quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Necessidades educativas especiais: O que fazemos no Programa Descobrir/Gulbenkian

O Programa Descobrir
e o seu compromisso na educação artística
 junto de públicos com necessidades educativas especiais.

Foi em 2006, com as “Oficinas Museu Aberto” (setor educativo do Centro de Arte Moderna) que começou este nosso trabalho continuado com populações portadoras de deficiência e/ou doença mental, alargando acessibilidades, promovendo o museu enquanto espaço inclusivo, reforçando a ideia de uma educação artística como parte integrante da formação completa de cada indivíduo – um princípio que se prende com o direito de cidadania. Agora, englobado no Descobrir (Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência), o trabalho tem vindo a crescer assente numa programação unificada dedicada a públicos com necessidades educativas especiais, agrupada em quatro linhas de orientação - O CORPO, O ROSTO, O TACTO e a PAISAGEM que nos envolve - para maior assertividade na resposta a quem nos procura. São quatro grandes núcleos que contêm propostas pedagógicas diferentes, que são desenvolvidas no Museu Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, Serviço de Música e Jardim Gulbenkian no formato de visitas e oficinas de educação artística, cruzando várias linguagens e materiais numa prática estimulante e especializada, constituindo-se como espaços de inclusão, criatividade e fruição em diálogo com o património artístico da Fundação Calouste Gulbenkian.

Uma metodologia
atenta a públicos especiais

A metodologia de intervenção especializada é comum e resulta da experiência acumulada que Miguel Horta e Margarida Vieira, desde 2006 nas oficinas realizadas no Centro de Arte Moderna, partilharam com vários colegas que entretanto integraram a equipa ( Rosário Azevedo, Simão Costa, Catarina Claro e Carlos Carrilho). A equipa tem desenvolvido trabalho com públicos muito diferenciados nas necessidades, desafios e exigências, planificando e realizando um conjunto de oficinas criativas especializadas e diversificadas. Estas atividades, que partem da coleção e das exposições temporárias para descobertas e conquistas pessoais destes visitantes, complementando a experiência museológica com um trabalho oficinal, têm demonstrado que a capacidade questionadora da produção artística gera neste público respostas interiores com evidentes reflexos terapêuticos.
Esta apropriação do museu e outros núcleos criativos da Fundação Calouste Gulbenkian por parte deste público especial começa numa reunião preparatória com as equipas das escolas e instituições que, funcionando como anamnese, permite desenhar quase à medida a passagem dos visitantes pela oferta cultural que apresentamos; são feitas as necessárias adaptações e afere-se o programa. Os públicos com necessidades educativas especiais são variados e com diferentes graus de funcionalidade e características próprias que exigem da equipa uma capacidade de adaptação e maleabilidade no tratamento dos conteúdos. Assim, numa mesma semana poderemos trabalhar com doença mental e, numa outra sessão, receber uma unidade de autismo de escola pública ou mesmo jovens invisuais ou de baixa visão.
O percurso pelo programa Descobrir é feito de duas formas distintas: ou seguindo o modelo Visita com a duração ideal de 90 minutos ou sob a forma de Visita/Oficina em duas sessões de 90 minutos. Esta segunda forma de trabalhar permite ganhos criativos com esta população específica, permitindo até desenhar um caminho ao longo do ano pela oferta do nosso Programa. Os dois coordenadores da equipa vão assim distribuindo o público pelas diferentes propostas, fazendo a adaptação dos conteúdos e do modo de mediação de acordo com as características específicas de cada grupo.

 Quatro linhas de orientação

Como referimos no início, foi nossa preocupação apresentar a oferta educativa dedicada aos públicos com necessidades educativas especiais em quatro eixos de intervenção: o corpo, o rosto, o tato e a paisagem
Começando pelo núcleo em que o Corpo é o elemento central no desenho da atividade (o corpo como ferramenta de aprendizagem e consciência do eu/outro) temos o conjunto “Da cabeça aos pés”. Neste conjunto de diferentes visitas e visitas/oficina trabalhamos o “esquema corporal” através de diferentes linguagens artísticas, tendo sempre como pano de fundo as diferentes coleções e recursos artísticos disponíveis na F.C.G. Promovemos a expressão corporal, o movimento, a representação gráfica, a comunicação interpessoal, utilizando diferentes recursos; numa oficina poderemos cruzar o desenho com a dança ou a fotografia, ou então recorrer a meios menos habituais como o Instrumentarium Baschet ou o inovador Labmóvel.
Instrumentarium Baschet
 O Instrumentarium Baschet é um conjunto de 14 estruturas sonoras construídas a partir de materiais menos usuais nos instrumentos musicais comuns, como o aço, a fibra de vidro. Criadas pelos irmãos Bernard e François Baschet nos anos 70 do século XX, estas esculturas sonoras permitem o desenvolvimento de um trabalho coletivo (ensemble) onde é promovida a escuta e a comunicação através de uma linguagem sonora.
 Mais atual, o Labmóvel, é um dispositivo móvel interdisciplinar e experimental dinamizado pelo músico Simão Costa. Com ele temos a possibilidade de criar som e imagem em tempo real através de recursos digitais. Esta ferramenta em constante atualização e com interfaces acessíveis, tem apresentado resultados animadores no trabalho com visitantes do espectro do autismo.

O núcleo referente ao trabalho em torno do Rosto, ficou com a designação de “Rostos a gosto”, reunindo um conjunto de oficinas e visitas que abordam a questão da identidade, partindo de obras de retrato e autorretrato existentes na coleção do Centro de Arte Moderna e do Museu Calouste Gulbenkian. Do reflexo de cada um no espelho, parte-se à procura do Eu e do Outro, utilizando diferentes técnicas e suportes, do desenho à pintura, passando pela fotografia. Um espaço de autoconhecimento e identificação das diferentes emoções/expressões espelhadas no rosto.

“Na ponta dos dedos” é o núcleo dedicado à motricidade fina e literacia tátil. Um conjunto de visitas e oficinas que se estruturam em torno da tridimensionalidade, propondo um percurso por várias peças existentes na coleção do Museu Calouste Gulbenkian e do Centro de Arte Moderna (com destaque para a obra escultórica de Nizuma e Rodin e a obra de ourivesaria de René Lalique). Estas propostas, transversais ao nosso público, têm sido cada vez mais procuradas por visitantes invisuais e de baixa visão, obrigando a uma constante atualização dos recursos de mediação dentro do museu

Tendo a paisagem que nos envolve como tema central, “O mundo lá fora” propõe a descoberta do mundo fora de nós, para além das fronteiras da nossa pele. Propomos a reflexão sobre o meio em que vivemos e procuramos essa relação no Jardim Gulbenkian e na colecção de paisagem existente no CAM e no Museu Gulbenkian.


Um museu para toda a família

Foi a pensar no conceito alargado de família, que temos proposto oficinas criativas, (seguindo a mesma estrutura das sessões regulares) que têm lugar ao sábado no Centro de Arte Moderna. Estas sessões têm contribuído para o diálogo entre famílias e a partilha de situações comuns a par da fruição do museu e da sua oferta. Uma nota importante sobre estas nossas realizações: existe sempre um lugar reservado para famílias afastadas desta problemática.
 Partilhando a prática

Em 2014 realizaremos a terceira edição do curso “Mediar públicos com necessidades educativas especiais”, partilhando o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos pela equipa do programa Descobrir responsável pelas propostas dedicadas a estes públicos especiais. Se é certo que esta prática de mediação nasce no interior de um Museu, ela acaba por interessar a escola e a outros agentes educativos. A educação artística, pela sua génese, contribui para a construção de outros caminhos na escola curricular, propondo formas de aprendizagem não formal em terrenos aparentemente formatados. Ao longo de 15 horas de formação certificada lançaremos o debate sobre a caracterização deste público específico. Refletimos em conjunto sobre o perfil do monitor/educador de públicos com necessidades educativas especiais. É dada uma atenção especial ao trabalho atual da escola pública nas suas unidades de ensino especial. Por fim, porque este curso tem um caracter muito prático, lançamos o desafio para a criação de propostas específicas nos lugares educativos de origem dos formandos

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