quarta-feira, 7 de novembro de 2012

10x10: O recomeço


Nas cartas do Tarot, a Morte, representada por um esqueleto de obvia a intenção, ao invés de significar um lado negativo, aponta para a criação de algo de novo. De vez em quando nas relações humanas existem mortes que reorganizam os vivos, fazendo-se os necessários ajustes num grupo para que o caminho prossiga. Vem esta curta reflexão a propósito do trabalho em curso com uma turma Pief (Programa integrado de educação e formação) da escola da Abrigada 24 horas depois de um pico emocional que envolveu toda a escola e os interventores do projeto 10x10 (Programa Descobrir/Gulbenkian). É certo que o nosso trabalho tem corrido bem apesar das naturais dificuldades que se apresentam quando se trabalha com jovens desistentes da aprendizagem, mas não estávamos à espera que um roubo de dinheiro provocasse uma tal agitação.
Durante a aula/oficina, um aluno da turma resolveu retirar todo o dinheiro que eu tinha da minha carteira… Tentadas que foram todas as possíveis abordagens para que o jovem autor desconhecido devolvesse o que não lhe pertencia, foi chamada a GNR ao local da educação. No final, acabrunhado compareceu com um pedido de desculpa tendo o guarda responsável devolvido a quantia encontrada no rapaz. Eram 19 horas quando os quatro guardas, um grande número de professores e duas turmas regressaram a casa, encerrando um dia cheio de emoções. Durante as quatro horas que durou todo este enredo que mexeu profundamente com a comunidade escolar, experimentei várias emoções partilhadas com a minha colega professora e fui arrumando os acontecimentos numa narrativa interior, para me dar mais sossego. Assumi a zanga de forma expressiva em frente aos jovens, fui sincero. Houve momentos em que pensámos que o projeto estaria acabado na escola, mas a comunicação no tandem trouxe a decisão: “Vamos continuar na mesma! Não vamos desistir destes jovens.” Quando o dinheiro apareceu ficámos aliviados e reforçámos essa vontade de seguir em frente. O diretor da escola estava lá, bem como a diretora da turma, uma técnica incansável da CEBI, mais e mais professores, funcionários, guardas todos no meio da noite que era fria mas com um sabor desafiante a recomeço. Nem todas as escolas têm coragem para acolher turmas Pief, merecem pois todo o nosso reconhecimento.
Esta manhã voltámos à turma. O jovem já não estava por lá nem tão pouco o seu Rottwiler (ver texto). Duas turmas em silêncio à espera das palavras que não foram ásperas mas foram verdadeiras propondo a continuidade, acolhida pelos alunos com olhares concordantes e alguns sorrisos económicos.
Retive uma frase da professora, companheira de projeto: “Sempre fui professora…agora sinto-me educadora”.
 
Imagens da construção de uma cartografia pessoal
que irá evoluir ao longo das sessões
Plenário ao sol em frente à casa/ateliê cedida pela direção da escola
Super homem preparando-se para ser registado através do desenho
Tarefa coletiva: registar o corpo inteiro
Sem problemas de género...
Cartografia do corpo à escala 1:1

3 comentários:

  1. bom texto ecritor Miguel Horta
    ass:ilidio
    turma:p.i.e.f
    ;)

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  2. Excelente esta cartografia pessoal, um reencontro!!
    Gisela

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