quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Biblioteca pública: Um olhar de mediador cultural

Poucos antes de partir para Castro Daire, respondendo ao convite para participar no encontro "Monte(muro) de Leituras" aqui deixo um texto a propósito do tema do painel onde irei participar amanhã. Tenho pena que o tempo esteja assim tão mau pois é certo que aproveitaria para dar um passeio pelo Montemuro.
Quando iniciei a minha actividade em biblioteca pública, como mediador cultural, pouco sabia da natureza daquele espaço que acabara de aceitar as minhas propostas de promoção do livro e da leitura. Era urgente saber mais, entender a estrutura inserida na realidade comunitária, as suas fronteiras, o funcionamento e as pessoas que lá trabalhavam o dia inteiro. Não seria possível desenvolver uma actividade num determinado local, sem compreender os sinais que o caracterizam. Saber o que era a catalogação e uma cota (o que é a CDU), como funciona o balcão de atendimento, o depósito e todos os outros serviços postos à disposição do utilizador. Era mais do que um edifício, parecia uma espécie de ser vivo do qual necessitava de entender a respiração. Por isso conversei, perguntador como sempre, olhando toda uma paisagem em volta. Interrogo-me sobre o papel das bibliotecas municipais neste início de século, de modernidade líquida (cit. Zygmunt Bauman), em constante mutação. E penso na relação entre as pessoas no mundo contemporâneo, na circulação da informação, do saber, da cultura, num mundo cada vez mais fechado num retorno ao privado (cit. Orlando Garcia) que nos faz perigar. Julgo descortinar na Biblioteca o espaço antigo da ágora; local de partilha de todos os referentes culturais que fazem crescer uma comunidade em direcção à maturidade. Sem se darem conta da transformação que as envolveu, as bibliotecas municipais constituem-se hoje como plataformas culturais dentro das comunidades onde estão inseridas, sem entenderem muito bem esse novo papel para onde foram levadas. De repente são uma espécie de serviço de proximidade cultural, referente dos habitantes. Chegam pessoas e grupos muito diferentes ao serviço de referência, com motivações variadas e graus de literacia nunca antes vistos em espaços culturais. E a biblioteca tem de dar resposta, esta é a sua missão: servir no conhecimento. Como este mundo é diverso daquele que conhecemos atrás, os suportes são diferentes, convivendo com o livro na sua forma tradicional. Nada disto é antagónico, apenas complementar, mas traz consigo outras competências quando temos que lidar com um DVD, um áudio livro, um CD ou até informação cedida pela biblioteca para inserção num Tablet. A biblioteca actual vê-se obrigada a estar “na crista da onda” no que diz respeito às novas tecnologias de informação estabelecendo novos canais dentro do conceito da WEB 2.0, criando portais, estabelecendo uma ligação digital mais próxima com os utilizadores contemporâneos. Questões como a formação de utilizadores ou a alfabetização informática, fazem parte da missão actual das bibliotecas, abraçadas já por alguns espaços de leitura pública. Mas o humano continua lá. Nunca como antes, um serviço de referência de qualidade passou a ser tão necessário, uma espécie de cartão-de-visita da biblioteca. O afecto e a relação, tão necessários à promoção da leitura e da pesquisa, estão lá, ou deverão estar, naquele balcão que acolhe os utilizadores (cit. Rui Miguel Costa). Importa conhecer o leitor que está do lado de lá…Todos sabemos que, num mundo ideal, o primeiro promotor do livro e da leitura será o técnico de bibliotecas que está por detrás do balcão; numa atitude pró-activa ele interage com o utilizador facilitando a pesquisa e promovendo novas descobertas literárias: um mediador do livro.
Ao aprofundar a relação com a comunidade, a biblioteca municipal passa a ter um papel sociocultural e uma missão difusora da cultura cada vez mais comprometida. Surge como evidente a capacidade de propor a inovação pedagógica junto das comunidades que a biblioteca serve. Sucedem-se encontros, exposições, espectáculos, projecções de filmes, feiras do livro e uma vasta oferta de possíveis desafios à comunidade envolvente: iniciativas que servem para cimentar a relação com a cidade. Exemplo disso é a Biblioteca Municipal de Beja que, através das suas propostas faz mexer a cidade, atraindo um sem número de profissionais às “Palavras Andarilhas”.
No que diz respeito ao ensino formal, a biblioteca pública para além de fornecer apoio técnico às bibliotecas escolares, tem convidado esses espaços a participar nas acções pedagógicas do programa de itinerâncias da DGLB, lançando um outro olhar sobre a prática da promoção da leitura nas escolas. Este contacto com propostas inovadoras tem contribuído para a criação de uma programação autónoma e esclarecida na área da promoção do livro e da leitura. Podem as bibliotecas constituir-se como laboratórios inovadores de práticas educativas na área da animação para a literacia, promovendo actividades bem distintas do ensino formal. Uma espécie de território libertado onde professores, animadores e outros técnicos, partilhem outra forma de chegar aos jovens e crianças, futuros leitores, cidadãos do mundo. De notar que cada vez mais a biblioteca municipal é solicitada por escolas profissionais e outras instituições educativas, não abrangidas pela Rede de Bibliotecas Escolares, no sentido de lhes ser facultado apoio na constituição de novos espaços de leitura (cit. Projecto "Tásse a Ler").
Um outro movimento de regresso vai acontecendo por via do labor da Rede de Bibliotecas Escolares: práticas inovadoras vividas nos centros de recursos das escolas podem trazer novas propostas à rede pública. Os professores Bibliotecários acumularam saber ao longo de muitos anos de prática de mediação leitora. (Cito como exemplo o projecto THEKA financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian)
Esta solicitação actual por parte de diferentes grupos da textura social tem vindo a ganhar expressão no apoio a Bibliotecas Prisionais, Bibliotecas Comunitárias, de IPSS, e, até pólos termais, na constituição de colecções, apoio técnico e mediação do livro.
Saliente-se o papel fundamental da biblioteca municipal no lançamento de projectos locais de promoção da leitura, buscando financiamento, estabelecendo parcerias, dando corpo à estrutura da intervenção, usando todo o conhecimento adquirido ao longo de uma prática de décadas.
Assim sendo, não é de estranhar o aparecimento de serviços educativos em biblioteca pública, assumindo os técnicos que aí trabalham a sua função de educadores, em intervenções pedagogicamente inovadoras.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Escritos e Escritores" em Avis

Neste fim de semana rumei até Avis para trabalhar com os jovens da Escola Profissional Abreu Calado. Foi uma sessão animada com forte presença de rapazes e raparigas oriundos de Cabo Verde; oportunidade para falar da cultura crioula e, claro, contar a história dos “Purkinhus di Brejus di Pikus”…consegui arrancar algumas gargalhadas. Depois passámos por Alexandre O’Neill, António Gedeão e Camões numa sequência ritmada de poesias. Falámos da nossa língua, essa fantástica ferramenta de comunicação que nos une. À noite na “Muralha” foi tempo de tertúlia em torno da obra da minha irmã Teresa, intervalada por momentos musicais, isto tudo num ambiente fantástico. Obrigado ACA, quero voltar!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Dar o livro certo"

Iniciei este ciclo de sessões com "A árvore generosa" de Shel Silverstein. A "árvore" foi o mote para a escrita nestes encontros com os reclusos. Também este ser vegetal nas pinturas que vão surgindo aqui no ateliê...

Passar a palavra, comunicar o que há de diferente acontecendo a cada esquina do mundo, é tarefa de jornalistas. Entendo o receio de Fernanda Pinto, a nossa mediadora do livro e da leitura mais experiente em ambiente prisional (DGLB – Programa “Leitura sem fronteiras”). Aquele medo que sempre fica de não ser passada a mensagem correcta daquilo que se faz com gosto e dedicação. Mas é muito importante que outros olhos narrem a nossa labuta. Alexandra Marques transmitiu muito bem nas páginas do jornal de Notícias o ambiente que se viveu nos estabelecimentos prisionais de Odemira e Setúbal quando do meu primeiro ciclo de intervenções e Teresa Sampaio foi responsável por um belo documento televisivo emitido pela RTPN com a chancela do Plano Nacional de Leitura. Agora, Rita Pimenta ("letra pequena"), voz respeitada no universo da literatura infanto-juvenil (e não só) aborda o labor dos mediadores da leitura nos estabelecimentos prisionais. Confesso que me revejo nas páginas da PÚBLICA, reconhecendo o reflexo do meu trabalho nas bibliotecas prisionais; sinal de presença de outros companheiros (poucos) que aí intervêm também. É importante que se fale do nosso trabalho, acordando as tutelas para a responsabilidade desta acção a jusante da nossa sociedade. Em tempos de “conta cêntimos”, sabem vocês quanto custa um recluso ao erário público? E quanto custa uma intervenção educativa? Que efeito pode ter uma acção educativa assertiva junto destas pessoas tresmalhadas pelas circunstâncias da existência? Perguntas às quais apenas posso responder com a minha crença a par do brio, numa actividade que sempre me alarga o horizonte, enchendo-o de humanidade. Mas sei bem quantos livros foram requisitados esta semana em cada estabelecimento prisional…
Obrigado Rita.
Aceder ao artigo aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

2 de Outubro: Caça Texturas na Casa da Achada

 Um domingo ensolarado na freguesia de S. Cristóvão: que bela tarde para “Caçar Texturas! Foi assim que começou mais uma procura de texturas pelas ruas da cidade, com ponto de partida na Casa da Achada. Um passeio calmo, educando o olhar, de lápis e papel na mão, encontrando história nos relevos que surgem nas paredes, passando as mãos por vidros aparentemente lisos ou fazendo surgir em grandes folhas o desenho da calçada de calcário atapetando o chão. Feita a recolha, foi só montar uma exposição no gradeamento fronteiro à Casa. Como sempre, a Claire e os seus compareceram para mais um momento criativo.
Retirado do site da Casa da Achada: "Miguel Horta fez uma oficina na Casa da Achada, com gente de todas as idades, daqui e dalém. Com grafite e lápis de cera foi-se descobrindo em papel as texturas do chão, e não só, e nelas a história de uma cidade: as pedras da calçada, as fábricas metalúrgicas que fizeram tampas disto e daquilo e tantas coisas mais, as matrículas dos automóveis e por aí fora. Esta cidade que ainda se pode descobrir irá mesmo desaparecer?"