domingo, 26 de maio de 2013

É assim a "Leitura Furiosa"...


Ostra (com pérola faz de conta dentro) usada no início da sessão como metáfora da riqueza interior ocultada
 ou ideia de isolamento, não comunicação, impedindo o outro de ter acesso ao nosso lado precioso.
Lembro-me que a determinada altura da nossa conversa, na salinha da Caritas com os meus companheiros sem abrigo, surgiu uma conversa sobre cartas. Pois, agora ninguém escreve cartas, disseram. Mesmo escritas, seguem em correio azul, sem selo. Cada vez que colamos um selo ou lacramos uma carta, parece que as palavras contidas no interior se revestem de uma nobreza insuspeita. Têm mais força as palavras de Amor escritas numa carta do que enviadas através de mensagem por telefone. Cristina retira do saco dois ou três aerogramas vindos da época da guerra colonial, alguns reconhecem o objeto. Falamos da leveza do papel com que eram feitas aquelas missivas que as madrinhas de guerra se encarregavam de fazer chegar ao coração da mata. Tenho medo destes papéis vindo do passado, podem reabrir as chagas que em coletivo ainda não resolvemos. Mas a conversa salta para os valores selados, os documentos legitimados pelas estampilhas fiscais, assinadas por cima com caneta de tinta permanente. Uma carta de curso liceal revestia-se com maior dignidade quando de colavam os selos, depois de devidamente lambidos, na folha de papel almaço azul…Não me lembro do número de linhas com que se cosiam requerimentos sobre estes suportes…
Como adorava lacrar cartas com o sinete de prata da minha avó…sentia-me um rei lavrando sentenças. Um dia, também eu recebi uma carta de uma mulher, lacrada a vermelho com um beijo rubro desenhado a batom no seu interior…Nunca mais esqueci o cheiro nem o momento que ficou para lá suspenso no meio da existência aquele beijo lacrado…
É assim a “leitura Furiosa”…

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