quarta-feira, 5 de março de 2014

Cabozes

Momento de pausa durante o trabalho de ilustração do "Zé Maria Caboz" (in "Rimas salgadas")
Quando era miúdo, mesmo muito pequeno, conhecia de cor todas as tocas de caboz de um conjunto de rochas que conhecíamos pelo nome de “pocinha”. Uma plataforma de rocha rugosa mas suportável para pés descalços encimava um conjunto onde pontuavam duas grandes lagoas de fundo de areia ladeadas por muretes rochosos, dispostos harmoniosamente em círculo como se fora obra humana. Era um local seguro para os banhos das crianças na maré vazia e um bom pesqueiro na preia-mar, para os pescadores que, empoleirados no topo da falésia, lançavam as linhas para esta zona agora submersa, na esperança de capturarem um sargo ou até um robalete que gosta de predar por estas beiradas. Naquela idade não tinha cana de pesca nem me autorizavam a mexer em anzois… não podia agarrar aqueles peixitos que se encerravam nas tocas só saindo delas para caçar rapidamente um qualquer camarão incauto ou uma lapa que eu lhes colocava mesmo á porta da morada só para apreciar a velocidade da sua gula. Até que um dia me apercebi que os pescadores perdiam muitas linhas e anzois presos nas rochas da “pocinha”. Foi aí que comecei a constituir o meu estojo de pesca recolhendo o material que os pescadores azelhas deixavam preso à plataforma de pedra… os anzois ficavam presos nos buracos e as linhas entaladas debaixo das lapas. Em pouco tempo já capturava sarguinhos, pequenos safios e outros peixes com a minha linha de mão. O conhecimento deu um salto importante em direção ao futuro no dia em que o meu tio José Filipe me ensinou a empatar anzois. Pouco tempo depois receberia a minha primeira cana de pesca.
Tudo isto se passou na praia da minha infância, o Vau, quando era campeão dos cabozes sem saber que um dia iria escrever um poema e fazer uma ilustração sobre uma destas criaturas marinhas. 

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