terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

77 palavras

A Margarida Fonseca Santos lançou um desafio: escrever um texto com 77 palavras. Um belo exercício que promove a mecânica económica e criativa da escrita, gerando uma espécie de micro contos ou mini textos. Bem interessante para se fazer em contexto de biblioteca escolar. Ora experimentem lá... Aqui fica a minha participação:
Perplexo, fitava o presente recém-desembrulhado junto à árvore de Natal. Retirou cuidadosamente o objeto da confusão colorida do embrulho, rodando-o na mão, interrogava-se: “Mas afinal isto serve para quê?” “Carmen, vê lá isto?” – perguntou, passando a estranha oferta para a mulher que minuciosamente o inspecionou de todos os ângulos. “-Não faço a mínima ideia!” “-Deixa-me ver!” – exclamou a benjamim da família, retirando-o à mãe. “- É fácil!” – disse a filhota – “Basta ler a etiqueta: «Use para comunicar.»

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Respondendo a Jaciana

Pergunta-me a Jaciana, do outro lado do Atlântico, como constituir uma coleção em Biblioteca Prisional. Entre nós, em prisões de maior dimensão, é frequente o acervo estar repartido por diferentes alas (pequenas bibliotecas) como acontece no Estabelecimento Prisional de Lisboa mas, na maior parte dos casos, existe uma biblioteca central que serve todo o estabelecimento. Quando o mediador do livro ou bibliotecário chega a uma prisão pode encontrar coleções muito diversas e situações físicas (espaço) bem distintas: ou encontramos uma biblioteca já constituída ao sabor dos diferentes intervenientes que por aí passaram, gerindo aquisições e doações ou um espaço vazio (por exemplo numa ala) que é necessário construir. Poderão ser bibliotecas grandes, médias ou simples celas transformadas para esse novo objetivo.
E por onde começar? Por observar e entender a composição da população reclusa, os diferentes graus de literacia, nível etário, género, motivações, caraterísticas culturais, relacionando tudo isto com a sociedade em geral O conhecimento profundo da coleção existente e a posse de objetivos claros de mediação do livro e da leitura, ajudam no momento da escolha de livros e outras peças do acervo, numa opção verdadeiramente assertiva para uma população reclusa específica. Importa ter a consciência de que uma coleção não é estática, ela evolui ao longo dos tempos, adaptando-se aos interesses dos reclusos e ao trabalho que em prol da literacia que se vá desenvolvendo, sempre em relação á nossa sociedade em constante mutação.
Poderíamos falar primeiro de uma coleção de base, constituída por obras aqui consideradas de referência (dicionários, enciclopédias, código civil…) ao qual se acrescentaria um conjunto de obras fundamentais para a cultura universal, integrando aquelas que se referem aos cânones do próprio país. Constituído este primeiro grupo repartido por Literatura, poesia (…) classificado preferencialmente em CDU poderemos então pensar nas outras escolhas aplicadas à população prisional. A existência de periódicos e revistas, banda desenhada (“quadrinhos/gibis”), tem-se demonstrado como uma boa ferramenta de sedução do espaço de leitura prisional. A banda desenhada e a poesia são sempre muito requisitadas em contexto prisional bem como os grandes sucessos editoriais. O humor tem o seu lugar na coleção bem como o policial, romance, aventura, suspense. Mas sobretudo a coleção é feita a partir das pessoas, futuros leitores.

Perguntar também ao Bruno Eiras - Entre estantes

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Outras marés

(detalhe)
Agora que a exposição está montada, visível aos olhos de todos que por lá queiram passar, apetece-me falar de outras marés que subiram em mim. “Porquê as árvores?” – Perguntam-me. É certo que em 1987 apresentei na Galeria Novo Século a exposição “Movimentos Vegetais” (Na altura, Paula Moura Pinheiro no “Semanário” escreveu um texto muito interessante que intitulou “Ondulações balsâmicas”…gostei.). Também em “Trabalhos de Pest” (desenhos apresentados na Galeria Monumental em 1999) surgiram alguns ramos, talvez algas. Não se sabe muito bem sobre a génese do que se cria… As árvores foram surgindo naturalmente na minha expressão, depois de encontradas abandonadas por uma tempestade na solidão do areal. E eram troncos vivos, orgânicos, quase animais, numa profunda tristeza que me remetia para as pessoas; linfa e seiva na existência. Ao longo dos últimos anos tenho trabalhado com pessoas presas, promovendo o livro e a leitura; gente com cabeça, tronco e membros, ramos tolhidos pela condição reclusa. Como tema de escrita e leitura, propus a árvore e cada um escolheu a sua mediante o caracter que possuía: O grande “pé de Ipê” da floresta amazónica, o Embondeiro de África, sem esquecer o Polón da Guiné que junto do recluso Oliveira, do Cipreste e do preso Laranjeira, partilhavam a mesma cela. Também nas nossas sessões de educação artística do Centro de Arte Moderna, junto de pessoas com necessidades educativas especiais, a árvore foi o tema escolhido para se poder trabalhar o esquema corporal, partindo de peças da coleção de arte contemporânea (Alberto Carneiro ou Gabriela Albergaria, entre outros).
Ainda uma última imagem: Recuam as águas com a seca, deixando à mostra desnudadas árvores que do leito da barragem vazia emergem como espectros à luz do dia. Ali estão… talvez mortas, mas sobretudo sem saberem se são alga pertencente às águas ou tronco e raiz da terra. E ficam assim tão silenciosas, como gente cismando queda sobre no solo do planeta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um texto de Filipa Oliveira

(detalhe)
Comunicação pictórica - sinais, símbolos, imagens e cores sobre uma superfície plana - é uma das mais antigas e mais ricas de invenções humanas, como a escrita ou a música. Tudo começou nas rochas, em superfícies de jarros de barro e nos fios tecidos dos têxteis, e passou em seguida para as paredes, painéis de madeira, cobre e tela. Agora inclui ecrãs plasma, photoshop e novelas gráficas. Mesmo assim, a pintura sobre uma superfície portátil continua a ser um dos meios mais eficientes e íntimos de auto-expressão.

Roberta Smith, New York Times, 26 de Março 2010

Pintar nos dias de hoje acarreta uma enorme responsabilidade. A história da pintura, as suas consecutivas mortes e renascimentos, não deixa de estar presente em cada quadro criado. E já muito foi pintado. Miguel Horta tem esta situação muito presente quando inicia um novo trabalho, contudo afirma “a pintura é a minha coluna vertebral”.
Depois de uma prolongada ausência do circuito expositivo, Miguel Horta regressa com a exposição “Troncos e Marés”, uma nova série que se distancia da estética das obras anteriores. No novo conjunto de trabalhos apresentados, afasta-se do minimalismo e serialismo que dominava o seu trabalho para entrar numa figuração que quase se aproxima da ilustração no traço.
Troncos são os principais protagonistas destas pinturas, mas troncos que ganham uma dimensão humana. O ponto de vista está dentro do corpo, diz Leibniz. E é esse mesmo ponto de vista que Miguel Horta apropria. Em cada tela, cuidadosamente desenhada e esculpida, os troncos encarnam diferentes dimensões humanas viajando do abandono à loucura, da sobrevivência à morte. É sempre o tronco enquanto corpo que habita um espaço, o ponto de partida.
Entende-se assim como, no trabalho de Miguel Horta (que apesar intrinsecamente pintor, trabalha também como mediador cultural), a árvore é concebida como um símbolo do ser-se humano. Escreve o artista: “entendo como se podem constituir como metáforas da nossa própria existência, também com cabeça tronco e membros. Leio os matizes e a involuntária expressão dos rudes golpes sobre os ramos. Inevitavelmente, algum deste sentimento vegetal irá parar à minha pintura.” Sentimento vegetal transformado aqui em energia vital, em dinamismo do pincel e em dramatismo visual.
Appleton Square