sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Caritas de Beja e "Meu Rosto Teu"


Um autorretrato à maneira de Amadeo de Souza Cardoso

Cristina Taquelim de volta do seu autorretrato

Belas soluções plásticas...

Há momentos em que suspiramos interiormente deixando escapar o desabafo: É isto mesmo que se deve fazer… Foi o que senti hoje á saída do museu Gulbenkian, quando o grupo da Caritas de Beja (Refeitório social) se dirigia às carinhas que os levariam de volta ao Alentejo. Foi uma semana de permanência no Programa Descobrir/Gulbenkian, com a oficina “Meu rosto Teu” e a visita “A minha paisagem” conduzida pela nossa colega Rosário Azevedo. Já conheço este grupo com quem tive o prazer e o espanto de trabalhar, criando escrita por ocasião da “Leitura Furiosa” na Biblioteca Municipal de Beja. Estivemos de volta das questões da identidade, convivendo com obras de arte moderna e contemporânea no Centro de Arte Moderna e mais tarde, no Museu Gulbenkian. Treinar o olhar, fazer pensar, refletir sobre nós… Houve todo o tempo do mundo: do museu à oficina onde experimentámos o autorretrato sobre diversos suportes, desafio para o autoconhecimento e história individual. Acho que as nossas ideias andam em paralelo com os objetivos traçados pelos técnicos da Caritas que participaram com entusiasmo na proposta. Surpreenderam-me com os auto retratos feitos à maneira de Amadeo de Souza Cardozo, que aqui reproduzimos, dando ideia do magnífico ambiente vivido no CAM. Entre o grupo visitante estava Cristina Taquelim, mediadora da leitura de mão cheia (e também narradora oral) que por certo transformará toda esta energia criativa em proposta de textos, histórias/espelho, outros retratos de gente que se quer inteira ao nosso lado para partilhar totalmente o mundo. Faz sentido esta parceria entre instituições, bibliotecas municipais e museus. Tenho a certeza que as propostas que o nosso grupo do Descobrir/NEE apresentou serão aproveitadas e desenvolvidas com estes visitantes especiais, que andam à procura de si próprios numa sociedade em mutação constante.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Kora Korçon" ou "Kora Korason"


Já há algum tempo que eu e o Braima Galissa vínhamos acalentando esta ideia de aliar o seu kora com um pouco da história da Guiné, sobretudo a figura de Amílcar Cabral, junto com alguns contos tradicionais. A ideia nasceu durante os ensaios da peça que escrevi para o Teatro Mosca, “Retratinho de Amílcar Cabral” (“O homem que escutava as árvores”) magistralmente encenada por Suzana Branco. Este novo projeto seria uma espécie de concerto comentado para pequenos grupos lusófonos. Finalmente levámos à cena o nosso “Kora Korçon” (“Kora Coração” em Português ou “Kora Korason” em Alupec de Cabo Verde) na biblioteca Laria Lamas (Raposo, Monte da Caparica, Almada). Foi um concerto bem concorrido em que ensinámos algumas fórmulas para começar os contos, falámos da guerra colonial, das escolas da mata, dos heróis contemporâneos, da grande árvore do Polon e algumas histórias com tartarugas, garças e uma gulosa hiena (“Lupu”). E lá fomos embalados pelo canto mágico e nostálgico do kora… Agora vamos melhorar a apresentação e propor a quem estiver interessado.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Maria, no dia internacional para a eliminação da violência contra as mulheres


Maria. Vamos chamar-lhe assim para não ser ninguém e todas as mulheres ao mesmo tempo. Esta real, com quem me cruzei numa das minhas sessões de mediação leitora em contexto prisional. Na sequência de um exercício do género epistolar em que propunha a escrita de cartas a personagens imaginados ou fantásticos deparei-me com um texto que me fez pensar durante muito tempo. “Carta ao homem ideal”, lia-se numa caligrafia infantil mas bem desenhada na folha de papel que Maria me esticava para que eu desse a minha opinião. Lá, ela falava a um homem compreensível, terno e solidário a quem se propunha conhecer para sossego dos seus dias. Escutámos todos (eu e as outras reclusas) em redor da nossa mesa na biblioteca prisional aquela carta que nos levava num vento de fantasia. No final fez-se um silêncio que não soube interpretar. Dias mais tarde soube a razão da carta e dos olhares trocados no final da leitura: Maria viveu durante 10 anos um casamento de violência sofrida em silêncio e um dia na cozinha, de faca de cortar bifes na mão, o seu destino mudaria para sempre. Como se a faca fosse ensinada... Depois o que todos bem conhecemos: da pobreza à falta de um advogado ajustado, um passado já com cadastro e um juiz diligente na aplicação da lei. Na semana seguinte falámos de “O retrato de Dorian Gray" (Oscar Wilde) e a propósito dos homens que se escondem sobre uma aparência suave e elegante, a conversa soltou-se e por raros minutos tive o privilégio de aceder a um conjunto de pensamentos íntimos naquele universo de mulheres. E a violência estava lá toda, lentamente digerida com o coar dos dias.

domingo, 24 de novembro de 2013

O que acontece quando se junta um rapper e um mediador da leitura?


A tarde de 16 de novembro foi especial. Há muito que vinha sonhando com a ideia de fazer uma oficina/espetáculo em torno da poesia com o Ermelindo Quaresma (Lord strike), poeta e rapper do Moinho da Juventude (Cova da Moura). Acabou por acontecer agora na Biblioteca Maria Lamas (Monte da Caparica – Almada): "Oralidades sem idade" (nome provisório). Ensaiamos poucas vezes…Tive que aprender como entrar no beat, conversar com ritmo rimado com o parceiro, enfim…soltar-me. Lá nos apresentámos com um apoio de peso na guitarra: o Chelo que também veio de lá do bairro. Na técnica tivemos o Valter. Uma bela embaixada do Moinho da Juventude no Monte da Caparica! Foi uma espécie de ensaio aberto em torno dos textos de Lord Strike, Camões, Gedeão, António Torrado e um pequeno poema meu (“Ágora”). Acho que o público se divertiu, sobretudo quando o microfone circulou pela assistência e todos tentaram “repar” um poema de António Torrado. Enfim…uma outra maneira de mediar a poesia.

"Eu sou tu" em Fitares - SAF


Dia de sessão (muito concorrida) com a sala SAF (Agrupamento de escolas de Fitares). O projeto “Eu sou Tu” continua o seu caminho partilhando uma ferramenta artística que, pelas suas características latas e adaptáveis, permite introduzir elementos próprios do curriculum específico para estes alunos especiais, bem como aprendizagens referentes ao programa regular. Foram 90 minutos intensos de trabalho com as crianças/jovens. Os jovens alunos criam dois personagens: Ela criada num hotel e Ele artista de circo. A história de um pedido de desculpa entre dois apaixonados…. A equipa de docentes e a assistente operacional participaram intensamente na sessão que foi acompanhada por outros elementos da comunidade escolar. O resultado foi muito interessante, como comprovam as imagens. Tem sido importante debater, avaliar o modelo de intervenção a cada final de sessão. Vamos aprimorando a atuação.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

10x10: À procura do mundo nas palavras dos poetas


Aulas de Português bem diferentes...Faz-me bem esta alegria.
O ritual de começo de aula em círculo (plenário)
Gente bem-disposta experimentando as palavras dos poetas. Assim vai correndo o Projeto 10x10 na Secundária Seomara Costa primo. Depois do plenário inicial em círculo, eu e a professora Elisa Moreira circulamos entre os grupos para entender como segue o trabalho em torno dos poemas. De vez em quando para junto a um grupo e leio um poema, falando um pouco sobre a obra do escritor. Surge um violão de um saco e a rapaziada vai para o pátio ensaiar…O “Cântico Negro” vai ganhando uma forma poderosa em formato digital. Com muito humor, numa toada brasileira, um poema de António Torrado faz-nos sorrir. Um grupo de raparigas anda à procura da sua identidade nas palavras dos poetas, sente-se a presença de Amílcar Cabral. Outros grupos andam de volta de Alexandre O’Neill e Mário Quintana… Esperamos ser surpreendidos na próxima aula, neste projeto do programa Descobrir/Gulbenkian. Aproxima-se um momento em que vamos necessitar do apoio da Sofia Cabrita e da Margarida Mestre no trabalho de voz e corpo para que as palavras se soltem livremente...E talvez o Nuno Cintrão possa encontrar uma solução sonora para um grupo de raparigas que anda meio perdido à volta da figura de Amílcar Cabral...

domingo, 10 de novembro de 2013

LabMóvel com as famílias especiais...


Gera-se partilha e comunicação nas nossas oficinas de sábado dedicadas às famílias especiais (“Sábados som móvel”). Ambiente descontraído em torno da proposta que nos traz o artista Simão Costa com o seu LABMÒVEL. Ao longo deste último ano, vimos utilizando estas ferramentas de som digital com resultados animadores, sobretudo junto de crianças autistas. A ligação entre imagem e som criado em tempo real provoca uma surpresa criativa e envolve os participantes na proposta da sessão. Geramos som de mãos dadas com a comunicação. Agora está aí um novo ciclo de sessões sempre às 11h de sábado: 23 e 30 de novembro e 22 e 29 de março. Já estamos a receber inscrições, ainda temos vaga para 3 famílias corajosas. Não se querem juntar a nós?
Basta ligar para Margarida Rodrigues e combinar tudo direitinho: 217 823 491
Ou pelo email: mcrodrigues@gulbenkian.pt  Qualquer dúvida, também respondo diretamente aqui, nas caixas de comentário.

Do Programa:
O corpo e o som como elementos centrais do trabalho com a família
Oficina onde se propõe o convívio com a expressão sonora como forma de comunicação e afirmação da identidade. Jogos e conversas musicais, perceção do espaço e grafismo. Com recurso ao LAbMóvel. Nestes sábados exploraremos as potencialidades da oferta do serviço de música propondo a experimentação contemporânea e lúdica do som.
Um espaço de fruição da criação sonora dedicado à família alargada.

sábado, 9 de novembro de 2013

Sistema imaginatório


A professora entrou no sistema imaginatório...
 
 
Temos vindo a trabalhar o corpo como ponto de partida do projeto “Eu sou tu” com as crianças e professores do agrupamento de escolas de Fitares (Sintra). Uma iniciativa que nasce da metodologia utilizada pela equipa junto das crianças com necessidades educativas especiais partilhada agora com os professores titulares. E já deixou de ser um exclusivo nosso… basta que haja a ginástica pedagógica para entender que este tipo de intervenção artística contribui para alargar as aprendizagens numa leitura mais global, menos sectorizada.
As crianças da turma estão a estudar o corpo humano: os músculos, o aparelho digestivo, o aparelho respiratório, o sistema circulatório… Um dos alunos, ao olhar o resultado final dos nossos desenhos a corpo inteiro, à escala e bem rabiscados no interior da figura humana, comentou luminoso: “Este é o aparelho Imaginatório!”.  Concordo inteiramente: tornámos a imaginação visível e o sistema de circulação das ideias sente-se num fluxo difícil de compartimentar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Primeira sessão em Fitares: Eu sou Tu


A oficina “Eu sou tu” serve de pretexto para uma tarefa fantástica que decorre neste Outono no agrupamento de escolas de Fitares (Sintra): partilhar uma metodologia própria do trabalho com alunos com necessidades educativas especiais com toda a comunidade educativa. Estamos todos empenhados: professores, assistentes operacionais e, claro, o mediador. È muito gratificante contar com o apoio ativo da direção do agrupamento. Afinal os recursos que utilizamos com os nossos meninos e meninas especiais podem ser utilizados na sala de aula, potenciando aprendizagens de modo não formal…é só usar a imaginação. A educação artística pode dar uma boa ajuda à educação formal. Vamos ter que ir avaliando o que vai sucedendo sessão a sessão; esta é uma oportunidade que não se pode perder… Temos contado com o olhar atento da Sara Afonso (dedu Sintra) que vai fazendo de espelho amigo do nosso desempenho ao longo das diferentes sessões..
Esta intervenção que envolve as turmas do agrupamento com alunos NEE, resulta de um trabalho continuado no aprofundamento pedagógico nesta área, promovido e apoiado pela divisão de educação da Câmara Municipal de Sintra.
Aqui ficam algumas imagens (pela objetiva do professor alberto Vale) do primeiro dia de oficinas.

domingo, 3 de novembro de 2013

O anel da "caganita" e o trabalho com autísmo



No meu trabalho com autismo, recorro muitas vezes a pequenos “truques” para captar a atenção para a comunicação, pequenos estímulos utilizados com parcimónia aos quais se segue uma proposta de “trabalho”. Na minha coleção destas pequenas coisas tenho passarinhos de água, caixinhas de música, apitos divertidos, pequenos adereços e …o “anel da caganita”. Este nome estranho deve-se a uma história divertida que costumo contar aos meninos (escutada a primeira vez a Maria João Silvestre). Pois este anel que serve de adereço à história acabou por se revelar muito útil no trabalho com estas crianças fechadas dentro do seu universo próprio. Serve de anel, brinco ou pulseira. Já tenho combatido o medo do escuro fazendo brilhar o anel, primeiro na penumbra e depois na obscuridade; a força do brinquedo é tal que esses meninos acabam por aceitar a penumbra para poderem disfrutar daquela luz ativa. Atenção: é importante certificarmo-nos que a criança não tem níveis de epilepsia elevados (este pequeno truque pode desencadear uma crise...) Mas o que serve para uns, não serve para todos pois, como me dizia uma técnica de Torres Vedras, “cada um é um caso, com o seu atalho próprio”. De qualquer forma tendo a procurar este tipo de pequenas brincadeiras para o meu trabalho, obtendo algum sucesso. Mas onde vou buscar estes materiais? Não a grandes lojas didáticas mas sim a feiras, lojas de caça, aqui e acolá mas, sobretudo à “loja dos chineses”. Talvez esta dica vos ajude no trabalho…

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

10x10: Uma sessão ritmada com a turma da Seomara

Este grupo escolheu o poema "Todos os homens são maricas quando estão com gripe"
de António Lobo Antunes
Mário Quintana com um fundo ritmado de Batuku crioulo
Desta vez tivemos a presença da Judith Silva Pereira. A sessão começou em círculo com uma brincadeira coletiva em torno de poema de Caetano Veloso, já trabalhado anteriormente pela Elisa. Vamos devagarinho no caminho das palavras… Espalhámos uma série de poemas e livros sobre a mesa e propusemos que os jovens se dividissem em pequenos grupos lendo os textos e imaginando uma forma criativa de os abordar. Antes do final da aula, aí estavam já exemplos de como tratar Mário Quintana, Lobo Antunes, José Régio, entre outros. Ficou o desafio…agora espero pela próxima quarta-feira.