sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O cão do pescador

O cão estava lá sobre o areal. De vez em quando farejava a água; deixava que as ondas lhe lambessem os pés. Deambulava nervoso junto à rebentação, maneando a cauda e olhando o mar. Depois parara, patas afincadas na areia branca e fitara-me com um olhar impreciso, velando-me uma história que não conseguia abarcar. Juraria que lhe havia escutado um ligeiro ganir de preocupação, mas não: deitara-se sobre o solo, focinho apoiado sobre as patas dianteiras., Aí sim, vislumbrei um olhar triste e logo ocultado pelas suas pálpebras semicerradas. Adivinhando algo, levanta-se de supetão, orelhas bem espetadas numa jovialidade estranha à sua aparente idade avançada. Primeiro um ponto negro na baía, depois desenhando-se claro o contorno de um barco a remos cortando a superfície do oceano. A imagem foi ficando nítida e o cão começou a latir de contente, uma espécie de monólogo sonoro ali no meio da praia. O bote seguia impulsionado por um homem corpulento, de oleado e chapéu sobre os olhos. O animal venceu a hesitação, lançando-se às ondas num nadar de patas cruzadas e apressadas. Passou a linha da espuma em direcção à pequena embarcação que seguia ritmada na direcção de terra. Uma cabecinha encimando a superficie das águas. O pescador suspendeu o movimento dos remos ao ver o cão nadando na sua direcção. Espera e recolhe o animal de pelo escuro num abraço, poisando-o no fundo do saveiro. Logo ele sacode o pêlo molhado num movimento rápido que começara na cabeça e só terminando na cauda, molhando o rosto rude do homem. O pescador sorri afagando o bicho no cachaço e retoma o movimento dos remos fendendo o mar ameno em direcção à praia. Vara o barco sobre a areia, arrumando os remos debaixo do banco. Logo o cão salta ladrando alegremente dando voltas estouvadas em torno do dono. Mais um puxão possante no barco e este fica a salvo da preia-mar. Num gesto lesto retira uma saca do fundo do bote apoiando-a no ombro e afastam-se os dois no areal, deixando pegadas de uma amizade antiga. A tarde vem caindo e ainda oiço a conversa do cão, lá ao longe no carreiro que conduz à estrada de alcatrão.

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