sábado, 27 de abril de 2013

Reflexão sobre a COLUMBINA


25 de Abril: solta na escadaria da Biblioteca de Beja (em simultâneo com Castro Verde)
Agora que já descansei do grande desafio que é colocar no terreno o projeto COLUMBINA, escrevo aqui algumas linhas sobre este trabalho de intervenção artística, sociocultural. Intuía-se já, no momento da conceção, que a ideia seria transversal a diferentes idades e origens sociais, sendo paradigmática do tipo de mediação leitora que mais permita um mergulho social. A biblioteca pública, com a sua estrutura e utilizadores acaba por visitar um outro meio habitualmente alheado da mediação leitora: os Columbófilos e suas famílias. A grande surpresa veio da adesão dos jovens à Columbina, na sequência de um trabalho de mediação em torno da poesia, “A máquina da poesia” (que poderá ser consultada nas páginas deste blogue). Juntam-se assim, neste projeto, diferentes grupos de pessoas unidos em torno de um animal: o pombo.
Para os Columbófilos mais acordados, esta ideia representa o reconhecimento da nobreza desta arte alada, permitindo divulga-la entre os mais novos que frequentam as bibliotecas públicas e escolares. Existe uma preocupação com o envelhecimento dos columbófilos sendo este momento um dia feliz na promoção desta Arte tão desconhecida pelo resto da sociedade. Os participantes ao terem a noção exata do conceito que se está a utilizar assumem rapidamente o projeto como seu. Em todas as soltas que temos realizado, os columbófilos tomam a palavra e falam dos seus belos animais: do detalhe da anatomia de voo, alimentação e saúde, deitando por terra preconceitos e divulgando um desporto exigente, metódico que surge do enamoramento pelas aves. É interessante verificar a variedade da origem social destes mestres das aves que conflui numa linguagem única utilizada nos pombais e nas aldeias columbófilas (como é o caso de Beja). De volta do voo, todos se entendem.
De salientar que em dia de “encestamento” (colocação metódica dos animais em caixas, já preparados para o voo) e véspera de uma grande competição de “fundo” (habitualmente 700km – vêm de Espanha para Portugal), uma boa mão cheia de aficionados cederam generosamente os seus pombos para a aventura das palavras. E sabem porquê? Porque não há maior prazer para um Columbófilo do que ver o brilho alegre nos olhos de uma criança quando segura o pombo entre mãos, antes do sinal da partida. E aquele pombo leva um poema escrito pelo menino para outros meninos numa cidade distante…e vai ser lido. A poesia não está só nos pequenos papelinhos rabiscados com poemas, que são presos às patinhas dos pombos com uma borracha colorida, mas também na festa comunitária que o projeto Columbina acaba por gerar; o sentido da Ágora de que venho falando, para uma transformação real da textura humana do nosso país. Devo dizer que o momento do “lanchinho”, mesa farta posta no terreiro dos pombais, é um momento de partilha poética das palavras que chegam dos céus e também de interrogação sobre os estado das coisas e o isolamento de cada um de nós dentro do seu nicho social. Seria impossível fazer a Columbina na totalidade dos seus objetivos sem envolvimento de Columbófilos, famílias, bibliotecários e mediadores do livro e da leitura.
A “Máquina da poesia” antecede o voo através da proposta da escrita poética, ao alcance de todos. Permite entender a poesia no seu cerne mais genuíno, o poder e imagem das palavras, muito antes da rima. É uma atividade simples que não se deve limitar ao encantamento da ferramenta, deve ser mediada conscientemente, fazendo crescer no outro o leitor, o entendedor do sentido das palavras. Quanto mais singela for a nossa intervenção, mais genuína será a resposta e as propostas vão surgindo com a escrita.
Assim, neste e caso, como noutros que vamos conhecendo, a biblioteca pública lança propostas ao meio envolvente, tentando entender o seu lugar e missão num mundo em constante mutação. As bibliotecas escolares ao abraçarem esta ideia, participam no Mundo lá fora, esquecendo por momentos o universo curricular que as tenta agrilhoar.
E os mediadores pensam nas novas ideias que irão propor para melhor se ler o Mundo e sobre ele agir conscientemente.

Para entender melhor o Projeto COLUMBINA…aqui.
 
 

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