domingo, 7 de abril de 2013

Guião de trabalho para "Vanitas e a tia Aldina"


Conforme prometido aqui fica o texto/guião do conto "Vanitas e a Tia Aldina" que reuniu um belo número de visitantes este domingo ao longo de 3 sessões no Centro de Arte Moderna. Um outro olhar sobre o triptico "vanitas" de Paula Rego.
"Lá nos campos cantavam nos grilos” - canção

A primeira vez que vi um anjo foi em casa da minha avó.
Um dia entrei na sala das visitas, era assim que chamávamos àquele quarto fronteiro à rua, e dei com a minha avó compondo as asas de um anjo. Era uma menina de cabelo louro aos cachos, mais ou menos da minha idade…
É que a minha avó fazia os fatos para as procissões lá da vila.

Assim que chegava o verão, (as férias eram mesmo grandes nessa altura…) eu e o meu irmão éramos despachados no comboio para sul ao cuidado do revisor. Quando chegávamos à estação, lá estava o meu avô à espera com seu velho Citroen coberto da poeira dos campos. Foi numa dessas viagens que provei cerveja pela primeira vez…foi o ajudante do maquinista que me deu a provar…

Nessa mesma casa da vila vivia o meu avô, homem simples do campo, a minha avó e a tia Aldina.
A minha tia era especial e tinha três amigas especiais, solteiras como ela:
-Maria da Fé, Maria da Esperança e Maria da Caridade.
Quando a minha avó, que gostava de espreitar quem na rua passava, via descendo a rua as três amigas da tia Aldina que a vinham visitar pela tardinha dizia sempre em voz alta para dentro de casa:
Aldina! Vêm aí as 3 virtudes!
A tia Aldina quase não saia de casa a não ser para ir à matriz onde tinha o seu genuflexório personalizado: Aldina Gonçalves, estava gravado numa chapinha cravada sobre o veludo vermelho da cadeira de missa.
Passava a maior parte do tempo no jardim acanhado tomando conta das flores, (mas para mim era mesmo um Museu floral) sobretudo rosas que colocava num jarro de Presmalte antes de as compor numa jarrinha sobre a mesa do quarto.
Lá no quintal havia o Zatopek, um cágado muito rápido. Foi assim batizado pelo meu avô que o recolhera na estrada, já sem uma parte da carapaça (provavelmente atropelado por um carro); como lhe faltava um pedaço…era mais leve e lesto, tal como o famoso meio fundista dos anos sessenta…Zatopek.
Mas deixemos o Zapopek em paz lá no quintal.

 Cada vez que a visitávamos trazíamos sempre uma prenda das nossas viagens. O meu pai trouxe umas bonecas assustadoras do “dia de los muertos”, numa viagem que fez ao México… e ela apreciou bastante. Guardava as suas preciosas prendas num grande e austero guarda-fatos que dominava toda a mobília do quarto. Estávamos determinantemente proibidos de tocar no armário sob pena das mais terríveis consequências … E lá estavam todas as bonecas, um pequeno busto que ela dizia ser do bêbado da vila, um ratinho das caldas, um relógio sempre fora de horas, um Pinóquio ainda sem nariz comprido, uma daquelas bonecas de fertilidade montadas numa cruzeta que a minha mão lhe trouxera de uma excursão a Monsanto, o seu cavaquinho que ela aprendera a tocar em menina… E muitos mais objetos fascinantes para os olhos de uma criança guardados ciosamente cada um na sua caixa mesmo ao lado de uma coleção de vestidos garridos, pesados e caprichados que quase nunca vestia.

-Digo quase, pois em certos dias a tia mudava…Ó se mudava!
O meu avô dizia que era do vento Levante que afetava a cabeça das pessoas mais fracas. Mas cá para mim era mas é do Medronho que ela ia roubar à dispensa deixando a minha avó enervada, pois era um ingrediente secreto dos seus doces domingueiros.

O levante soprava e a tia mudava…Assim que se escutava o rumor zangado do Mar vociferando ao vento na barra…Aldina mudava radicalmente.
Então a tia Aldina vestia um daqueles vestidos garridos a cheirar a naftalina, cantava, cantava enquanto dispunha uma espécie de altar sobre a mesa do quarto com todos os objetos que ia retirando do guarda-fatos.
-“Duerme mi niña duerme que la muerte no te llevará”… (canção)

Quando a minha avó batia á porta (Aldina! Aldina! Que fazes tu irmã?) para saber o que se estava a passar, Aldina corria uma cortina escondendo aquela bizarra exposição e vociferava. “Aqui não entra ninguém!”…
Depois continuava a cantarolar. Escutavam-se uns acordes repetitivos de cavaquinho e acabava por adormecer em cima da mesa enquanto murmurava: “o sono é a antecâmara da morte… O sono é a antecâmara da morte…a antecâmara…sono”

Mas o pior desses dias de que tenho memória, foi num verão em que a minha mãe me oferecera uma grande caixa de pastéis secos dizendo: “toma lá para fazeres pintura sólida”… “É que tinta em casa da tia não pode ser… ela não deixa.”
Nesse final de Verão, bem junto ao equinócio, quando o sueste assobiava bruto pelas janelas da casa fazendo bater repetidamente a porta do quintal com um ruido surdo e persistente; a tia Aldina teve um dos seus piores acessos. Foi ao quintal buscar uma foice do meu avô e barrou-se no quarto vociferando num desassossego: A serpente não me matou, a morte não me levou!! “A morte que venha!” Essa desgraçada que me venha buscar que eu estou à espera dela!”

Só me lembro da minha mãe ter pegado em mim e no meu irmão e de nos levar para a rua e daí para o nosso velho Taunos 17m branco estacionado no meio do vendaval.
E nunca mais vi a tia Aldina...

“Bendito e louvado, está este conto terminado”

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