quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Retalhos das ANDARILHAS...porque é impossível abraçar toda a gente.

André Letria

"É tão grande o Alentejo
Tanta terra abandonada
A terra é que dá o pão
Para bem desta nação
Deveria ser cultivada"

Ainda ecoam as vozes afinadas de cante, dos moços da aldêa, pelos muros do castelo; ao longo dos próximos dias, por precipitação no leito das ideias, depositar-se-ão todos os outros ecos das Palavras Andarilhas. Este encontro é a referência para muitos contadores de histórias e mediadores da leitura do nosso país. Ali conferimos as nossas práticas, conhecemos novos textos e outras formas de abraçar este ofício que escolhemos: trabalhar a palavra, partilhando-a. Como é impossível falar de tudo o que aconteceu nas Andarilhas, apenas pegarei nuns quantos retalhos (sem a habilidade da Bru Junça), reconstruindo os meus passos por este festival da palavra.
A minha intervenção foi de olhos nos olhos, sentado num canteiro com sombra do jardim, moderando uma conversa que partiu da minha prática de mediação leitora e chegou a uma mão cheia de ouvintes que assumiram o debate dando-lhe sentido. Falou-se de mediação leitora e necessidades educativas especiais e, sobretudo, nas questões básicas da promoção da leitura e as dificuldades sentidas por todos nos respetivos locais de trabalho. Foi uma manhã útil de reflexão e troca de ideias.
Transformando o "Dr. Veloso" em personagem das histórias
Depois foi tempo de preparar uma pequena formação (3h) sobre Museus e Mediação Leitora que teve lugar no pequeno e belo Museu Jorge Vieira. Uma obra desconhecida por muitos mas com um universo fantástico que a aproxima da ilustração atual sendo uma ferramenta poderosa para a criação de narrativas a partir do acervo exposto. Comecei por contar uma pequena história sobre a importância da memória como introdução à visita que se seguiu, acompanhada por Noémia Cruz, viúva do escultor: um privilégio muito bem aproveitado pelos participantes que colocaram uma variedade de questões sobre a obra do artista. Dividi o grupo em três e propus que escrevessem um pequeno texto partindo das peças expostas. O resultado foi muito engraçado e ficámos de enviar para o museu a nossa escrita devidamente corrigida. Ainda houve tempo para falar de diferentes intervenções nos museus aplicando a metodologia própria da mediação leitora. Para finalizar partilhei duas ferramentas de trabalho já com provas dadas: “O museu das palavras” e “conversando com o acervo”. Felizmente ficou tudo muito bem documentado pela Paula Martins (BMB) que fotografou a sessão.
As cidades que usam a cultura
como língua de comunicação entre os seus habitantes
são lugares mais felizes
 capazes de desenhar futuro
promovendo uma cidadania plena
As cidades que usam a cultura como língua de comunicação entre os habitantes, são lugares mais felizes, capazes de desenhar futuro, promovendo uma cidadania plena. Conhecimento e educação fazem parte dessa mesma gramática construtora de futuros. Os museus estão lá, de portas abertas. Parecem dizer-nos: apropria-te do que temos, nós ajudamos-te a ler o mundo.
O meu amigo Thomas Bakk cumprimenta o "Pai Lalaxu"
Para mim, um dos momentos mais importantes do encontro foi a pequena homenagem/entrevista com o Lalaxu (Horácio Santos), conduzida sabiamente pela Raja. Não é novidade para a ninguém a importância que este grande contador tem no meu percurso de narração e mediação cultural, sobretudo junto da comunidade cabo-verdiana.
Foi a Cláudia Fonseca que salvou a intervenção dos sussurradores: foi buscar uns quantos ao carro e pusemo-nos todos a sussurrar, até em stereo! (deveria ter preparado melhor esse momento…)
Pescando palavras, poemas e histórias
Mas a manhã de volta do lago com os pescadores de palavras correu bastante bem. Os peixes feitos em esferovite, pelos utentes do refeitório social da Caritas de Beja, tinham palavras escritas no verso (boa parte delas escritas pela Estrella Ortiz que se pôs a conversar comigo à borda do lago), funcionando como uma espécie de máquina da poesia. Puderam assim surgir algumas frases poéticas capturadas com a ajuda das canas de pesca pacientemente construídas pelo Hermes Picamilho (BMB). Entre as palavras escritas nas aquáticas criaturas constava Conto e Poema – cada vez que alguém as pescava, lá dizia eu um poema ou contava uma história. A manhã acabou em risada com a história da “Caganita”.
Contra a vontade do pai, uma menina levou um peixe-voador onde se podia ler a palavra fantasia. Cabe aqui agradecer ao Hermes a fantástica sopinha alentejana de achigãs que me retemperou as forças; e por falar em petiscos… Ainda deu tempo para uma última brincadeira: fui atrás do cheiro da comida poética até ao Poesia à la carte promovido pela Andante, junto ao fontanário. Servi aos comensais leitores uma pequena entrada de peixe escolhida do meu livro “Rimas salgadas”. Os clientes faziam fila á porta: não admira, trata-se de um restaurante poético premiado com o troféu andarilho!
Ainda no capítulo dos almoços rápidos (o trabalho era muito) foi óptimo rever a Madalena Vitorino, recordando os dias felizes de amadurecimento no CPA/CCB.
Ficam de fora deste texto as conversas, a galhofa, a risada, o prazer genuíno que sentem os narradores quando encontram os seus pares. É impossível explicar como também de afetos se tecem as Andarilhas. É impossível referir e abraçar toda a gente…
Cristina Taquelim continua a ser a culpada pelas palavras que acordam o coração dos homens.
Foto de Luís Beco

Já no caminho de regresso lembrei-me da Helena Gravato… e só me saiu um cante enquanto conduzia:

“Rouxinol repenica o cante
Ao passar a passadeira
Nunca mais voltas a Beja, oh ai (…)”

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