segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

DEZ X DEZ: algumas notas sobre o processo

Narração oral: contando "António da hora" aos companheiros de residência
Foi uma caminhada que começou na antiga sala de ensaios do Ballet Gulbenkian numa residência que marcou profundamente o verão. Dei por mim a reorganizar a minha geografia criativa tal foi o poder daqueles dias em que convivi com uma mão cheia de belos artistas, belas pessoas. As dinâmicas propostas pelos mediadores dessa relação entre professores e artistas contribuíram para a criação do espírito mágico de grupo, dando assim o tom ao trabalho que foi desenvolvido nas escolas. E cantei, e dancei, e desenhei … escutei, refleti e tantos outros verbos que poderiam ser aqui convocados para retratar a cor dos dias vividos. Talvez pudesse ter feito bem melhor lá na escola, mas estivemos a trabalhar com pessoas e a característica desta relação não é uma ciência exata.
Deixem-me brincar: a professora “que me saiu na rifa” é um ser humano especial – começámos sempre os dias com o seu sorriso. (é avaliável um sorriso?)
Fala assim a Ana sobre o projeto DEZ X DEZ lá na escola da Abrigada:
“Foi com muita abertura e interesse que o Agrupamento de escolas de Abrigada acolheu o projeto 10X10 . Sendo o lema deste grupo de escolas “Valorizar o trabalho, promovendo o sucesso”,  percebe-se porque é uma das poucas escolas que acolhe turmas PIEF, um programa de fim de linha para alunos com grave insucesso escolar e com fortes probabilidades de abandonarem a escola. Na Abrigada, constrói-se em conjunto, incluindo todos no processo. Quisemos trabalhar com os alunos que mais dificuldade têm em entrar nesta vontade conjunta. A turma, constituída por 7 rapazes e 2 raparigas entre os 15 e os 18 anos, aderiu bem ao projeto, talvez por se perspectivarem aulas bem diferentes do habitual e porque, desde a primeira hora, lhes dissemos que o objetivo era construir com eles e descobrir em conjunto. Procuramos sempre incluir os colegas da equipa pedagógica neste processo, que participaram connosco nas aulas. A relação com o artista convidado não foi sempre pacífica ao longo do tempo, porque desafiar, questionar e testar limites é a forma de comunicar da maioria destes jovens. Tivemos de lhes mostrar que há formas bem melhores de nos relacionarmos com os outros e que não íamos desistir deles, mesmo que fosse essa a vontade em alguns momentos. Tivemos de lhes mostrar que as aulas podem ser interessantes, divertidas e que o conhecimento é a melhor ferramenta que podem levar para a vida.”
Foi exemplar o apoio da direção e corpo docente ao trabalho que fomos desenvolvendo. Sofreram connosco nos momentos difíceis e sorriram expressando afetos nos dias luminosos. Prometi voltar: estão algumas pontinhas soltas onde gostaria de dar uns pequenos nós em conjunto com os alunos.
Mas falemos um pouco de metodologia, o modo como fomos desenhando a ação:
“Quem sou eu no Mundo?”. Eis o nosso ponto de partida para o trabalho com os jovens da turma Pief. Uma das marcas do nosso trabalho foi a alteração do espaço físico da sala de aula, propondo a cada sessão uma dinâmica coletiva a que chamámos “Plenário”; puxando pela participação, devolvendo na palavra, promovendo a comunicação crítica; enfim, seduzindo para a partilha de conhecimentos. Através de uma metodologia não formal fomos lançando vários desafios (micro pedagogias) que nos permitiram chegar mais próximo dos jovens. Valorizámos sempre a cultura de origem e as vivências de cada participante, relacionando essas referências com as ciências naturais. Trouxemos para a sala de aula livros, a poesia, a ilustração, a narração oral, a expressão plástica, ferramentas web e muita comunicação, tentando aproveitar ao máximo os momentos pedagógicos em que poderíamos transmitir conhecimento. Foi dada uma atenção especial às competências sociais, promovendo a cooperação, a postura comportamental, a autonomia das ideias e o processo de avaliação conjunta.

Agora, sugiro que apareçam no fim de semana de  19 e 20 de Janeiro na Fundação Calouste Gulbenkian para assistirem às nossa 10 propostas diferentes: começamos às 11 da manhã.

 

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