segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Memória da residência Dez x Dez


No meu conto “As cartas”, uma rapariga escreve cartas a si própria, colocando-as no marco do correio, para não se esquecer das emoções vividas em determinado momento… “Eram as cartas de Rosa como pequenos contentores de emoções vividas, preservadas para posterior consulta”. Foi com este espírito que acabei por alinhavar estas notas sobre a residência do Projeto10x10 (Descobrir/Gulbenkian) que teve lugar neste início de Verão. Seguem em dois post diferentes para não cansar o leitor.


A imensa variedade destes seres que são professores, cada um com uma língua própria, como se fossem uma nova pátria. Cada vez que falam na aula o seu idioma, do outro lado soletra-se conhecimento. Foi esta uma das reflexões vadias que me assaltaram ao reconhecer as diferentes personalidades docentes que ao longo dos dias da residência imprimiram um cunho próprio à comunicação e partilha do saber. Lembro-me de ter escrito no papel de cenário que forrava a sala como um livro novo na primeira semana de aulas: “É desta matéria humana que faremos educação…” Folheio ao acaso as minhas notas, um pouco caóticas, reconstruindo uma espécie de eletrocardiograma dos dias vividos na sala polivalente da Escola Padre António Vieira. Procuro momentos que registei dos outros, artistas e professores. Talvez a história comece por dois chapéus que fomos colocando na cabeça representando os diversos papéis ou situações de que nos revestimos ao longo da vida: uma séria cartola e um alegre chapéu de palha. Assim começámos a falar de educação. A Dina Mendonça propõe um caminho de reflexão e começa a tecer uma grande teia de ideias, com o contributo de todos, sobre uma grande folha de papel de cenário. Ficou assim desenhada uma possível geografia da relação entre educação e aprendizagem.
Noutro momento andei cego, às apalpadelas numa escola desconhecida; senti o perfume de duas alunas que passaram por mim e eu de olhos vendados. Como o som fica ampliado e o tempo distorcido… Ainda estou para saber como consegui identificar um pequeno aloendro só pelo tato… Escuto o António Pedro dizer durante o debate que encerrou o dia: “…ter ou não ter tempo para sentir o universo à nossa volta”. Abria-se assim o tema para a proposta que eu e a Sofia Cabrita apresentaríamos no dia seguinte. E o dia seguinte foi de Caracol! “O nome caracol vem do latim: cochleolus” – como muito bem explicou a Sofia. A ideia foi introduzir o insólito para gerar reflexão e criatividade. A nossa intenção primeira era pensar o tempo, sempre acompanhado com o devido riso provocado pelos jogos escolhidos com a intenção de propor o errar como oportunidade, como algo positivo; gerir o tempo e deixar de sofrer com a falta de tempo. Ao propor duplas de escrita (professor/artista) quisemos contribuir para a consolidação do trabalho em grupo, tão necessário para a intervenção no terreno.
Os professores da escola Siomara da Costa Primo trazem depoimentos reais de alunos da escola sobre as suas identidades e propõem um exercício de escrita, vestindo os papeis daqueles jovens muitos anos mais tarde. Histórias de vida fortes que provocaram a emoção entre todos. Tinhamos também um conjunto de objetos dispostos num tapete que deveríamos relacionar com as narrações.  A mim coube-me uma rapariga chinesa que chamei de Maria Lee. Escolhi um colar bonito que lá estava em cima da manta.Diz o depoimento da jovem em determinada passagem: “Estou apaixonada por uma rapariga portuguesa: a Marta, ela é bonita, doce e carinhosa. Gosto mesmo muito dela e acho que isto é mesmo a sério, o pior é que se os meus pais descobrem vão-se passar, estão convencidos que vou casar com um chinês, um cliente deles que tem muito dinheiro e um carro não sei das quantas. Logo um chinês…” O que se iria passar com Maria Lee trinta anos depois? E o texto saiu assim:
flickr/A-Wix
“Marta! Marta! Maaarta...
Ainda sou o teu Lotus Azul?
Ficas linda com esse colar...
As tuas rugas são como as nascentes do Yangtze, já foram rio contornando os seios, desaguando entre as tuas coxas.
Encontrámos a nossa pátria num corpo comum – Um sentido para o Mundo com o nosso Amor.
Porque me pediste para voltar a Sichuan? Foi para reencontrar as origens?
Lembras-te da Tailândia e como a adoção de Zoe nos mudou completamente a vida? Como tudo ganhou sentido...
Depois Bruxelas, as traduções no parlamento europeu… Como foi decisiva aquela professora de educação física da secundária da Amadora: sugeriu que me dedicasse ao desporto das línguas… E assim fiz o caminho.
Mas nunca mais vi o meu pai.”

São assim as residências: os professores trazem-nos a realidade sentida da escola, a identidade dos jovens num retrato fiel.

4 comentários:

  1. Maravilhoso! Parabéns pelo vosso excelente trabalho. Recebi reacções de uma participante que são mesmo muito boas. Alguém que não acreditava... e agora sim, está totalmente rendida à Arte na Educação e verdadeiramente crente na importância da sua pessoa e da professora que leva consigo. Não podia deixar de partilhar...
    Beijos a todos vós

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    1. Muito obrigado. Para nós artistas estas residências são muito importantes, dão um outro sentido ao nosso trabalho criativo....
      Ainda falta narrar a outra metade da semana de 10x10...
      Obrigado pela visita ao Laredo.

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  2. Um belo e emotivo texto, verbalizando aquilo que os verdadeiros Mestres fazem: tocar um discípulo, também às vezes ensinando-o a entender a geografia das emoções...
    Parabéns, Miguel, e obrigada pela forma como valorizas o trabalho dos professores!
    Um beijo, J.

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    1. Os professores continuam a ensinar-me ao longo da vida... Não escondo a admiração pelo trabalho, por vezes em situações extremas. Obrigado J pelas tuas palavras.

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