quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amor

Perguntaram-me ontem como eu geria as emoções inevitáveis que surgem ao longo das sessões de leitura e de escrita em estabelecimentos prisionais. Será que sou imune aos rasgos de alma gerados na tensão do cárcere? Não. Apenas adio para mais tarde a expressão do sentido, curada por vezes na correnteza da escrita. Mas enquanto estou dentro da biblioteca prisional visto-me como referência, como mediador no meio de gente ali chegada por diferentes veredas da vida.

Peço a Mohamed, jovem do Magrebe, que me escolha uma palavra e a escreva no grande papel da “Máquina da poesia”, exercício para estimular a escrita poética. Ele dá a entender que domina mal a nossa língua e que irá escrever em árabe. E escreve da direita para a esquerda numa grafia elegante: الحب. “Que significa?” Pergunto. E ele responde: Amor. A partir daí que surge uma grande conversa sobre a cultura muçulmana. Depois, aplicaram-se na escrita de pequenos Haiku partindo das palavras escolhidas.
Hoje mostrei o livro “Eu espero” de Davide Cali e Serge Bloch, passando as páginas devagar e lendo pausadamente as pequenas legendas. O efeito foi forte. Depois perguntei a cada um o que esperava. E começou: “Eu espero a paz” “Eu espero a liberdade” “Eu espero ser um homem melhor” “Eu espero regressar a casa com dignidade” A densidade das emoções foi crescendo até chegar a um recluso que afirmou esperar que inventassem um novo medicamento retrovírico para curar a sua terrível doença. As lágrimas têm cheiro, mesmo aquelas que ficam retidas a meio do caminho.
Já agora, sabem como se escreve “coração”? O Mohamed ensinou-me: القلب

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na orla do mar

Fotografia de António Ventura
Discorrer. Por vezes o ofício da pintura é obsessivo e demasiado fechado no espaço contido pelas quatro paredes do ateliê. Pensa-se demais… O artista é como um monstro enclausurado, Minotauro deambulando eternamente no labirinto sem dar explicações sobre o seu movimento perpétuo. Largo a trincha e lavo as mãos, movimentos lentos sob o fio de água da torneira libertando-me do ofício que ficou agarrado às mãos.
 Viro-me para a vida! Primeiro para os “meus” num aceno angustiado, talvez pelo remorso do adiamento de uma comunicação que me fará mais inteiro: sou pai, sou amante e sou amigo. Pego no telefone em busca de redenção. “Sim, estou bem. Cá vou. Que estás a fazer? Sentes saudades? Também penso em ti, sempre”. Depois o sinal intermitente de fim de ligação. Então, abro a porta metálica e azul que dá para a rua: os vizinhos e suas conversas pequenas com sabor a meia de leite, os operários que estão a construir a via rápida que são boçais mas dão movimento à vila e o som do mar lá ao longe na praia, chamando-me. Recorro à linha de costa no constante bulir de onda na rebentação para me coincidir, mas esta contemplação apenas me devolve um território lato, familiar. Não quero pensar sobre nada enquanto deixo pegadas impressas na superfície de areia, junto ao arraial da Fonte da Telha. Aí, sou apenas um homem simples que caminha pela orla marítima e descalça os seus ténis, jogando-os em seguida para a areia seca sob o riso sarcástico das gaivotas que também por ali estão ao entardecer. As vagas enviam-me uma espuma fria que molha os pés; arrepio-me mas não fujo. “Olha…já molhei as calças…”. Sorrio e sigo adiante rumo ao sul num conciliábulo ritmado pelos avanços do mar. As marés invadem-me em pensamentos que nunca registo, apenas me deixo ir pela zona entre marés. Há quantos anos faço este percurso?
Uma onda deixou a descoberto um pequeno objecto meio enterrado na densidade da areia… um salvado. Recolho o achado e paro, olhando com os dedos as funções e o tempo daquela peça: Bolso dentro nas calças molhadas! Tem a ver com a Pintura…
Dou meia volta em direcção ao carro que ficou lá muito ao longe, estacionado entre as dunas. “O frio começa a penetrar neste Setembro” – penso. E ajeito a blusa contra os ombros estugando o passo. Já os pescadores começam a faina da Xávega, aproveitando o ameno e a maré vazia: tractor sobre a praia, vociferando ordens enquanto o resto da companha lá fora na barca, inicia a manobra de cerco do peixe. Cabos puxados pelos rotores das máquinas, mistura de vozes, com risos misturados de mulheres. Estaco deleitado pela luz e pelo movimento no meio da noite que cai e espero com a mesma interrogação dos recolectores: “Que peixe virá? Será carapau branco?” E ali fico encandeado pela luz dos projectores, pelo movimento da rede que se aproxima da costa. Então o saco fica à vista e num último impulso é arrastado para seco. Os peixes vêem fervilhando em luz num sacudir incessante, debatendo-se nas malhas. Duas mãos rudes e desenvoltas abrem as costuras da rede que se abre sobre a areia como um leque luminoso revelando a pescaria. Parecem vestidos de prata, os peixes! Imediatamente outras mãos apressadas começam a tarefa de separação da captura colocando em caixas de plástico laranja as diferentes espécies obtidas. “Quer um chicharrinho, professor?” Aceito de bom grado o saco de plástico que me estendem. Depois lá se vão, luminosos, tractor roncando pela praia, transportando a rede rebocada pela areia no côncavo de uma parabólica invertida. Fico ali sorridente, conquistado, em frente ao oceano já escuro, enquanto eles se afastam para norte.. O meu carro está logo ali entre o vulto de duas dunas. No assento, o telemóvel pisca num sem número de chamadas não atendidas. Sigo para casa, para a casa da pintura. Mas nesta noite só desenharei com as palavras.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Margarida




Como é que alguém se torna mediador cultural? Existe uma receita? Talvez seja um movimento imperceptível que se opera numa pessoa tornando-a uma comunicadora de ideias, uma semeadora de reflexões. Uma espécie de um vento rebelde que nos impele mais para a frente. Hoje quero falar da Margarida, mulher esguia, sequinha (como se diz na serra do Algarve), mas grande, muito grande na tarefa da comunicação. Com ela tenho partilhado os últimos anos de crescimento na mediação museológica, lançando as mãos onde muito poucos se atrevem. Temos desenvolvido ideias e conceitos no estranho campo das necessidades educativas especiais. E o ponto de partida é sempre o mesmo: a nossa essência sincera e o amontoado de interrogações que temos pressa em responder. A cada desafio, lançamos as perguntas e corporizamos a prática, bem visível, nas “Oficinas Museu Aberto” do Centro de Arte Moderna. E é bela esta mulher quando nos ensina a falar com o corpo buscando as fronteiras que desconhecemos! Gosto de ver os sorrisos daqueles que nos visitam, quando interagem com a Margarida, lembrando-nos que o Museu é uma casa de todos nós. É intensa a história que nos une, mais intensos os objectivos que nos mantêm, neste rodopiar da descoberta. Os caminhos levam-nos ao momento. O momento é do fazer, consciente e imaginativo. Obrigado Margarida Vieira, obrigado Guida.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

caracol

Há muito tempo que não desenhava um logótipo. Primeiro surge um impulso intuitivo para o qual não há grande explicação. Depois, um trabalho de síntese, de desenho concentrado. O Emílio e a Ana desafiaram-me a criar uma imagem para a Associação de Saúde Mental Infanto-juvenil. Pensei no autismo e na enorme dificuldade que tenho em chegar junto dos jovens e crianças com que trabalhamos no Centro de Arte Moderna. Quando me aproximo, eles recolhem-se na sua casca de caracol ou de nautilus como diz o Emílio. É um mundo secreto, interior este onde pretendemos chegar e sobre o qual ainda não temos dados suficientes para o entender satisfatoriamente. Por outro lado surgiu-me a ideia da protecção, daí o aparecimento da mão que envolve mas age. Essa mão pertence aquele ser enrolado sobre si; poderemos encontrar uma alusão ao trabalho que o próprio individuo faz interiormente, desenrolando-se à medida que comunica com o mundo. Há também aquele umbigo no centro do caracol, barriga e abrigo…

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O cão do pescador

O cão estava lá sobre o areal. De vez em quando farejava a água; deixava que as ondas lhe lambessem os pés. Deambulava nervoso junto à rebentação, maneando a cauda e olhando o mar. Depois parara, patas afincadas na areia branca e fitara-me com um olhar impreciso, velando-me uma história que não conseguia abarcar. Juraria que lhe havia escutado um ligeiro ganir de preocupação, mas não: deitara-se sobre o solo, focinho apoiado sobre as patas dianteiras., Aí sim, vislumbrei um olhar triste e logo ocultado pelas suas pálpebras semicerradas. Adivinhando algo, levanta-se de supetão, orelhas bem espetadas numa jovialidade estranha à sua aparente idade avançada. Primeiro um ponto negro na baía, depois desenhando-se claro o contorno de um barco a remos cortando a superfície do oceano. A imagem foi ficando nítida e o cão começou a latir de contente, uma espécie de monólogo sonoro ali no meio da praia. O bote seguia impulsionado por um homem corpulento, de oleado e chapéu sobre os olhos. O animal venceu a hesitação, lançando-se às ondas num nadar de patas cruzadas e apressadas. Passou a linha da espuma em direcção à pequena embarcação que seguia ritmada na direcção de terra. Uma cabecinha encimando a superficie das águas. O pescador suspendeu o movimento dos remos ao ver o cão nadando na sua direcção. Espera e recolhe o animal de pelo escuro num abraço, poisando-o no fundo do saveiro. Logo ele sacode o pêlo molhado num movimento rápido que começara na cabeça e só terminando na cauda, molhando o rosto rude do homem. O pescador sorri afagando o bicho no cachaço e retoma o movimento dos remos fendendo o mar ameno em direcção à praia. Vara o barco sobre a areia, arrumando os remos debaixo do banco. Logo o cão salta ladrando alegremente dando voltas estouvadas em torno do dono. Mais um puxão possante no barco e este fica a salvo da preia-mar. Num gesto lesto retira uma saca do fundo do bote apoiando-a no ombro e afastam-se os dois no areal, deixando pegadas de uma amizade antiga. A tarde vem caindo e ainda oiço a conversa do cão, lá ao longe no carreiro que conduz à estrada de alcatrão.