segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mi corazón Porteño

Um homem de meia-idade e uma mulher mais velha param na esquina da avenida de Mayo junto à esplanada do “Iberia,”ao ritmo da conversa, esperando que o sinal fique branco para os peões. “Mama, no te quiero escuchar más hablando de Papá!”. O homem está crispado com a sua mãe, suponho. Escuto porque estou à porta do restaurante a fumar, lá dentro é proibido. Passa um táxi negro e amarelo crómio, cor de banana madura. O sinal muda e atravessam na passadeira, o filho sempre gesticulando para a mãe silenciosa. São engolidos pelo buliço de Buenos Aires onde as pessoas caminham mais devagar do que em Nova Iorque. Lembro-me da velocidade dos passos pelo passeio de cimento. A rua está cheia de cartazes por tudo quanto é tapume e os postes que semeiam a rua têm papeis rosa colados anunciando noites licenciosas na cidade “Portenha”. Muitos cafés e restaurantes de diversas origens gastronómicas ficam abertos até tarde, a hora em que jovens migrantes humildes e embriagados percorrem as ruas esquadrinhadas por marginais oportunistas do pequeno crime. Duas quadras para lá e já a cidade é segura.

Conduzem como loucos avenida de Mayo fora até à praça “de las Madres” numa intuição de condução interdita a volantes europeus. Ninguém choca… autocarros de números garrafais anunciando o destino e ostentando cores diferentes evitam táxis no último momento. Uma manifestação ciclista por uma via exclusiva na cidade lança o caos nas avenidas verticais que conferem uma textura característica à cidade do rio da Prata.
Passam na rua os Argentinos, sem medo no olhar, sem excesso nos gestos, vestidos de forma simples e cuidada, largando tiradas com graças quando os interpelamos, gostam de comunicar, são curiosos, bons garfos e …melómanos nas mais variadas cambiantes do Cumbre ao Tango. Carregam secretas as sombras do seu passado contemporâneo e trágico, que surge com força na poesia e na emoção que põem em cada conversa, quando se decidem a falar da sua história. Os cultos são leitores e as mulheres grandes e insinuantes. Os mais velhos participam na sociedade e encontrei muitos jovens empenhados e esclarecidos.
Sacudo o cachimbo contra a parede do prédio neoclássico onde está instalado o restaurante. Sente-se na urbe a presença do princípio de século endinheirado, reflectindo a arquitectura diversas influências, hispânica, Italiana e até afrancesada, o resto periférico é a desordem ruidosa que reconheço de outras cidades da América Latina. Pago a conta deixando algo para as empregadas distintamente vestidas. Hora de voltar ao hotel para uma pequena sesta; uma excursão de Brasileiros barulhentos desinquietou o sono dos hóspedes a noite inteira. Volto à paz, ao “hotel de la Paix”.

2 comentários:

  1. obrigado por nos levares na bagagem nessa tua viagem... é tão bom ler-te a ti e aos teus caminhos! bjñs

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  2. A Patrícia fartou-se de perguntar por ti....e manda beijinhos

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