quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sentimento vegetal

Sempre fui recolector, curioso, enchendo o ateliê de objetos e salvados, alguns encontrados adormecidos na areia das praias. No inverno procuro por aqui e por ali pedaços de madeira, lenha que aqueça as noites deste estúdio por vezes muito frio. Crepitará alegre a minha salamandra.... Como não vivo no campo, deambulo pelas redondezas recolhendo o combustível que ajuda a secar as telas. Queimo troncos de roseira, interrompidos no seu crescimento em direção à beleza pelos proprietários Charnequeiros que por desfastio ou conceito estético se decidem a cortar o arbusto produtor de flores nos quintais das suas tristes e feias vivendas. São seres interrompidos, como se fossem pessoas a quem lhes é negada a continuação. Observo,…acaricio e entendo como se podem constituir como metáforas da nossa própria existência, também com cabeça tronco e membros. Leio os matizes e a involuntária expressão dos rudes golpes sobre os ramos. Inevitavelmente, algum deste sentimento vegetal irá parar à minha pintura.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Troncos e Marés"

 Acrílico e cascas de pistachio sobre tela - 90x150
Ao fim de alguns anos de ausência, finalmente vou mostrar pintura em Lisboa. Será na sexta feira dia 13 de janeiro (bela data!) na galeria Appleton Square (rua Acácio Paiva nº 27 R/c - Alvalade). Inauguração no dia 13 de Janeiro às 22 horas. A exposição encerra a 4 de Fevereiro. Estão todos convidados.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sapatinho de Nossa Senhora

A concha favorita de minha mãe era o “sapatinho de Nossa senhora”. “Lapa real”, como os pescadores do laredo a conhecem. Mas para mim era mesmo calçado divino. Em criança ficava a imaginar uma nossa senhora bem pequenina cujo pé caberia naquela pequena concha matizada.
Costumava rezar com os meus irmãos em frente a um pequeno oratório que a minha mãe abria lá no seu quarto, revelando uma Virgem com tons de pérola, frágil e misteriosa. Rezávamos ajoelhados no chão do quarto e as preces eram tristes, numa sequência de orações que continuam a ecoar dentro de mim. Um verso repetido, tocava fundo no meu coração de criança: “Neste vale de lágrimas”, repetido vezes sem conta ao lado dos meus irmãos bem comportados…”Neste vale de lágrimas”.
Lembrei-me sempre deste verso da oração nos dias terríveis: um enorme vale com lágrimas escorrendo dos glaciares, uma montanha que chorava alimentando um lago, que no fundo do vale, refletia a angústia dos dias vividos.
A nossa mãe ficou doente, muito. Uma flor crescendo no interior do seu corpo, naquele espaço exíguo, familiar e morno que me abrigou antes do parto. Um nenúfar como o de Chloe de Boris Vian que medrando a roubou de nós. Um dia, já ela estava muito doente, naquele mesmo quarto, ajudei-a sentar-se na cama. Os braços em volta erguendo: como estava leve. Leve como uma pequena nossa senhora que aos poucos nos deixava caminhando suavemente sobre as águas mansas da maré vazia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Clube da Palavra" ao vivo

Vai ser uma sensação pisar o palco do Teatro S. Luiz (Jardim de Inverno) levando as minhas histórias. Este programa do canal Q (Meo) tem registado algumas das minhas oralidades a par de outras dos nossos jovens rappers da Cova da Moura. Não percam! Vejam aqui o programa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Biblioteca pública: Um olhar de mediador cultural

Poucos antes de partir para Castro Daire, respondendo ao convite para participar no encontro "Monte(muro) de Leituras" aqui deixo um texto a propósito do tema do painel onde irei participar amanhã. Tenho pena que o tempo esteja assim tão mau pois é certo que aproveitaria para dar um passeio pelo Montemuro.
Quando iniciei a minha actividade em biblioteca pública, como mediador cultural, pouco sabia da natureza daquele espaço que acabara de aceitar as minhas propostas de promoção do livro e da leitura. Era urgente saber mais, entender a estrutura inserida na realidade comunitária, as suas fronteiras, o funcionamento e as pessoas que lá trabalhavam o dia inteiro. Não seria possível desenvolver uma actividade num determinado local, sem compreender os sinais que o caracterizam. Saber o que era a catalogação e uma cota (o que é a CDU), como funciona o balcão de atendimento, o depósito e todos os outros serviços postos à disposição do utilizador. Era mais do que um edifício, parecia uma espécie de ser vivo do qual necessitava de entender a respiração. Por isso conversei, perguntador como sempre, olhando toda uma paisagem em volta. Interrogo-me sobre o papel das bibliotecas municipais neste início de século, de modernidade líquida (cit. Zygmunt Bauman), em constante mutação. E penso na relação entre as pessoas no mundo contemporâneo, na circulação da informação, do saber, da cultura, num mundo cada vez mais fechado num retorno ao privado (cit. Orlando Garcia) que nos faz perigar. Julgo descortinar na Biblioteca o espaço antigo da ágora; local de partilha de todos os referentes culturais que fazem crescer uma comunidade em direcção à maturidade. Sem se darem conta da transformação que as envolveu, as bibliotecas municipais constituem-se hoje como plataformas culturais dentro das comunidades onde estão inseridas, sem entenderem muito bem esse novo papel para onde foram levadas. De repente são uma espécie de serviço de proximidade cultural, referente dos habitantes. Chegam pessoas e grupos muito diferentes ao serviço de referência, com motivações variadas e graus de literacia nunca antes vistos em espaços culturais. E a biblioteca tem de dar resposta, esta é a sua missão: servir no conhecimento. Como este mundo é diverso daquele que conhecemos atrás, os suportes são diferentes, convivendo com o livro na sua forma tradicional. Nada disto é antagónico, apenas complementar, mas traz consigo outras competências quando temos que lidar com um DVD, um áudio livro, um CD ou até informação cedida pela biblioteca para inserção num Tablet. A biblioteca actual vê-se obrigada a estar “na crista da onda” no que diz respeito às novas tecnologias de informação estabelecendo novos canais dentro do conceito da WEB 2.0, criando portais, estabelecendo uma ligação digital mais próxima com os utilizadores contemporâneos. Questões como a formação de utilizadores ou a alfabetização informática, fazem parte da missão actual das bibliotecas, abraçadas já por alguns espaços de leitura pública. Mas o humano continua lá. Nunca como antes, um serviço de referência de qualidade passou a ser tão necessário, uma espécie de cartão-de-visita da biblioteca. O afecto e a relação, tão necessários à promoção da leitura e da pesquisa, estão lá, ou deverão estar, naquele balcão que acolhe os utilizadores (cit. Rui Miguel Costa). Importa conhecer o leitor que está do lado de lá…Todos sabemos que, num mundo ideal, o primeiro promotor do livro e da leitura será o técnico de bibliotecas que está por detrás do balcão; numa atitude pró-activa ele interage com o utilizador facilitando a pesquisa e promovendo novas descobertas literárias: um mediador do livro.
Ao aprofundar a relação com a comunidade, a biblioteca municipal passa a ter um papel sociocultural e uma missão difusora da cultura cada vez mais comprometida. Surge como evidente a capacidade de propor a inovação pedagógica junto das comunidades que a biblioteca serve. Sucedem-se encontros, exposições, espectáculos, projecções de filmes, feiras do livro e uma vasta oferta de possíveis desafios à comunidade envolvente: iniciativas que servem para cimentar a relação com a cidade. Exemplo disso é a Biblioteca Municipal de Beja que, através das suas propostas faz mexer a cidade, atraindo um sem número de profissionais às “Palavras Andarilhas”.
No que diz respeito ao ensino formal, a biblioteca pública para além de fornecer apoio técnico às bibliotecas escolares, tem convidado esses espaços a participar nas acções pedagógicas do programa de itinerâncias da DGLB, lançando um outro olhar sobre a prática da promoção da leitura nas escolas. Este contacto com propostas inovadoras tem contribuído para a criação de uma programação autónoma e esclarecida na área da promoção do livro e da leitura. Podem as bibliotecas constituir-se como laboratórios inovadores de práticas educativas na área da animação para a literacia, promovendo actividades bem distintas do ensino formal. Uma espécie de território libertado onde professores, animadores e outros técnicos, partilhem outra forma de chegar aos jovens e crianças, futuros leitores, cidadãos do mundo. De notar que cada vez mais a biblioteca municipal é solicitada por escolas profissionais e outras instituições educativas, não abrangidas pela Rede de Bibliotecas Escolares, no sentido de lhes ser facultado apoio na constituição de novos espaços de leitura (cit. Projecto "Tásse a Ler").
Um outro movimento de regresso vai acontecendo por via do labor da Rede de Bibliotecas Escolares: práticas inovadoras vividas nos centros de recursos das escolas podem trazer novas propostas à rede pública. Os professores Bibliotecários acumularam saber ao longo de muitos anos de prática de mediação leitora. (Cito como exemplo o projecto THEKA financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian)
Esta solicitação actual por parte de diferentes grupos da textura social tem vindo a ganhar expressão no apoio a Bibliotecas Prisionais, Bibliotecas Comunitárias, de IPSS, e, até pólos termais, na constituição de colecções, apoio técnico e mediação do livro.
Saliente-se o papel fundamental da biblioteca municipal no lançamento de projectos locais de promoção da leitura, buscando financiamento, estabelecendo parcerias, dando corpo à estrutura da intervenção, usando todo o conhecimento adquirido ao longo de uma prática de décadas.
Assim sendo, não é de estranhar o aparecimento de serviços educativos em biblioteca pública, assumindo os técnicos que aí trabalham a sua função de educadores, em intervenções pedagogicamente inovadoras.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Escritos e Escritores" em Avis

Neste fim de semana rumei até Avis para trabalhar com os jovens da Escola Profissional Abreu Calado. Foi uma sessão animada com forte presença de rapazes e raparigas oriundos de Cabo Verde; oportunidade para falar da cultura crioula e, claro, contar a história dos “Purkinhus di Brejus di Pikus”…consegui arrancar algumas gargalhadas. Depois passámos por Alexandre O’Neill, António Gedeão e Camões numa sequência ritmada de poesias. Falámos da nossa língua, essa fantástica ferramenta de comunicação que nos une. À noite na “Muralha” foi tempo de tertúlia em torno da obra da minha irmã Teresa, intervalada por momentos musicais, isto tudo num ambiente fantástico. Obrigado ACA, quero voltar!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Dar o livro certo"

Iniciei este ciclo de sessões com "A árvore generosa" de Shel Silverstein. A "árvore" foi o mote para a escrita nestes encontros com os reclusos. Também este ser vegetal nas pinturas que vão surgindo aqui no ateliê...

Passar a palavra, comunicar o que há de diferente acontecendo a cada esquina do mundo, é tarefa de jornalistas. Entendo o receio de Fernanda Pinto, a nossa mediadora do livro e da leitura mais experiente em ambiente prisional (DGLB – Programa “Leitura sem fronteiras”). Aquele medo que sempre fica de não ser passada a mensagem correcta daquilo que se faz com gosto e dedicação. Mas é muito importante que outros olhos narrem a nossa labuta. Alexandra Marques transmitiu muito bem nas páginas do jornal de Notícias o ambiente que se viveu nos estabelecimentos prisionais de Odemira e Setúbal quando do meu primeiro ciclo de intervenções e Teresa Sampaio foi responsável por um belo documento televisivo emitido pela RTPN com a chancela do Plano Nacional de Leitura. Agora, Rita Pimenta ("letra pequena"), voz respeitada no universo da literatura infanto-juvenil (e não só) aborda o labor dos mediadores da leitura nos estabelecimentos prisionais. Confesso que me revejo nas páginas da PÚBLICA, reconhecendo o reflexo do meu trabalho nas bibliotecas prisionais; sinal de presença de outros companheiros (poucos) que aí intervêm também. É importante que se fale do nosso trabalho, acordando as tutelas para a responsabilidade desta acção a jusante da nossa sociedade. Em tempos de “conta cêntimos”, sabem vocês quanto custa um recluso ao erário público? E quanto custa uma intervenção educativa? Que efeito pode ter uma acção educativa assertiva junto destas pessoas tresmalhadas pelas circunstâncias da existência? Perguntas às quais apenas posso responder com a minha crença a par do brio, numa actividade que sempre me alarga o horizonte, enchendo-o de humanidade. Mas sei bem quantos livros foram requisitados esta semana em cada estabelecimento prisional…
Obrigado Rita.
Aceder ao artigo aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

2 de Outubro: Caça Texturas na Casa da Achada

 Um domingo ensolarado na freguesia de S. Cristóvão: que bela tarde para “Caçar Texturas! Foi assim que começou mais uma procura de texturas pelas ruas da cidade, com ponto de partida na Casa da Achada. Um passeio calmo, educando o olhar, de lápis e papel na mão, encontrando história nos relevos que surgem nas paredes, passando as mãos por vidros aparentemente lisos ou fazendo surgir em grandes folhas o desenho da calçada de calcário atapetando o chão. Feita a recolha, foi só montar uma exposição no gradeamento fronteiro à Casa. Como sempre, a Claire e os seus compareceram para mais um momento criativo.
Retirado do site da Casa da Achada: "Miguel Horta fez uma oficina na Casa da Achada, com gente de todas as idades, daqui e dalém. Com grafite e lápis de cera foi-se descobrindo em papel as texturas do chão, e não só, e nelas a história de uma cidade: as pedras da calçada, as fábricas metalúrgicas que fizeram tampas disto e daquilo e tantas coisas mais, as matrículas dos automóveis e por aí fora. Esta cidade que ainda se pode descobrir irá mesmo desaparecer?"



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amor

Perguntaram-me ontem como eu geria as emoções inevitáveis que surgem ao longo das sessões de leitura e de escrita em estabelecimentos prisionais. Será que sou imune aos rasgos de alma gerados na tensão do cárcere? Não. Apenas adio para mais tarde a expressão do sentido, curada por vezes na correnteza da escrita. Mas enquanto estou dentro da biblioteca prisional visto-me como referência, como mediador no meio de gente ali chegada por diferentes veredas da vida.

Peço a Mohamed, jovem do Magrebe, que me escolha uma palavra e a escreva no grande papel da “Máquina da poesia”, exercício para estimular a escrita poética. Ele dá a entender que domina mal a nossa língua e que irá escrever em árabe. E escreve da direita para a esquerda numa grafia elegante: الحب. “Que significa?” Pergunto. E ele responde: Amor. A partir daí que surge uma grande conversa sobre a cultura muçulmana. Depois, aplicaram-se na escrita de pequenos Haiku partindo das palavras escolhidas.
Hoje mostrei o livro “Eu espero” de Davide Cali e Serge Bloch, passando as páginas devagar e lendo pausadamente as pequenas legendas. O efeito foi forte. Depois perguntei a cada um o que esperava. E começou: “Eu espero a paz” “Eu espero a liberdade” “Eu espero ser um homem melhor” “Eu espero regressar a casa com dignidade” A densidade das emoções foi crescendo até chegar a um recluso que afirmou esperar que inventassem um novo medicamento retrovírico para curar a sua terrível doença. As lágrimas têm cheiro, mesmo aquelas que ficam retidas a meio do caminho.
Já agora, sabem como se escreve “coração”? O Mohamed ensinou-me: القلب

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na orla do mar

Fotografia de António Ventura
Discorrer. Por vezes o ofício da pintura é obsessivo e demasiado fechado no espaço contido pelas quatro paredes do ateliê. Pensa-se demais… O artista é como um monstro enclausurado, Minotauro deambulando eternamente no labirinto sem dar explicações sobre o seu movimento perpétuo. Largo a trincha e lavo as mãos, movimentos lentos sob o fio de água da torneira libertando-me do ofício que ficou agarrado às mãos.
 Viro-me para a vida! Primeiro para os “meus” num aceno angustiado, talvez pelo remorso do adiamento de uma comunicação que me fará mais inteiro: sou pai, sou amante e sou amigo. Pego no telefone em busca de redenção. “Sim, estou bem. Cá vou. Que estás a fazer? Sentes saudades? Também penso em ti, sempre”. Depois o sinal intermitente de fim de ligação. Então, abro a porta metálica e azul que dá para a rua: os vizinhos e suas conversas pequenas com sabor a meia de leite, os operários que estão a construir a via rápida que são boçais mas dão movimento à vila e o som do mar lá ao longe na praia, chamando-me. Recorro à linha de costa no constante bulir de onda na rebentação para me coincidir, mas esta contemplação apenas me devolve um território lato, familiar. Não quero pensar sobre nada enquanto deixo pegadas impressas na superfície de areia, junto ao arraial da Fonte da Telha. Aí, sou apenas um homem simples que caminha pela orla marítima e descalça os seus ténis, jogando-os em seguida para a areia seca sob o riso sarcástico das gaivotas que também por ali estão ao entardecer. As vagas enviam-me uma espuma fria que molha os pés; arrepio-me mas não fujo. “Olha…já molhei as calças…”. Sorrio e sigo adiante rumo ao sul num conciliábulo ritmado pelos avanços do mar. As marés invadem-me em pensamentos que nunca registo, apenas me deixo ir pela zona entre marés. Há quantos anos faço este percurso?
Uma onda deixou a descoberto um pequeno objecto meio enterrado na densidade da areia… um salvado. Recolho o achado e paro, olhando com os dedos as funções e o tempo daquela peça: Bolso dentro nas calças molhadas! Tem a ver com a Pintura…
Dou meia volta em direcção ao carro que ficou lá muito ao longe, estacionado entre as dunas. “O frio começa a penetrar neste Setembro” – penso. E ajeito a blusa contra os ombros estugando o passo. Já os pescadores começam a faina da Xávega, aproveitando o ameno e a maré vazia: tractor sobre a praia, vociferando ordens enquanto o resto da companha lá fora na barca, inicia a manobra de cerco do peixe. Cabos puxados pelos rotores das máquinas, mistura de vozes, com risos misturados de mulheres. Estaco deleitado pela luz e pelo movimento no meio da noite que cai e espero com a mesma interrogação dos recolectores: “Que peixe virá? Será carapau branco?” E ali fico encandeado pela luz dos projectores, pelo movimento da rede que se aproxima da costa. Então o saco fica à vista e num último impulso é arrastado para seco. Os peixes vêem fervilhando em luz num sacudir incessante, debatendo-se nas malhas. Duas mãos rudes e desenvoltas abrem as costuras da rede que se abre sobre a areia como um leque luminoso revelando a pescaria. Parecem vestidos de prata, os peixes! Imediatamente outras mãos apressadas começam a tarefa de separação da captura colocando em caixas de plástico laranja as diferentes espécies obtidas. “Quer um chicharrinho, professor?” Aceito de bom grado o saco de plástico que me estendem. Depois lá se vão, luminosos, tractor roncando pela praia, transportando a rede rebocada pela areia no côncavo de uma parabólica invertida. Fico ali sorridente, conquistado, em frente ao oceano já escuro, enquanto eles se afastam para norte.. O meu carro está logo ali entre o vulto de duas dunas. No assento, o telemóvel pisca num sem número de chamadas não atendidas. Sigo para casa, para a casa da pintura. Mas nesta noite só desenharei com as palavras.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Margarida




Como é que alguém se torna mediador cultural? Existe uma receita? Talvez seja um movimento imperceptível que se opera numa pessoa tornando-a uma comunicadora de ideias, uma semeadora de reflexões. Uma espécie de um vento rebelde que nos impele mais para a frente. Hoje quero falar da Margarida, mulher esguia, sequinha (como se diz na serra do Algarve), mas grande, muito grande na tarefa da comunicação. Com ela tenho partilhado os últimos anos de crescimento na mediação museológica, lançando as mãos onde muito poucos se atrevem. Temos desenvolvido ideias e conceitos no estranho campo das necessidades educativas especiais. E o ponto de partida é sempre o mesmo: a nossa essência sincera e o amontoado de interrogações que temos pressa em responder. A cada desafio, lançamos as perguntas e corporizamos a prática, bem visível, nas “Oficinas Museu Aberto” do Centro de Arte Moderna. E é bela esta mulher quando nos ensina a falar com o corpo buscando as fronteiras que desconhecemos! Gosto de ver os sorrisos daqueles que nos visitam, quando interagem com a Margarida, lembrando-nos que o Museu é uma casa de todos nós. É intensa a história que nos une, mais intensos os objectivos que nos mantêm, neste rodopiar da descoberta. Os caminhos levam-nos ao momento. O momento é do fazer, consciente e imaginativo. Obrigado Margarida Vieira, obrigado Guida.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

caracol

Há muito tempo que não desenhava um logótipo. Primeiro surge um impulso intuitivo para o qual não há grande explicação. Depois, um trabalho de síntese, de desenho concentrado. O Emílio e a Ana desafiaram-me a criar uma imagem para a Associação de Saúde Mental Infanto-juvenil. Pensei no autismo e na enorme dificuldade que tenho em chegar junto dos jovens e crianças com que trabalhamos no Centro de Arte Moderna. Quando me aproximo, eles recolhem-se na sua casca de caracol ou de nautilus como diz o Emílio. É um mundo secreto, interior este onde pretendemos chegar e sobre o qual ainda não temos dados suficientes para o entender satisfatoriamente. Por outro lado surgiu-me a ideia da protecção, daí o aparecimento da mão que envolve mas age. Essa mão pertence aquele ser enrolado sobre si; poderemos encontrar uma alusão ao trabalho que o próprio individuo faz interiormente, desenrolando-se à medida que comunica com o mundo. Há também aquele umbigo no centro do caracol, barriga e abrigo…

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O cão do pescador

O cão estava lá sobre o areal. De vez em quando farejava a água; deixava que as ondas lhe lambessem os pés. Deambulava nervoso junto à rebentação, maneando a cauda e olhando o mar. Depois parara, patas afincadas na areia branca e fitara-me com um olhar impreciso, velando-me uma história que não conseguia abarcar. Juraria que lhe havia escutado um ligeiro ganir de preocupação, mas não: deitara-se sobre o solo, focinho apoiado sobre as patas dianteiras., Aí sim, vislumbrei um olhar triste e logo ocultado pelas suas pálpebras semicerradas. Adivinhando algo, levanta-se de supetão, orelhas bem espetadas numa jovialidade estranha à sua aparente idade avançada. Primeiro um ponto negro na baía, depois desenhando-se claro o contorno de um barco a remos cortando a superfície do oceano. A imagem foi ficando nítida e o cão começou a latir de contente, uma espécie de monólogo sonoro ali no meio da praia. O bote seguia impulsionado por um homem corpulento, de oleado e chapéu sobre os olhos. O animal venceu a hesitação, lançando-se às ondas num nadar de patas cruzadas e apressadas. Passou a linha da espuma em direcção à pequena embarcação que seguia ritmada na direcção de terra. Uma cabecinha encimando a superficie das águas. O pescador suspendeu o movimento dos remos ao ver o cão nadando na sua direcção. Espera e recolhe o animal de pelo escuro num abraço, poisando-o no fundo do saveiro. Logo ele sacode o pêlo molhado num movimento rápido que começara na cabeça e só terminando na cauda, molhando o rosto rude do homem. O pescador sorri afagando o bicho no cachaço e retoma o movimento dos remos fendendo o mar ameno em direcção à praia. Vara o barco sobre a areia, arrumando os remos debaixo do banco. Logo o cão salta ladrando alegremente dando voltas estouvadas em torno do dono. Mais um puxão possante no barco e este fica a salvo da preia-mar. Num gesto lesto retira uma saca do fundo do bote apoiando-a no ombro e afastam-se os dois no areal, deixando pegadas de uma amizade antiga. A tarde vem caindo e ainda oiço a conversa do cão, lá ao longe no carreiro que conduz à estrada de alcatrão.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Os dias de Beja... (Biblioteca Municipal de Beja)

Um ritmo pausado, descontraído, deambulando pelas ruas, recolhendo palavras junto das pessoas, nas paredes, em cartazes e, sobretudo nos museus. Com tempo para conversar, falar sobre a obra de artistas como Jorge Vieira, desenhando as esculturas ancoradas nas ruas ao sol do Alentejo.
Paula Martins, mediadora do livro da Biblioteca municipal de Beja
 Foi um privilégio partilhar este meu ateliê de Verão com a Paula Martins que atenta e afectuosa conduziu o nosso pequeno grupo de leitores pelas ruas da cidade.
Uma capela linda no interior do convento (Museu Regional de Beja) 
 No primeiro dia fomos subindo, entrando pelas “Portas de Mértola” até chegar ao Museu Regional de Beja onde o Barahona e os outros amigos do museu nos abriram as portas para a vasta colecção adormecida. Andámos de volta dos Romanos, das suas aras escritas naquela forma tão estranha e que no entanto, nos parece tão familiar. Descobri que os bebés dessa época tinham biberões e as crianças jogavam com dados em brincadeiras muito parecidas com as nossas.
Barahona: Mediador do Museu Regional de Beja.
Falando das peças Romanas aos jovens da Biblioteca
Um biberão Romano...
Ainda falando de escrita, fascinaram-me os vestígios dos Cónios (povo a quem se atribui a fundação da cidade) gravados na pedra com caracteres misteriosos ainda por decifrar. Sepulturas de guerreiros…Como seriam estes homens e mulheres? Sentados no chão do museu imaginámos pelo desenho como seriam estas pessoas que nos antecederam em "Pax Julia".

A "máquina do Tempo"
(à semelhança do que foi feito há muitos anos atrás no Museu de Odrinhas)
Para entendermos melhor o Tempo, apresentei a minha “máquina”: um fio dos tempos, onde cada data é colocada na corda com uma mola, assinalando um momento específico. O nosso nascimento, a fundação de Portugal, o império Romano…claro que para chegarmos à era dos dinossauros teríamos que desenrolar o novelo até à costa do Alentejo. Uma das salas chamou-nos a atenção: lá estavam as “armas” (brasões) da antiga nobreza gravados em pedras silenciosas; foi este o mote para desenharmos um brasão imaginário para as nossas distintas pessoas…

O segundo dia começou chuvoso, mesmo assim lá fomos pelas ruas fora, até encontrar uma escultura de Jorge Vieira no “jardim do bacalhau”. Desenhámos, sentimos a peça e falei um pouco deste artista de Beja.
A chuva não impediu o desenho...
E que tal conhecer outro tipo de Museu? Sim, o museu da pessoa, a loja do senhor Joaquim, sapateiro de profissão e coleccionador de memórias. Foi assim que entrámos naquele espaço mágico, partilhado com o periquito “Chico” e repleto de objectos pelas paredes, a par de pequenas “instalações” humorísticas. As crianças gostaram, eu sei.
O "Chico"
O nosso sapateiro, o senhor Joaquim.
Detalhe...
Ainda tivemos tempo para apreciar a história contada em azulejo por Rogério Ribeiro nas paredes do Museu do Sembrano. No final do dia pegámos em todas as palavras recolhidas naqueles dois dias e escrevemos pequenos textos, alguns poéticos outros com muita graça que ficaram expostos nas paredes da Biblioteca como testemunhos do vivido.
Afinal não custa assim tanto ligar diferentes estruturas culturais da cidade através de uma oficina de mediação cultural…É só fazer um guião de percurso.

domingo, 31 de julho de 2011

Cantos e contos nas Casas do Visconde

Existem locais que são referentes para a nossa vida, a partir deles poderemos sempre tirar azimutes para a navegação. As Casas do Visconde são um desses lugares onde nos conferimos. Lugar também de encontros com gente de quem gostamos e acompanhamos o percurso, gente que nos dá esta sensação fantástica (previlégio) de sermos seus contemporâneos. Lira e Pitum, guardiões do espaço, promotores de encontros frutuosos, assim só pelo prazer de comunicar e partilhar. E o resultado foi aquele a que assistimos no dia 24 de Julho, a propósito da “Festa da família” (Paróquia de Canas de Senhorim) juntou-se um bom grupo de pessoas para almoçar (e bem!) e escutar contos e cantos. Sob a sombra dos plátanos escutámos o coro da Casa da Achada, canto genuíno a lembrar que a resiliência em festa faz sentido no Portugal de hoje. Foi com agrado que voltei a encontrar a Eduarda Dionísio, alma deste projecto que se construiu em torno da obra e do homem: Mário Dionísio. Deu-me um prazer especial o momento de encontro entre os donos da casa e Cristina Taquelim: a linguagem é a mesma e suspeito de uma coincidência de pontos de vista sobre este estar no nosso país. Numa sessão de contos partilhada, Cristina brindou-nos com a “Ti miséria”, história que não deixou ninguém indiferente. Bem li o brilho no olhar do padre Nuno e na comoção noutros espectadores. Através da Contadora, são todas as mulheres que a antecederam que falam, com a riqueza própria da nossa tradição oral, trazendo a morte, o desejo ou o riso na toada falada das suas histórias. Aqui vos deixo algumas imagens da bela tarde passada lá em Canas de Senhorim. “E bendito e louvado, está este conto terminado”.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Uma pintura recente...

Sem título - 90x150 - Acrílico e casca de pistáchio sobre tela - Junho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Contos duradouros para jardins efémeros

Tudo a rir!...
Conseguem imaginar a praça D. Duarte em Viseu sem carros e transformada num enorme jardim onde se pode assistir a um filme confortavelmente? E que tal um workshop sobre Bonsai? E claro, sessões de conto num cantinho confortável encostado ao muro da Sé… Assim foram os “Contos duradouros para jardins efémeros” com Lira keil, Cristina Taquelim, Miguel Horta, Ana Bento e Cláudia Sousa, um momento muito especial na cidade de Viseu. Respondemos todos à convocação da Cláudia Sousa dando uma forcinha ao movimento de narração oral em Viseu. Gostei particularmente da nossa sessão de sábado á tarde…bem concorrida. Parabéns Cine Clube! Parabéns Sandra Oliveira! Esperemos que para o ano haja mais...

Perguntas no ar!

Nada como fazer perguntas num Museu! Assim durante uma semana cada um dos meninos e meninas navegaram pelo oceano das artes fazendo perguntas a cada descoberta: Há obras de arte no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian? Como é a Arte Moderna? Há monstros no Museu? Como é a Arte de África? Tantas Perguntas no ar”! E as respostas foram ficando registadas nas velas dos nossos barcos corajosos. Cada um deu nome ao seu navio perguntador e içou as velas rumando entre pinturas, esculturas e fotografias. Mais uma semana divertida em parceria com a Vera Alvelos. No final, o grande feiticeiro “Bagawaga” disse adeus aos participantes que zarparam pelo Verão fora. Até para o ano em mais uma oficina de férias do Centro de Arte Moderna!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Plano Nacional de Leitura

Ilustração para o conto "carminho" in "Dacoli e dacolá"
Uma novidade para começo de Verão (estou contente): o meu livro "Dacoli e dacolá " foi incluido na lista do Plano Nacional de Leitura (PNL). Os meus Fantasmas vão andar por aí à solta...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A caixa do lixo...

Na maior parte das vezes em que promovo a oficina "Eu sou Tu" levo sempre comigo uma caixa cheia de objectos velhos e variados que irão fazer parte da nossa história...chamo-lhe a "caixa do lixo". A reacção das crianças é sempre muito engraçada. Espreitem aqui o que eles disseram no Jardim de Infância da Charneca (Mafra) numa iniciativa da Biblioteca Mil Maravilhas.Quando passamos para o desenho dos corpos já com estes objectos, as histórias surgem mais facilmente. Sem a "caixa" o trabalho é mais exigente, mais abstacto, daí resultando um desenho bem diferente (ver). Quando trabalhamos com Necessidades Educativas Especiais no Centro de Arte Moderna (sector de educação) por vezes brincamos com as sombras de cada um de nós, desenhando-as sobre o papel de cenário. O resultado é muito interessante, permite interagir com as outras formas que já lá estão sobre a folha. No Estabelecimento Prisional do Montijo foi muito forte esta oficina: os reclusos tiveram que se tocar, procurar uma posição na grande folha de papel de cenário para construir a sua história. Também foi difícil convencer o chefe dos guardas a deixar entrar uma caixa com objectos tão estranhos...mas com a devida vigilância lá se realizou a actividade. Em contexto de Biblioteca Pública trabalho com famílias inteiras sobre o papel de cenário e, nas Casas do Visconde (Canas de Senhorim) até um cão entrou na história depois de se deixar desenhar deitado na folha. Os jovens mais agitados do projecto "Tásse a Ler" também parceram apreciar este desafio. São assim as histórias quando o corpo fala.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os 97 anos de Maria Keil numa homenagem na Casa da Achada

A foto não é boa…tirada com um telemóvel, mas talvez dê a ideia de como eu tenho tentado focar a tua importância na minha vida. Ainda não cheguei a nenhuma conclusão definitiva… Também tu, agora andas com a memória um pouco desfocada…e fico triste: tolhe-nos a comunicação frágil e eu não gosto disso…

A minha casa era lá no outro lado do Jardim da Casa da Moeda, da janela do meu quarto (que foi o meu primeiro ateliê e antigamente,também de António Pedro) via o vosso prédio. Era num tempo em que uma magnífica Magnólia florescia branca com o primeiro calor (a minha Mãe adorava aquela árvore) lá no canto da avenida António José de Almeida. Depois, era só descer apressadamente as escadas e percorrer aquele jardim até chegar ao teu prédio. Tudo numa velocidade jovem e sedenta. Era desta forma que galgava as escadas até à vossa casa, antigo ateliê de Francisco Keil do Amaral e teu…com quadros nas paredes: Ali, o Pitum com papeira, pintado a óleo, um lenço branco envolvendo o rosto da criança e um olhar perdido no sonho. Mais á frente o “ladrão de nabos” que o teu amigo Rogério Ribeiro não achou digno da tua retrospectiva  em Almada…como eu discordo, está lá toda a tua irreverência. Sim! O mesmo despudor com que pegaste num lápis e retrataste o teu corpo gasto a partir da perspectiva dos teus olhos. Sempre o olhar da Pintora tentando arrumar o mundo dentro de si. Isto para não falar das paisagens que nascem a partir de “Roupa estendida no Bairro Alto”, à janela desse ateliê actual, bem próximo da casa de Agostinho da Silva. Mas não falemos desse bairro que me povoa as memórias… Nasci ilustrador no teu ateliê e amadureci o pintor que ainda está por se cumprir. Basta só isto para reconhecer a importância da tua presença; e tu negas: “Eu não ensinei nada a ninguém”. Respeito, fazendo figas atrás das costas…se é assim que queres: não me ensinaste nada que eu não quisesse aprender! Teimaste em voltar continuamente à minha vida, olhando sempre para mim como um criador. Penso que poisas o mesmo olhar sobre o nosso Pedro Morais, também ele frequentou o teu ateliê de ilustração (com Mimi e Colombo) e não pára de nos dar belos desenhos. Agora, vejo-te aqui, entre nós na Casa da Achada, uma amiga de Mário Dionísio, com os teus magníficos 97 anos e penso: este País ainda não te rendeu a homenagem devida. Mas nós, nesta tarde solarenga no coração de Lisboa, em que revisitámos a tua obra, beijamos-te, exactamente como as tuas ilustrações beijam os poemas de Matilde Rosa Araújo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Quando o corpo inventa histórias...

Poucas vezes tenho a sorte de trabalhar a oficina “Eu sou Tu” com meninos e meninas do jardim-de-infância. Por isso o meu sorriso é largo pois pude fazê-lo na Venda do Pinheiro. Habitualmente trabalho com “meninos” muito crescidos. Esta coisa de criar histórias a partir do nosso corpo é muito divertida; não a devemos deixar só para os grandes... Quando usamos o corpo e o seu desenho estamos a entender melhor aquilo de que somos feitos. É como se o corpo inteiro entendesse muito bem o Mundo em que vivemos. Aquela folha de papel gigante onde nos deitámos para desenhar o contorno do nosso corpo é como se fosse uma página gigante de um livro, exactamente do tamanho que temos. Não foi complicado desenhar…pois não? Os marcadores grossos ajudam muito. É muito difícil explicar por palavras aquilo que se sente quando o nosso corpo faz parte de uma história inventada em conjunto com os nossos amigos da sala. Mas ficamos mais acordados para este nosso “veículo” dos dias. Sabem o que eu acho? Acho que os livros deveriam ser tão grandes como as folhas em que nos deitámos. Assim, seria sempre muito fácil entrar nas histórias: bastava bater ao de leve na capa de um livro, exactamente do nosso tamanho, e a porta abria-se logo. E essa coisa engraçada de criar uma personagem a partir dos corpos de cinco amigos? Um dá uma perna, outro um braço, outro a cabeça, outros amigos dão os pés e, como por magia, criámos alguém para além de nós no papel de cenário. É mesmo um trabalho colectivo! Eu sei que já tinham andado a falar sobre o corpo humano… mas juro que não foi combinada esta minha ida à vossa escola pela mão dos vossos Educadores-bibliotecários… E fomos árvore, pássaro e, até borboleta….a história ainda não parou por aqui. Uma menina da Venda falava de flores que poderiam crescer na relva… tudo contornado em desenho em torno dos dedos da nossa mão. Foi giro passar o marcador por cima do lápis: até parecia que a nossa mão conhecia o caminho certo…
Será que vamos conseguir explicar aos Pais tudo que fizemos?
Beijos e obrigado por um dia bem passado na Venda do Pinheiro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ensaio no Ritz Clube

Hoje o Ricardo enviou-me uma fotografia. Estremeci de surpresa ao ver-me retratado junto com os “Beduínos a gasóleo” durante um ensaio.. Nunca tinha escrito para uma banda de Rock… a experiência foi fundamental para o meu trabalho criativo. Como o meu amigo Gimba diz: “Há sempre uma toada nas letras que se escrevem”. E eu encontrei essa toada para poder conversar com os músicos.  É simples, basta desenhar com as palavras numa partitura invisível. Foi um momento importante na minha vida, agora estou desperto para o casamento das palavras com a música. Obrigado Ricardo!

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Centro de Arte Moderna foi à ESE de Setúbal

No dia 7 de Junho a equipa do sector de animação e educação artística do Centro de Arte Moderna (FCG) esteve na ESE Setúbal partilhando parte da sua experiência com os futuros Animadores socioculturais que ali estudam. Um encontro bem produtivo que nasceu de uma ideia de Teresa Barreto, nossa estagiária nas “Oficinas Museu Aberto” e mediadora no Instituto Condessa de Rilvas. Susana Gomes da Silva apresentou o projecto “Intervir”, complementado com uma exposição no átrio da universidade. Juntamente com Margarida Vieira apresentei as oficinas “Museu Aberto”, dedicadas às necessidades educativas especiais. Uma intervenção a duas vozes que se debruçou sobre a problemática das acessibilidades aos conteúdos nos espaços museológicos, caracterizando públicos e questionando mentalidades. Partilhámos a nossa forma de trabalhar; metodologia, conteúdos e objectivos deste trabalho no contexto do Centro de Arte Moderna com os alunos deste politécnico. Da parte da tarde teve lugar uma oficina dedicada ao corpo, em tudo igual ao trabalho que desenvolvemos todas as semanas no CAM. Foi uma sessão muito concorrida e divertida. Ficou a vontade de continuar esta ligação com este lugar de formação de futuros animadores. Nada disto teria sido possível sem a intervenção da Teresa Barreto. Para além de acrescentar conteúdos e energia às nossas oficinas do CAM durante o seu estágio, deixa a promessa de qualidade da futura leva de mediadores que se vão formando. Necessário é, que na sua formação tenham mais ecos do terreno, conferindo um complemento assertivo ao conhecimento académico adquirido.