranco fronteiro ao monte. Abri a cestinha de vime e soltei o negro animal que voou misturando-se na escuridão. Voltei para o meu quarto e deitei-me descansado, dormindo como um justo.
 Mas hoje em dia ainda sonho que o pássaro negro atravessa as paredes do meu quarto para me vir visitar.

Mas porque é que estou para aqui em devaneios?
Afinal sou apenas um operário metalúrgico, sindicalizado.
E estou para aqui a falar de sonhos…
Eu não quero falar dos meus sonhos!

Talvez as esculturas estejam doentes…
Talvez o Museu seja um hospital para obras de arte…
Abram as janelas, deixem-nas sair!
Não vêm que o lugar delas é no meio da floresta?
Entre a luz e a escuridão natural?

Viram? Viram? Mexeu-se outra vez! (apontando a base da escultura)
(retirando as luvas do bolso)
Vamos trabalhar…

E bendito e louvado, está este conto terminado
Foto de Maria João Carvalho

segunda-feira, 19 de maio de 2014

10x10: "Cântico negro"

Partilho aqui mais um trabalho dos jovens da turma da Secundária Seomara da Costa Primo, em torno da poesia de José Régio. Apresentação integrada no Projeto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian). Um trabalho feito em equipa, muito autónomo, dando expressão à estética própria deste grupo de alunos. Mais informação sobre o projeto e o trabalho desenvolvido pela dupla Miguel Horta (artista) Elisa Moreira (professora): Aqui

domingo, 18 de maio de 2014

Cantiga Felina no projeto 10x10

No momento em está em preparação a nova edição do projeto10x10 (Descobrir/Gulbenkian), estando disponível um vasto conjunto de informação no sítio do Descobrir, vou relembrar, aqui no blogue, alguns trabalhos dos alunos que pela sua importância e suporte partilhável importa recordar. Há pouco tempo soube que o aproveitamento da turma da Escola Secundária Seomara da Costa Primo (Amadora) melhorou consideravelmente, é com um sorriso estampado no rosto que divulgo a canção “Gatinha” de José Fanha, interpretada aqui com uma ironia bem-disposta. É o que acontece quando um grupo de alunos do 10º ano pegam numa poesia para a infância…  A qualidade do som não é a melhor mas importa referir que o vídeo foi filmado com o telemóvel em total autonomia de processo. Os alunos apropriaram-se livremente dos poemas e trabalharam em grupo gerando soluções originais. Fica aqui um abraço para a professora Elisa Moreira, companheira de projeto.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Exposição com as ilustrações das "Rimas Salgadas"

Vejam só o que a Sónia Gameiro e a Mafalda Milhões fizeram com as minhas ilustrações... Sexta-feira lá estarei com os poemas na Biblioteca Municipal de Pombal - "Caminhos de Leitura". Obrigado.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Eisen - Narração oral a partir da obra de Rui Chafes

"Durante o sono", Rui Chafes, escultura em ferro
(Coleção do Centro de arte Moderna)
José Ferro, operário metalúrgico, encarregado de uma oficina, é chamado ao Centro de Arte Moderna, pela sua diretora, para resolver uma série de fenómenos estranhos que se manifestam nas esculturas expostas “.
Depois de ter trabalhado (o ano passado) o tríptico “vanitas” de Paula Rego através da narração oral em “Vanitas e a tia Aldina”, chegou agora o momento de apresentar “Eisen” a propósito da obra de Rui Chafes. Um processo que começa com o estudo da obra, breves conversas com o escultor e por fim a escrita. Tudo isto é devolvido ao público usando a narração oral, em sessões a terem lugar no Centro de Arte Moderna durante os dias 10 e 17 de maio (tarde).
Depois de “João sem memória” (Museu Arqueológico de Odrinhas), “O menino da máquina fotográfica” (Museu Grão Vasco), “Não há fumo sem fogo” (Casa das Histórias Paula Rego), “A invasão dos macacos” (Júlio Pomar – Coleção Berardo – Sintra), “Vanitas e a tia Aldina” (Paula Rego - CAM- Gulbenkian), “Eisen” propõem outras leituras da obra exposta de Rui Chafes, tendo como pano de fundo a peça “Durante o sono”. Esperemos que as sessões sejam tão concorridas como o ano passado...
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