quarta-feira, 25 de setembro de 2013

CORPO COMUM - Curso no Centro Cultural Vila Flor (Guimarães): Mediar públicos com necessidades educativas especiais.



É com grande expectativa e contentamento que a "equipa das necessidades educativas especiais do Descobrir" irá ao Centro Cultural Vila Flor, de 4 a 6 de outubro, partilhar um pouco do seu percurso neste campo da educação artística com os profissionais de educação da cidade de Guimarães.

Curso teórico - prático

Na origem deste curso que agora apresentamos, está a prática desenvolvida ao longo dos últimos anos pela equipa do programa Descobrir responsável pelas propostas dedicadas aos públicos com necessidades educativas especiais. Um conceito transversal aos diferentes espaços museológicos e produções artísticas na Fundação Calouste Gulbenkian. Se é certo que esta prática de mediação nasce no interior de um Museu, ela acaba por interessar a escola e outros agentes educativos. A educação artística, pela sua génese, contribui para a construção de outros caminhos na escola curricular, propondo formas de aprendizagem não formal em terrenos aparentemente formatados.
Ao longo de 15 horas de formação certificada lançaremos o debate sobre a caracterização deste público específico, partilhando a experiência das diferentes oficinas do Descobrir, da música aos diversos espaços museológicos da Fundação Calouste Gulbenkian. Refletiremos sobre o perfil do monitor/educador de públicos com necessidades educativas especiais. Será dada uma atenção especial ao trabalho atual da escola pública nas suas unidades de ensino especial. Por fim, porque este curso tem um caracter muito prático, lançaremos o desafio para a criação de propostas específicas nos lugares educativos de origem dos formandos.

 Com os olhos postos na escola

 A escola pública viu-se obrigada a dar resposta a um universo cada vez mais vasto de solicitações educativas especiais. As unidades de ensino especial vão desenvolvendo o seu trabalho numa aparente sensação de isolamento; a interdisciplinaridade do trabalho artístico permite propor outras práticas na escola, ousando a mudança.
Com a criação de agrupamentos escolares maiores, os profissionais de educação são cada vez mais confrontados com a presença de alunos com necessidades educativas especiais sem que as unidades de ensino especial tenham capacidade de formar docentes de forma efetiva no interior da escola de forma a dar resposta às solicitações emergentes. A variedade de situações em contexto educativo obriga a uma resposta imaginativa e assertiva na abordagem do processo educativo.
Aqui se insere a nossa proposta, apresentando um outro ponto de vista, numa abordagem não formal do processo educativo.
Ainda, a convicção de que a relação Escola – Museu traz benefícios mútuos, quer para os agentes educativos, quer para os educandos, num universo de propostas e partilhas fundamentais no mundo contemporâneo.

domingo, 22 de setembro de 2013

Equinócio


Fotografia de António Ventura
Quase a anunciar o fim das férias grandes (e eram bem grandes nesse tempo…), tínhamos o Equinócio! Habitualmente, a passagem do verão para o outono fazia-se com uma daquelas suestadas que faziam rebentar na praia grandes vagas de água bem quente, deixando um arrepio de receio. Lembro-me como gostava de me deixar ir, afoito, naquelas montanhas de água antes de se despenharem sobre o areal. Claro que os adultos estavam sempre por perto, encorajando vigilantes as proezas dos mais pequenos. Era uma sensação de vitória, vencendo o medo naquelas vagas turvas e mornas do barlavento algarvio. O bodyboard apenas existia na sua versão Repimpa, com a almofada do colchão flutuante devidamente esvaziada para melhor controlo das carreirinhas que nos levavam pela espuma até aos pés dos nossos pais sorridentes.
Mas houve um ano que o levante foi bruto no equinócio, não se limitando só a molhar as toalhas dos banhistas distraídos à sombra dos toldos montados na praia do Vau… Durante a noite, lembro-me do rugir do mar, agigantando-se, roubando o meu sono de menino irrequieto. A manhã trouxe a grande visão: o areal todo varrido pelo mar e a maré vazia pondo a descoberto incalculáveis tesouros! Havia nessa época, lá na praia, uma barraquita de madeira que vendia gelados, pirolitos e sumóis, bem caros para as nossas mesadas dos anos sessenta. Mas o mar na madrugada destruiu a cabanita comercial, entrando pela porta e semeando pelo areal uma imensidão de produtos que nós, miúdos recolectores nos apressamos a consumir; bastou encontrar um abre cápsulas… E foi um fartote. Lá pelas nove horas da manhã, íamos desenterrando sumos,  Spur Colas, as bojudas laranjinhas C, águas tónicas e pirolitos. Deu até para fazer uma pequena reserva submersa numa poça secreta da maré vazia que apenas os mais novos conheciam. Um dos meus primos apareceu muito excitado com a cara meio corada: acho que foi a primeira vez que provou uma mini… A minha tia Adelina, que tomava conta de nós (irmãos) enquanto os meus pais trabalhavam lá no hospital em Lisboa, ficou espantada de toda a moçada estar mal da barriga um dia depois do vendaval… Tal foi a barrigada de refrigerantes. Nos bolsos dos meus calções uma bela coleção de bonecos de plástico colorido, brinde dos gelados à época e um conjunto de berlindes cebola (vinham nos pirulitos).
Outra grande vantagem daquele equinócio, foi que a grande maré vazia deixou a descoberto os buracos mais inacessíveis dos polvos daquele laredo. Foi fantástico dominar aqueles bichos cefalópodes apenas com um arpão, enquanto eles nos agarravam os braços com os seus longos tentáculos. Mas a pesca daria uma outra prosa bem vasta….
A chegada do Outono trazia consigo o mais orgânico dos sentimentos em concordância plena com o ciclo dos elementos.
Como última imagem: a barraquinha de madeiras coloridas meia soterrada pela areia, como um navio solitário naufragado no areal da minha infância.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Descobrir: Necessidades Educativas Especiais


Rosário Azevedo (Museu Gulbenkian)
As oficinas e visitas dedicadas a público com Necessidades Especiais estão de volta à Fundação Gulbenkian, através do programa Descobrir. Este ano temos novidades que expressam bem o trabalho de envolvimento dos diferentes setores educativos da Fundação Gulbenkian: Para além de duas novas visitas no Museu Gulbenkian e no Centro de Arte Moderna, a visita “O jardim acessível” promete levar os visitantes especiais a um conhecimento mais profundo do jardim Gulbenkian e da arquitetura envolvente. Para além de Margarida Vieira (Coordenação) a equipa conta agora com Carlos Carrilho e Catarina Claro que se vão juntar a Rosário Azevedo (Museu Gulbenkian), Miguel Horta e Simão Costa (Serviço de Música).
Como sempre em setembro terão lugar as reuniões com as escolas e instituições de forma a desenhar de forma aproximada a mediação dentro do Museu. Quem connosco trabalha já sabe que as oficinas se esgotam antes da chegada de outubro. Podem consultar o programa aqui.
Quero deixar aqui um abraço de saudade a Lydia Robertson que nos deixou este ano. A morte mesmo que anunciada dói sempre. Partilhou com a equipa diferentes formas de utilizar o Instrumentárium Baschet, recurso que ocupou boa parte da nossa programação especial no último ano letivo: todos crescemos. Obrigado Lydia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Recolhendo palavras no Monte da Caparica

Gosto de sentir o desafio da instalação de uma biblioteca nova na comunidade. Criar utilizadores, descobrir leitores… Almada tem uma nova biblioteca municipal no Monte da Caparica (Raposo), mesmo no coração do bairro social. “É mesmo o teu perfil” – disse-me uma amiga dos livros que assistiu a mais um “Recolectores de palavras”, exatamente no local onde deve ser realizado. Recolhemos palavras das texturas que a cidade tem escondidas, recortámos de cartazes esquecidos nas paredes e de folhetos largados pelo chão….Mas o mais importante foi interpelar os habitantes com uma pergunta desconcertante: “Qual é a sua palavra favorita? Sim, aquela que mais gosta.”. Depois de recolhidas todas estas palavras fizemos um texto/poema coletivo sobre uma grande folha de papel de cenário, na sala infanto-juvenil da Biblioteca Maria Lamas. Foi uma tarde quente e divertida que juntou uma mão cheia de crianças e alguns adultos que brincaram com as palavras, seguindo o conselho do escritor Álvaro de Magalhães. (7 de setembro de 2013)
Raposo - textura
Combinando o percurso nas ruas do Monte...
Qual a sua palavra favorita?
Para que é que vocês querem a minha palavra?
Procurando palavras nos cartazes esquecidos.
 É importante ver a data: Sim! Esse já se pode cortar com o x-acto
Construindo frases sob o olhar curioso de um bebé.
O texto começa a ganhar forma...

domingo, 8 de setembro de 2013

Insónia


Estudo de rascasso para as guardas do livro ("Rimas salgadas)
A minha Tia partiu esta semana. Encerra-se uma geração tornando-se a seguinte legado. Sofremos, cada um a seu modo. Contou-me o meu primo que numa das noites que se antecederam, quando a insónia o invadia, levantou-se da cama, preparou o material de pesca com cuidado para não acordar a família e no meio do breu saiu da serra em direção à nossa aldeia favorita na costa. Aparelhou o seu barco e conferiu a palamenta zarpando mar fora, muito antes do romper da aurora. Apenas dois ou três pescadores movendo-se no negrume da calheta carregavam as artes para as embarcações. Nasceu o dia sobre o mar e ele naquela solidão gostosa de quem pesca sozinho, arrumando as ideias enquanto se retira um peixe das águas ou navegando de um lado para o outro. Conheço bem o que se sente, mas não sei explicar; quantas vezes fui o único tripulante... 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Projeção na Casa da Achada!


Projeção/debate
” Tempo/Espaço 71’”– “Novas memórias do cárcere”
Tiago Afonso e Miguel Horta
6 de setembro - 21.30h
Casa da Achada (Centro Mário Dionísio)
Rua da Achada nº 11 – Lisboa (Encosta do castelo próximo do largo do Caldas)

Uma oportunidade rara para se conhecer o trabalho cultural no interior de um estabelecimento prisional, neste caso o EPR Guimarães. Um projeto da Casa de Camilo/Guimarães capital da cultura. Para além do filme, a troca de ideias sobre o projeto “Novas memórias do cárcere” – Mediação Leitora (Miguel Horta).
Diz Tiago Afonso sobre o filme que realizou: “Tempo/Espaço documenta um conjunto de actividades organizadas a partir do mote das Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, ao longo de meio ano no Estabelecimento Prisional Regional de Guimarães. Esta ocupação inusitada dos tempos livres (palavra ingrata neste contexto) foi também o pretexto para a nossa progressiva aproximação à vida dos reclusos, e a presença prolongada na prisão permitiu-nos explorar outros pormenores –  tatuagens, vigias, ferrolhos – num dia a dia algures na fronteira entre o documentário observacional e os dispositivos provocados” Diz Miguel Horta sobre a mediação leitora:” É preciso primeiro escutar as vozes e trabalhar a competência da palavra inata no amago do ser: ouvir as histórias de vida, entender as lágrimas em silêncio, e propor horizontes primeiro de escuta com narração oral e pequenas poesias, acessíveis. Depois, é ir mais longe, comunicando com disponibilidade.” In http://miguel-horta.blogspot.pt/2013/07/so-deus-me-pode-julgar.html