segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Chuva de palavras no Pinhal Novo

Cheguei ao Pinhal Novo no meio de uma grande chuvada…Tal como a boda que é abençoada pela chuva, o meu encontro com duas turmas do 6º ano correu muito bem, para além de ter sido bem divertido. Depois de devidamente desarrumada a sala de aula, adaptada para uma geografia de conversa fomos falando disto e daquilo com algumas perguntas complicadas pelo meio. Uma história aqui, um poema acolá e a tarde passou sem se dar por isso. O convidado especial foi o meu livrito “Pinoke baleote”. Obrigado Teresa Meireles por me teres apresentado os teus alunos. Um recado para os meus novos amigos: não se esqueçam que poderemos sempre continuar a conversa “virtualmente”. Não me esquecerei de avisar quando sair o próximo livro (“Rimas salgadas”).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

10x10=Abrigada

A estrada serpenteia entre vinhedos até se chegar à Abrigada, ali mesmo no sopé do Montejunto. A escola é pequena, limpa e tranquila. Aqui vão ter lugar as sessões, aulas pouco convencionais, com uma mão cheia de jovens de uma turma PIEF do agrupamento. Trata-se do projeto 10x10 (Programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian) que junta dez professores com dez artistas de áreas muito variadas, esperando-se que deste encontro surjam novas práticas de ensino, outras abordagens à tarefa da transmissão de conhecimentos. Noutras nove escolas, os meus colegas de expressão têm uma missão semelhante com alunos do secundário. Trabalho com a professora Ana, de Biologia, uma jovem calma, afetiva que abraça dedicadamente o ofício pedagógico. No nosso caso não vai ser fácil…estas turmas de curriculum alternativo são compostas por jovens que já desistiram da escola. Inadaptados, dizem. Porquê? A primeira pergunta impõe-se como ponto de partida, definidor do desenho da intervenção. Depois, é observar os jovens, encontrar a porta de entrada, a comunicação até chegar à confiança necessária para a troca natural de saberes. Como acordar a noção de planeta com toda a sua variedade natural? Que meios expressivos iremos usar? Como estruturar um conjunto de sessões de educação não formal num universo curricular? Tantas perguntas neste momento de partida.
O primeiro encontro foi ocupado com uma dinâmica de apresentação irreverente, associando cada aluno a seu animal favorito. Logo ali nos fartámos de falar sobre a biologia dos nossos bichos escolhidos, sabendo que eram uma projeção significativa dos alunos. Não faltou um ameaçador Rottwiler, um simpático golfinho e uma enigmática iguana. Desconfiaram, testaram-nos e acabaram por rir. Foi um momento de sedução para o projeto onde não faltaram algumas histórias naturalmente disparatadas que contei aqueles jovens especiais.
O diretor da escola cedeu-nos uma casinha vizinha do edifício central para espaço de ateliê: estamos com sorte.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Eu sou som assim


Esta semana, no Centro de Arte Moderna (programa Descobrir) temos trabalhado com crianças com deficiência profunda. O Instrumentarium Baschet tem sido o veículo pedagógico para vivenciar o som. Mas acima de tudo é de comunicação que se trata; tarefa persistente em que todo o nosso corpo se constitui ferramenta. O mediador promove o contacto com as esculturas sonoras ao mesmo tempo que estabelece a comunicação com aquelas crianças aprisionadas num corpo discordante, pequenas pessoas habitando um lugar longínquo que tentamos alcançar. Melhoramos o ambiente da nossa sala de ensaios para este momento: reduzimos as luzes e estendemos um tapete confortável, criamos o lugar para esta comunicação. O “Baschet” vai soando espaçadamente, em harmonia tocado por técnicos, monitores e um menino mais autónomo. É um combate genuíno pelo outro, frágil e distante. Tocar, fazer com que a criança sinta a vibração na mão ou na bochecha que esconde um maxilar que ressoa a cada variação sonora. Ir conversando reconhecendo sinais discretos de concordância ou de agrado enquanto manuseamos o instrumento. Ir falando sempre, olhos nos olhos, reconhecendo um piscar de olho ou um gesto ou esgar com significado. Intenso e verdadeiro. No final retiramos os meninos das cadeiras de rodas, deitando-os delicadamente sobre o tapete: tocamos para eles com suavidade. Quando a música para uma menina sem aparente comunicação começa a soltar um canto gutural, como um lamento, outros dois meninos começam a “cantar” também com as suas vocalizações. Ficamos ali em silêncio olhando o canto daquelas crianças. A sessão correu bem. Dentro de mim cresce uma comoção calma que me acompanha até chegar ao ateliê. Mas não consigo pintar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O outro com paisagem ao fundo...

O que há fora do corpo? -O outro com paisagem ao fundo…
É sempre com muito prazer que respondo à chamada para os encontros da escola inclusiva organizados pela divisão de educação de Sintra, para a comunidade educativa do concelho. Mais uma vez lá fomos, a Margarida Vieira e eu. Iguais a nós mesmos, desta vez divididos em duas oficinas: Uma mais centrada no corpo pela Margarida e a minha propondo outras formas de integrar esse corpo na paisagem, no mundo. Aqui fica uma pequena sequência de fotos captadas pela incansável Sara Afonso. Ao longo de duas horas partilhei algumas ferramentas que utilizo com pais, professores e auxiliares ...poucos, mas bons. Pequenas brincadeiras em desenho, partindo de duas obras do acervo dos museus da Fundação Calouste Gulbenkian.
Esta ligação com Sintra continua: Este ano darei apoio à EB 1 de Rio de Mouro, acompanhando a unidade de autismo e os meninos invisuais (e de baixa visão). Por aqui vos darei conta das nossas “invenções artísticas” feitas ferramentas de integração e crescimento interior. Mais um desafio.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

À saída de Pinheiro da Cruz

Fica sempre uma sensação de um vaziu que ainda não aprendi a retratar. Terminam as sessões, vou-me embora, eles ficam lá dentro e volto para a minha vidinha culta, muito satisfeito porque cumpri o meu dever, carrinho estrada fora… Vou formoso mas não seguro. Há um silêncio devorador de palavras que aos poucos avança em mim como um virus. O pior é que nas horas mais próximas não vou conseguir expressá-lo a ninguém. Acabo de atravessar uma fronteira para um outro universo que me garantem que é livre – não tenho a certeza.
Vou dizendo para comigo enquanto o alcatrão da estrada é engolido pelas rodas: eu acredito nas palavras!Eu acredito nas palavras! Eu acredito nas palavras! Aos poucos acabo por me convencer…
Contarão de novo comigo para promover a leitura nas prisões...mas não seguro.
Aqui fica um poema do José Fanha que simboliza muito o meu trabalho ao longo deste ano nos estabelecimentos prisionais. Vou ler outra vez o ASAS aos meus presos… Escutem amigos:

"Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito:
nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas
como se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos,
leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair."

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Leitura sem fronteiras nas prisões.

Chegou ao fim mais um ciclo de sessões de “A cor das histórias”, mediação do livro e da leitura em estabelecimentos prisionais, uma parceria entre a DGSP e a DGLB. Se este ano o financiamento foi escasso, temo que para o ano simplesmente não exista. O programa “leitura sem fronteiras” tem dado os seus frutos: fica aqui um abraço para a Sara, Luísa, Sandra e Andante, meus companheiros de labuta. Quem nos conhece sabe que somos de corpo inteiro cada vez que entramos pelo gradão.
Foram poucas as sessões em Pinheiro da Cruz mas juntou-se um grupo de homens muito interessados que aproveitaram todos os minutos da minha presença na prisão. No último dia, solicitaram à adjunta da direção da cadeia a possibilidade de se constituírem numa pequena comunidade de leitores dentro da prisão…gostei da ideia. Importante numa prisão onde se sente mesmo o isolamento, a interioridade. Fui reencontrar o Jorge Angélico (1º prémio do concurso de poesia dos estabelecimentos prisionais) que continua a escrever muito bem. No último dia na prisão alentejana um dos reclusos leu um poema autobiográfico fantástico, que percorria a sua vida de drogas num ritmo alucinante, sincopado, muito para além do hipop.
Apenas três dias… em que trabalhámos poesia, prosa e falámos sobre a vida e o mundo. Um ponto a favor de Pinheiro da Cruz é o livre acesso aos livros, pois existe uma pequena biblioteca por ala com um responsável (“bibliotecário”); infelizmente o mesmo não acontece no Montijo onde a biblioteca se encontra na zona escolar, longe da área prisional, impossibilitando aos reclusos a requisição e manuseamento de livros. “Só temos acesso aos livros quando o Miguel aqui vem” – Desabafou um recluso. É fundamental corrigir esta falha. E olhem que estes amigos leem! No último dia levaram Susana Tamaro, Oscar Wilde, Tintim, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Markl, Alexandre O´Neill, Fernando Pessoa, um livro de auto ajuda (não me lembro do autor) e António Aleixo, entre outros. Escolhas muito variadas, leitores diferentes. Continuo a gostar de fazer este trabalho.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Semeando ágoras...


Sempre gostei de intervir nas texturas urbanas, trabalhando com as pessoas através de desafios que as fizessem reunir, pensar, mudar e agir. A Arte e a Poesia conseguem tudo isto ao promover uma cidadania plena nas cidades. Quando a educação artística sai às ruas os seus efeitos são muito gratificantes. Gosto que me proponham desafios que envolvam pessoas, as histórias das suas vidas e do local que habitam. Este ano de 2012 tem sido fértil nestas intervenções e nem sempre encontro tempo para falar sobre elas e partilhar. As primeiras intervenções foram em Viseu com o “Caça Texturas” (pela mão do Teatro Viriato) e partir daí continuaram com o “Recolectores de Palavras” que tem percorrido o país de lés a lés e o “Projeto Columbina” que faz voar as pombas e os poemas em diversos municípios. “A quermesse dos contos” juntou nas Portas de Mértola (Beja) um belo número de pessoas durante as Andarilhas de 2010 bem como o “Cante dos contos” nos levou cidade fora lendo textos de Carlos Drummond de Andrade, José Fanha e Matilde Rosa Araújo.
Cante dos contos - Andarilhas 2010
Uma foto do Pedro Horta registando a "quermesse dos contos"
Com o Centro Cultural de Ílhavo tenho desenvolvido alguns projetos de rua como o “Gentes do Centro” em que levámos as fotocopiadoras para o meio da rua interagindo com quem passava. Este ano inserido no “Festival Radio Faneca” apresentámos o “Jogo dos 7 Carris”, uma espécie de jogo/percurso urbano que envolveu miúdos e graúdos na malha intrincada dos becos da cidade…foi bem divertido!
O desafio dos azulejos no "Jogo dos 7 carris" - Ílhavo
Mudando completamente de meio, desta vez no Festival Safira (Montemor-o-Novo), uma oficina/instalação com sombrinhas chinesas “instalou-se” à sombra dos sobreiros. Cada um pintou o pequeno chapéu-de-sol a seu gosto…
A fruição dos espaços através de acontecimentos culturais feitos com as pessoas, combate o isolamento contemporâneo, junta a gente promovendo transformações no mundo.
Festival "Safira"

Contos à deriva

Quando a Cristina Taquelim me disse que tinha um lago inteiro para contar  histórias do mar e dos pescadores, fiquei feliz. Foram logo buscar o barco do Hermes Picamilho para servir de palco aos meus “Contos à deriva”. A primeira vez que contei alguns ditos e partes do barlavento algarvio em público, foi numa sessão de contos que antecedeu o festival Terra Incógnita …. Eu bem queria um petromax para ter na embarcação, uma luz para os contos, mas só encontrámos um “camping gas”; serviu muito bem para iluminar a magia das histórias no jardim público de Beja, durante as Palavras Andarilhas. A primeira noite de contos à deriva, até que foi muito atrapalhada; manter o equilíbrio no barco enquanto se contam histórias para a margem, não foi tarefa fácil. Mas o pessoal gostou, apesar de eu ter esforçado a voz. Valham-nos os contadores de histórias experientes: o António Fontinha tratou de dar a sua opinião e a “coisa” foi corrigida: uma pequena tripulação passaria a embarcar para escutar histórias no meio da água…e funcionou mesmo bem… Naquela segunda noite, os andarilhos fizeram fila junto á margem para escutar histórias, embarcados, enquanto eu remava sobre as águas. A certa altura, o António começou a lançar pequenas provocações, como se fosse um pescador que estranha ver tanta gente numa embarcação de trabalho: lá se deu um diálogo em algarvio do mar com o irónico provocador que da margem observava a cena toda. Naquelas duas noites disse pragas, ditos e partes do barlavento algarvio. Não faltou a memória do “Lugre fantasma” nem “as raposas e o pescador”, a par de umas quantas rimas salgadas na noite alentejana…tão longe do laredo. O que eu me ri com a Fernanda Frazão cheia de medo de ir à água… E os pais andarilhos que começaram a fingir que choravam, copiosamente, quando eu disse que iria levar as suas crianças para o mar das histórias, dos livros, que não mais voltariam iguais e que por certo, alguns se perderiam no meio do vendaval de letras…
Foi assim: remando, pescando e contando como se estivéssemos a bordo do “Urso branco” nos arrifes do sul.