quinta-feira, 27 de março de 2014

Desenhar! Desenhar nas férias da Páscoa...


Especial Páscoa

Mãos imaginantes e máquinas de desenhar

Oficina de desenho


A partir da exposição O Peso do Paraíso de Rui Chafes


Até onde vai o nosso olhar quando estamos a desenhar? De que formas podemos levar uma linha a passear? A partir da prática do desenho e de diferentes materiais e ferramentas, vamos experimentá-lo como uma vontade libertadora e como forma de expressão total.
Vamos dar vida ao imaginário e transmitir emoções, riscando e rabiscando, desenhando palavras e formas, símbolos e sombras. Desenhar é designar, escolher e ir além. Traços, projetos, construções, invenções e linguagens são formas de conhecimento que o desenho permite.
Tudo pode ser um desenho. As linhas do nosso corpo, as formas da natureza, as letras e as escritas, as pautas de música, a fotografia… A vida é um grande desenho!

Conceção e orientação
Carla Rebelo, Hugo Barata, Miguel Horta, Rita Cortez Pinto
Para saber mais sobre esta oficina do Programa Descobrir/Gulbenkian: http://descobrir.gulbenkian.pt/Descobrir/pt/Evento?a=6033

quarta-feira, 26 de março de 2014

Quando a cor dá uma ajudinha no autismo...

Estamos constantemente a pensar em recursos novos que se possam utilizar nas nossas oficinas dedicadas a públicos com necessidades educativas especiais. É preciso inventar todos os dias, sobretudo quando o público é composto por crianças do espectro do autismo.
Como as cores podem ajudar no trabalho com autismo? Na nossa oficina Com pés e cabeça (Descobrir/Gulbenkian) , quando o grupo assim o exige, utilizamos um código de cores simples e figuras geométricas claras para os nossos exercícios de corpo. Privilegiando o trabalho em tandem, tanto o monitor com o participante têm o mesmo código de cores (um círculo) o que ajuda bastante na concretização de percursos psicomotores ou na identificação da figura humana, neste caso o “recorte” dos seus corpos. Na abordagem das diferentes partes do corpo, utilizamos o código de cores simples em molas de roupa que servem para identificar um braço, perna, barriga, orelha…e por aí fora.
 Este é apenas um exemplo dos recursos em Psicomotricidade que costumamos utilizar nas nossas oficinas. Mas há muito mais…
Já agora… apresento-vos o jogo da bola, uma espécie de jogo de damas cromático e tridimensional, para identificação simples das cores. Joga-se á vez, com molas de roupa coloridas. Amanhã invento mais...

terça-feira, 25 de março de 2014

"Somos nós o livro"

Terminou hoje o meu ciclo de sessões formativas integradas no projeto “levar a Ler” (projeto de promoção do livro e da leitura promovido pela câmara municipal de Cascais). A seguir, será a vez de Rodolfo Castro e Rita Pedro. Uma primeira sessão dedicada às lengalengas, canções e outras brincadeiras sonoras a partir da poesia, com tempo para experimentar “A máquina da poesia”. Uma segunda sessão em torno das competências leitoras, manipulação de livros e do som como gerador de narrativas. Hoje, de novo os livros e o “Eu sou Tu (“quando o corpo conta histórias”). Acho que este grupo de educadores de infância e professores do ensino básico ficaram com uma noção do que é a “mediação leitora” ao contactarem com algumas ferramentas que poderão se importantes para a sua prática pedagógica. Uma coisa é certa: divertiram-se com a proposta do “Eu sou tu” como provam as fotografias…

segunda-feira, 24 de março de 2014

Columbina 2014 - Com o coração em Santa Vitória

Cristina Taquelim conduzindo a sessão com os mais velhos em Santa Vitória (Beja)
Gestos que ilustram o poema
22 de Março
Bonito e importante, o trabalho que Cristina Taquelim (Biblioteca Municipal de Beja) desenvolve nas aldeias do Concelho de Beja com os mais velhos.… Escutar, ir entrando devagarinho e conhecendo o grupo de idosos. Gostei de conhecer neste grupo de homens e mulheres de Santa Vitória (Beja). A mediação leitora começa na comunicação, na partilha das histórias de vida. Só depois vêm os textos que se cruzam com as realidades individuais ou estabelecem intertextualidades com o conversado em círculo. Por vezes os textos são ditos acompanhados por gestos que ilustram o conteúdo, uma pequena coreografia de ideias. Alguns destes amigos mais velhos são leitores, outros não; isto não impede que se trabalhe a escuta, a apropriação de narrativas. No meio do grupo temos um poeta popular, preocupado com a exploração do povo e sempre com a revolução dos cravos bem presente. Outra voz chega-nos do Minho, uma senhora traz consigo um exemplar de “A morgadinha dos canaviais” gasto pelo uso da leitura. Proponho-lhe que use uns versos, logo no início do livro; podem ser cantados como se fosse um vira da sua terra.
Digo um poema e proponho a brincadeira da “Máquina da poesia”, desta vez como se fosse um jogo de tabuleiro (sugestão da Cristina). Ao fim de pouco tempo temos pequenos poemas escritos depois de um trabalho bem interessante de encadeamento de ideias e palavras, construindo os nossos versos. Funciona bem esta intervenção em torno das palavras: como reforço do léxico, memória (importante para doentes de Alzheimer) e exploração da semântica. Estes pequenos poemas coletivos ocuparam o seu lugar nas patas dos pombos que soltámos na Feira da água, sendo recebidos 45 minutos depois pelos participantes de Castro Verde, lá no quintal do Quinito.
 Deixo AQUI o link da “Biblioteca Andarilha” para ficarem com a noção da profundidade deste trabalho de mediação leitora (investigado recentemente por Maria Morais – estudo vencedor do Prémio Raul Proença organizado pela BAD e DGLAB
A solta dos pombos  na Feira da Água em Beja

domingo, 23 de março de 2014

Projeto COLUMBINA 2014: A solta dos pombos.


Terminou hoje mais uma edição do projeto COLUMBINA. Uma intervenção que se prolonga no tempo em oficinas de escrita poética envolvendo gentes de todas as idades e condição, culminando na solta de pombos portadores de poemas. Este ano estiveram envolvidas diferentes vilas, cidades e aldeias: Beringel, Santa Vitória, Beja e Castro Verde. Sem os Columbófilos e Mediadores da Leitura nada disto aconteceria. A esta vontade de voar juntaram-se bibliotecários, professores, professores bibliotecários, funcionários dos municípios, animadores, autarcas, pais, crianças, jovens e velhos vindos de diferentes pontos dos concelhos de Beja e Castro Verde. Em Beringel reuniram-se no largo fronteiro ao Centro Cultural mobilizando professores e alunos em torno dos pombos de um vizinho columbófilo e…leram-se poemas! Na Feira da Água reuniram-se os “Papa Livros” (grupo de leitura , pais e filhos, da Biblioteca Municipal de Beja), de Santa Vitória chegaram poemas escritos pelos mais velhos da aldeia, vindos de sessões de leitura nas aldeias promovidas pela Biblioteca Municipal. Em Castro Verde, em frente à Biblioteca Manuel da Fonseca, reuniram-se os jovens do 5º e 8º ano, a par de meninos e meninas mais pequenos. Em todos os locais de solta dos pombos os columbófilos explicaram o ofício deste desporto ajudando na colocação dos poemas (escritos em pequenas folhas de papel) cuidadosamente agarrados às patinhas dos pombos. À hora marcada soltaram-se os pombos com a sua preciosa carga. Em castro Verde ao som do grito COOOLUUUUBIIINAAA! E lá foram cruzando os céus.
Solta em frente à Biblioteca Manuel da Fonseca (Castro Verde)
Depois foi o tempo de espera da chegada das aves em tês diferentes pombais. Chegado o pombo, é necessário retirar o pequeno papel das patas e ler o seu conteúdo poético aos curiosos participantes. Como manda a tradição, tem lugar um lanchinho de convívio à boa maneira do Alentejo.
Este ano tivemos a presença de columbófilos de Ourique que foram ao quintal do nosso amigo Quinito com vontade de levar o projeto para a sua terra… Vamos crescendo!
Castro Verde: Uma forte presença dos jovens...
Quero aqui agradecer aos amigos da aldeia columbófila de Beja: Jacinto Fialho, António Simão, Manuel Mareco, Valentim Bicas, António Sardinha, ao senhor Luís e à família Reis, Jorge Ratinho, Jorge Trigacheiro, Gonçalo, francisco Pardal e Luís Páscoa. Cá vai um abraço para os Asas Verdes (Castro Verde): Quinito, Hélder, Fernando Ferrão, Manuel Estácio, Valter, Cavaquinho, Sténio e Carlos Rodrigues.
Obrigado aos amigos de Beringel: Manuel António Camacho, José Alexandre e Luís Gabriel.
Como uma festa não fica completa sem o petisco: Obrigado à Associação Columbófila de Beja e aos Asas de Beja, sem esquecer o Hermes que esteve ao grelhador. Em Castro Verde foi o município (que muito tem acarinhado esta iniciativa) e o quinito que garantiram o lachinho. Obrigado á Federação Portuguesa de Columbófilia e aos dois amigos de Ourique que vieram ver a nossa aventura.
Obrigado mediadora Ana Isabel, Zé Eduardo e Cristina Taquelim (mais a sua magnífica equipa da biblioteca).
Por fim um abraço para ti amigo Nelson Batista: sem ti ao meu lado, não se voava…
Talvez as fotos que aqui publico falem por si...

Para quem não conhece bem o projeto COLUMBINA, aqui fica uma pequena explicação sobre a organização deste evento:
Já imaginou a possibilidade de enviar um pequeno poema para outra terra bem agarrado a uma pata de um pombo? E se um pouco mais tarde, num pombal perto de si, recebe-se um outro poema enviado por um desconhecido de outra cidade, vila ou aldeia? “Interessante”. Pensará. “Mas eu não sei escrever poesia…” È aqui que entra a realização de uma oficina de criação poética chamada “A máquina da poesia”. Apostamos consigo que o vamos transformar em poeta em 45 minutos. Como funciona esta oficina? Ora espreite AQUI.
Este acontecimento poético voador só é possível com a colaboração afincada dos columbófilos locais. E sabe o que é a columbofilia? Para que tudo isto ganhe corpo é fundamental a presença das Bibliotecas e de um mediador do livro e da leitura. Ficam assim reunidos todos os ingredientes para uma grande festa de poesia

21 de Março - Projecto Columbina


Beringel
21 de Março – Dia mundial da poesia
Receção calorosa na escola de Beringel (Beja): refeitório cheio de meninos e meninas de todas as idades numa agitação alegre. Houve tempo para dizer uns disparates poéticos e responder às perguntas dos leitores. Claro que não perdi a oportunidade de os fazer pensar, estabelecendo um acordo: Vocês fazem perguntas e eu também tenho o direito de perguntar… Ora então cá vão algumas perguntas. “Qual a diferença entre olhar e ver?”, “Qual a diferença entre mentira e fantasia”.
As crianças de Beringel prepararam-me uma surpresa: como resposta ao meu livro “Rimas salgadas” fizeram um conjunto de poemas sobre criaturas dos rios e barragens a que chamaram “Rimas doces”., onde não faltou o cágado Ventura que tem uma carapaça dura e uma menina achigã que nada na barragem de Beringel. Também aqui colecionámos um belo conjunto de poemas que colocaremos nas patas dos pombos que voarão até Castro Verde.
Ao final do dia teve lugar um encontro bem concorrido com o grupo de famílias leitoras, “os papa livros” na Biblioteca Municipal de Beja. Foi bem engraçado ver aqueles 34 participantes (grandes e pequenos) de volta da “Máquina da Poesia”.
Acho que amanhã vamos ter uma boa participação na solta dos pombos
 Com os "Papa livros"
 Cristina Taquelim aproveita para colocar uma palavrinha na "Máquina da poesia"
Bom ambiente: pais e filhos escrevendo pequenos poemas

quinta-feira, 20 de março de 2014

Projecto Columbina: tempo para escrever poemas

Hoje foi dia de levar a “Máquina da Poesia” a crianças e jovens de Castro Verde. No final das sessões ficaram prontos os pequenos papeis contendo poemas, serão colocados cuidadosamente nas patas dos nossos amigos pombos com ajuda de uma pequena borracha. Foi uma tarde de risada com o 8º C! De manhã com os meninos e meninas da primária. Logo à noite há contos em Casével com antónio Fontinha.
Até domingo, irei dando notícias fresquinhas de mais uma edição do Projecto COLUMBINA
 Qualquer lugar é bom para escrever poesia
Um belo conjunto de poesia em pequenos papéis 

O pessoal bem disposto do 8ºC

quarta-feira, 19 de março de 2014

Dia do pai


Era preciso bater à porta do escritório para entrar... Lá dentro um mundo de livros. Com sorte saía com um beijo, o livro era certo. Acertámos o passo, trocámos ideias e cigarros numa cumplicidade reencontrada. Hoje continuo a recompor a imagem entre células emitindo raios gama e fragmentos alegres de histórias congeladas no passado. A mina que explodiu na Faial Coal talvez tenha sido um foguete de festa. Era sempre preciso ir mais fundo, cada vez mais coerente: entrei no batiscafo e dirigi-me aos fundos abissais. Herdei defeitos e qualidades colados no mapa da genética dos dias vividos. Gostaria que tivesses conhecido todos os teus netos... Mas isso é um capricho próprio do tempo, essa poalha que nos cobre, acrescentando dias. Vou usar essa curiosidade que me deixaste para entender melhor o caminho; está escuro, às vezes não consigo descortinar o carreiro sob a ténue claridade do luar.

sábado, 15 de março de 2014

Em torno da oficina "Meu rosto Teu"

A oficina “Meu rosto teu” vai amadurecendo com resultados plásticos cada vez mais expressivos. Ao observar os nossos participantes especiais, vou entendendo cada vez melhor como é difícil a relação com a nossa imagem, tão diferente da representação, onde podemos assumir papeis imaginados. De repente, essa contradição entre retrato e representação torna-se muito mais clara, quando observamos atentamente o comportamento dos nossos jovens com necessidades educativas especiais ao serem confrontados com esses dois pontos de vista sobre si próprios. Atiram-se aos desafios sem medo das representações sociais da sua própria imagem; não temem juízos de valor e fruem, melhor que nós, o desafio do retrato, habitualmente reservado a artistas virtuosos. No entanto, as imagens que criam assumem uma estranha beleza e verdade  impossível de copiar. E melhor, ainda: os nossos jovens brincam com as representações que criaram deles próprios, já num território plástico fluido, assumindo que aqueles são eles, ali retratados. 
E assim, reunindo prazer e expressão vamos trabalhando a identidade, o grafismo e as obras de arte, em oficinas onde não se sente passar o tempo. Estamos bem naquela oficina. Professores, monitores e técnicos trabalham em conjunto, serenamente, entendendo as fronteiras que se vão transpondo. Foi muito bonito ver a nossa estagiária Margarida Rodrigues a trabalhar a concentração com uma jovem mais dispersa: Calma, afeto e foco. Assim foi com o "Religar".
Noutro grupo, recebemos a mediadora artista Teresa Barreto e o seu grupo do Instituto Condessa de Rilvas: como os jovens vêm muito bem trabalhados e motivados, perceberam logo os desafios e o resultado plástico da sessão foi assinalável.
Há dias em que tudo se conjuga para provar que esta direção experimental é válida, frutificando inesperadamente no trabalho oficinal.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Oficina: Em busca do peixe perdido!



Um dia a notícia apareceu no telejornal: Os peixes estão a desaparecer do mar!
Juntaram-se três profissionais do mar para encontrar uma solução: o pescador, o cientista e o aquicultor. Do linguado aos bivalves, passando pelos fundos marinhos com tempo para inventar novas espécies usando diferentes recursos plásticos. Vamos conhecer algumas profissões do mar numa viagem que ficará registada no nosso diário de bordo, contentor de ideias para o Futuro
uma oficina dedicada ás crianças, em tempo de férias da Páscoa com autoria e realização de Ana Pêgo e Miguel Horta, promovida pelo programa Descobrir/Gulbenkian, de 14 a 17 de Abril. Mais informações: aqui 
Há quanto tempo eu queria fazer uma oficina assim... 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Cabozes

Momento de pausa durante o trabalho de ilustração do "Zé Maria Caboz" (in "Rimas salgadas")
Quando era miúdo, mesmo muito pequeno, conhecia de cor todas as tocas de caboz de um conjunto de rochas que conhecíamos pelo nome de “pocinha”. Uma plataforma de rocha rugosa mas suportável para pés descalços encimava um conjunto onde pontuavam duas grandes lagoas de fundo de areia ladeadas por muretes rochosos, dispostos harmoniosamente em círculo como se fora obra humana. Era um local seguro para os banhos das crianças na maré vazia e um bom pesqueiro na preia-mar, para os pescadores que, empoleirados no topo da falésia, lançavam as linhas para esta zona agora submersa, na esperança de capturarem um sargo ou até um robalete que gosta de predar por estas beiradas. Naquela idade não tinha cana de pesca nem me autorizavam a mexer em anzois… não podia agarrar aqueles peixitos que se encerravam nas tocas só saindo delas para caçar rapidamente um qualquer camarão incauto ou uma lapa que eu lhes colocava mesmo á porta da morada só para apreciar a velocidade da sua gula. Até que um dia me apercebi que os pescadores perdiam muitas linhas e anzois presos nas rochas da “pocinha”. Foi aí que comecei a constituir o meu estojo de pesca recolhendo o material que os pescadores azelhas deixavam preso à plataforma de pedra… os anzois ficavam presos nos buracos e as linhas entaladas debaixo das lapas. Em pouco tempo já capturava sarguinhos, pequenos safios e outros peixes com a minha linha de mão. O conhecimento deu um salto importante em direção ao futuro no dia em que o meu tio José Filipe me ensinou a empatar anzois. Pouco tempo depois receberia a minha primeira cana de pesca.
Tudo isto se passou na praia da minha infância, o Vau, quando era campeão dos cabozes sem saber que um dia iria escrever um poema e fazer uma ilustração sobre uma destas criaturas marinhas. 

terça-feira, 4 de março de 2014

Vem aí a 2ª edição de "Dacoli e dacolá"

"Dacoli e dacolá" com duas novas ilustrações na sua segunda edição (Grácio Editor)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Projeto COLUMBINA 2014


O dia Mundial da Poesia está quase a chegar e, como sempre, o Projeto Columbina vai voar no Alentejo. Dois concelhos acolhem esta ideia: Castro Verde e Beja. Vamos realizar oficinas de “a máquina da poesia”, criando poemas originais destinados a serem transportados pelos ares nas patas dos nossos pombos-correio. Contaremos com o apoio dos nossos fiéis amigos columbófilos nesta iniciativa que terá o seu ponto alto no sábado 23 de Março com a solta dos pombos. As equipas das duas bibliotecas municipais (Beja e Castro) já estão a preparar o evento afincadamente. Em Castro Verde, para além da presença das escolas locais, contaremos com a participação de um grupo de poesia “sénior” de Casével. Mas a festa começa antes, logo a 20 de Março, com um serão de contos em Casével, onde contarei ao lado de António Fontinha…promete Se tudo correr como o previsto, viajo para o Alentejo com o meu novo livro debaixo do braço: "Rimas salgadas"(poesia). No dia 21 de Março terei um encontro com as crianças de Beringel e pela tarde com os "Papa-livros" da biblioteca Municipal de Beja. O dia seguinte será dedicado aos seniores de Santa Vitória e Casével. No domingo de manhã: a festa, soltando os pombos nos dois concelhos. É sempre muito divertido esperar a chegada das columbinas no quintal do Quinito, petiscando e lendo poemas.
Para saber mais sobre este projeto ler: Aqui.

domingo, 2 de março de 2014

Viriato, o furão do teatro

Um texto velhinho (muito ingénuo)...escrito e ilustrado para a revista "Boa união" do Teatro Viriato


 Daniel, o director artístico do teatro, há muito vinha sentindo uma presença estranha no seu gabinete: Um restolhar de papéis, um projecto não encontrado ou um ruído esquisito na hora de fechar as luzes do seu espaço. O pessoal da bilheteira queixava-se, ao sereno director financeiro, o doutor Vasques, do desaparecimento de bilhetes, afirmando que reconheciam um sorriso matreiro em dois ou três miúdos da Rua Escura que entravam, sempre legalmente, nos espetáculos do teatro.
A coisa começou a ganhar um contorno mais evidente quando um actor de um desses grupos de novo circo participou o furto de um adereço cómico fundamental para o seu “número”, num pranto incontrolável. Tratava-se, evidentemente, de um nariz rubro e vistoso…
Daniel só ficou verdadeiramente alarmado no dia em que Letícia, bailarina de grande mérito, lhe exigiu impertigada, que corresse dos ensaios aquele alguém que não conseguia identificar, pois não suportava o risinho trocista a cada pequena falha no palco. Assim, na reunião semanal, lá estava aquele ponto na ordem de trabalhos: se alguém visse algo de estranho, pouco habitual, que avisasse logo o director a fim de se tomarem as respectivas medidas.
O primeiro contacto com a criatura deu-se na zona técnica.
Uma bela manhã de Inverno, ao pegar do trabalho, os homens do palco deram-se conta que alguém virara a oficina de pantanas, usando tudo quanto pudera encontrar para construir uma enorme árvore de natal mesmo no meio da sala. E estava lá tudo: Lâmpadas, fios, cabos projectores, todo o tipo de objectos empinados sobre uma estrutura de cenário, a lampejar…a lampejar…a lampejar.
-Mau Maria!... Exclamou Chico Gordo, o electricista de cena.
Durante uns segundos fitaram boquiabertos aquela estranha escultura.
Ainda mal refeitos da surpresa, viram passar à sua frente uma sombra veloz que se escondeu num dos armários metálicos do sector técnico.
-Deve ser uma ratazana. Disse Chico.
-Olha que não me pareceu… Mas embora agarrá-la? Propôs Sebastião, o técnico das luzes.
Se assim o pensaram, assim o fizeram. Sebastião pegou numa rede que ficara de uma peça sobre o mar e, coordenados, abriram as portas do armário capturando o animal que se ficou a debater preso nas malhas. A criatura começou logo a guinchar:
- Não me façam mal! Calma! Não me façam mal!
- Olha, o bicho fala. Disse Chico coçando a cabeça.
- Parece que caímos no meio de uma fábula… Murmurou Sebastião, esfregando os olhos para ver melhor. Isto de trabalhar num teatro, não é nada bom para a saúde!
- Eu explico! Eu explico tudo. Gritava o bicho.
- Explicas tudo, é dentro desta gaiola que ficou cá do circo!  Disse Chico colocando o animal dentro de uma pequena jaula.
E correram os dois, ao gabinete do director, para dar parte da situação.
Daniel, que achava os beirões grandes beberrões, aconselhou os funcionários a consumirem menos vinho Dão durante as horas de serviço. Aquela história era demasiado irreal para estar a acontecer no seu teatro. Mas os dois técnicos lá o convenceram a descer até à oficina, para falar com o seu achado. Ao ver aquele bicho comprido, a preto e branco, de focinho pequeno, grandes bigodes, orelhas breves e olhar penetrante, o director disse logo:
- Mas isto é um furão! O meu avô era caçador e eu ainda me lembro de algumas coisas
-Grande novidade… Largou o furão ironicamente.
-Ainda por cima fala. Disse Daniel
-Eu não disse? Atalhou Sebastião
O director, que nunca perdia a calma face à fantasia, puxou duma cadeira, ajeitou os óculos, cruzou as mãos e ainda incrédulo perguntou ao bicho:
- Mas afinal quem és tu?
- Chamo-me Viriato e vivo aqui neste teatro. Cansei-me da vida do campo, dos cães sempre a ladrar atrás de mim, além disso, cada vez há menos coelhos nessas matas. Estou farto de ser um animal selvagem, ao menos aqui cultivo-me. Há sempre tanta coisa interessante a acontecer.. Respondeu o animal.
-Só me faltava esta! Que vamos fazer contigo?
- Deixa-me ficar por aqui. Suplicou Viriato. Prometo que não vou fazer disparates. Vocês até nem deram por mim até agora…
- Agora ficámos com um mascote! Bom, Sebastião, deixa-o na gaiola e dá-lhe de comer. Sentenciou Daniel ainda abalado pelos acontecimentos.
Bem, ao fim de uma semana no sector técnico, já ninguém podia escutar o furão na sua conversa lamuriosa:
- E eles não me deixam ver teatro! E eles não me deixam ver a dança! E estou a perder todos os ateliês! Estou farto de estar fechado sem aprender nada! E quando é que vocês me tiram daqui?
O doutor Vasques, que não gostava nada de perturbações, resolveu pedir aos rapazes que levassem o tal furão Viriato até ao balcão, para assistir ao último acto de uma peça que fazia sensação na cidade, pois já não podia com tanta guinchadeira. Poisada a gaiola lá em cima, o director financeiro pôs-se a observar a pequena besta notando que alterava o seu comportamento a cada deixa dos actores, tendo terminado a peça de lágrima comovida escorrendo sobre o pelo.
-Já te topeiNão é que gostas mesmo de arte... Concluiu para si Vasques, esboçando um sorriso no seu rosto. Belo público que tu és!...
Na primeira oportunidade, abordou Daniel na escadaria com uma estranha ideia:
-Sabes, eu acho que devíamos deixar o furão à solta para ver como ele reage dentro do teatro.
- Vasques, tens tomado os comprimidos para a tensão? Isto não é um jardim zoológico, é um teatro!
Mas Vasques, tranquilamente como é o seu hábito, convenceu Daniel a apresentar o Viriato a toda a equipa, num encontro informal a ter lugar no foyer, por exemplo. Depois de narradas as capacidades de espectador do furão, acedeu Daniel, marcando o encontro para a manhã seguinte.
E, no dia seguinte estavam lá todos!
Viriato, de pelo penteado e lustroso, apresentou-se a toda aquela gente espantada, usando o seu charme animal. Comentou espectáculos, desempenho dos actores e até deu sugestões no funcionamento prático do teatro. Renderam-se todos àquele bichinho…
Mas com quem surgiu um entendimento mágico, como se fora paixão ao primeiro olhar, foi com Mariana, a responsável pelo serviço educativo, que não resistiu a pegar no bicho ao colo.
Passou assim Viriato a andar às claras por todo o teatro, numa atitude prestável, bem diferente da clandestinidade em que tinha vivido. Ele verificava cabos nas zonas de difícil acesso, equilibrava-se sobre a teia consertando projectores, mas aquilo de que mais gostava de fazer era trabalhar com Mariana nas iniciativas do serviço educativo. Tinha aquela cumplicidade com as crianças, construída em segredo nas borlas que dava para os espectáculos e, ainda por cima, faziam-lhe festas em locais do corpo que não conseguia alcançar, causando-lhe arrepios de prazer. Era sempre divertido e interessante participar nos ateliês de Mariana; fazendo de guia, pois conhecia todos os recantos daquela grande casa, ou assumindo uma postura bem profissional quando vestia o papel de monitor nas oficinas pedagógicas. Recebia as escolas na entrada principal, dava informações, fazia de cicerone, distribuía folhetos, conferia materiais e muitas outras tarefas. Sobretudo os meninos gostavam do jeito vivo e matreiro do bicho.
Apenas uma coisa não mudou: o seu carácter opinativo e crítico, um terror para as companhias visitantes, obrigando Mariana a exigir tento na língua sob pena de o devolver às serranias beirãs.
Com o passar dos tempos, Viriato ganhou uma tal dose de popularidade entre as crianças da cidade, que Daniel, o director, não teve outra alternativa senão nomear aquele monitor felpudo:  “Viriato o assessor do teatro”. (Abril de 2oo5)